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21 de junho de 2014

Literatura é fingimento OU O carnaval dos curumins





Há um fenômeno na literatura brasileira que tem se agravado mais a cada ano: os jovens autores da nossa literatura que se dão ares de celebridade. Seja porque se tornam midiáticos com o advento das redes sociais, seja porque as editoras fazem matérias pagas parecerem elogios verdadeiros, o certo é que há nas nossas letras, nos últimos anos, uma leva de “personalidades literárias” que  aparecem em fotos enormes no jornal, têm cinco mil amigos no Facebook e vão às muitas feiras literárias pelo país, almejando ou vivendo um estrelato que só existe na cabeça deles. 

Ora, sabemos que, à exceção do Paulo Coelho e mais uns três gatos pingados, nenhum autor consegue viver exclusivamente de literatura, a menos que viva uma vida inspirada nos hábitos de São Francisco e ande muito de bicicleta, porque do contrário, haja palestra e curso para complementar a renda. E tudo isso é muito, muito digno; eu diria até necessário a um país que começa ainda a formar os seus leitores, depois dos adventos de grandes booms literários que fizeram as recentes gerações despertar para a leitura e a consequente formação de leitores – ou compradores de livros, o que para as editoras dá na mesma.

Mas não estou falando do escritor descrito acima. Estou falando de um tipo muito mais peculiar. Acompanhe o caso: dia desses, abri uma revista de cultura e me deparo com uma entrevista na qual o articulista já começa dando a entender que o entrevistado é um chato (ele até faz uso do adjetivo), mas de forma disfarçada, descrição feita de propósito, até, digamos, para já ajudar a criar a atmosfera do que viria a seguir. Mas é isso mesmo. Pelas afirmações do entrevistado, o leitor da matéria tem a nítida impressão de que estamos dando a conhecer um Shakespeare das letras brasileiras, inclusive com todos os medos, receios, inseguranças, faniquitos e pseudo-humildades inerentes a todos os que, no fundo, querem dar a entender que estão escrevendo uma grande obra. Pose, muita pose. Mas estão ali, firmes! São verdadeiros arautos da Nova Grande Literatura Brasileira (quiçá universal. Aliás, quiçá não, no seu devido tempo, universal sim, com certeza! Pelo menos segundo estes incautos literatos).

Ler uma frase como: “Dizer que ler melhora as pessoas é a pior forma de elitismo. Literatura não muda a vida de ninguém" é de lascar. Elitismo é soltar frases de efeito com a boca cheia de verdades absolutas, verdades fundamentais. E o autor da frase justifica tão gloriosa afirmativa com o exemplo de que seus irmãos tiveram acesso aos mesmos livros que ele, mas não gostam de ler, e nem por isso são menos felizes. Equívoco, meu caro, equívoco! Primeiro porque não se pode, com a mente sã, falar por todo mundo sem antes perguntar a opinião de cada um dos envolvidos. Alguém, além de mim, compreende que não há como ele saber a respeito do nível de felicidade ou infelicidade de seus irmãos porque a vida deles só cabe a eles?

E tem mais: literatura não muda mesmo a vida de ninguém. Assim como não muda o fato de você ter ganho o prêmio acumulado da mega-sena, ter a pessoa mais interessante do mundo apaixonada por você, ter um emprego bacana ou pessoas dispostas a serem amigos verdadeiros. Nada disso muda a vida de  ninguém, se o personagem envolvido em cada um dos exemplos acima não se permitir nem fizer bom uso da oportunidade diante de si. Portanto, obviamente que a literatura não muda a vida de ninguém. Não há coisa alguma no mundo que o faça por si só. É preciso deixar-se tocar para que a mágica aconteça. Sem o elemento humano do permitir-se, tudo o que se tirar da cartola não passa de um mero truque de circo. Permita-se, e a magia acontecerá, e só aquele que se permite compreende o quão arrebatadora é essa força.

Mas não me surpreende. Esta leva de escritores é resultado de uma turma mimada que cresceu no mundo da internet vendo que, lá fora, determinados autores possuem o status de celebridades. Em terras tupiniquins, ninguém chega sequer perto disso, principalmente em termos de finanças e contratos. Mas a pose, repito, ah!, a pose, essa existe. E tem que fazer bonito pra sair na foto parecendo mesmo que é o que se pensa ser. Ou seja: uma trupe de deslumbrados – e iludidos. Essa coisa meio tribo indígena ainda por ser descoberta pela sociedade, essa turma de gente intocável que sabe muito bem usar a máscara da camaradagem.


E por falar em máscaras: “Uma reclamação muito comum que fazem à literatura contemporânea brasileira é que ela só escreve sobre o seu mundinho, uma Higienópolis branca e classe média. (...) Muita gente se inspira na própria vida para fazer ficção. No meu caso, o que inspira não é a vida, e sim outras obras. Meu dia a dia não tem nada interessante para ser literatura”.

Volto ao que disse antes: eis aí o exemplo acurado da turma que cresceu diante do computador e acha que se basta, que interagir para além do portão de casa cansa a beleza, e fazem logo aquela cara com um biquinho de nojo. Autores que olham de esguelha, com aquele olhar de “não encosta aqui não, querido!”. Sabe aqueles vendedores de determinadas lojas que se escondem quando a gente vai chegando perto para pedir ajuda? Aqueles que nos atendem com cara de quem estão fazendo um favor descomunal? Pois são estes. Afinal, quem não escreve sobre a vida escreve sobre o quê? E as “outras obras” por acaso baseiam-se em quê? Onde é que está a piada no que esse arrogante inominável disse?

Não tem piada. Ele realmente disse o que disse, a sério.

