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14 de julho de 2014
Não esqueci de como voltar

Não esqueci de como voltar



A verdade é que tenho lido, ultimamente, muita literatura contemporânea. Às vezes, sinto inveja de mim mesmo quando lia apenas os clássicos universais. Aos poucos, fui observando que se fazia necessário acompanhar a produção nacional, nada fácil de se conseguir. Porém, novas veredas foram se abrindo, novos romances, novos autores foram surgindo e acabei por me ‘perder’ entre a literatura contemporânea nacional e de outros países.

Não é nada fácil acompanhar os lançamentos das grandes editoras e não tem sido fácil, também, acompanhar os autores editados pelas pequenas editoras. Os escritores são muitos e a dificuldade para ler devido ao tempo é enorme. Por isso tenho que estar sempre atento ao próximo livro que irei ler.

Entre as escolhas que faço, há sempre dois autores que me fazem parar qualquer obra que eu esteja tentando ler. Valter Hugo Mãe, talvez o meu escritor predileto, hoje em dia, e segundo o chileno Alejando Zambra, que com uma escrita ‘maliciosa’ enraizou-me em seus vasos feitos para Bonsai, são os autores que realmente chamam a minha atenção. O primeiro por cuidar de temas que me interessam profundamente e que deveriam interessar a todos. O segundo por ter inventado uma nova forma de escrita que prende, com um tom intimista que não transborda e nem deixa a desejar.

É difícil, em meu ponto de vista, não querer terminar um romance do autor chileno. Tendo em vista que os seus dois primeiros romances publicados pela Cosac Naify – Bonsai, 2012, e A vida privada das árvores, 2013 – são livros curtos, parece-me que Zambra vai, aos poucos, desdobrando a sua escrita, chegando agora a pouco mais de 150 páginas para nos contar uma nova maneira de voltar para casa, para os sentirmos bem.

Formas de voltar para casa é uma obra pode ser tida como um livro de memórias ou uma narrativa dramática. A infância perdida, relembrada a partir da história recontada por Claudia ao narrador e autor do livro, nos leva a um Chile que se escondia sobre a ditadura de Pinochet. Assunto que, aparentemente, ainda é difícil estar presente entre obras atuais, principalmente no Brasil, onde a população parece ter esquecido que esse regime existiu.

A obra do autor chileno nos conduz a um lugar esquecido entre os dedos gastos pelo cigarro da mãe do narrador, que se esconde do marido para fumar, e que pela falta do filho fica a repetir, sempre que se encontram, o quão bom seria se ele não tivesse ido embora.

Saí de casa há quinze anos e mesmo assim ainda sinto uma espécie de ponta estranha ao entrar neste cômodo que era meu e agora é uma espécie de despensa. No fundo há uma estante cheia de DVDS e os álbuns de fotos encurralados contra meus livros, os livros que publiquei. Acho bonito que estejam aqui, junto às lembranças familiares.

O narrador, ao qual o leitor não deve acreditar que é o próprio Zambra, pois de certa forma tudo é ilusório, conta parte da história da sua vida. Sozinho, ainda separado de Eme, relembra a história de Raúl e de Roberto. Homens estes que estão ligados à história de Claudia, na verdade é o mesmo homem, e que Claudia só contará a Aladino, como chamava o autor do livro anos depois, quando se reencontram, e quando Rául e Roberto estão mortos na mesma cama.

A volta de Claudia representa no decorrer da narrativa uma volta ao passado, a mesma que Aladino busca enquanto escreve o livro, este mesmo livro que Zambra intitula como Formas de voltar para casa. Essa volta ou busca pelo passado dói aos dois. Porém, parece que Aladino está menos preocupado com tudo isto, pois já tem consigo como irá terminar. Claudia, por outro lado, com uma mente inquieta, deixa o narrador na sombra, enquanto dorme, tranquilamente, no quarto antigo de Aladino na casa de seus pais.

Essa relação busca, mesmo que levemente ou profundamente, mostrar aspectos políticos que ocorreram no Chile. De forma que em certos momentos, nos diálogos, fica visível a importância que o autor, Zambra ou Aladino, dá-dão a este tema:

Não posso evitar perguntar a meu pai se naqueles anos ele era ou não pinochetista. Eu perguntei isso centenas de vezes, desde a adolescência, é quase uma pergunta retórica, mas ele nunca admitiu – por que não admitir, penso, por que negar durante tantos anos, por que continuar negando?
Meu pai guarda um silêncio áspero e profundo. Finalmente diz que não, que não era pinochetista, que aprendeu desde menino que ninguém ia salvá-los.
Nos salvar de quê?
Nos salvar. Nos dar de comer.
Mas o senhor tinha o que comer. Nós tínhamos o que comer.
Não se trata disso, diz.

Talvez não se trate disso que o autor tem em mente. Não falar da ditadura, mesmo quando relembrando o passado, ainda seja complicado para quem a viveu e pode a entender. Talvez Raúl e Robert, que eram a mesma pessoa, poderia ter tido uma melhor aparição no primeiro capítulo do livro, chamado Personagens secundários, mas talvez o que importe mesmo é a infância que ocorria enquanto os adultos viviam uma história muito diferente da deles. Aladino e Claudia parecem estar perdidos num tempo em que sua geração ainda não se acostumou a viver em paz.

