Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
4 de agosto de 2014
A literatura e o ato de esculpir um cavalo

A literatura e o ato de esculpir um cavalo



Como se fizesse um cavalo é o título de uma das obras de Marina Colasanti. Um título excepcional, diga-se de passagem. O nome escolhido pela autora caiu muito bem com o primeiro texto do livro. Partindo de uma resposta de Michelangelo, quando lhe perguntaram como esculpir um cavalo, ela traça um paralelo para discernir sobre o que seria sua vida sem a literatura, ou melhor, sem a leitura.

Conta-nos que sempre que conversa com algum amigo e pergunta de que maneira ele havia começado a se interessar pela leitura, ela descobre que há sempre um primeiro livro, como se fosse um marco, que estabelece o antes e o depois da vida de uma pessoa a partir de uma determinada obra. Na de Marina isso não existiu, sua mãe sempre esteve presente, desde a infância, a demarcar o território da literatura em sua casa. Ela não lembra do primeiro livro que leu, pois ela adentrou o mundo da literatura muito cedo, e ainda nem sabia como esculpir coisa alguma.

Assim, Colasanti vai destrinchando suas leituras e se desfazendo delas para que, ao final, possamos saber o que sobraria de si, o que poderia sobrar de qualquer leitor ao se desfazer dos autores que amam. O que seria de cada indivíduo fascinado pela literatura sem as histórias de seus escritores preferidos? Mudaria alguma coisa? Será que é realmente importante a arte na vida das pessoas?

Despedindo-se de Peter Pan, de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e muitos outros personagens, Marina desvenda o abismo da alma que podemos possuir sem a leitura fantasiosa a qual nos proporciona entender muito do nosso convívio social. Sai das fantasias de criança até as leituras homéricas, mostrando que não deveria ser possível viver apenas de um gênero. É como nos avisasse que não podemos perder tempo dispendendo forças em apenas um tipo de história. Como se fosse nossa responsabilidade nos inquietar:

Estou tentando esculpir um cavalo, e para isso terei que me desfazer de outro. Empurro sobre suas rodas, para fora da minha infância, o Cavalo de Troia. Nunca mais cavalos serão tão importantes por dentro quanto por fora. Terei que aprender em outra parte o poder da astúcia, e o custo da boa fé.

E quanto ao que aprendeu nos livros que criavam mundos ou que transmitiam o que acontecia na realidade, Marina expõe a fragilidade do homem frente ao mundo que nos rodeia. Pelo que observei, nas entrelinhas lê-se que quanto mais rápido começamos a ler, principalmente literatura, fica mais fácil escolher as veredas neste mundo tantas vezes insensíveis.



Ela não quer que esperemos o momento certo para ler, assim como os seus namoradinhos que esperaram e acabaram ficando de lado, não seria prudente afastar as crianças, os jovens da literatura, é necessário que leiamos. E, talvez, do jeito que vamos isso seja cada vez mais urgente:

Depois do primeiro namoradinho, houve um segundo. E lemos juntos. E um terceiro, que já não era apenas namoradinho. E lemos juntos. Houve um no meio, e não lemos juntos porque ele não gostava de ler; dizia que o faria mais tarde, quando fosse velho e tivesse tempo sobrando, e eu achei mais prudente não esperar para verificar.

Ao final do primeiro texto, Marina confessa não poder continuar na empreitada. A dificuldade de esculpir um cavalo a partir de um bloco de mármore para um iniciante é a mesma que ela sente, após anos de leituras, ao querer se desfazer de tudo que apreendeu e tem consigo. Suas leituras não podem ser abandonadas, já fazem parte de si, seu corpo já não é possuidor apenas de carne e ossos, está inserida na memória. As ideias estão presentes por causa da Literatura:

Eu poderia tirar todo o mármore, toda palavra escrita, e ainda assim não chegaria ao que a leitura fez por mim, porque aquilo que eu poderia ter sido sem a leitura nunca existiu. Chegaria, porém, àquilo que já sei: que a leitura me fez assim como sou. Interagindo com meu DNA, com as circunstâncias da vida, com os encontros e os desencontros, mas sempre presente, ajudando-me a elaborar cada gesto, cada ato.

E é a partir de encontros e desencontros que começa a ajustar o pensamento em torno do livro. Que objeto é este que move capitais e que ao mesmo tempo nos fascina pelos seus conteúdos? Por quais razões somos tão estúpidos em deixar de lado livros de autoajuda, em que conseguem, mesmo sendo desprezados, ser tão certeiros como conselheiros de vidas alheias?