Você poderá vociferar, pensando que tem razão: “Mas o Mário, o Oswald de Andrade, Tarsila, não participaram das “feiras” de suas épocas?” Participaram. Mas não existe nos anais da história desse país um só registro de que eram desses ignóbeis. Ao contrário, ao contrário! Eram de uma humildade de fazer Gandhi e Madre Teresa corar, de fazerem Nelson Mandela e Chico Mendes parecerem escravocratas latifundiários. E esse cidadão, quem é? Pois eu vos digo: rigorosamente ninguém. Rigorosamente uma garrafa d’água vazia encostada na parede de cabeça para baixo para não virar criadouro de mosquito da dengue. A distância que o separa de mim e de você é que ele é como um gato de telhado – que passa a noite aos gemidos, grunhidos e miados, às vezes mais distantes, às vezes não, e essa é a obra dele (e dessa leva de párias na qual ele está representado): fazer barulho, querer causar, querer incomodar. Acontece que enquanto eu ou você reclamamos com aquilo que é pertinente, mostrando os dentes, ele reclama fazendo pose para as fotos. É dessa gente que no dia que morre, morre também a obra sem deixar vestígio, e tal como o gato lá em cima no telhado, quando some só deixa alívio.

Mas voltando à ideia do coletivo ao qual ele pertence: trata-se de um pessoal que está no Facebook, no Twitter, no Instagram, se duvidar ainda mantêm seus perfis de Orkut e guardam arquivos da época do MSN, com a esperança de que ainda farão algo com aquilo (ou porque acham que tudo que um dia escreveram, em algum momento poderá valer ouro). São autores que estão presentes nestes muitos blogs de editoras que viraram febre - parece-me mesmo que depois que uma grande editora criou o seu, se as outras não seguissem, era o atestado claro de que eram nanicas diante da "poderosa" - escrevendo textos-umbigo, repletos de loas a si próprios, onde não há uma só linha em que um ego maior que a solidão do território lunar deixe de transparecer. Ora, mas que dizer desses egos, ou de qualquer um? Ego é um negócio mais antigo do que o próprio Tutancâmon mumificado, mais antigo do que as pirâmides do Egito - com o senão de que ego inflado, em momento algum, chega a ter qualquer tipo de beleza.   

É dessa leva de deuses da atual literatura brasileira que devemos nos resguardar, e observar com cautela. Midas tem muito a nos ensinar. Não consigo enxergar com bons olhos essa gente que almeja a ubiquidade. Bem sabemos que quem quer estar em toda parte não está em lugar nenhum.

Fora que essas pessoas são verdadeiras nulidades enquanto gente. Existem para essas redes como personagens de si mesmos, são pessoas de papelão, capazes de curtir aquela foto enorme com uma flor igualmente gigantesca onde está escrito em cima ou abaixo em letras garrafais e cores berrantes Bom dia seguido de trezentos e vinte e sete pontos de exclamação, se assim lhes aprouver (ou se vier de algum “amiguinho” de rede social), mas são de uma verdadeira vacuidade para assuntos sérios. Reflita comigo: quantos desses vocês já viram em qualquer lugar da mídia acrescentando seus dois centavos que seja sobre as nossas diferenças sociais históricas, sobre a Torre de Babel que são os três poderes, sobre as mazelas do nosso país? Se você viu algum, pode ter certeza que ele não é o mesmo que frequenta festas literárias a rodo, nem se acha o rei ou rainha da cocada preta. E sabe por quê? Porque esses autores metidos a VIPs – ou reis e rainhas do camarote – não querem deixar de agradar a todos. E quem quer angariar um séquito a este preço, francamente, está fadado a levar uma facada nas costas, ou no baço, ou onde quer que seja. São pessoas que não se arriscam para nada. Não porque elas não tenham pensamentos a esse respeito. Mas é que são muito indiferentes a isso tudo; quando não, aliado a isso, não querem perder leitores desse ou daquele segmento ideológico.


Outra frase pescada da dita entrevista, a última, e retumbante verdade colossal: “Em literatura dá pra fingir melhor” [que é inteligente]. Podemos concordar. Basta a gente olhar certos vencedores de determinados prêmios, nos quais os laureados – e nem precisa investigar muito – é afeto desse ou daquele. Da mesma forma, outros deixam de ganhar o prêmio porque são desafetos desse e daquele jurado. Literatura é ou não é fingimento?

Finge-se melhor em literatura quando não se sabe fazer outra coisa a não ser mentir. São autores que, como num carnaval, usam as máscaras que querem, escolhem para si os personagens que querem, sem lembrar que a festa do rei Momo acaba na quarta-feira de cinzas.

Intocados em suas ocas, esses verdadeiros curumins não conseguem compreender a fragilidade de suas próprias vestes, e muito menos de suas próprias máscaras. Querem montar um cenário chiaroscuro, onde ora parece que contribuem com algo de valor, ora são apenas o que são: pastiches de si mesmos.

O que me vem como muito certo é que a literatura não precisa de gente que chega aos holofotes para vilipendiá-la. Muito menos travestido de eloquente inteligência. A literatura precisa de críticos de verdade, de gente que tenha opinião legítima – e não opiniões baseadas na polêmica, nas frases de efeito. Aliás, que recurso cansado, este, hein? Utilize-se de outro expediente, caro escritor grandiloquente, porque, francamente, a literatura requer gente que a ame de verdade – inclusive para descer o sarrafo! – e não de foliões de três dias.

Terminada a leitura, abre-se o clarão da certeza, como Moisés foi capaz de abrir o mar vermelho: se todos os chatos do mundo deveriam fazer literatura, como sugere a revista na qual li o mencionado agrupamento de impropérios, percebe-se claramente que os chatos brasileiros têm se esforçado bastante.

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