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6 de novembro de 2014
A cura, de Pedro Eiras

A cura, de Pedro Eiras




por Ana Marques Gastão
Lisboa, Quidnovi, 2013

Freud, numa carta ao pastor Oskar Pfister (25 de Novembro de 1928), escreveu que queria proteger a psicanálise dos médicos e sacerdotes, ele que considerava o Deus monoteísta uma ilusão, assente na necessidade infantil de um pai. Desejava, por isso, e situemo-nos naquela época, entregar a análise a uma categoria de homens ainda não existente, mas aos quais deu o nome de «curas seculares da alma» que não necessitavam de ser médicos e não podiam ser sacerdotes. Em A Questão da Análise Leiga (1926), o «pai da psicanálise» afirmara-se como um defensor da prática da sua «ciência» por não-médicos, e não apenas por psiquiatras. Quanto à religião, comparava-a, em «Actos Obsessivos na Prática Religiosa» (1907), a uma neurose obsessiva. Totem e Tabu (1913) e Moisés e o Monoteísmo (1939) esclarecem-nos, por outro lado, que o psicanalista considerava a religião um «problema humano» da maior relevância.

Na verdade, Freud era um herdeiro dos pensadores das Luzes do século XVIII – e do Feuerbach de A Essência do Cristianismo –, não deixando de investigar a psicogénese das religiões. Relembre-se que, em 1910, sublinhava numa carta a Jung, então ainda seu amigo e discípulo, que a razão última da necessidade de religião seria o espinhoso «desamparo infantil» que levaria os homens a inventar «um Deus justo e uma natureza boa». As doutrinas religiosas permitiriam, pois, que o crente tomasse os seus desejos por realidades, substituindo a neurose pela ideia delirante.

            
No prefácio a O Futuro de uma Ilusão (1927), Jacques André[1]encara a religião como psicótica ou neurótica, filha do complexo paternal. Muito pouca coisa a distinguiria da alucinação: a religiosidade tenderia a restaurar, sob forma alucinatória, o narcisismo ilimitado correlativo do sentimento de impotência da criança. O pai da psicanálise havia mostrado – assimilando, sobretudo no aspecto da ordem clássica, o teatro grego, bem como as lições de Shakespeare – que só o autoconhecimento concederia ao ser humano o domínio sobre si mesmo, tendo o inconsciente, nesse processo mental, uma influência determinante, entre outros aspectos, por meio da acção dos actos falhados, dos sonhos, etc.

Escavou-se muito depois de Freud, para bem ou para mal, nesta e noutras direcções. A tradição budista – na luta pela «atenção perfeita» como meio de desvendamento da consciência – e, de outro modo, o cristianismo primitivo, praticavam, no entanto, há séculos a autoanálise na senda do combate contra a ignorância e o desejo (paixão) por ela causado. Neste caso, poderíamos definir ignorância pela tentativa repetitiva de transformação do transitório em eterno/absoluto. Estaríamos não necessariamente perante uma ausência de conhecimento, mas diante de um conhecimento falso, uma autovigilância mal dirigida.

Relembre-se a mística de introversão defendida pelos escritos gnósticos, documentos revolucionários no seu empenho pela liberdade interior. Filipe considerava a ignorância escrava e a gnose liberdade. Escreve-se, por outro lado, no Evangelho de Tomé: «O reino está dentro de vós e está fora de vós. Quando vos chegueis a conhecer a vós próprios[2], então sereis conhecidos e sabereis que vós sois os filhos do Pai vivente. Mas se não vos conhecerdes, então ficareis na pobreza e sereis a pobreza.» Algo de semelhante se anuncia, em defesa da harmonia e da elaboração espiritual e intelectual, em o Diálogo do Salvador: «A lâmpada do corpo é a mente. Enquanto o vosso interior estiver em ordem, os vossos corpos serão luminosos».

Freud havia, consumado, porém, de forma radical, a cisão entre a experiência religiosa – que identificou com uma credulidade edipiana – e a psicanálise. Somos, na verdade, de acordo com as (des)crenças de cada um, actores de um ritmo cósmico dominado pela separação: da nossa hipotética origem divina, para alguns, ou de um Outro. É por se existir enquanto ser separado que se procura a completude no reencontro simbólico com o pai e a mãe numa perenidade (ressurreição) de ordem imaginária. Eis como o pé se atreve a pousar em terrenos aparentemente opostos, pois, em ambos os casos, se deixa agir a PALAVRA, sabendo nós que os pais aparecem, segundo Deleuze e Guattari, na «superfície de registo da produção desejante» e que «a criança é um ser metafísico».[3] O inconsciente continua na realidade por explorar, do ponto de vista científico, e desconhece-se, por outro lado, quais são os mecanismos colectivos que sobre ele incidem.

O inconsciente é órfão ou tem um Deus?

Freud ou Jung? Nenhum dos dois? Ambos?

A Cura, de Pedro Eiras, dir-se-ia um romance situado nessa fronteira – fé e psicanálise – e emprega uma linguagem despretensiosa e subterraneamente erudita, veloz. Claro, inquietante, enigmático na sua tendência pensante, o enredo, de propensão acentuadamente afirmativa e não menos irónica, mesmo na polemicidade de certas sentenças, dá-nos a ver, pela mão de um ensaísta e dramaturgo argutos, a fertilidade literária que a psicanálise detém desde Freud ao colocar-nos tanto perante a dialéctica entre razão/coração, como perante o risco da criação de um Significante despótico. O discurso analítico, dito de associação livre, não é apenas intelectual, mas implicitamente afectivo. E não deixa de ser ilusório, mas de uma forma epistemológica, terapêutica, porque permite o suporte de uma viagem, a da vida.

A narrativa centra-se num fulcro de personagens principais: o narrador, psicanalista, a companheira deste, e alguém que se faz analisar pelo primeiro. Essa figura – pasme-se a ousada inverosimilhança – é o Papa. Oscilamos, neste romance, entre verdade e incerteza, pergunta e não resposta, divã e confessionário, sabendo que só a angústia e a escuta os ligam. A improbabilidade irreverente da história conduz-nos a um labirinto de interrogações perante o absurdo e a eventualidade de qualquer dos terrenos, religioso ou psicanalítico, ser totalitário. Na demanda de uma escuta (seja no divã, seja na confissão) e da procura reconstrutiva de um Eu fragmentado, ainda que parcialmente ficcional, o analisando não pede absolvição, ou se a pede, não lhe é dada, mesmo que o seu terapeuta se considere todo-poderoso. Não é disso que se trata, mas de deixar actuar a palavra verdadeira (quem sabe ilusória), individual e transindividual.