Ele nos fala de uma cultura que não respeita seus velhos, que não reconhece neles a sabedoria dada pela experiência, pois relaciona sua experiência a um mundo ultrapassado, que nada mais tem para ensinar. E que, não respeitando os velhos, ignora seus conselhos e perde, com isso, preciosos guias.

Será que perdemos os nossos guias e estamos dispostos a comprar sempre aqueles livros que são apenas de nosso gosto? Não estamos aptos, mesmo com tantas leituras, a respeitas os mais diversos gêneros e saber ‘ler’ neles seus pontos positivos?

São muitas as perguntas, realmente, e que ,lendo o segundo texto de Colasanti, O livro, entre Barbie e a longa noite, fui ficando satisfeito com as possíveis respostas, não que ela se importe em nos dar, e fascinado com a sua facilidade em destrinchar pensamentos. Ela, rapidamente, chega a um dos pontos mais fundamentais de todo o sistema literário e que eu, por ser editor, me senti mais à vontade, ou não. Ela afirma, como bem sabemos, que

Uma vez estabelecido que todos os livros são um fato cultural, não temos como escapar da segunda constatação: todos eles são mercadoria. Todos estão à venda, e uma vez à venda, englobam-se naquela entidade gigantesca e amedrontadora chamada mercado.

Daí, podemos voltar à questão do olhar enviesado para gêneros de fantasia ou de autoajuda que fazem tanto sucesso nas prateleiras das grandes livrarias. Pois é fato de que livro bom, parece, é aquele que vende bem, ficando às vistas dos possíveis leitores, senão, some, como bem pontua a autora.

E essa procura exacerbada das editoras, mas dos autores também, leva a uma competitividade desleal quanto ao restante das obras, que acabam ficando condenadas às sombras dos ‘grandes’ livros. Corrida essa mantida por dois pólos altamente divergentes: de um lado os grandes grupos comerciais, que acabam englobando inúmeras editoras, que um dia tiveram a sua vez, e do outro as editoras independentes, pequeninas, que correm contra a maré, sabendo que atrás de si há uma enorme catarata querendo levá-las para o fundo do rio.

Assim, fica claro que o sistema literário acaba sendo mantido não por editores de profissão, mais por administradores profissionais, que estão a frente desses grandes conglomerados editorias e que visam uma única coisa: lucro!

Fora isso, Marina aponta um dos grandes problemas atuais do sistema literário brasileiro atual, mas que talvez também se refira ao restante do mundo: a crise da crítica, da qual tanto fala o professor e crítico Alcir Pécora. Afirma ela que

A função da crítica é estabelecer padrões de qualidade necessários para fortalecer a opinião crítica do leitor e permitir-lhe escolher com acerto mesmo entre os muitos livros não resenhados. Na busca de excelência, o crítico se vê obrigado a trabalhar com um nível de exigência superior ao da média. As se trocarmos o crítico especializado pela democrática voz dos leitores, por aquela voz que tanto mais representativa será quanto mais se aproximar do gosto comum, que estabelecerá, e com que critérios, os padrões de qualidade?

A voz a qual se refere Colasanti é a dos blogueiros-críticos que começam a ter vez no cenário atual, mas que parecem ter esquecido de como fazer uma crítica alentada, uma vez que é ela que acabar por direcionar, muitas vezes, os possíveis leitores de uma obra, e “que diz ao livreiro que livros comprar ou mais fartamente exibir”.

E ainda há muito mais na obra de Marina. Fica evidente que ela está atenta a tudo que acontece, de uma ponta a outra, neste sistema, que é, em vários pontos, falho. A autora ainda tem muito a dizer e está preparada para nos fazer pensar sobre vários pontos que ficam, quase sempre, às escuras, para os novos críticos.

Pode parecer um pouco estúpido aos que não conseguem ver nada mais do que o real, mas ler é viver, é saber olhar atentamente para o que nos rodeia e para o que nos predispomos a fazer. Deste modo, a literatura não é apenas libertação, acaba sendo comércio também, porém é cultura e isto não pode ser comercializado da maneira que os grandes administradores desejam. É necessário que saibamos educar através da leitura as nossas crianças, que saibamos exigir obras dos mais variados gêneros e que elas tenham a possibilidade de coexistir em todos os espaços. E como se respondesse, também, à pergunta que fizeram a Michelangelo, Colasanti nos diz que “Há vários meios para isso”.


