O filho de mil homens de Hugo Mãe e os desequilíbrios que unem os homens
Amar é algo intrínseco ao ser
humano. Você pode dizer que não, mas sabe que estará mentindo, pois isso está
incutido em nós, ao menos é o que quero acreditar. A delicadeza e a solidão,
que por desventura sentimos, sempre estarão ligadas, intimamente, ao amor. O
amor é quem pode representar para nós a salvação, como diria o poeta russo. E é
essa salvação que está inserida n’O filho de mil homens, escrito pelo
autor português Valter Hugo Mãe.
Nos últimos três anos, Valter
vem tido uma enorme aceitação entre os leitores brasileiros, sendo aclamado em
festas literárias, como a conhecida Festa Literária de Paraty, na qual ficou
extremamente emocionado. Isso tudo por possuir uma escrita que consegue mostrar
as misérias humanas de forma tocante.
O filho de mil homens
consegue criar histórias que nos comovem. Sem realizar apelos, constrói
narrativas em que os temas são caros à humanidade de uma maneira totalmente
compreensiva, pois estão perto de nossa realidade. Acredito, assim como outros
leitores, que Literatura se faz com temas que nos fazem pensar sobre o nosso
estado de ser humano e de nos compreender em meio ao mundo, à Natureza. E que
quando nos deparamos com o fundo de nós mesmos, quando começamos a ‘cair para
dentro de nós’, como dirá o autor, é que percebemos o que é a realidade.
Realidade que é sentida por
Crisóstomo, que assume a tristeza de aos 40 quarenta anos não ser pai. Morando
sozinho, acompanhado apenas de um grande boneco de olhos vermelhos, não
consegue arranjar ninguém que lhe ensine o que é o amor ou a felicidade.
Essa realidade fere outros
personagens como a anã, que mesmo sendo menor que as outras mulheres de seu
povoado é mulher tão quanto elas. Ela, que tinha uma grande cama de casal e que
era sempre visitada pelas mulheres hipócritas, teve um filho que veio a ter
como tio o Antonino, que por sua vez não teve pai, e que por não ter tido um
pai em sua infância acreditava que isso o fazia ser como era.
Já Camilo, que foi parido
pela anã, que ficou sendo sobrinho de Antonino, ficou desfavorecido, mas por
pouco tempo, até que conseguiu dois pais que lhe cuidassem das ideias. Um
limitou o olhar do horizonte em vista do mar, mostrando-lhe o preconceito desde
sua inocência. O outro ensinou que preconceito nenhum é o bastante para que não
possamos querer bem aos outros e que assim como o mar, que aparenta ter um fim,
não há fim para amar o próximo.
E Isaura, a pobre mulher que
não teve sorte para o casório, mas que teve a sorte de casar com o filho de
Matilde, homem de trejeitos imorais que quase lhe levara a falência dos
sentidos perante a vida vivida, também não sabia o que era amar e pensava que
amar era a espera, assim como Crisóstomo. A espera de saber o que poderia ser o
amor. Ela sofria com os olhares alheios, apenas por ser solteira e por nunca
ter tido homem algum consigo, além daquele que a enganara profundamente usando
o amor como argumento.
Todos esses personagens
sofrem de solidões e de marasmos do ser. O descaso que possuem consigo vai se
desfazendo no momento em que um necessita do outro para que a vida passe de
maneira menos áspera.
É a partir dessas relações,
que de início podem parecer confusas como um pequeno redemoinho marítimo, que
se fundamenta a narrativa de O filho de mil homens, de Valter Hugo
Mãe. Homens e mulheres são desnudados incessantemente numa desarmonia durante
as páginas do livro. Aos poucos, podemos perceber de que forma o caos se
organiza na sociedade em que vivem esses personagens.
A felicidade é algo
praticamente desconhecido para eles, pois não conhecem sequer o amor. Eles não
sabem o que é isso e nem sabem se é possível sentir felicidade. Os personagens
‘hugoanos’ são de extrema instabilidade consciente. Sabem que podem ser o que desejam
ser, mas têm a consciência que a sociedade os oprime e que isso é difícil de
ser vencido. Perdem-se em seus pensares, pois não têm a quem se segurar. São
como barcos instáveis em meio ao mar tranquilo, que desconhece as previsões do
tempo.
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| por Nelio Paulo |
Daí parece querer mostrar, o
autor, que é possível, mesmo nessa sociedade caduca, totalmente desarmonizada,
viver em harmonia com nossas diferenças. Esses personagens que caíam para
dentro de si, quando estavam sozinhos, aprendem a dar a mão uns aos outros.
Aprendem que para viver um pouco mais devem cair unidos e que essa queda se faz
necessária, pois só assim será possível estar ao lado de quem ama.
Os personagens ‘hugoanos’ são
homens perdidos. Assim como eles, tantos outros se fazem presente nesse mundo
que parece não conceber pecado algum, ao mesmo tempo em que comete os maiores
atos de atrocidade. Mais uma vez, percebo que a questão de se entender mais
humano, de se sentir mais existente é o que fundamenta os grandes escritores.
Sendo os personagens filhos de mães e de pais que muitas vezes não são
conhecidos e que depois virão a ganhar novos pais e novas mães e novas
famílias, a família aqui parece ser o essencial. Não no quesito sanguíneo ou
amoroso. A união que nasce, no livro, por trás de uma cortina espessa de
preconceito entre os próprios desvalidos é o que faz materializar o amor nas
páginas de um pequeno povoado, à beira de uma praia.


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