A psicanálise, por meio da representação das palavras, das coisas ou dos afectos, faz recuar o analisando a um lugar esquecido ou recalcado, obrigando-o a um caminho de lucidez e inteligibilidade. Não é uma ciência, nem uma técnica, mas usa os seus instrumentos, dir-se-ia uma experiência de amor ou, ironizando, algo parecido com a limpeza de uma chaminé, chimney sweeping, citando o terrível performer Lacan. Nesse enlace de subjectividades, que exige uma ética entre psicanalista e analisando, decorre A Cura, narrativa na qual desejo e sonho são personagens. Pelo romance passam também a pulsão de morte (que sustém o desejo de agredir, de fazer mal ou «me fazer mal») ou, nas representações psíquicas, a sexualidade recalcada (a infantil, por exemplo, em diálogo com a coisa narcísica e o desejo de extinção da líbido). Nesses domínios, também no da perversão, a arte e a literatura antecederam em muito a psicanálise.

Pedro Eiras trabalha, ainda do ponto de vista satírico, o sonho ou a sua interpretação, quase indiscreta, no diálogo entre psicanalista e analisando (o Papa) de uma forma lúdica, mostrando-nos que sonhar não é o resultado da continuidade claramente lógica ou emocional dos acontecimentos da vida, mas o resíduo de uma curiosa actividade psíquica exercida durante o sono. Ou será o sonho arquetipal (oriundo da ideia de imago), como defendeu Jung, forma de representação simbólica partilhada com a arte e a mística? A Cura faz-nos reflectir sobre a possibilidade de uma continuidade para trás, na direcção de um passado reelaborado pelo sujeito desejante numa demanda de análise. O sujeito do inconsciente descobre no divã, em diálogo com um outro, o que subsiste de ilusório na relação narcísica a partir da qual se trabalha a perda, a melancolia, o desejo. A narrativa decorre, desse ponto de vista, de modo frenético, assumindo o psicanalista um papel dogmático e mascarado em relação ao seu próprio Eu, nomeadamente na relação amorosa com a mergulhadora Rita, imersa num mar melancólico que se transforma em visão.

O relato, recheado de matéria religiosa e psicanalítica, não alheio também a um certo sado-masoquismo, contém vários graus que vão de uma agressividade entre analista e analisando, à admiração, à dúvida, à contradição, à dissimulação e à dependência. Trata-se de encontrar na sombra a luz, a coisa especular, ou melhor, uma «dramaturgia invisível», como lhe chamou Julia Kristeva, que poderíamos considerar um motor mobilizador da inteligência-corpo de dois neuróticos, neste caso com a problemática de Deus latente. Ambos os mundos são abrangidos, um deles, o do terapeuta, de forma necessariamente recolhida e, a maior parte das vezes, oculta, algo que não sucede em A Cura, estratagema decerto usado para salvação da narrativa. Nesta relação transferencial acontece o que a escritora e psicanalista reclama de «excesso aparente da palavra amorosa», de «efusão sentimental histérica» ou de «angústia catastrófica e fóbica do abandono».[4] Dir-se-ia ia, no entanto, a desordenação angustiada de uma carência de amor de um sujeito in progress, mesmo disfarçada, que conduz à demanda de análise. Pela mão da palavra interpretativa passam ligações intersubjectivas, inscrições arcaicas de um pré-sujeito, fantasmas, fantasias, que, pelo despertar da imaginação, destapam monstros e os esclarecem.

Em A Cura, a interpretação é personagem principal. Trata-se de regressar ao que esquecemos, como se afirma no romance, e de conduzir o que seremos. Curiosamente, o Papa resiste a deitar-se no divã e ambas as personagens parecem detentoras da verdade absoluta, entre outros assuntos, no que se refere ao erotismo, à sexualidade, à fé. A fala torrencial do terapeuta ajuda à dramaturgia (ou não fosse Pedro Eiras um autor de teatro), retirando-lhe, todavia, alguma verossimilhança, bem como a crueza do silêncio presente em qualquer análise. Jamais um psicanalista falaria tanto – ou então seria um mau psicanalista –, nem sentenciaria os dotes do seu saber, algo a ler como provocação irónica deliberada: «A psicanálise diz mesmo…», «a psicanálise ensina…», etc. O Papa não é, por outro lado, um ser assexuado. A transcendência pode ser parte integrante da personalidade de um analisando convicto (não por acaso o Apocalipse é citado várias vezes em sinal de revelação), como o erotismo existe nos mais belos textos da tradição mística, do Cântico dos Cânticos a Santa Teresa D’Ávila, bem como na escrita barroca a lo divino de que o teatro e a poesia de Soror Maria do Céu são um exemplo notável.

É a questão da hipotética conciliação entre fé e psicanálise, entre literatura e psicanálise, a conduzir a acção. O interdito funciona, por outro lado, como nó do problema do enredo: deseja-se a idealidade (da paixão), a paz desviada, mas o processo de autoconhecimento tem obstáculos, brechas que vêm ao de cima no enredo. O fluxo caótico da consciência dá-se bem com a ilusão, tanto no papel como no divã, sendo a melancolia uma mola de arranque para uma narrativa mental constituída no processo analítico como uma escrita, o que não significa que estejamos perante literatura.

Um escritor pode ser ou ter sido um analisando, mas jamais a escrita se define como uma forma completa[5] de psicanálise, único método a reivindicar o inconsciente e a sexualidade como os dois únicos universos da subjectividade humana. A literatura não pode ser considerada um método psicoterapêutico, embora surja, por vezes, de um processo catártico (purga ou descarga emocional): funciona sem o elemento dialógico e o lugar transferencial, sem a análise didáctica. O autor não vive dentro de uma «clínica de escuta» de supressão de resistências, nem é necessariamente um neurótico. Escreve só, sem a desmontagem possível num divã e sem Édipo como um Deus.