Diminuir, porém, o livro a apenas aspectos políticos não é o mais interessante. Observar a maneira como a construção da história se desenvolve é instigante e nos devora, de uma maneira que nos faz esquecer como voltar para casa, para a memória. Ao mesmo tempo, leva-nos a rememorar o que acontecia em nossa época de infância, enquanto brincávamos e o mundo se automutilava. Talvez seja mais interessante observar a ausência de presente nesses personagens, os quais parecem necessitar do passado para viver, como a mãe de Aladino. Parece que tudo, atualmente, está tranquilo, mas as crianças crescem e brincam enquanto os países se fazem em pedaços.




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23 de junho de 2014
A desumanização, de Valter Hugo Mãe

A desumanização, de Valter Hugo Mãe




Os grandes escritores são aqueles que cunham uma linguagem própria e que conseguem manter sua identidade por praticamente toda a sua obra. Pois bem, “A desumanização”, de Valter Hugo Mãe, é um desses livros que vêm para solidificar a escrita de um autor português que repete, em seus textos, a maneira de escrever e os temas que lhe são caros.

Apesar de Valter Hugo Mãe, em suas entrevistas, afirmar que suas obras, sua escrita, a cada livro, possui uma nova linguagem, uma nova “maneira de ser”, é possível observar que a fluidez das palavras, o som delas é algo constante em todas essas linguagens inventadas para a construção de suas narrativas.

Parece que, a todo instante, o autor está preocupado em dar novas “formas” ou novos significados não somente às palavras, mas às maneiras de se perceber o que existe a nossa volta. Isso se dá, muitas vezes, através das observações feitas em torno de Halla, a criança que se desumaniza: “Ela achava que deus era o corpo deitado da Islândia”. Tentar poetizar deus no país onde a personagem nasceu é uma maneira de universalizar, talvez, a crença no infinito partindo de algo finito e, principalmente, terreno. Valter tenta poetizar o que talvez seja impossível e ao mesmo tempo uma das coisas mais poéticas de toda a existência humana: a vida.



A vida que não é mais da criança, pois a mãe lhe culpa pela morte da irmã gêmea, mas tem no pai a poesia na palma da mão, que não se perde, mas sempre esquecida em recortes de papéis jogados nos abismos das almas, essas que não se salvam frente à imensidão e da força do frio da Islândia. Parece que Halla vive como seu país, num estado catártico em que não é possível conceber sua própria alegria, como se a mortidão do cenário existente estivesse presente em si desde o momento da perda da irmã. É como se o calor concebido a dois não pudesse mais existir, mesmo que com o Einar, seu amante, pudesse se deitar à cama, mesmo sem ter idade ainda para tal. Assim, Halla, quando quer fugir de si, imagina que “Os mortos podem ser só um instrumento da morte. Como se existissem para aumentar o reino terrível que habitam”, pois as pessoas já não mais existem, e por isso ela deseja deixar o Einar e correr para o abismo, como se a fuga fosse necessária ao invés de viver, pois no mundo da Islândia, apesar das pessoas tentarem se amar, elas não existem assim como no resto do mundo, pois as pessoas “estão a acabar. Foram embora para dentro da memória. Foram-se ressentidas. Agora são apenas uma recordação, como serão também uma possibilidade.”, já que “Esse tempo é outro. Serve [apenas] para matar”.

Leia Entrevista feita com o autor AQUI


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8 de julho de 2013
O filho de mil homens de Hugo Mãe e os desequilíbrios que unem os homens

O filho de mil homens de Hugo Mãe e os desequilíbrios que unem os homens



Amar é algo intrínseco ao ser humano. Você pode dizer que não, mas sabe que estará mentindo, pois isso está incutido em nós, ao menos é o que quero acreditar. A delicadeza e a solidão, que por desventura sentimos, sempre estarão ligadas, intimamente, ao amor. O amor é quem pode representar para nós a salvação, como diria o poeta russo. E é essa salvação que está inserida n’O filho de mil homens, escrito pelo autor português Valter Hugo Mãe.

Nos últimos três anos, Valter vem tido uma enorme aceitação entre os leitores brasileiros, sendo aclamado em festas literárias, como a conhecida Festa Literária de Paraty, na qual ficou extremamente emocionado. Isso tudo por possuir uma escrita que consegue mostrar as misérias humanas de forma tocante.

O filho de mil homens consegue criar histórias que nos comovem. Sem realizar apelos, constrói narrativas em que os temas são caros à humanidade de uma maneira totalmente compreensiva, pois estão perto de nossa realidade. Acredito, assim como outros leitores, que Literatura se faz com temas que nos fazem pensar sobre o nosso estado de ser humano e de nos compreender em meio ao mundo, à Natureza. E que quando nos deparamos com o fundo de nós mesmos, quando começamos a ‘cair para dentro de nós’, como dirá o autor, é que percebemos o que é a realidade.

Realidade que é sentida por Crisóstomo, que assume a tristeza de aos 40 quarenta anos não ser pai. Morando sozinho, acompanhado apenas de um grande boneco de olhos vermelhos, não consegue arranjar ninguém que lhe ensine o que é o amor ou a felicidade.

Essa realidade fere outros personagens como a anã, que mesmo sendo menor que as outras mulheres de seu povoado é mulher tão quanto elas. Ela, que tinha uma grande cama de casal e que era sempre visitada pelas mulheres hipócritas, teve um filho que veio a ter como tio o Antonino, que por sua vez não teve pai, e que por não ter tido um pai em sua infância acreditava que isso o fazia ser como era.

