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23 de junho de 2014
A desumanização, de Valter Hugo Mãe

A desumanização, de Valter Hugo Mãe




Os grandes escritores são aqueles que cunham uma linguagem própria e que conseguem manter sua identidade por praticamente toda a sua obra. Pois bem, “A desumanização”, de Valter Hugo Mãe, é um desses livros que vêm para solidificar a escrita de um autor português que repete, em seus textos, a maneira de escrever e os temas que lhe são caros.

Apesar de Valter Hugo Mãe, em suas entrevistas, afirmar que suas obras, sua escrita, a cada livro, possui uma nova linguagem, uma nova “maneira de ser”, é possível observar que a fluidez das palavras, o som delas é algo constante em todas essas linguagens inventadas para a construção de suas narrativas.

Parece que, a todo instante, o autor está preocupado em dar novas “formas” ou novos significados não somente às palavras, mas às maneiras de se perceber o que existe a nossa volta. Isso se dá, muitas vezes, através das observações feitas em torno de Halla, a criança que se desumaniza: “Ela achava que deus era o corpo deitado da Islândia”. Tentar poetizar deus no país onde a personagem nasceu é uma maneira de universalizar, talvez, a crença no infinito partindo de algo finito e, principalmente, terreno. Valter tenta poetizar o que talvez seja impossível e ao mesmo tempo uma das coisas mais poéticas de toda a existência humana: a vida.



A vida que não é mais da criança, pois a mãe lhe culpa pela morte da irmã gêmea, mas tem no pai a poesia na palma da mão, que não se perde, mas sempre esquecida em recortes de papéis jogados nos abismos das almas, essas que não se salvam frente à imensidão e da força do frio da Islândia. Parece que Halla vive como seu país, num estado catártico em que não é possível conceber sua própria alegria, como se a mortidão do cenário existente estivesse presente em si desde o momento da perda da irmã. É como se o calor concebido a dois não pudesse mais existir, mesmo que com o Einar, seu amante, pudesse se deitar à cama, mesmo sem ter idade ainda para tal. Assim, Halla, quando quer fugir de si, imagina que “Os mortos podem ser só um instrumento da morte. Como se existissem para aumentar o reino terrível que habitam”, pois as pessoas já não mais existem, e por isso ela deseja deixar o Einar e correr para o abismo, como se a fuga fosse necessária ao invés de viver, pois no mundo da Islândia, apesar das pessoas tentarem se amar, elas não existem assim como no resto do mundo, pois as pessoas “estão a acabar. Foram embora para dentro da memória. Foram-se ressentidas. Agora são apenas uma recordação, como serão também uma possibilidade.”, já que “Esse tempo é outro. Serve [apenas] para matar”.

Leia Entrevista feita com o autor AQUI


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11 de março de 2014
manuel, o menino que queria ser santo

manuel, o menino que queria ser santo



Eu não sabia muito sobre o primeiro livro de Valter Hugo Mãe, nada mais do que o nome que trazia na capa – “Nosso reino”. Não imaginava que manuel fosse amigo de um menino que queria ser santo, que desejava ser santo e que entendia que o homem mais triste do mundo estava sempre a espreitar as pessoas que tinham em si um ponto vermelho no cu.

Tendo lido já três livros de Valter Hugo Mãe, sabia que não haveria decepção, pois sua escrita, em meu ponto de vista, já tomou níveis que poucos escritores conseguem. Li-o desesperadamente como se a vida de manuel ou de carlos ou do senhor hegarty ou de benjamin, o menino que queria ser santo sem saber como o ser, dependessem de mim.