Nem a neurose nem a psicose são, por outro lado, meramente explicáveis por um Édipo – a psiquiatria e a neurologia evoluíram para fora do território «papá-mamã», que possui também os riscos de um totalitarismo da influência. O esquizo, como afirmam Deleuze e Guattari, faz a viagem da intensidade e em intensidade. Escrevem: «Esses homens são como Zaratustra: atravessaram sofrimentos inacreditáveis, vertigens e doenças. Têm os seus espectros e têm de reinventar todos os gestos».[6]

São domínios que parecem quase indistintos na teoria de Julia Kristeva, os da literatura/filosofia e da psicanálise, mas não o são, neste romance também não, embora a ensaísta afirme que a «verdade analítica» está mais próxima da ficção narrativa do que do discurso da fé.[7]O processo de escrita, que lida também com a perda, a separação, o limite, a fronteira entre Eu e o Outro, tem necessidade de abrir espaços até para se contradizer, como este livro o demonstra: é essa a sua liberdade, vivacidade e violência. A literatura transfigura, a psicanálise elabora, transforma. Na impossibilidade de preenchimento dos vazios e enquanto fundador de narrativas simbólico-imagéticas, o escritor dir-se-ia um excelente exemplo da recriação de um Eu sublimado, o que não deixa de ter conotações fáusticas, mas não pode ser entendido – mesmo sendo um erudito na matéria – como um sujeito em ou de análise. Na literatura, usa-se a metáfora; na psicanálise a metáfora desmonta-se, até porque amiúde o sofrimento se prende ao corpo que somatiza. Podem, contudo, completar-se, libertando o que é da arte de sempre por meio da experimentação desejante na estranheza de um Eu arcaico.

Jamais a psicanálise pode ser considerada uma mera aventura intelectual e, se por aí passa (como acontece nesta narrativa em certos momentos), é para a desfazer, já que as desordens da imaginação – que combinam sistemas de representação transversais da linguagem – vão transformar-se, no caso de estarmos perante um transfert positivo, num discurso em acto. Não se trata de uma ciência, a psicanálise, mas de um saber, que usa as regras clássicas da epistemologia científica e a que não faltam técnicas terapêuticas. Não há cura, mas emergência de um sujeito de interpretação a partir da indagação no território do desejo mediado por um analista.

A psicanálise constitui, na verdade (com a linguística e a sociologia), e na sequência da separação feita em relação a um vasto continente teológico operado depois de Descartes, uma aproximação racional ao comportamento humano e às significações enigmáticas e contraditórias que lhe são próprias. Freud arredou-a da psiquiatria porque ela engloba um domínio que pode ser considerado «irracional» ou arriscar-se a dar o salto para o «sobrenatural», se evocarmos os estudos de Jung. Cristo é, na opinião do autor de Psicologia e Alquimia, o símbolo do Eu ou vice-versa, ilustra o arquétipo do Eu. Transfert e contra-transfert estabelecem-se, portanto, neste caso, no âmbito da palavra mais do que partilhada, transmutada.

A Cura passa por aí, pelo diálogo entre o Papa e o psicanalista, ficando o leitor situado não apenas no esquematismo da vulgata analítica: complexo de Édipo, pulsão de morte, líbido, etc... Atravessa-se para o lado de lá – transcendência e literatura. Freud assinalou que esta ultrapassou, tantas vezes, a psicanálise ao tocar aquilo que Blanchot chamou de interdito impronunciável. Pedro Eiras envolve-se na tarefa árdua de tentar entender qual a relação entre a linguagem e o mundo: segue o caminho da imaginação. Imaginar é trazer a nós as coisas na sua ausência, tarefa do romancista. A imaginação poderia definir-se como uma coisa mágica que faz aparecer o que não está lá, tentando roubar a luz ao escuro, sublimando. E sublimar vem de sublime – o que demonstra a inatingível beleza e perfeição que ultrapassam o humano: dir-se-ia um mecanismo de defesa pelo qual a energia psíquica negativa se move num sentido da menor dor.

         Se formos na linha da nossa angústia, desse humor do Outono e da Terra, mórbido e paralisante, dessa «felicidade de se estar triste», como escreveu Victor Hugo, lentificamos a nossa acção, mas se usarmos a FORÇA, alterando, de algum modo, os dados da nossa experiência temporal, indo contra o fluxo escuro, dá-se a sublimação. Nesse quadro, a escrita nasce, tantas vezes após um longo processo analítico como uma verdade dinâmica que põe em contacto a história de um transfert permanente entre o domínio da patologia e o do espírito. É isso que o psicanalista deste livro, que surpreendentemente se torna monge, tentará fazer – uma autobiografia, um «exercício espiritual libertador».[8] Não por acaso o Papa-analisando, diz : «O Senhor Doutor considera que eu tenho uma neurose. Eu considero que tenho temor a Deus. Para que havia eu de curar aquilo que me alimenta?»[9]

A frase poderia ter sido escrita – em território outro – por Foucault que considerou a neurose constitutiva. Na verdade, a intensidade do relacionamento do ser humano consigo próprio, enquanto objecto de conhecimento e de criação artística e literária, foi-se tornando numa forma de construção motivada pela sua quase impossível superação. O analisando é sempre aquele que não sabe o bastante, alguém que balança na corda da impermanência e duvida, algo que o Papa, neste romance, parece, em certos momentos, recusar. Inusitadamente, há como uma inversão dos papéis. Ambas as personagens despertam para um autoconhecimento, mas digamos que o Papa se detém perante uma impossibilidade, a de não poder prosseguir a análise por estar convicto da sua fé, suspendendo o seu processo reelaborativo enquanto ser de linguagem. Talvez lhe bastasse o silêncio interior e a inserção num edifício religioso, a Igreja.

O Papa não é apenas um homem de fé, mas de religião. Decide, por isso, neurótico ou não, abandonar a análise, mas não sem ir em busca da ovelha extraviada que acaba por vestir o hábito de monge. O psicanalista, que se encontrava encerrado na sua torre intelectual e discursória, dá uma volta de 180 graus, tomando o Papa como um pai simbólico e encaminhando-se para outra «verdade». O fecho do romance determinaria, na visão de Freud, a vitória da alienação, já que este considerava haver uma similitude entre fé e obsessão neurótica, religião e neurose colectiva. Para a Igreja, seria o triunfo da fé. Essa dubiedade permite-a a literatura.

O inconsciente tem razões que a razão desconhece…





[1]Sigmund Freud, L’Avenir d’une illusion, PUF, 2004.
[2] Sublinhado meu.
[3] Gilles Deleuze e Félix Guattari, O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. de Joana Morais Varela e Manuel Maria Carrilho, 2004, p. 50-1.
[4] Julia Kristeva, Au commencement était l’amour – psychanalyse et foi, suivi de «À propos de l’athéisme de Sartre», Paris, Hachette, 1985, p. 13.
[5] Sublinhado meu.
[6] Gilles Deleuze e Félix Guattari, ibid., p. 136.
[7]Julia Kristeva, ibid., p. 35.
[8] Pedro Eiras, A Cura, Lisboa, Quidnovi, 2013, p. 227.
[9] Idem, ibid., p. 203.
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8 de setembro de 2014
Sem importância coletiva (I)

Sem importância coletiva (I)



Talvez não ter importância seja o melhor a se fazer ou o melhor a se ser. Talvez a coletividade vise isso, a falta de importância de nós mesmos. Deveríamos começar a nos acostumar a viver na Zona em que vivem os personagens de Daniela Lima, autora de Sem importância coletiva, editado pela e-galaxia. Deveríamos ser apenas um “biorôbo”, sem nos emocionar ou sem nos lembrar como é sentir o nosso próprio corpo.