Já Camilo, que foi parido pela anã, que ficou sendo sobrinho de Antonino, ficou desfavorecido, mas por pouco tempo, até que conseguiu dois pais que lhe cuidassem das ideias. Um limitou o olhar do horizonte em vista do mar, mostrando-lhe o preconceito desde sua inocência. O outro ensinou que preconceito nenhum é o bastante para que não possamos querer bem aos outros e que assim como o mar, que aparenta ter um fim, não há fim para amar o próximo.

E Isaura, a pobre mulher que não teve sorte para o casório, mas que teve a sorte de casar com o filho de Matilde, homem de trejeitos imorais que quase lhe levara a falência dos sentidos perante a vida vivida, também não sabia o que era amar e pensava que amar era a espera, assim como Crisóstomo. A espera de saber o que poderia ser o amor. Ela sofria com os olhares alheios, apenas por ser solteira e por nunca ter tido homem algum consigo, além daquele que a enganara profundamente usando o amor como argumento.

Todos esses personagens sofrem de solidões e de marasmos do ser. O descaso que possuem consigo vai se desfazendo no momento em que um necessita do outro para que a vida passe de maneira menos áspera.

É a partir dessas relações, que de início podem parecer confusas como um pequeno redemoinho marítimo, que se fundamenta a narrativa de O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe. Homens e mulheres são desnudados incessantemente numa desarmonia durante as páginas do livro. Aos poucos, podemos perceber de que forma o caos se organiza na sociedade em que vivem esses personagens.

A felicidade é algo praticamente desconhecido para eles, pois não conhecem sequer o amor. Eles não sabem o que é isso e nem sabem se é possível sentir felicidade. Os personagens ‘hugoanos’ são de extrema instabilidade consciente. Sabem que podem ser o que desejam ser, mas têm a consciência que a sociedade os oprime e que isso é difícil de ser vencido. Perdem-se em seus pensares, pois não têm a quem se segurar. São como barcos instáveis em meio ao mar tranquilo, que desconhece as previsões do tempo.


por Nelio Paulo

Daí parece querer mostrar, o autor, que é possível, mesmo nessa sociedade caduca, totalmente desarmonizada, viver em harmonia com nossas diferenças. Esses personagens que caíam para dentro de si, quando estavam sozinhos, aprendem a dar a mão uns aos outros. Aprendem que para viver um pouco mais devem cair unidos e que essa queda se faz necessária, pois só assim será possível estar ao lado de quem ama.

Os personagens ‘hugoanos’ são homens perdidos. Assim como eles, tantos outros se fazem presente nesse mundo que parece não conceber pecado algum, ao mesmo tempo em que comete os maiores atos de atrocidade. Mais uma vez, percebo que a questão de se entender mais humano, de se sentir mais existente é o que fundamenta os grandes escritores. Sendo os personagens filhos de mães e de pais que muitas vezes não são conhecidos e que depois virão a ganhar novos pais e novas mães e novas famílias, a família aqui parece ser o essencial. Não no quesito sanguíneo ou amoroso. A união que nasce, no livro, por trás de uma cortina espessa de preconceito entre os próprios desvalidos é o que faz materializar o amor nas páginas de um pequeno povoado, à beira de uma praia.
  


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17 de maio de 2013
O alámo e o baóba de Zambra

O alámo e o baóba de Zambra


Estremeci quando li o último parágrafo do livro de poucas páginas de capa bonita onde vinha escrito A vida privada das árvores. Mal sabia eu do que se tratava o livro, pois as sinopses não me são bem vindas. Vez por outra resolvo ler um livro que ainda não ouvi falar ou que não sei a história. Isso me faz gostar ainda mais da escuridão que todo livro guarda.

E foi assim que iniciei a leitura da mais nova publicação, editada pela Cosac Naify, de Alejandro Zambra. Com sua escrita solitária, com um narrador solitário, conta-nos a história da vida privada das árvores, ou seria a história de Daniela?

O futuro é a história de Daniela.

O título é sobre a vida das árvores porque “Julián sabe mais de árvores que de países”, talvez por criar mundos ou por tentar criá-los. Talvez o título seja aquele porque Julián inventou o relacionamento entre o álamo e o baobá para colocar Daniela para dormir. Talvez tenha sido porque desejava ser escritor, não professor de literatura. E literatura era do que não gostava Daniela, apesar de ter lido, quando mais velha, o livro de Julián. Ou será que nada disso aconteceu e foi apenas o futuro da vida de Daniela escrito por Julián que acabamos imaginando por conta das ilusões do narrador?

É nesse ínterim de ações que ficamos, em certos momentos, ‘perdidos’ na narração de A vida privada das árvores, do autor chileno Alejandro Zambra. Mais uma vez, como em Bonsai, o narrador inicia a história nos alertando, deixando-nos apreensivos sobre o que trata a história.

Adiante, a história se dispersa e quase não há maneira de continuá-la, mas, por ora, Julián consegue um certo distanciamento...

E nessa dispersão ficamos sabendo que Julián não tem mais uma namorada, que o chamou de filho da puta e que o expulsou de casa. Ficamos sabendo que por ter feito uma encomenda se ‘apaixonou’ por Verónica, que não mais voltará, mas porque talvez esteja presa numa avenida trocando o pneu do carro, ou porque talvez esteja transando com outro homem. O que se sabe é que Verónica e Julián transavam no quarto branco, e que Daniela vivia no azul, que Julián não era feliz com o que podia ser e Daniela queria ouvir mais sobre a vida privada das árvores.