Algumas partes me impressionaram mais do que outras, como a consciência que o menino tinha em saber que as pessoas deveriam se amar e que não era necessário ir até a igreja para que pudessem ser salvas sem ter que se suicidar, como ele o tentara, como a louca do vilarejo já o tinha feito.

manuel e eu, caminho acima até casa, fomos sorrir estupefactos e a minha teoria era clara, devemos ser bons, manuel, teremos um amor infinito por todas as pessoas, e as pessoas saberão o que é um amor infinito e tombarão de paixão umas pelas outras até salvarem as suas almas

Entendia ele que de nada adianta andar com as boas pessoas, com os puros, uma vez que são os necessitados de espírito que dependem do auxílio dos santos, ou dos meninos benjamins que, aos seis anos, já não entendem e entendem o que fazem e o que não fazem, como os ovos das galinhas que não paravam de serem postos pelas mesmas.

mas que para se ser santo havia de se estar com os pecadores, que os puros não precisavam de mais nada.

Benjamin e Manuel mesmo tentando ser santos, aquele conseguindo mais do que esse, assim era o que parecia, foram sofrendo na alma o quão difícil era ser bom, o quão difícil era viver entre os cristãos e os não cristãos, pois em algum momento todos acreditavam em alguma coisa. Como Carlos que falando palavras que machucavam Benjamin sentiu nas próprias partes, superiores e inferiores, o preço que os pecadores muitas vezes têm de sentir para poder ascender aos céus.

A santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. Porque a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruí-me por dentro a esperança de os salvar. Já o padre exigira o meu infinito perdão naquele domingo, depois, com a chegada do carlos tudo se complicava

Foi mais ou menos assim que compilei “Nosso reino”, romance de estreia de Valter Hugo Mãe, escritor português, que no meu parco entendimento, é um dos melhores escritores dos últimos dez anos, diga-se assim. Não porque conseguiu atingir a uma enorme parcela dos leitores brasileiros com seu carisma, mas porque sua escrita é muito mais do que, como disse recentemente em entrevista a um programa de tevê, ser considerado apenas o escritor das letrinhas minúsculas.

É fato que Valter busca atingir o homem, não com toda a força arrebatadora que nós mesmos criamos contra nós, mas para que possamos ter o mínimo de consciência sobre nós. Afirmo isso sempre que falo nele, pois é isso que sinto com maior força, mais do que vários outros autores desta geração que tentam construir isso com a escrita. E temos que estar sempre a nos perguntar se nos conhecemos, se somos o que achamos em em nosso âmago, em nosso íntimo, para que quando morrermos não fiquemos sós, não importa se cremos ou não no depois, o que importa é não nos sentirmos sós por muito tempo, assim como os irmãos mais novos do menino que queria ser santo começavam a se sentir:

Benjamin, que acontece se morrermos e não houver ninguém no céu que nos conheça.
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8 de julho de 2013
O filho de mil homens de Hugo Mãe e os desequilíbrios que unem os homens

O filho de mil homens de Hugo Mãe e os desequilíbrios que unem os homens



Amar é algo intrínseco ao ser humano. Você pode dizer que não, mas sabe que estará mentindo, pois isso está incutido em nós, ao menos é o que quero acreditar. A delicadeza e a solidão, que por desventura sentimos, sempre estarão ligadas, intimamente, ao amor. O amor é quem pode representar para nós a salvação, como diria o poeta russo. E é essa salvação que está inserida n’O filho de mil homens, escrito pelo autor português Valter Hugo Mãe.

Nos últimos três anos, Valter vem tido uma enorme aceitação entre os leitores brasileiros, sendo aclamado em festas literárias, como a conhecida Festa Literária de Paraty, na qual ficou extremamente emocionado. Isso tudo por possuir uma escrita que consegue mostrar as misérias humanas de forma tocante.

O filho de mil homens consegue criar histórias que nos comovem. Sem realizar apelos, constrói narrativas em que os temas são caros à humanidade de uma maneira totalmente compreensiva, pois estão perto de nossa realidade. Acredito, assim como outros leitores, que Literatura se faz com temas que nos fazem pensar sobre o nosso estado de ser humano e de nos compreender em meio ao mundo, à Natureza. E que quando nos deparamos com o fundo de nós mesmos, quando começamos a ‘cair para dentro de nós’, como dirá o autor, é que percebemos o que é a realidade.

