Namoros virtuais
“Ok”.
Depois
de tudo o que dissera, num desabafo doloroso, num turbilhão de palavras, ouvira
apenas isto. Esperava explicações satisfatórias para o término, um motivo coerente
que justificasse o súbito fim, e ainda através de uma mensagem em rede social. “Nem
sequer um telefonema!” – admirava-se.
Mas
os telefonemas tornaram-se cada vez mais dispersos. As desapegadas mensagens
por chat, os emoticons que ela tanto odiava, eram parte da comunicação entre
eles. Sempre esperava por algo mais, um convite imprevisto para saírem, um “eu
te amo” inesperado.
Sabia
que era a pessoa mais interessada no relacionamento. Desde o início, tomara
conhecimento disso, e doía. Tinha a impressão de que, ao ser a mais dedicada à relação,
ficava sobre o poder dele. Perceber que ele demorava horas para responder uma
mensagem, às vezes até um dia ou dois, incomodava-a profundamente. Dizia que
não tinha tempo, que a faculdade e o trabalho ocupavam-no demais.
“Quem
gosta, procura, arruma um tempinho pelo menos para dar um oi, perguntar como
está...”, remoía. Não entendia joguinhos psicológicos. Às vezes, imaginava que
ele não respondia às mensagens intencionalmente, mas não atinava para o motivo
disso. Queria acreditar que era uma forma de fingir que não estava nem aí, de
não se mostrar interessado demais. Outras vezes, pensava que ele realmente não
estava nem um pouco interessado na relação e, por isso, não retornava as
mensagens e telefonemas, dizia que a ligação não havia chegado, que
provavelmente houve algum problema com a operadora.
Não
entendia o porquê dele não expressar o que sentia ao estar com ela; ao invés
disso, publicava em redes sociais onde estiveram e fotos dos dois, com belas
frases e letras de músicas românticas. Tinha a impressão de que cada vez
importava menos a sua presença, sua companhia, contanto que ela gerasse fotos e
frases e postagens em redes sociais, para mostrar aos outros que ele tinha uma
namorada bonita, que viajavam para belos lugares, que eram felizes.
E
terminou, após oito meses, por meio de uma longa mensagem em rede social.
Talvez por não ter coragem de encará-la ou de sentir a dor em sua voz, através
de uma ligação. Sem brigas, sem demonstrar
que estava incomodado com a relação. “Mas por quê?”, questionava-se
insistentemente. Na mensagem ele dizia que não tinha tempo para um
relacionamento, que seu dia a dia era muito corrido, que não estava mais na vibe...
E
não era a primeira vez que um relacionamento acabava assim. Possivelmente por
sair tão pouco, pela timidez e sua personalidade introspectiva, tinha
dificuldades em travar conhecimento com pessoas “ao vivo”, e buscava conhecê-las
pela internet. Mas nunca dava certo. Constatou que a maioria buscava apenas
sexo, parecia ter medo de um compromisso, e preferia manter um relacionamento
não definido, que quase nunca evoluía para algo mais sério. Talvez para não
perder possibilidades, ficar com outras mulheres, mais bonitas e mais
interessantes que ela. Dessa forma, não seria uma traição, já que não estavam
“namorando”, refletia.
E
cada vez menos entendia os relacionamentos. Um “Topa sair?”, um “Vamos fazer
alguma coisa?”, que no início pensava ser um convite para um cinema, uma praia,
shopping, geralmente significava um convite para sexo. Um “Talvez”, um “A gente
vai se falando”, quando os chamava para sair, poderia ser interpretado como um
“Pode ser, se não aparecer alguém melhor ou algo mais interessante para fazer”.
Após
o término do relacionamento – o mais longo até então –, chegou à conclusão de que
não queria mais se relacionar com ninguém, que as incontáveis tentativas
mostraram-se sempre frustradas, que o “juntos para sempre” era coisa do
passado, do tempo dos pais e avós, dos filmes românticos e contos de fada. Em
seu quarto, no escuro, iluminado apenas pela tela do computador, sem ninguém
para ver as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, compreendeu que teria que
aprender a ser feliz sozinha, lidar com a solidão. Desiludida, via-se no futuro:
velha, sozinha, na casa cheia de gatos, o dia inteiro vendo TV. Mas havia
alternativas, havia como fugir desse futuro? Sim, pensou, existem outras
possibilidades...

Muito bom. Gostei;-)
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