Era, diz o baobá, uma mulher de braços compridíssimos. No começo pensei que fosse uma menina, porque estava usando aparelho, mas não era uma menina, e sim uma mulher de braços muito compridos, que quase tocavam o chão. Uma mulher não necessariamente bonita, mas bastante esquisita: olhos verdes, cabelo curto e branco, pele escura, e um grande aparelho nos dentes, e aqueles braços compridos que quase tocavam o chão. Era ou tinha sido pintora, e se chamava Otoko.

O interessante em A vida privada das árvores é como Zambra, aos poucos, vai inserindo o padrasto na vida de Daniela e de que maneira se dá a aceitação da menina, com pouco mais de cinco anos, por Julián. A relação estabelecida entre eles é narrada de uma maneira que o leitor é levado a se perder. Há momentos, como quando o narrador diz que Julián escreveria o futuro de Daniela, que chegamos a nos perder entre realidade e ficção, entre presente e passado. Não sabemos se Daniela teve ou não teve uma conversa com seu pai, se levou ou não seus namorados até a ponte, se leu ou não leu o livro de Julián.

Julián é uma mancha que se apaga e some.
Verónica é uma mancha que se apaga e some.
O futuro é a história de Daniela.
E Julián imagina, escreve essa história, esse dia futuro: o cenário é o mesmo, Daniela continua vivendo no mesmo apartamento de agora, de então, foi reformado há pouco tempo – as paredes já não são verdes, azuis e brancas, mas tem coisas que, apesar dos anos, permaneceram intactas: Daniela sabe onde encontrar o chá, a torradeira, os alfinetes, a lanterna, a roupa de verão. Já não há tapetes sujos nem vidros trincados. Já não há aranhas, nem baratas, nem formigas. Daniela ocupa o quarto de sempre, o quarto azul, e no quarto branco estão os livros e os discos – o quarto de hóspedes agora é, com propriedade, um quarto de hóspedes: quase todas as suas amigas moraram ali depois de sair de casa ou perder o emprego.

E nesse torvelinho de imagens, de cenas que vão se criando, a partir do que Julián deseja para Daniela, o que se sabe é que ambos estão juntos, que ambos, mesmo em suas solidões, estão unidos. Mas nada disso é contado, tudo está na criação da nossa mente. Tudo fica ao nosso encargo.

Quando Julián percebe que já está tarde, que Verónica ainda não voltou da aula de desenho, começa a imaginar que ela pode estar com problemas ou traindo-o. Resolve, então, colocar Daniela pra dormir, e depois se dá conta que já são duas e meia da manhã e que Verónica ainda não chegara.

Acaba de dar uma série inútil de telefonemas que só aumentaram seu desespero. Julián anda pela casa arqueando os dedos nos sapatos, forçando as pisadas, como se caminhasse por um capo semeado de flores ou de explosivos. No quarto da menina um relógio em forma de Bob Esponja marca duas horas e meia da manhã. Deve ser a primeira vez que alguém olha para esse relógio às duas e meia da manhã, pensa Julián, como se essa ligeira certeza amenizasse a espera.

E nesse passar do tempo, o narrador, sempre ‘interrompendo’ a história, nos deixa a par do que vai acontecer, porque sabe que o que vai acontecer realmente não importa:

O romance continua, embora só para render-se ao capricho de uma regra injusta: Verónica não chega.

O cuidar de Daniela é que importa, nada mais. Às quatro da manhã é que Julián começa a imaginar que Verónica pode ter lhe deixado, lhe trocado por outro homem que lhe dê mais carinho e atenção, ou que a trate como uma cadela, como ele resolve imaginar; mas logo deixa isso de lado e remexe a memória para fugir desses pensamentos, porém “A memória não é nenhum refúgio”.

O álamo e o baobá, personagens das histórias de dormir, criadas por Julián e contadas à Daniela, são, talvez, a representação desses dois personagens que fundamentam o livro. Karla, Verónica e os dois amigos de Julián não importam para a narrativa. Ou melhor, importam, para compor a paisagem vista pelo álamo e pelo baobá.

Mais uma vez Zambra nos submete às relações vividas entre duas pessoas. Relação essa que mantêm uma solidão, não daquelas profundas que pode levar à depressão, mas aquela solidão que todo e qualquer ser humano possui. Somos invadidos por essa solidão naqueles dias em que nada mais importa, em que parecemos estar cansado do mundo, quando na realidade estamos realizando uma reflexão de autoconhecimento. Isso é necessário para Julián, isso é o que ele faz em várias partes do livro. Fustiga a memória como se estivesse em busca de algo que pudesse comprovar a sua maneira de viver e de trazer as respostas que necessita ter e é aí que mora Daniela, como se fosse uma âncora da realidade de Julián.


O que mais me surpreende na escrita de Zambra é que tudo é de fácil compreensão, principalmente pela sua maneira de lidar com o leitor. Parece que o narrador se sente mais à vontade conosco, até mesmo quando faz alguma piada indesejada ele se desculpa com quem ‘escuta’ a história. E isso vai fazendo a narrativa se tornar calma e serena. Ficamos lendo como se só aquela história importasse, como se só a vida de Julián e de Daniela é que fossem importantes. E com isso vamos criando raízes ao lado do álamo e do baobá, vamos ouvindo a história deles, assim como eles veem e ouvem a história de outras pessoas que os rodeiam.