Realidade que é sentida por Crisóstomo, que assume a tristeza de aos 40 quarenta anos não ser pai. Morando sozinho, acompanhado apenas de um grande boneco de olhos vermelhos, não consegue arranjar ninguém que lhe ensine o que é o amor ou a felicidade.

Essa realidade fere outros personagens como a anã, que mesmo sendo menor que as outras mulheres de seu povoado é mulher tão quanto elas. Ela, que tinha uma grande cama de casal e que era sempre visitada pelas mulheres hipócritas, teve um filho que veio a ter como tio o Antonino, que por sua vez não teve pai, e que por não ter tido um pai em sua infância acreditava que isso o fazia ser como era.

Já Camilo, que foi parido pela anã, que ficou sendo sobrinho de Antonino, ficou desfavorecido, mas por pouco tempo, até que conseguiu dois pais que lhe cuidassem das ideias. Um limitou o olhar do horizonte em vista do mar, mostrando-lhe o preconceito desde sua inocência. O outro ensinou que preconceito nenhum é o bastante para que não possamos querer bem aos outros e que assim como o mar, que aparenta ter um fim, não há fim para amar o próximo.

E Isaura, a pobre mulher que não teve sorte para o casório, mas que teve a sorte de casar com o filho de Matilde, homem de trejeitos imorais que quase lhe levara a falência dos sentidos perante a vida vivida, também não sabia o que era amar e pensava que amar era a espera, assim como Crisóstomo. A espera de saber o que poderia ser o amor. Ela sofria com os olhares alheios, apenas por ser solteira e por nunca ter tido homem algum consigo, além daquele que a enganara profundamente usando o amor como argumento.

Todos esses personagens sofrem de solidões e de marasmos do ser. O descaso que possuem consigo vai se desfazendo no momento em que um necessita do outro para que a vida passe de maneira menos áspera.

É a partir dessas relações, que de início podem parecer confusas como um pequeno redemoinho marítimo, que se fundamenta a narrativa de O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe. Homens e mulheres são desnudados incessantemente numa desarmonia durante as páginas do livro. Aos poucos, podemos perceber de que forma o caos se organiza na sociedade em que vivem esses personagens.

A felicidade é algo praticamente desconhecido para eles, pois não conhecem sequer o amor. Eles não sabem o que é isso e nem sabem se é possível sentir felicidade. Os personagens ‘hugoanos’ são de extrema instabilidade consciente. Sabem que podem ser o que desejam ser, mas têm a consciência que a sociedade os oprime e que isso é difícil de ser vencido. Perdem-se em seus pensares, pois não têm a quem se segurar. São como barcos instáveis em meio ao mar tranquilo, que desconhece as previsões do tempo.


por Nelio Paulo

Daí parece querer mostrar, o autor, que é possível, mesmo nessa sociedade caduca, totalmente desarmonizada, viver em harmonia com nossas diferenças. Esses personagens que caíam para dentro de si, quando estavam sozinhos, aprendem a dar a mão uns aos outros. Aprendem que para viver um pouco mais devem cair unidos e que essa queda se faz necessária, pois só assim será possível estar ao lado de quem ama.

Os personagens ‘hugoanos’ são homens perdidos. Assim como eles, tantos outros se fazem presente nesse mundo que parece não conceber pecado algum, ao mesmo tempo em que comete os maiores atos de atrocidade. Mais uma vez, percebo que a questão de se entender mais humano, de se sentir mais existente é o que fundamenta os grandes escritores. Sendo os personagens filhos de mães e de pais que muitas vezes não são conhecidos e que depois virão a ganhar novos pais e novas mães e novas famílias, a família aqui parece ser o essencial. Não no quesito sanguíneo ou amoroso. A união que nasce, no livro, por trás de uma cortina espessa de preconceito entre os próprios desvalidos é o que faz materializar o amor nas páginas de um pequeno povoado, à beira de uma praia.
  


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