Fazer perguntas sobre a Zona é não mais sentir, é começar a fazer parte de um modelo quisto pelo Governo, pois só é possível ser herói n’A cidade modelo, pois “A cidade modelo é reflexo de tudo aquilo que o governo queria que representasse o sistema”. Além dela não há nada, “Não há vida”.

Acabando de ler o ‘desconforto literato’, nome que invento agora para poder falar sobre o livro de Daniela Lima, fiquei a pensar, sem sentir o corpo, momentaneamente desligado, tentando fazer relações a outras diversas narrativas e outros diversos pensamentos que tenho comigo acabei me perdendo. E, apesar que digam que é bom se perder, não gosto de estar perdido, não gosto de não sentir por qual caminho devo enveredar.

Esse desconforto há certo tempo não me incomodava. Sem importância coletiva mexe com temas que me são caros e que acredito terem mudado minha maneira de entender o mundo, a partir de leituras de livros como 1984. Não sei o livro foi baseado em distopias, como a de Orwell ou Zamiátin, mas a verdade é que sofro ao ler livros assim.

Ainda assim, em meio a narrativa de como vive a cidade modelo, de como está instaurada a Zona e os homens, serão mesmo homens?, na cidade modelo, a escritora, ao mesmo tempo, está inserida nele como alguém que também não possui alguma importância coletiva. Assim como a repórter chegará o momento em que ela não sentirá nada e se transformará em um monstro “capaz de dar corpo ao que antes era vazio”. Porém, o vazio de antes talvez seja o preenchimento que vivemos agora, e eu não sei.

Esse texto deveria ser para tentar esclarecer essa obra, mas acredito que ainda estou tentando me descontaminar da leitura deste livro. Espero que a contaminação da escritora sem importância coletiva não tenha ainda viralizado e chegado aos leitores ou críticos de sua obra. O que sei apenas é que ler o livro de Daniela Lima é estar perdido, e sentir, ainda, a necessidade de o reler e talvez o reler e o reler, como se fôssemos o visitante que vai até a Zona e que, talvez, não possa mais ir embora. Talvez fiquemos presos à leitura de Sem importância coletiva e assim fiquemos, por alguns anos, até que sejamos enterrados vivos. Afinal, viver é simples, como a leitura de um livro.





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24 de agosto de 2014
Jogo sem labirinto

Jogo sem labirinto



Julio Cortázar é um dos nomes mais conhecidos da chamada Literatura latino-americana. Há cinquenta anos, publicava, pela editora Sudamericana, de Buenos Aires, uma obra considerada vanguardista. A estrutura de Rayuela, nome original da obra de Cortázar, mais conhecida no Brasil como O jogo da amarelinha, é conhecida até mesmo por quem nunca leu ou lerá o livro.


Construir um livro com a possibilidade de haver duas formas de leituras não é fácil. A problemática que envolve esse tipo de leitura é uma só: as duas leituras podem se transformar em interpretações quase infinitas. Daí a dificuldade em se conseguir chegar a um consenso quanto à interpretação na leitura d’O jogo da amarelinha; e de se acreditar que o romance pode se transformar em um ‘romance de ensaio’, pois as narrativas se desenvolvem na forma de ensaio, com interrupções, saltos e indecisões.


Dispor um livro em 56 e/ou 155 capítulos ao mesmo tempo não é algo que faça um leitor se apaixonar. Ainda mais quando se sabe que Oliveira, personagem principal, realiza uma busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é. A dificuldade da leitura e em definir a obra parta, talvez, da própria incoerência da busca de Oliveira.

           

Encontrar algo definido é o difícil nessa obra tão arredia, tanto para Oliveira como para Maga, por quem é apaixonado. O que se percebe neles é que há um caminho sendo traçado, criando uma irrealidade, que aqui toma outros significados, mas no sentido da vida real, que sempre parece ser burlado pelos diálogos criados entre Oliveira e seus amigos, excluindo sempre a pobre Maga, no Clube da Serpente.


Entre todos os personagens que permeiam o livro, Maga é a única que aparenta ser inocente. Sua ignorância é mostrada pela falta de conhecimento que possui não somente no campo das artes, mas quanto aos assuntos do cotidiano. Ela se preenche apenas pela presença de seu filho, Rocamadour, que morre, na metade da leitura do que seria o primeiro livro construído por Cortázar. Tal cena é demonstrada absurdamente pelos que se encontram presentes em seu apartamento. Percebem quão difícil será contar a morte de Rocamadour a Maga e ficam a divagar, fogem da vida real e criam uma nova realidade, uma irrealidade, de como tudo terá de ser construído a partir daquela morte. E daí se dará a mudança de espaço na obra. Oliveira, que residia em Paris, retornará para a Argentina e lá outra trama amorosa se iniciará.

           

Mas a morte não importa. O importante é perceber como Cortázar quer quebrar a nossa visão costumeira que temos sobre a vida real e a nossa realidade, assim como faz em um dos seus contos mais conhecidos: A auto estrada do sul, que mostra de que maneira a narrativa foge dos padrões pré-estabelecidos, e como funciona o ser humano. O escritor argentino tenta moldar a nossa realidade a partir de hipóteses criadas por diálogos filosóficos, principalmente, mostrando que existe muito mais ao nosso redor do que a criação de uma irrealidade. Faz que o leitor se instale nas histórias dos personagens, utilizando-se de situações que nos rodeiam, para que participe da história e se ponha no lugar das personagens, trazendo o aprendizado dos mesmos para si. Como exemplo, temos os vários nicaraguenses, que após a leitura do livro, resolveram participar da Revolução Sandinista, na Nicarágua, nas décadas de 60 e 70 – a qual o próprio escritor apoiava.


A disposição dos 155 capítulos, presentes em O jogo da amarelinha, não cria, de forma alguma, no meu entender, um labirinto; apesar da busca sem objetivo de Oliveira. Cria – diante de capítulos curtos, de diálogos, por vezes enfadonhos, de um romance que pode ser tido como um grande ‘romance de ensaio’  um leitor que não tem o direito de se perder, de erguer labirintos, pois há o texto. A escritura está presente e é ela quem mostra os caminhos para as interpretações possíveis, que sim, hão de ter um fim, mesmo que esse seja o início de uma nova história, que tenha os mesmos personagens e que tragam novos desesperos para quem o lê.