Leia Mais
3 de julho de 2014
[GRANDES] AUTORES DE UM LIVRO SÓ

[GRANDES] AUTORES DE UM LIVRO SÓ




Vamos deixar claro logo uma coisa: quando eu me refiro a “autores de um livro só”, não quero dizer necessariamente que o pessoal sobre o qual você vai ler a seguir só escreveu  um único livro. É como naquela expressão, “one-hit wonders”, aquela turma que fez sucesso com uma música e depois cadê? Nunca mais (essa daqui, por exemplo).

Pois exemplos na literatura abundam. Seja lá por qual motivo, razão ou circunstância, tem gente que nasceu e morreu para a literatura com uma única obra, descansam em paz no mundo das letras com sua obra-prima e nada mais.

Mas chega de ficar na escuridão, porque a crônica de hoje vai trazer à tona algumas teorias a respeito desse pessoal que se apaga depois da primeira dose (ou complicar mais ainda o negócio). Senta aí e preste atenção nos causos a seguir.

Comecemos com o único exemplo brasileiro da lista: (Não, por mais que a gente quisesse, não é do Paulo Coelho que eu vou falar. É do) Raduan Nassar. Crucifiquem-me. Quem gosta de literatura brasileira e pensa no autor, lembra logo de Lavoura arcaica. Antes dos anos 80, o autor tinha dois livros publicados, ambos ficaram famosos, mas Lavoura arcaica é que foi, verdadeiramente, elevado ao status de obra-prima. Pois um belo dia, ele acordou e disse para si mesmo, “Ah, não quero mais isso pra mim, não”. Pegou o dinheiro que tinha e investiu numa fazenda, onde foi se refugiar e esquecer da vida loca da capital. Como mesmo quem vira eremita tem necessidades, Raduan resolveu mudar de vida de novo em 2010. Quer dizer, mais ou menos. Doou a tal fazenda, que era enorme, para uma universidade e foi para uma outra, bem menor. (Gesto bonito, hein, Raduan? Ganhou pontinhos com Nosso Senhor). Em seguida, voltou a trancar-se em seu silêncio. A verdadeira motivação do escritor? Ninguém sabe, ninguém viu. E a menos que ele tenha escrito a resposta e mandado botar num cofre, vai ficar para sempre o enigma. Mas vai que criar vaca, cabrito e plantar não era mesmo melhor que escrever?

Outro que resolveu se refugiar da sociedade foi J. D. Salinger, autor do clássico O apanhador no campo de centeio. O autor morreu em 2010 e sua editora já anunciou que ele deixou “pelo menos” cinco livros inéditos (o que na prática significa dizer que ele deixou cinco livros prontos e uma papelada imensa que eles vão tentar transformar em livro pra continuar ganhando dinheiro em cima do defunto). Mas o primeiro, só em 2015. Enquanto isso, diga aí: quais foram os outros três livros que o autor publicou em vida? Rá!, não lembra, né? Pois Salinger é mais um caso de autor de um livro só. E o pior: o último dos três foi publicado em 1963, quase cinquenta anos antes da morte do autor. O que o levou a este silêncio de quase meio século? Alguns crimes famosos estão diretamente conectados ao livro. Quando Mark Chapman assassinou John Lennon, um exemplar do livro foi encontrado com ele, junto com a frase: “Esta é a minha declaração”, e assinou como sendo Holden Caulfield. Descobriu-se depois que ele se identificava a tal ponto com o personagem que queria oficialmente mudar seu nome para Holden. No ano seguinte, John Hinckley Jr tentou assassinar o presidente Ronald Reagan, e mais uma vez, o livro foi encontrado com o (quase) assassino. Outro caso que teve muita repercussão à época foi o assassinato da modelo e atriz Rebecca Schaeffer. Seu assassino, Robert John Bardo, havia ido à casa dela, na tentativa de “conversar” com ela, com um exemplar do Apanhador nas mãos.