E vamos chegando ao final, como se não quiséssemos largar o livro, como se não nos fosse possível viver sem a leitura. Os olhos correm pelas palavras, o entendimento anuncia um estremecimento e ficamos ansiosos ao imaginar o que vai acontecer. E o tato dos dedos nos levam a identificar que faltam apenas duas páginas para nos separarmos e ficamos ansiosos nos perguntando:

E Daniela? O que será de Daniela?

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12 de fevereiro de 2013
Mar de mineiro, o desaguar em si

Mar de mineiro, o desaguar em si



Cacaso não é um poeta fácil. Em sua escrita não cabe declarar adjetivos como ‘leveza’ ou ‘simplicidade’. O que há na escrita do autor mineiro, como em seu livro Mar de mineiro, publicado originalmente em 1982, é a escrita curta, imediata e sagaz. Escrita essa que se faz muitas vezes intolerante e ao mesmo tempo ácida. Porém, ainda assim, há de haver alguma explicação, ou não, para que se possa sentir o Mar de mineiro, para que tenhamos a possibilidade de sermos várias tantas outras coisas.

No primeiro poema do livro, Postal, o poeta traz consigo a sensação de perca, os leitores navegantes ficam sabendo que não existe mar algum e que a perca do caminho é tranquilo, e é ele quem pode nos tornar felizes.

                                             Nenhum mar.
Um domingo. Um tridente.
Dois cavalos. Meu coração segue cego e feliz.
                                             como
                     carta
extraviada


De imediato temos um contato complexo e amplo de uma imagem que, à primeira vista, não nos damos conta. E assim é em toda a obra. A amplidão dos assuntos tratados pelo eu-lírico, que ora passa despercebido entre todos, ora se preocupa com os valores familiares, tenta disfarçar o objetivo do poeta andante: ir de encontro ao mar. Aos poucos, o ponto de chegada vai ficando claro ante a perdição de Mar de mineiro, que não se sabe para onde, nem que caminho toma. Em alguns momentos é possível perceber a preocupação com o tempo, com a tentativa de apreender momentos que se passam ao nosso redor. Dessa forma o táxi é um dos objetos que se faz presente nos poemas para tentar nos guiar até esse local ainda desconhecido pelo eu-lírico. Como no poema No caminho da gávea, quando de dentro de um carro o poeta se põe a pensar:

A paisagem é impecável no seu
espetáculo simétrico e lento. O sol cochila
Do outro lado da rua e de mim
o mar deságua em si mesmo.


Esse momento, demarcado pela reflexão sobre si e o mundo, também vai estar presente em outros poemas, mas de forma irônica, como em Táxi, quando o poeta ironiza sobre as pessoas rudes:

O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão deste universo.
Como será o amor das pessoas rudes?

Essa ironia não pode ser tida como algo negativo ou algo que queira rebaixar a condição da amante e até mesmo de sua posição, pois

O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas de delicadeza.       

Logo, o importante para ele é refletir sobre os momentos delicados entre os homens, é refletir como se dá a relação natural da humanidade e a relação que o poeta andante procura ter com a natureza quando se vê como um reflexo do mar. Tal relação, a delicadeza que tanto o deixa curioso, se perde em certos momentos quando se dá o Convívio entre os homens, como diz o poema de mesmo nome.

aos poucos
todos ficam pensando como será daqui a pouco
o enterro de cada um

Ou quando critica ferozmente, com poucas palavras, o homem que tem a opção de ser delicado ou não consigo próprio e com os outros. No poema A palavra do $enhor, por exemplo, a crítica é ferrenha além de irônica, sem necessitar de explicações:

No princípio
era
a Verba

Modificando o vocábulo para o feminino para dar uma nova significância à palavra, como se agora o vocábulo fosse um representante da ‘grana’. O poeta, através de suas reflexões, faz parecer inadequado a sua preocupação sobre a relação dos homens, já que alguns, que possuem o ‘poder’ de ajudar, só querem beneficiar a si. Isso tudo parece ser o grande problema, a falta de harmonia entre esses mesmos homens que não sabem ser apenas humanos, que não sabem lidar com a beleza que possuem em si. Por isso, a ironia ácida nos pensamentos do poeta andante se faz presente em vários outros poemas.

           

Não esqueçamos, pois, que a procura pelo mar de mineiro ainda não terminou. Praticamente não começou. Parece que entre tantos poemas divertidos, como em Salário mínimo –

De noite sou amante da empregada.
De dia sou patrão da amante.
           
–, o poeta viajante percebe que talvez não seja mais possível encontrar o desejado. Que talvez a sua realidade constitua apenas a qual já foi definida: desaguar em si mesmo, como o ponto de encontro com todo o resto, anunciando, dessa maneira, a sua quase desistência para entender os homens, o mundo, como fica nítido em a Máquina do tempo.

E com respeito àquele problema do
futuro acho que vou ficando por aqui

Talvez essa busca simplesmente nem exista. Talvez o que deseja o poeta, que só ambicionava procurar e entender a delicadeza que a humanidade possui, narrando todos os momentos que ele percebeu ou que ele viveu, não se pode saber ao certo, signifique apenas um viajante que narra o que lhe convém, talvez seja esse o seu prazer: observar. Mas acreditamos quando dizemos que o mar é a representação da sua salvação, para que não desague em si mesmo, para que encontrando o mar possa entrar em comunhão com o mundo e sentir a si próprio transbordar, como se tudo o mais não importasse e que assim seu coração possa ainda seguir “cego e feliz”, mas estando em contato com a natureza, com o todo, pois ela é a significância máxima para a sua existência. É com ela que ele deseja entrar em comunhão, já que as relações humanas lhe estão desacreditas. No poema O mar alguém lhe diz:

De noite, o mar sobe
O mar puxa o homem mau
E refresca o bom.