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18 de agosto de 2014
A estrutura narrativa de um telefone sem fio

A estrutura narrativa de um telefone sem fio



A narração é algo difícil de se realizar. Ela não se dá apenas pela formação de palavras escritas em primeira ou terceira pessoa. É necessário haver uma técnica, apurada, para que um romance consiga avançar e regredir à medida que o narrador vai nos contando o que está, pode e irá acontecer sem que o fio da meada se perca.

Atualmente, são muitos os romances que não ultrapassam as 200 páginas, talvez porque os autores não consigam mais enlaçar as ações de suas histórias de uma maneira bem estruturada fazendo que o leitor permaneça firme e forte na leitura. Daí, a necessidade de se fazer um texto curto, que beire apenas as cem primeiras páginas. Não que eu possua algo contra, mas as grandes aventuras parecem estar sendo deixadas de lado. Não existirão, talvez, mais as epopeias fantasiosas?

Na realidade, isso não importa. O comentário surge apenas porque também tenho notado que, aos poucos, os livros que chegam até a minha caixa de correio foram diminuindo sua lombada. Mas isso também pode não querer dizer nada, e ser apenas uma observação. Mas um ponto que não pode passar despercebido é como os autores conseguem estruturar, muitas vezes, uma história mentalmente para passá-las para o papel.

No caso de Alma Pontes, personagem principal do livro Telefone sem fio, de Vera Rossi, a memória é que comanda a história, ao mesmo tempo em que escreve sobre o momento em que vive. As ações que são contadas, e o plano de fundo onde tudo acontece, existem num vai e vêm nada mecanicista. A autora sabe muito bem como arquitetar todo o tempo narrativo da história de Alma Pontes, uma mulher que tem sua vida contada desde o início de sua infância.

Fiquei intrigado com a escrita de Vera Rossi, pois ela partiu da infância da personagem até os dias atuais, realizando uma varredura na vida da personagem Alma Pontes, desde os anos 90, talvez até um pouco antes disso, até os dias atuais. E isso é importantíssimo, pois em alguns momentos é possível observar o plano político em que seus personagens viveram. Por um momento vislumbrei estar lendo uma história na qual um romance político, não sei se isso existe, pudesse acontecer, como Llosa, por exemplo, já o fez em A festa do bode.

Apesar de a história não ir no viés que eu imaginava, ela consegue, do início ao fim, manter a narrativa como poucos escritores no Brasil, atualmente, que chegam a se tornar enfadonhos na décima primeira página. No caso de Telefone sem fio, foi este o ponto que mais me chamou a atenção, mais até do que a personalidade de Alma Pontes, que deixa claro as mudanças de personalidade que podemos ter ao longo da vida e a entrega à melancolia que realizamos ante aos problemas. Para mim, Alma é melancólica, vai se tornando assim, totalmente diferente da menina que brincava no pátio do prédio. Mas sua melancolia vem com a perca. E esse sentimento a acompanha durante anos e mergulhamos em sua dor quase da mesma maneira que ela, pois a escrita de Vera Rossi nos aproxima, ao invés de nos deixar como espectadores da personagem, como Henry Fielding faz em Tom Jones.

Afora isso, o que me deixou intrigado foi a maneira pela qual Vera trata a fala dos seus personagens que reflete as idiossincrasias de cada um deles. A forma como Alma fala não é a mesma que sua mãe ou seu marido Carlos. O que contribui, acredito, para que o leitor se sinta mais perto de toda a história e, como já disse, afeiçoe-se a eles. A história de Alma Pontes narra passado e presente, possibilitando que aos poucos compreendamos por qual razão, quando fala em primeira pessoa, pedindo passagem ao leitor, seja possível entender a sua necessidade de escrever. É como se a sua salvação, como a de tantos outros escritores pelo mundo, fosse a escrita. Fica a parecer que ela sempre escreveu durante todos os dias da sua vida, e que o que faz agora, contar sua história, nada mais é do que uma parte de si.

A literatura dessa maneira une Alma a si própria. Ela não busca uma salvação, pois não há. Ela busca não perder as lembranças que teve com o irmão, e das histórias entrelaçadas que possuíram a partir de terceiros. Alma não deseja que toda a história que possuiu se perca como as histórias que contamos quando brincamos de telefone sem fio.


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14 de julho de 2014
Não esqueci de como voltar

Não esqueci de como voltar



A verdade é que tenho lido, ultimamente, muita literatura contemporânea. Às vezes, sinto inveja de mim mesmo quando lia apenas os clássicos universais. Aos poucos, fui observando que se fazia necessário acompanhar a produção nacional, nada fácil de se conseguir. Porém, novas veredas foram se abrindo, novos romances, novos autores foram surgindo e acabei por me ‘perder’ entre a literatura contemporânea nacional e de outros países.

Não é nada fácil acompanhar os lançamentos das grandes editoras e não tem sido fácil, também, acompanhar os autores editados pelas pequenas editoras. Os escritores são muitos e a dificuldade para ler devido ao tempo é enorme. Por isso tenho que estar sempre atento ao próximo livro que irei ler.

Entre as escolhas que faço, há sempre dois autores que me fazem parar qualquer obra que eu esteja tentando ler. Valter Hugo Mãe, talvez o meu escritor predileto, hoje em dia, e segundo o chileno Alejando Zambra, que com uma escrita ‘maliciosa’ enraizou-me em seus vasos feitos para Bonsai, são os autores que realmente chamam a minha atenção. O primeiro por cuidar de temas que me interessam profundamente e que deveriam interessar a todos. O segundo por ter inventado uma nova forma de escrita que prende, com um tom intimista que não transborda e nem deixa a desejar.

É difícil, em meu ponto de vista, não querer terminar um romance do autor chileno. Tendo em vista que os seus dois primeiros romances publicados pela Cosac Naify – Bonsai, 2012, e A vida privada das árvores, 2013 – são livros curtos, parece-me que Zambra vai, aos poucos, desdobrando a sua escrita, chegando agora a pouco mais de 150 páginas para nos contar uma nova maneira de voltar para casa, para os sentirmos bem.

Formas de voltar para casa é uma obra pode ser tida como um livro de memórias ou uma narrativa dramática. A infância perdida, relembrada a partir da história recontada por Claudia ao narrador e autor do livro, nos leva a um Chile que se escondia sobre a ditadura de Pinochet. Assunto que, aparentemente, ainda é difícil estar presente entre obras atuais, principalmente no Brasil, onde a população parece ter esquecido que esse regime existiu.

A obra do autor chileno nos conduz a um lugar esquecido entre os dedos gastos pelo cigarro da mãe do narrador, que se esconde do marido para fumar, e que pela falta do filho fica a repetir, sempre que se encontram, o quão bom seria se ele não tivesse ido embora.

