Íris, uma despedida
“Tudo começou de um jeito muito divertido”
É assim que a irmã mais nova de
Íris começa a contar a história da doença que acabou por levar sua irmã. “Foi
quando Íris acordou com os olhos vesgos” que tudo começou, que foi possível
aprender um pouco mais sobre a morte e como ela pode nos proporcionar, talvez,
um amadurecimento adiantado, digamos.
Íris, uma despedida, de Gudrun Mebs e Beatriz Martín Vidal, é um
livro que foi feito para as crianças, mas eu não quero acreditar nisso. A
maneira como Gudrun conta a história envolve o leitor com seu linguajar que facilita a
compreensão de uma criança, seja ela lendo sozinha a história ou tendo seus
pais para contá-la. A história de Íris, apesar de ser uma história sobre a
morte, ocasionada por um câncer instalado na cabeça da irmã mais velha, é
uma narrativa que consegue ter um tom de humor que não machuca, mas ajuda a
entender os caminhos que uma criança faz, perante a sua inocência, para
compreender de que maneira alguma coisa pode levar-nos desse mundo.
A
gente tem mesmo de tudo na cabeça. A mamãe sempre brincava comigo: “Você só tem
asneira na cabeça!”. Mas eu vivo bem assim. O papai explicou que um tumor é
outra coisa, uma coisa muito ruim, e que as pessoas morrem disso.
A irmã de Íris, a qual não ficamos
a saber o nome, durante o início da doença da irmã, fica acompanhada da senhora
Miller, que faz bolos muito gostosos e que sempre a diverte. Porém, com o
avançar da doença e com a presença constante de seus pais no hospital para
ajudar a cuidar de Íris, é necessário que a avó surja como uma pessoa que pode
dar um aparato sentimental à criança.
Hoje
a vovó também veio. Ela mora numa cidade chamada Dresden. Agora a vovó tem que
cuidar de mim, porque a senhora Miller nem sempre tem tempo. Eu acho que posso
me cuidar sozinha, mas o papai diz que prefere assim, e a vovó é mesmo um amor.
Aos poucos, a inocência, óbvio, da
criança, que ainda está entendendo como o mundo funciona, a faz
acreditar que Íris logo estará de volta em casa, pois não sabe o que é um
câncer. Tudo a leva a crer que retirar o câncer de Íris é algo tremendamente
fácil e sem dor:
Eles
abrem a cabeça da Íris e puxam o tumor pra fora. Isso é moleza! Então ele vai
embora.
A
gente tem um câncer na câncer na cabeça e fica doente, então operam e tiram
todo o câncer e a gente fica bem de saúde de novo. É simples. Ou não é?
Após essas dúvidas, tenta recorrer ao dicionário, que esconde sob o travesseiro, para depois questionar o pai o que seria algumas palavras que explicam a doença, mas que ela não é capaz de compreender. Mas o real fará a sua parte,
chocando a criança, que é apenas um ano e dois meses mais nova que a irmã
hospitalizada, deixando-a sem palavras, quando vê Íris diferente, sem cabelos,
em uma roupa verde e com um furo na cabeça:
A
Íris estava tão diferente. Tão estranha. Então ela olhou pra mim e sorriu, e
também foi estranho o jeito como ela sorriu assim de cabeça careca. Eu não
conseguia falar e só ficava olhando pra ela. Então o papai me colocou no colo e
fez um carinho na Íris e disse: “Como se sente hoje, meu anjo?”, e a Íris
disse: “Bem”, e eu falei de repente: “Mas e o cabelo?”.
Talvez algum leitor mais
esperançoso queira que o final não seja o esperado, tendo em vista que o
câncer, uma doença quase sem cura, sem possibilidades de fazer que as pessoas
continuem estabilizadas, avança terminalmente. Esse avanço também pode ser
percebido com as ilustrações que preenchem o livro com os traços de Beatriz
Vidal, que soube de maneira, falta-me o adjetivo, compreender a obra e
plasmá-la em desenhos. O avanço do câncer é representado como se flores, galhos
e folhas nascessem na cabeça de Íris lindamente e que, com o decorrer do avanço
da doença, vão murchando, secando, assim como a vida da menina mais velha.
Como afirmei no início do texto eu
não quero acreditar que esse livro foi feito para crianças, pois é impossível
não trazer a representação do que a obra intenta para o nosso cotidiano. Fazia
certo tempo que algo não me arrebatava com tanta força. Talvez pela candura da
irmã mais nova e sua inocência em contraposição à crueldade da doença, que
muitos de nós conhecemos, talvez pela morte iminente de uma das personagens,
que como um anúncio premeditado nos abala desde o início do livro, como se estivéssemos
em um carro a trezentos quilômetros por hora em uma rua sem saída.
A
vovó não tinha percebido que eu já estava acordada, e ela só olhava na direção
da janela, mas parecia que ela não estava vendo nada. Eu achei esquisito e
falei: “Bom dia, vovó!”. Então ela se virou para mim e disse: “A Íris morreu
nesta noite”. Ela começou a chorar e saiu do quarto. Eu fiquei deitada e senti
muito frio. Eu não tinha entendido bem.
E quando releio esta passagem,
ainda sinto arrepios.


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