Esse homem que observa, mas que não sabemos se é bom ou mau, deseja desaguar em si de todas as formas. As observações realizadas, perante o seu percurso, é como se fosse uma forma de preparo para o encontro com o mar. E antes de se tornar O Fazendeiro do mar, ele passa por vivências em certas fazendas, demonstrando, a partir de observações do seu cotidiano, que tem de estar preparado para tudo, como diz em um dos poemas:

Aqui tem 3 tipos de veneno pra rato.
E 4 tipos de rato pra veneno.

Não sabemos, portanto, como se dará esse encontro, nem como ele poderá se preparar para tal. Porém, o fazendeiro encontra o que antes não tinha certeza e que aos poucos foi tomando forma: o mar, seu complemento, converge para ele como se fossem um só. No último poema, como um transbordamento dos sentimentos do poeta, fica evidente que, em sua comunhão com a natureza, ele pode ser um pouco de tudo, ora sendo isso, ora sendo aquilo. Daí, a criação das rimas que vão aparecendo e dos exemplos do que o mar é, e consequentemente do que ele pode vir a ser:
           
Ele então, Mar de mineiro, vai ser inho, vai ser ão, vai ser vinho, vai ser vão. Pode ser sovina, pode ser savana, também pode ser rio, pode ser horizontemagosenhatrampo, goiás, campinas, aquário e tantas outras opções. E assim finda o livro, como se tudo não fosse uma ilusão. Ilusão essa que só nos é permitida acreditar quando relacionamos o teor do poema com o mundo exterior, procurando um significado na palavra ‘mineiro’, e lembrando que em Minas não há mar, mas que é possível criar o seu mar, criar o seu mundo; como se cada pessoa fosse responsável pelos seus atos, pela sua significação no mundo. 

Cacaso é um autor pouco comum. Talvez seja daqueles poetas de quem se gosta ou se odeia logo na primeira leitura. Sua escrita é como uma dedada no olho, quase a nos cegar, mas que, às vezes, pode ser como um gracejo a nos fazer cócegas. 


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14 de janeiro de 2013
Bonsai, uma paz solitária

Bonsai, uma paz solitária




Mente quem diz que não compra um livro pela capa. A capa de um livro, para os leitores mais fanáticos por design, tem chamado cada vez mais a atenção. Bonsai, de Zambra, chama a atenção. Isso poderia bastar. Poderia ser motivo para ser comprado e para ser deixado de lado, apenas por possuir uma bela capa. Mas não, a linguagem simples e ‘engalhística’ do autor chileno nos faz pregar os olhos nas frases curtas, rápidas e arredias até o final do romance.

O livro é despretensioso. O texto formatado nas páginas lembra os originais que teriam sido enviados à editora, com marcação de uma diagramação ainda por terminar. Iniciamos a leitura com curiosidade por ver aquelas letrinhas minúsculas e parágrafos tão curtos. De pronto, o narrador nos conta que existe Julio e que existe Emilia. Que esta vai morrer e que ele não.

Ambos os personagens, “que não são exatamente personagens, embora talvez fosse conveniente pensá-los como personagens”, não se conheciam até o momento em que se encontram na casa de amigos para estudar. Porém, o estudo é o catalisador para que algo entre os dois possa existir.

As frases de Zambra nos envolvem como as curvas de um galho, nos fazem pensar que estamos indo em certa direção, quando, na realidade, estamos sendo enganados, estamos sendo envolvidos pela escrita. Não uma escrita circular, mas ramificada. É como se a existência de Emilia e Julio mantivessem os “galhos” do livro, as histórias que vão surgindo, vivos. Os personagens e histórias que vão aparecendo, aos poucos, não são o cerne da questão, diz o narrador, mas ao mesmo tempo ele se dispende em alguns parágrafos para contar a história e delinear cada personagem que aparece. Há exemplo disso quando o narrador nos diz, de diferentes maneiras, que isso ou aquilo não é importante e começa a relatar sobre o que não deveria ser relatado. Como quando fala de Anita ou quando fala da morte de Emilia ou ainda quando fala do fim do romance (da obra e da relação amorosa).

E essa talvez seja a tensão que nos deixa imóveis, com os olhos atentos ao que vai acontecer a cada página lida. Dessa tensão nasce a relação dos estudantes que se inicia com uma mentira. Essa mentira não é algo tão escandaloso, não envolve outras pessoas, não é algo tão estarrecedor. Mas a mentira contada por ambos, talvez por vergonha, talvez por pedantismo, sabe-se lá por qual motivo, é sobre um livro. Para ser mais específico é sobre ter lido Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust:

A primeira mentira que Julio contou a Emilia foi que tinha lido Marcel Proust. Não costumava mentir sobre suas leituras, mas naquela noite, quando os dois sabiam que alguma coisa estava começando entre eles, e que essa coisa, durasse o quanto durasse, ia ser importante, naquela noite Julio impostou a voz e fingiu intimidade, e disse que sim, que tinha lido Proust, aos dezessete anos, num verão, em Quinteiro.  


E pela ênfase dada pelo narrador, pode-se chegar a pensar que esse é o ponto de partida para o entendimento sobre as relações casuais que são narradas em Bonsai, que a mentira que iniciou a relação de Julio e Emilia é o pilar fundamental para o entendimento da paixão dos dois e da obra. Não quero acreditar que seja isso, talvez por acreditar que o ponto de partida para Zambra é outro.