Saí de casa há quinze anos e mesmo assim ainda sinto uma espécie de ponta estranha ao entrar neste cômodo que era meu e agora é uma espécie de despensa. No fundo há uma estante cheia de DVDS e os álbuns de fotos encurralados contra meus livros, os livros que publiquei. Acho bonito que estejam aqui, junto às lembranças familiares.

O narrador, ao qual o leitor não deve acreditar que é o próprio Zambra, pois de certa forma tudo é ilusório, conta parte da história da sua vida. Sozinho, ainda separado de Eme, relembra a história de Raúl e de Roberto. Homens estes que estão ligados à história de Claudia, na verdade é o mesmo homem, e que Claudia só contará a Aladino, como chamava o autor do livro anos depois, quando se reencontram, e quando Rául e Roberto estão mortos na mesma cama.

A volta de Claudia representa no decorrer da narrativa uma volta ao passado, a mesma que Aladino busca enquanto escreve o livro, este mesmo livro que Zambra intitula como Formas de voltar para casa. Essa volta ou busca pelo passado dói aos dois. Porém, parece que Aladino está menos preocupado com tudo isto, pois já tem consigo como irá terminar. Claudia, por outro lado, com uma mente inquieta, deixa o narrador na sombra, enquanto dorme, tranquilamente, no quarto antigo de Aladino na casa de seus pais.

Essa relação busca, mesmo que levemente ou profundamente, mostrar aspectos políticos que ocorreram no Chile. De forma que em certos momentos, nos diálogos, fica visível a importância que o autor, Zambra ou Aladino, dá-dão a este tema:

Não posso evitar perguntar a meu pai se naqueles anos ele era ou não pinochetista. Eu perguntei isso centenas de vezes, desde a adolescência, é quase uma pergunta retórica, mas ele nunca admitiu – por que não admitir, penso, por que negar durante tantos anos, por que continuar negando?
Meu pai guarda um silêncio áspero e profundo. Finalmente diz que não, que não era pinochetista, que aprendeu desde menino que ninguém ia salvá-los.
Nos salvar de quê?
Nos salvar. Nos dar de comer.
Mas o senhor tinha o que comer. Nós tínhamos o que comer.
Não se trata disso, diz.

Talvez não se trate disso que o autor tem em mente. Não falar da ditadura, mesmo quando relembrando o passado, ainda seja complicado para quem a viveu e pode a entender. Talvez Raúl e Robert, que eram a mesma pessoa, poderia ter tido uma melhor aparição no primeiro capítulo do livro, chamado Personagens secundários, mas talvez o que importe mesmo é a infância que ocorria enquanto os adultos viviam uma história muito diferente da deles. Aladino e Claudia parecem estar perdidos num tempo em que sua geração ainda não se acostumou a viver em paz.

Diminuir, porém, o livro a apenas aspectos políticos não é o mais interessante. Observar a maneira como a construção da história se desenvolve é instigante e nos devora, de uma maneira que nos faz esquecer como voltar para casa, para a memória. Ao mesmo tempo, leva-nos a rememorar o que acontecia em nossa época de infância, enquanto brincávamos e o mundo se automutilava. Talvez seja mais interessante observar a ausência de presente nesses personagens, os quais parecem necessitar do passado para viver, como a mãe de Aladino. Parece que tudo, atualmente, está tranquilo, mas as crianças crescem e brincam enquanto os países se fazem em pedaços.




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11 de abril de 2014
O peso da Luz – uma novela cearense escrita por Ana Miranda

O peso da Luz – uma novela cearense escrita por Ana Miranda


O enredo da trama acontece em Sobral no ano de 1919. Exatamente nesse ano, no dia 29 de maio, a teoria da relatividade de Albert Einstein seria comprovada através de uma comissão científica enviada à cidade cearense. Na verdade foram feitas duas comissões, a outra foi armada em uma cidade africana. Além de narrar o eclipse em Sobral e sua importância para o campo científico, o livro aborda a estória de Roselano, cientista paraibano e leitor efervescente de Einstein, que quando soube da notícia do eclipse em Sobral e que cientistas estrangeiros viriam para a cidade fazer observações para tentar comprovar a teoria da relatividade, rumou de Cajazeiras para o Ceará. Para esta jornada, Roselano convidou o amigo e poeta Xerxes, pegou seu papagaio Galileu e rumou à cidade cearense em busca de aventuras e de saciar a sua sede científica.

O enredo nos coloca em outra época. A escritora descreve o cenário de uma período não vivenciada por ela e talvez até mesmo não vivenciada pelo leitor, ao juntar história-científica com a ficção, a autora nos proporciona uma viagem no tempo. A descrição do porto de Camocim feita pela autora é um dos melhores exemplos de como a linguagem de Ana Miranda nos recoloca no ambiente, outro exemplo é a viagem de trem que o personagem faz de Camocim a Sobral. Enquanto ele percorre o sertão o cenário é descrito com ares poéticos. A parte que eu gostaria de transcrever é referente a descrição do centro de Sobral:

Charretes e carroças passavam nas ruas, abarrotadas de gente festiva, de mercadorias. Jumentinhos levavam no dorso pesadas pipas, das quais escorriam fios de água, que era vendida de casa em casa. O esplendor comercial aparecia por todo lado, fábricas, opulentos celeiros, lojas, mercados que mostravam ser ali empório de negócios. Casarões antigos, bem cuidados e cercados de jardins, ladeavam as ruas. A cidade era compacta no centro, distribuída em vias largas e alinhavadas, as casas rareavam nos arrebaldes, as ruas ficavam estreitas e tortuosas, e por todo lado muares sonolentos descansavam à sombra de alguma árvore. A praça era mimosa, a igreja sé, alta e bem cuidada, e o teatro, um esplendor, eu jamais havia visto de perto algo tão belo e primoroso como aquele teatro.

O peso da luz não tem como foco apenas a teoria da relatividade de Einstein, a cidade de Sobral também está em evidência no livro. Mais à frente o personagem Roselano elogia a cidade “Sobral era uma cidade intelectual e o povo tinha gosto pelo luxo pela boa educação.” Sobre o bom gosto ao que é luxo, a cidade até hoje ainda tem. Nomes de populares, nomes de ruas, festejos e referência a alguns ícones da sociedade sobralense aparecem e são citados ou por vezes descritos.