Outros crimes também estão associados ao livro. Só que quando tudo isso aconteceu, Salinger já tinha se recolhido em Cornish, New Hampshire, uma cidade que, em 2010, tinha menos de dois mil habitantes. Imagine em 1953, quando Salinger foi pra lá. Se os crimes cometidos em nome do seu livro colaboraram para que ele se tornasse ainda mais recluso? Talvez. Salinger nunca gostou de atenção e da exposição na mídia. Conforme o autor disse numa de suas últimas entrevistas (a última foi em 1980): “Existe uma paz maravilhosa em não ser publicado. Publicar implica numa terrível invasão da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas eu escrevo apenas para mim mesmo e para satisfazer o meu próprio prazer”. E não custa lembrar que o livro ficou famoso desde seu lançamento, em 1951. Com casos pipocando nas TVs e jornais envolvendo seu nome e crimes famosos, seria razoável crer que os crimes tornaram-no ainda mais voltado para dentro de si mesmo. Outras teorias dão conta de que Salinger era melindroso e detestava as críticas aos seus livros, e sofria muito com elas. Para um homem que bebia urina, falava em línguas e dava em cima das amigas adolescentes de sua filha (informações publicadas por ela própria) e tinha inclinações e práticas sexuais “estranhas”, segundo a ex-esposa, tudo caminha com segurança pelo reino da possibilidade. Porém, é difícil julgar e mais difícil ainda compreender.

Um que ficou famoso pelo oposto dos dois acima foi F. Scott Fitzgerald, o eterno – e eterno mesmo – autor de O grande Gatsby. Fitzgerald viveu uma época pré-quebra da bolsa de Nova York, a chamada “Era do Jazz”, que ele viveu aos píncaros. Pois este rapaz, que se casou com Zelda Fitzgerald, um personagem à parte, teve das mais tresloucadas vidas. Naqueles tempos, onde o estilo extravagante de vida era o tom em quase toda a alta sociedade estadunidense, o negócio era ir a festas todas as noites, viver em barcos na Riviera Francesa, curtir o luxo e a opulência... Nisso, ele completou apenas quatro romances durante sua vida, e vários contos (alguns também bastante famosos). Tendo sido alcoólatra pela maior parte dos anos de sua vida adulta, Scott Fitzgerald começou a sentir o declínio da saúde por volta dos anos 30, quando contraiu tuberculose. Daí pra frente, o negócio degringolou de vez. Sofreu dois ataques cardíacos nesta mesma década e em 1940 morreu aos 44 anos. Por mais que se escreva muito sobre ele e sua desvairada esposa, que se filme sobre sua vida e sua obra, o que ficou e ficará, de verdade, é o romance O grande Gatsby, que não é outra coisa senão o retrato fidedigno da época em que o autor mais “aproveitou a vida”, por assim dizer.

Outro que a vida de excessos levou pra dentro do bueiro foi Truman Capote. Autor de À sangue frio, publicado em 1966, Capote ficou famoso tanto por este livro, que praticamente criou o gênero da narrativa não-ficcional de casos de homicídios, a partir de uma perspectiva jornalística e uma narrativa esfuziante, no chamado New Journalism, quanto por seu gênio extremamente temperamental e vaidoso, e seu vício em álcool e outras drogas, além de uma inclinação por freqüentar festas e eventos com outras pessoas famosas. Truman Capote tinha uma vida social intensa e desregrada. Depois de passar anos pesquisando in loco sobre os crimes descritos no seu livro famoso, inclusive fazendo amizades com as esposas dos acusados e vizinhos, para delas conseguir depoimentos, o autor jamais conseguiu terminar outro livro. Escreveu alguns contos, esparsamente, e mesmo seu Bonequinha de luxo, novela publicada oito anos antes de À sangue frio, teve um filme famoso (com Audrey Hepburn), não um livro. Pouco se sabe de fato dos motivos que levaram Capote a não conseguir alavancar sua carreira novamente, nem fazer nada de maior consistência. O fato é que o barril de pólvora que era sua vida deixou rastros, e fortes indícios de que as polêmicas envolvendo o próprio livro (o autor foi acusado de fazer por onde os criminosos retratados em seu livro serem logo executados, para que assim seu livro tivesse o final que ele desejava) e sua vida pessoal tenham enfraquecido suas forças e sua capacidade de escrever. Sua biografia fala por si só.

Nem tanto no Brasil, mas nos Estados Unidos, há um livro clássico lido por gerações, e este, foi, de fato, o único livro publicado pela autora. O livro é o romance O sol é para todos (To kill a mockingbird), publicado em 1960. A autora, Harper Lee, foi uma grande amiga de Truman Capote, tendo inclusive indo à cidade no Kansas com ele, onde ele foi pesquisar para o seu livro famoso.