Talvez seja mais interessante imaginar de que maneira ambos os personagens conseguiam ler antes de transar. Sempre. Eles liam bastante antes de irem para a cama.  Julio certa noite inicia a leitura de um poema em voz alta para Emilia e isso os excita, os deixa animados para repetirem a dose. A leitura então começa a fazer parte do ritual sexual daquele casal. Ela e ele sempre conseguiam isolar uma parte que fosse de cada conto, de cada texto, que pudesse “aquecê-los”, mesmo que nada de erótico existisse naquele texto, naquele conto.

Nem sempre é fácil encontrar nos textos algum motivo, mínimo que seja, para trepar, mas no fim sempre conseguem isolar um parágrafo ou um verso que, caprichosamente estendido ou pervertido, funciona, aquece-os. (Gostavam desta expressão, “aquecer-se”, por isso a registro. Gostavam quase tanto como de aquecer-se de fato.)



Numa dessas leituras a dois, sobre a cama ou em qualquer outro lugar que o leitor possa imaginar, Emilia e Julio leram Tantalia, conto de Macedonio Fernández, “que os afetou profundamente”. Na história havia um casal e uma plantinha, e que se a plantinha morresse a paixão entre ambos também morreria. Ficam sabendo que esse casal tenta se livrar da plantinha entre tantas outras iguais. Essa história os impactou, e veio o silêncio.

Mas foi com Proust que tudo se arruinou, ou aparentemente sinalizou o fim do relacionamento dos dois personagens, que não se sabiam personagens, mas que poderiam sê-los. Foi lendo Proust, No caminho de Swan, que puderam entender que :

Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la.


Parece que ambos sabiam, desde ‘Tantalia’, o que ia acontecer. E Proust os arrebatou com essa frase em seu livro na página 374. Talvez isso tenha sido impactante por tê-los feito entender que uma hora esse momento chegaria. Que aquele silêncio no início, transformado em mentira, viria à tona em algum momento para fazê-los entender que sem uma plantinha viva a paixão acaba. A leitura que os aquecia, que os animava nas noites de sexo, tinha sido o catalisador para sua animosidade e para seu declínio. A gota d’água para o fim do relacionamento.

E do término do relacionamento parece que se inicia o nascimento de novos ramos ou da criação de novas histórias. Dividido em cinco partes, Bonsai consegue ficar rígido e em harmonia com o todo. Apesar das ramificações feitas pelo narrador, que ora nos conta sobre Julio, André, Anita, Maria, Gazmuri, Emilia, faz o texto permanecer de pé, já que tudo está ligado, ou melhor, entrelaçado.

Emilia morre. Julio, desempregado, finge escrever um livro, o livro que seria de Gazmuri, e que no final vai se chamar Bonsai. Ambos se distanciam da realidade. Emilia, não se sabe por qual motivo morre e Julio sem motivo algum escreve.

O narrador segue contando como poderia acontecer certas ações ou como elas realmente aconteceram até chegarmos em ‘Dois desenhos’, que é o último capítulo e que se inicia assim: “O final desta história deveria nos animar, mas não nos anima”.

Não se sabe ao certo o que acontece, mas há fuga da realidade. Julio, após conseguir um emprego e ter conhecimento da morte de Julia, percorre a cidade dentro de um táxi e isso basta, que siga até onde o dinheiro puder pagar, mas há algo a mais.

O romance desde o início trata de uma solidão, é nisso que desejo acreditar. E nos deixamos enganar, pelas histórias, pelo caminho dos galhos, que tudo talvez não passasse de uma relação entre um casal que teve os seus caminhos separados, mas só sabemos ao final ou quando voltarmos ao início.

Ao finalizar o livro, se voltarmos ao primeiro parágrafo, nos daremos conta de que:

No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia.


Essa solidão, de sentir-se só, acredito, foi o que Zambra quis demonstrar. Obviamente não posso afirmar isso. Mas se olhássemos para um bonsai, poderíamos entender talvez, além da sua paz de espírito, como alguns poderiam taxar, a sua solidão. A solidão de uma árvore contida num jarro. Independente. Só. Desligada do mundo. A terra em que o bonsai cria raízes não está em harmonia com a Natureza. Há a cisão entre o bonsai e a Natureza. E talvez seja essa a representatividade que Bonsai nos queira passar, e que a premissa bonsai inclui uma retenção do tamanho, como se ele não pudesse extrapolar certos limites.

Em todo o caso, na história de Emilio e Julia há mais omissões que mentiras, e menos omissões que verdades, dessas verdades que são chamadas de absolutas e que costumam ser incômodas.



A linguagem simples e enganadora do narrador nos ludibria. Nos deixa levar pelo tom irônico da despreocupação que a voz narradora tem em contar as histórias. Quando na verdade toda a história é uma demonstração de como o mundo se sente só. De como as relações que são estabelecidas entre as pessoas podem ser como um bonsai. De como a paixão que pudemos obter em harmonia pode ser o nosso bonsai, o nosso ‘elemento vivo’ e nós os vasos. Talvez seja essa comunhão que deva ser encontrada, mas que sempre é dificultada por sentirmo-nos sós. Por estarmos sós, mesmo que acompanhados. Talvez seja a solidão mental que nos mata, que nos envolve e faz com que queiramos sair do vaso e daí já não seremos mais um bonsai, seremos apenas solidão.