Há momentos em que a narração fictícia é pausada para que um ensaio documental sobre a teoria da Relatividade, ou sobre os outros eclipses realizados no Brasil sejam esclarecidos. Essa narrativa que soma ficção e ensaio, é bastante comum entre prosadores contemporâneos, isso permite que O Peso da Luz não se limite apenas a ser uma leitura de passatempo, quem o lê aprende mais sobre um dado histórico de nosso estado que poucas vezes é citado nas aulas de historia. Além de conhecer melhor um marco histórico, o livro proporciona momentos de deleite e sensibilidade com a estória de Roselano, em especial as suas (des) aventuras amorosas.

Aliás esse livro é o primeiro de uma trilogia que a autora pretende publicar sobre fatos e assuntos ligados com a cultura cearense. Eu já aguardo ansioso os próximos livros dessa coleção. Em uma entrevista, a autora comenta que esta obra é uma homenagem ao seu tio-avô que, assim como o personagem Roselano, também era inventor e da Paraíba.


Lendo O peso da luz, notamos a riqueza da pesquisa histórica e documental feita por Ana Miranda, que mescla a realidade com a ficção de maneira tão bela que prende o leitor. Digo que esta novela cearense torna-se uma leitura obrigatória em especial aos que residem em Sobral, pois a trama e história contadas no livro dizem respeito à cidade. A comprovação da teoria de Einstein na cidade sobralense pode ser lembrada também no Museu do Eclipse, situado em Sobral, lá encontra-se manchetes e recortes históricos que relembram a data histórica. Há outros livros que também comentam a vinda das comissões cientificas para Sobral. Mas o livro que une ficção-ensaio-realidade em um único corpus é O peso da luz.

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17 de março de 2014
Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno

Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno



Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. […]
Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.


O Malhadinhas é uma obra de referência da literatura em língua portuguesa. E aconselha-se a todos os que gostam de ler, mesmo aos que gostam de se vangloriar das suas leituras alternativas, conceito vago aqui atribuído aos textos que acompanham bem um cabelo despenteado com cuidado, umas calças rotas com desvelo ou a ligação a um coletivo (sim, coletivo) de produções orgulhosamente pouco assistidas. O Malhadinhas não é uma obra alternativa. Faz parte das correntes principais do bem escrever, do bem ler e do bem fazer literatura.

A narrativa acompanha a vida de um homem, António Malhadas, desde os tempos em que quer casar até à sua morte. Valores como os do amor, da lealdade e da fidelidade são abordados por António Malhadas, narrador-protagonista, que conduz o leitor pelos caminhos difíceis de montes, vales e conceitos que dão sal e sabor à vida humana. Para o leitor, no entanto, fica a parte da análise mais difícil e profunda. Afinal, é sempre o leitor que coloca o sal, a malagueta, a canela e o açúcar na confeção artística do escritor. Também por isto se pode medir a qualidade da escrita e da obra literária. Diga o leitor, por gentileza, que o que foi acabado de ser escrito não é verdade. Coloque todo o sal e toda a malagueta, alguma canela, um pouquinho de açúcar. Se, para este artigo, houver sal e malagueta, açúcar e canela, o que não é certo. Certo é que para esta obra de Aquilino Ribeiro tão conhecidos ingredientes existem e deverão ser usados. Com toda a certeza.

Aquilino Ribeiro não foge de expressões regionais para elevar a língua portuguesa a um nível de qualidade apenas ao alcance dos que escrevem muito bem. António Malhadas, «provido de lábia muito pitoresca», inicia a narração com um exemplar parágrafo do que acaba de ser constatado:

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra ─ eu cá nunca me avistei com ele ─ mas a verdade é que a neve vinha, com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

Depois da difícil tarefa de se casar, que envolveu fugas e ameaças de violência, António Malhadas viaja pelo norte de Portugal desenvolvendo a sua atividade de almocreve, enquanto se vai envolvendo em brigas e disputas, consequência do seu espírito conflituoso e do seu sentido de justiça.
O leitor de O Malhadinhas que conhece o obra de um outro Ribeiro, João Ubaldo, não deixará de se lembrar de Sargento Getúlio, do seu monólogo e de um comportamento que, podendo ser criticável, se guia por um código de honra e por um sentido de justiça próprio de quem tem a lealdade como princípio norteador da vida. A ação de António Malhadas e de Getúlio dos Santos Bezerra pode ser criticada? Pode e deve. Coloque nelas o leitor o sal e a malagueta que achar conveniente. Alguma canela. Talvez algum açúcar. Qualquer um dos autores deixou obra para ser saboreada. Com diferenças, com parecenças, com qualidade e com armas.
António Malhadas, entre muitas referências a armas de fogo e armas brancas, ensaia comparação com a espada mitológica que Rolando recebeu de Carlos Magno:

Que a minha faca era afiada e leveira … Se afiada a trazia muitas vezes tive pena de não ter à mão a catana de Durandarte. Há encontros na vida e pendências que um homem honrado não provoca nem espera, e que só se resolvem de pulso rijo e botando as unhas a uma arma. A faca, mesmo assim, nunca a saquei para homem cordo de génio e liso nas contas, nem para jagodes pobre do juízo ou com água chilra nas veias.

Esta viagem pela vida do «ti Malhadinhas», com a sua linguagem de cariz popular, é bem real. Tão real que chegou ao fim. A morte já a sentia António Malhadas quando, doente na cama, lamentou a recusa da mulher, Brízida, em lhe chegar a arma: «Nem da espingardinha me deixas despedir. Olha que a não levo para a tumba, alma de Barbazu!»
Se não foi desta que morreu, foi passado algum tempo. Não muito, mas o suficiente para se enfurecer com quem já o dava por morto e ele a sentir-se ainda «para lavar e durar». Mas uma tarde …

Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho do marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E ─ o justo juiz lhe perdoe as facadas que as não deu em nenhum santo ─ nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem para a outra do negro rio.
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11 de março de 2014
manuel, o menino que queria ser santo

manuel, o menino que queria ser santo



Eu não sabia muito sobre o primeiro livro de Valter Hugo Mãe, nada mais do que o nome que trazia na capa – “Nosso reino”. Não imaginava que manuel fosse amigo de um menino que queria ser santo, que desejava ser santo e que entendia que o homem mais triste do mundo estava sempre a espreitar as pessoas que tinham em si um ponto vermelho no cu.

Tendo lido já três livros de Valter Hugo Mãe, sabia que não haveria decepção, pois sua escrita, em meu ponto de vista, já tomou níveis que poucos escritores conseguem. Li-o desesperadamente como se a vida de manuel ou de carlos ou do senhor hegarty ou de benjamin, o menino que queria ser santo sem saber como o ser, dependessem de mim.