Num romance criado para discutir a questão das desigualdades raciais, sociais e o estupro, Harper Lee criou uma gema literária e um romance imortal. Mas ficou só nisso. Anos depois, chegou a anunciar que estava escrevendo um novo romance, mas deixou-o de lado por achar que estava se perdendo e não tinha mais nada a dizer. Muito se especula, também, sobre sua saída de cena. Alguns dizem que, na verdade, ela não escreveu o livro. Quem o fez teria sido Truman Capote. Estudiosos de ambos dizem que isso é um absurdo, já que Capote era vaidoso demais para não querer que este livro, tão popular e respeitado – tendo inclusive recebido o prêmio Pulitzer -, não estivesse sob seu próprio nome. Outra teoria é a de que ela teve receio, à época, de o livro ser um fracasso retumbante, após o estrondoso sucesso do anterior. A mais provável, porém, é a afirmação que a própria autora fez a um amigo, e que veio à público em 2011: “Eu não passaria pela pressão publicitária pela qual passei com O sol é para todos novamente por nenhum dinheiro. E também porque eu já disse o que queria dizer e não o farei novamente”. Então é isso, e caso encerrado.

E você taí pensando que isso só acontece com escritor esquisitão e de gênio indomável? Pois não. Acontece até com quem sempre foi pacato, morava numa propriedade longe de tudo com sua família e anos depois, ganhou o Nobel. Pensemos no livro Senhor das moscas. Um verdadeiro clássico, publicado em 1954 por William Golding. Agora pense noutro livro dele. Vamos lá... E aí? Mais uma chance... Nada, né? Pois é. Golding é o típico caso de escritor de um livro só. Este é o escritor que, em 1983, viria a ganhar o cobiçado prêmio da Academia sueca. E olhe que Senhor das moscas nem foi o primeiro livro dele. O cara vinha publicando livros de poemas na década de trinta, até chegar na década de cinquenta e publicar o romance pelo qual seria lembrado (e enaltecido). E por mais que outros dez romances tenham se seguido a este, nada ficou como seu primeiro. Acontece.

Outro caso famoso é o do L. Frank Baum. Dizendo só assim, é capaz de você nem saber quem é. Pois eu digo. Ele escreveu nada mais, nada menos do que O mágico de Oz. É mole? Um clássico de umas quinhentas gerações, mais ou menos. Agora se segura aí: existem outros dezesseis livros que se passam na terra onde vai parar a Dorothy, o Totó, o Leão, o Homem de Lata e o Espantalho. Todos escritos pelo mesmo L. Frank Baum. Isso sem contar outros livros que ele escreveu fora da série. No entanto... quem lembra de um só títulozinho?

Surfando nesta mesma onda de azar está P. L. Travers, que ninguém sabe nem quem é. Mas se eu disser o título do livro dela (calma aí, eu vou dizer!), na hora você vai saber do que estou falando. Pois bem, P. L. Travers é a autora de Mary Poppins. Aposto que a primeira coisa que você se perguntou aí foi, “E o filme era baseado num liiiiiivro?!” Pois é, é sim. Agora que você sabe disso, vá ler o livro. Aliás, livros. Assim como o autor de O mágico de Oz, P. L. Travers era chegada numa continuação, e a Mary Poppins com a Julie Andrews que você conhece do filme é apenas a primeira de quase uma dezena de livros.

Outro que fecha a trinca com os dois acima é Lewis Carroll, autor de Alice no país das maravilhas. Carroll foi muitas coisas em seus 65 anos de vida. Além de escritor, foi matemático, especialista em lógica, diácono anglicano e fotógrafo. Aos 33 anos, publicou o primeiro livro de Alice e, aos 39, a continuação, Alice através do espelho. Depois desses dois livros, ainda andou publicando alguns poemas, vários livros de matemática, e, trinta anos após a publicação de sua obra-prima, seu último romance, e eu arranjo um exemplar autografado pra quem me disser, sem ir pesquisar no Google, qual é o título desse livro. Com um pé nas costas, sei que vou me poupar ao trabalho de conseguir um autógrafo do Lewis Carroll direto do além, por uma razão bem simples: ninguém lembra. Aliás, não fosse algumas editoras brasileiras lançarem os dois livros da Alice num só volume, poucos saberiam que a história dela teve um capítulo a mais. Outro autor que viveu uma vida meio controversa, com acusações de pedofilia, e problemas de saúde muito graves, o certo é que Carroll nunca conseguiu prosseguir numa carreira sólida de escritor, na qual fez sua verdadeira fama e fortuna – e apesar de ser um homem notadamente genial.