Um bonsai é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente. Os dois elementos têm de estar em harmonia e a seleção do vaso apropriado para uma árvore é, por si só, quase uma forma de arte. (...) Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo. Uma vez fora do vaso, a árvore deixa de ser um bonsai.




Fonte: ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. CosacNaify, 2012.

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31 de outubro de 2012
A triste alegria de Drummond, a nossa alegria

A triste alegria de Drummond, a nossa alegria


Pensar na Poesia de Carlos Drummond de Andrade é lembrar de referências evidentes e repetidas ad infinitum em instâncias diversas, como os livros didáticos para o ensino médio e para os acadêmicos de letras, pelo menos, além da ainda recente internet, que oferece referências parecidas e possibilita ter acesso a outras. Como não lembrar do Drummond gauche do “Poema de sete faces” ou no pretenso engajamento de A rosa do povo, com flor furando asfalto? Poderíamos ainda destacar outros poemas, como “Procura da poesia”, “Sentimental”, “Explicação”, “Necrológio dos desiludidos do amor”, “Sentimento do mundo”, “José”, “Aliança”, entre tantos outros que circulam de maneira discreta nas energias que sustém a poesia.

Dizer que Drummond é um grande poeta pode partir da aferição do volume dantesco de seus escritos ou mais especificamente do contato afetivo que se deve manter com seus poemas. Até então, contávamos com 23 livros de poesia. Os 25 poemas da triste alegria, publicados pela editora Cosacnaify neste ano de 2012, se materializaram em edição fac-similar apresentada e comentada pelo também poeta Antônio Carlos Secchin e vêm a aumentar o conjunto. O mais curioso, talvez, seja que a edição conta com comentários feitos pelo próprio Drummond anos mais tarde (o livro seria de 1924 e os comentários de 1937). E, acredite, os comentários são ferozes: “Salvo um poema, que resultou de um movimento de sensibilidade (pág. 34) os demais podiam deixar de ser escriptos. São exercícios à moda do tempo, tímidos e mecânicos” (p. 23). O que, nós leitores, faremos com poemas tão desprezados pelo próprio signatário? Lê-los é uma saída.

O primeiro poema da coletânea, intitulado “A sombra do homem que sorriu”, parece abrir o conjunto colocando em cena um Drummond lírico que não daria valor aos passos e pedras do caminho, como um ser que decide apagar a tristeza da memória pessoal e também da coletiva:


Os “tapetes”, objetos que remetem à casa do homem, mas também a outros espaços visitados e pisados no estar a ser, contrapõem-se à taça que, com bebida, deve ser degustada na própria suspensão da percepção do tempo e do espaço. Humaniza-se, entretanto, quando entende o fluir do tempo e com ele brinda, “com desdém”, mas aceitando o jogo imposto. O homem passou, de certo, mas e os poetas e seus escritos, esses ficam? O Drummond poeta e seus escritos aqui estão.

O tempo, afinal, também é evocado em outros poemas da coletânea, como o “Quase-nocturno, em voz baixa”:


O crepúsculo, como momento em que temos a presença do dia que termina e da noite que se aproxima, é um estado de alma que reflete o silêncio que se curva perante a majestade do tempo e de seu fluir incessante. Ambiente de incertezas, em que as coisas ganham nova roupagem, o crepúsculo parece fazer definhar o corpo do interlocutor (ou interlocutora, o ser admirado). Ou antes, a repetição desse crepúsculo é que age e veste de “cinza transparente” as mãos admiradas e envelhecidas.

Em “Como se eu fosse um poeta resignado”, a tristeza envolta em resignação é o que conduz o poema. O eu poético nesse momento se mostra com certa repulsa a atitudes antes frequentes. Agora, ele diz, está resignado. O que parece contraditório. Tal conformismo não teria engendrado uma escrita de tal ordem. Em todo caso, a relação que pode ser entendida com outro ser, ou mesmo com a própria escrita (evocada por ser objeto e fim da figura do poeta), era antes “devotamento” e “submissão”:





No decorrer do poema percebemos que não existe uma mudança significativa após o fingimento de atitude (fingimento, pois que o título introduz a ação com um “como se”...). Assim, entendemos que a relação do poeta com a escrita (figurativamente feminina) não é tranquila a ponto de ser conformada, resignada.

Como o título do volume sugere, a tristeza é parte fundamental dos poemas habitantes. Em “Minha tristeza de porcellana”, o poeta convida a tristeza para cear como a uma dama se pede a companhia. Chega a pedir-lhe beijos e carícias transformando-a em coisa amada. De outro modo, podemos fazer a leitura contrária e pensar que a coisa amada é, agora, referenciada como a tristeza do poeta, aquilo que faz extremo mal, mas sem o que não se pode viver.




Foram poucos os poemas percorridos, porém pudemos entrar um pouco em sintonia com os escritos que encontramos na edição. Eu não arriscaria incluir nestas palavras um julgamento de valor tão assertivo como foi o do próprio Drummond. Entretanto, arrisco-me a dizer que de certo a maturidade trouxe certa cautela no uso de alguns temas, como a linguagem a serviço de imagens eróticas (relativizar o termo). Celebremos, hoje, não somente o dia D, mas a contribuição inequívoca que a poética de Drummond trouxe para a literatura e para os amantes de poesia. Se por literatura entendemos novos ângulos de se olhar o mundo, então Carlos Drummond de Andrade soube olhá-lo como poucos. Desviemos as pedras para pisar nessas letras vermelhas de paixão pela arte e pelo seu ofício.

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