Algumas partes me impressionaram mais do que outras, como a consciência que o menino tinha em saber que as pessoas deveriam se amar e que não era necessário ir até a igreja para que pudessem ser salvas sem ter que se suicidar, como ele o tentara, como a louca do vilarejo já o tinha feito.

manuel e eu, caminho acima até casa, fomos sorrir estupefactos e a minha teoria era clara, devemos ser bons, manuel, teremos um amor infinito por todas as pessoas, e as pessoas saberão o que é um amor infinito e tombarão de paixão umas pelas outras até salvarem as suas almas

Entendia ele que de nada adianta andar com as boas pessoas, com os puros, uma vez que são os necessitados de espírito que dependem do auxílio dos santos, ou dos meninos benjamins que, aos seis anos, já não entendem e entendem o que fazem e o que não fazem, como os ovos das galinhas que não paravam de serem postos pelas mesmas.

mas que para se ser santo havia de se estar com os pecadores, que os puros não precisavam de mais nada.

Benjamin e Manuel mesmo tentando ser santos, aquele conseguindo mais do que esse, assim era o que parecia, foram sofrendo na alma o quão difícil era ser bom, o quão difícil era viver entre os cristãos e os não cristãos, pois em algum momento todos acreditavam em alguma coisa. Como Carlos que falando palavras que machucavam Benjamin sentiu nas próprias partes, superiores e inferiores, o preço que os pecadores muitas vezes têm de sentir para poder ascender aos céus.

A santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. Porque a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruí-me por dentro a esperança de os salvar. Já o padre exigira o meu infinito perdão naquele domingo, depois, com a chegada do carlos tudo se complicava

Foi mais ou menos assim que compilei “Nosso reino”, romance de estreia de Valter Hugo Mãe, escritor português, que no meu parco entendimento, é um dos melhores escritores dos últimos dez anos, diga-se assim. Não porque conseguiu atingir a uma enorme parcela dos leitores brasileiros com seu carisma, mas porque sua escrita é muito mais do que, como disse recentemente em entrevista a um programa de tevê, ser considerado apenas o escritor das letrinhas minúsculas.

É fato que Valter busca atingir o homem, não com toda a força arrebatadora que nós mesmos criamos contra nós, mas para que possamos ter o mínimo de consciência sobre nós. Afirmo isso sempre que falo nele, pois é isso que sinto com maior força, mais do que vários outros autores desta geração que tentam construir isso com a escrita. E temos que estar sempre a nos perguntar se nos conhecemos, se somos o que achamos em em nosso âmago, em nosso íntimo, para que quando morrermos não fiquemos sós, não importa se cremos ou não no depois, o que importa é não nos sentirmos sós por muito tempo, assim como os irmãos mais novos do menino que queria ser santo começavam a se sentir:

Benjamin, que acontece se morrermos e não houver ninguém no céu que nos conheça.
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6 de março de 2014
Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer

Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer


Acampado em torno da gigantesca mafumeira de Neerlândia, um batalhão revolucionário, composto em grande parte de adolescentes fugidos da escola, esperou durante três meses. Depois regressaram às suas casas pelos próprios meios e aí continuaram à espera. Quase sessenta anos depois, ainda o coronel esperava.

O coronel de Gabriel García Márquez ficou anos e anos à espera de uma carta que lhe traria notícias de uma pensão que nunca chegou, promessa de um governo que, entretanto, caiu. Mas o coronel esperava …

Enquanto isso, ia alimentando um galo, herança do filho falecido, que lhe haveria de render bom dinheiro em lutas. Mas o galo só comia. E o coronel alimentava …

Com uma promessa por cumprir e um galo que só comia, Ninguém Escreve ao Coronel percorre os dias de um coronel que «durante cinquenta e seis anos […] não fizera outra coisa, senão esperar.». A pensão fora prometida pela sua participação na «revolução», ao lado do mais tarde figura central, em Cem Anos de Solidão, Aureliano Buendía.

– Com quem falas – perguntou a mulher.
– Com o inglês disfarçado de tigre que apareceu no acampamento do coronel Aureliano Buendía – respondeu o coronel.

A narrativa começa em outubro, «uma das poucas coisas que chegavam», com o coronel a sentir que lhe nasciam «fungos e lírios venenosos nas tripas». E começa sem que fique dúvida alguma a respeito das dificuldades do coronel e da mulher, um ser a quem «as perturbações respiratórias obrigavam […] a perguntar afirmando»:

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha. Tirou a panela do fogão, despejou metade da água no chão de terra, e com uma faca raspou o interior da caixa para dentro da panela até se soltarem as últimas raspas de pó de café misturadas com ferrugem da lata.

 Um autor clássico como García Márquez não precisa que as suas histórias se identifiquem com os acontecimentos do presente. Elas sobrevivem só por si, em todos os tempos. Ninguém Escreve ao Coronel foi publicado pela primeira vez em 1961 e é, juntamente com toda a qualidade que o liberta da atualidade, um romance que poderia ser baseado nas notícias do jornal de hoje, o que não é motivo de alegria.



A história de Ninguém Escreve ao Coronel é simples, elegante, preocupante e, pelo que infelizmente se pode constatar, eterna. Os governantes gananciosos prometem. O povo sofrido e crente aguarda. O coronel estava na lista de espera para a atribuição da reforma mas a sua vez nunca mais chegava. A vida dele e da mulher era de miséria. O filho fora assassinado pela polícia por distribuir propaganda da oposição. O casal conseguiu algum dinheiro com a venda da máquina de costura de Agustín, o filho, que era alfaiate, e tinham esperança no galo, preparado para apostas e combates. O problema é que faltava mais de um mês para a luta.



Sem dinheiro, o coronel e a mulher discutem de que forma poderão resolver o problema. A mulher receia que o galo não ganhe a luta. O romance termina com a resposta aliviada do coronel:


– É um galo que não pode perder.

– Mas supõe que perde.

– Ainda faltam quarenta e cinco dias para começarmos a pensar nisso – replicou o coronel.

A mulher ficou desesperada.

E entretanto o que comemos – perguntou, e agarrou o coronel pelas bandas do casaco do pijama. Sacudiu-o com energia.

– Diz lá, o que vamos comer.

O coronel precisou de setenta e cinco anos – os setenta e cinco anos da sua vida, minuto a minuto – para chegar a este instante. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de responder:

– Merda!

Em Ninguém Escreve ao Coronel, de forma muito discreta, Gabriel García Márquez apresenta algum do realismo mágico que seria consagrado, alguns anos depois, em Cem Anos de Solidão. Em 1982, o colombiano receberia o Prémio Nobel da Literatura. Em 2009, García Marquez, sem dúvida um dos grandes da literatura universal, anuncia que não escreverá mais livros. 



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