Falemos agora de Margaret Mitchell. “De quem?”, você pergunta. Resposta: E o vento levou. Desse você já ouviu falar, tenho certeza. Agora vou te contar quem era essa Margaret: lá pelos idos do final dos anos 20, essa nobre senhora da sociedade de Atlanta, na Geórgia, nos Estados Unidos, saiu de seu emprego como jornalista, onde assinava uma coluna de fofocas para um jornal local, veja só. Ela precisava se recuperar de um problema no tornozelo, e por isso, ficou de molho em casa. Por conta disso, ela não fazia outra coisa a não ser ler, ler muito. Um dia, seu esposo, cansado de sair pra trabalhar e voltar do trabalho e ver a mulher com a cara enfiada nos livros (na verdade, ele estava cansado era de ter que ir toda semana à biblioteca pública pra pegar livros pra esposa ler, num ir-e-vir sem fim), sugeriu a ela: “Mulher, será que não dá pra você escrever seu próprio livro, ao invés de ficar lendo esses milhares de livros da biblioteca?”. Pois foi assim que essa história começou. Nos três anos seguintes, ela não fez outra coisa da vida a não ser escrever o romance, e o marido dela, que achava que ia ter paz, trocou seis por meia dúzia, porque ao invés de sair pra pegar livros emprestados, tinha que sair pra comprar resmas de papel, já que a mulher escrevia sem parar, a ponto de sentar-se em cima dos próprios manuscritos, fazendo-o de sofá.

Não há como saber se Margaret Mitchell teria tido algum outro sucesso espetacular na carreira (a autora ganhou o Pulitzer pelo seu famoso romance, em 1937), já que, dez anos após a publicação de E o vento levou, ela ainda não tinha produzido nada. Talvez os efeitos do sucesso do filme, que lhe deram muita publicidade e pouco tempo e paz para voltar a escrever, tenham sido fatores. Mas o certo é que sua carreira foi abreviada ainda mais porque, numa certa tarde de 1949, em que se decidira a ir ao cinema com o marido, Margaret Mitchell foi atropelada por um taxista, e morreu cinco dias depois. Resultado: mais uma autora de uma obra só. Antes da fama, ela tinha escrito algumas coisas num estilo erótico, e depois da fama descobriu-se um romance escrito na juventude, descoberto nos anos 1990. De qualquer forma, tudo muito aquém do clássico que ela criou, de acordo com público e crítica.

Às vezes, é a morte que abrevia as coisas, mesmo. Quando Margaret Mitchell morreu, ela já tinha publicado E o vento levoudoze anos. Tempo suficiente pra tentar espremer alguma coisa, na maioria das vezes. Outras vezes, como no caso da inglesa Emily Brontë, é que havia uma tuberculose no meio do caminho. A escritora faleceu aos 30 anos (trinta anos, meu povo, isso lá é idade pra alguém morrer?!), poucos meses depois da morte do irmão. Algumas pessoas chegaram a dizer que ela morreu de “coração partido” por conta da morte do irmão, mas ela morreu mesmo foi de um resfriado que virou uma gripe que encontrou uma tuberculose mal curada e a junção de tudo isso ressuscitou o problema. Um ano antes, ela havia publicado O morro dos ventos uivantes, e não viveu para ver o sucesso da obra nem, naturalmente, o fato de que se tornaria um clássico nos anos seguintes. Emily Brontë foi mais uma que a morte arrastou para o caixão, levando uma carreira junto. Numa carta para seu editor, ficou-se sabendo que ela começou a escrever um segundo romance, mas o manuscrito jamais foi encontrado. Então, é O morro dos ventos uivantes e só.

