A desumanização, de Valter Hugo Mãe
Os
grandes escritores são aqueles que cunham uma linguagem própria e que conseguem
manter sua identidade por praticamente toda a sua obra. Pois bem, “A
desumanização”, de Valter Hugo Mãe, é um desses livros que vêm para solidificar
a escrita de um autor português que repete, em seus textos, a maneira de
escrever e os temas que lhe são caros.
Apesar
de Valter Hugo Mãe, em suas entrevistas, afirmar que suas obras, sua escrita, a
cada livro, possui uma nova linguagem, uma nova “maneira de ser”, é possível
observar que a fluidez das palavras, o som delas é algo constante em todas
essas linguagens inventadas para a construção de suas narrativas.
Parece
que, a todo instante, o autor está preocupado em dar novas “formas” ou novos
significados não somente às palavras, mas às maneiras de se perceber o que
existe a nossa volta. Isso se dá, muitas vezes, através das observações feitas
em torno de Halla, a criança que se desumaniza: “Ela achava que deus era o
corpo deitado da Islândia”. Tentar poetizar deus no país onde a personagem
nasceu é uma maneira de universalizar, talvez, a crença no infinito partindo de
algo finito e, principalmente, terreno. Valter tenta poetizar o que talvez seja
impossível e ao mesmo tempo uma das coisas mais poéticas de toda a existência
humana: a vida.
A
vida que não é mais da criança, pois a mãe lhe culpa pela morte da irmã gêmea,
mas tem no pai a poesia na palma da mão, que não se perde, mas sempre esquecida
em recortes de papéis jogados nos abismos das almas, essas que não se salvam
frente à imensidão e da força do frio da Islândia. Parece que Halla vive como seu
país, num estado catártico em que não é possível conceber sua própria alegria,
como se a mortidão do cenário existente estivesse presente em si desde o momento
da perda da irmã. É como se o calor concebido a dois não pudesse mais existir,
mesmo que com o Einar, seu amante, pudesse se deitar à cama, mesmo sem ter idade
ainda para tal. Assim, Halla, quando quer fugir de si, imagina que “Os mortos
podem ser só um instrumento da morte. Como se existissem para aumentar o reino
terrível que habitam”, pois as pessoas já não mais existem, e por isso ela
deseja deixar o Einar e correr para o abismo, como se a fuga fosse necessária
ao invés de viver, pois no mundo da Islândia, apesar das pessoas tentarem se
amar, elas não existem assim como no resto do mundo, pois as pessoas “estão a
acabar. Foram embora para dentro da memória. Foram-se ressentidas. Agora são
apenas uma recordação, como serão também uma possibilidade.”, já que “Esse
tempo é outro. Serve [apenas] para matar”.
Leia Entrevista feita com o autor AQUI


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