Agora, uma perguntinha pra vocês me odiarem para sempre: quem foi Oscar Wilde? Vão lembrar que ele foi preso porque era gay e teve um caso com um filhinho de papai que no fim das contas acabou com a vida dele. Vão lembrar que ele escreveu peças, contos, poemas... Mas se perguntarem qual o trabalho mais famoso do rapaz, eu aposto com você que vão dizer: O retrato de Dorian Gray. Não adianta se espernear, meu povo! É a verdade e acabou-se. Sim, ele tem várias peças famosas, aforismos (o Facebook que o diga!), mas o famoso, famoso mesmo, é o seu único romance sobre o garboso rapaz que roga aos deuses que o quadro no qual está retratado envelheça em seu lugar – e tem seu pedido atendido, mas recebe também otras cositas más que ele não pediu, mas que estavam no pacote também. E nessas horas, esse tipo de coisa é igual a marido ou mulher: você casa, e recebe inteiramente grátis o que gosta e o que não gosta e vai literalmente dormir com o pacote completo. Fim.

Dificilmente existe alguém que nunca tenha ouvido falar em Frankenstein, ainda que associe este nome a um monstro. Pois o monstro da história, na verdade, nunca recebeu nome. Frankenstein é o nome do criador do monstro que, por não ter lhe concedido um nome acabou cedendo o seu a ele, involuntariamente, no imaginário popular. Este clássico dos clássicos foi escrito por Mary Shelley quando ela tinha menos de vinte anos (não tem como não se deprimir quando você pensa que uma menina com menos de duas décadas de vida escreveu um clássico e você até hoje só na promessa de escrever algo que preste, mas é a vida). E embora ela ainda tenha escrito vários outros romances, contos, ensaios e biografias, nada dela chegou com força no presente. As obras existem, a maioria está editada, mas vira uma coisa pra curioso ler (e depois dizer que bom mesmo era o Frankenstein...).

Eu poderia mencionar inúmeros outros casos, de maior ou menor fama, de gente que ficou famosa por uma única obra, mas a crônica iria se transformar numa versão moderna das mil e uma noites.

Em que pese tudo o que leva um autor a escrever apenas uma obra, ou escrever uma vasta obra e no fim ser lembrado apenas por uma (o que, convenhamos, é uma desgraça ainda pior), o certo é que a história da literatura está repleta de casos como os narrados acima. De pessoas memoráveis, ainda que por um único feito.

E enquanto isso, estamos nós do lado de cá. Nós, que provavelmente não deixaremos nada para a humanidade como um todo. Nós, os esquecíveis. Será? Consola acreditar que seremos lembrados por aqueles que gostam de nós? Consola manter viva a ideia de que, em não produzindo algo eterno, pelo menos demos o nosso melhor pra modificar (pra melhor, espera-se) a nossa realidade?

Se você chegou até aqui, tem um tempo pra pensar.

E aí, consola? 



Leia Mais
30 de junho de 2014
Quando a qualidade vira quantidade

Quando a qualidade vira quantidade




É difícil ver nas livrarias um novo autor, principalmente os que são publicados por pequenas editoras, que tenha por trás da publicação de seu livro um verdadeiro poder de marketing, mas eles existem. Sabe-se que sem a publicidade, hoje em dia, muitos autores ainda estariam esquecidos e nunca teríamos tido notícias deles. As pequenas editoras sabem disso e por isso não compram corridas contra as grandes editoras. Daí, um questionamento poderá surgir entre muitos leitores e críticos: Até que ponto a qualidade do livro, da escrita é levada em consideração?

A qualidade literária parece que vem sendo um problema para os novos autores e não falo isso com pretensão de afirmar como se deveria escrever, mas que realizando comparações de leituras feitas por mim, percebo que não há preocupação com a linguagem e com o que se faz nas estruturas narrativas que surgem em nossa literatura. Os nomes que despontam no cenário literário brasileiro, muitas vezes, deixam a desejar. Parece que a análise de um livro, atualmente, é feita a partir da badalação que é feita em torno da obra, o que acaba por iludir até os mais perspicazes. Estamos todos à mercê.

O que contribui ainda mais para que isso continue a se desenvolver é, por exemplo, pois não é apenas uma, a questão dos prêmios literários, que corroboram, muitas vezes, com livros que estão presentes, quase que constantemente, na alta mídia. Sejamos sinceros, quem aparece quer ser visto, neste caso, quer ser lido. E, ao contrário do que dizem, prêmios valem muito. Dizer que apenas os medíocres buscam vencer um concurso literário é algo ultrapassado e um argumento pífio. Pois um autor premiado chama a atenção das grandes editoras e, principalmente, do público. Coloque-se um selo na capa do último livro vencedor de qualquer grande prêmio literário e veremos que, possivelmente, sua venda irá disparar.

Talvez alguém questione apontando que isso não é verdade. E assinarei embaixo. Não é sempre que isso ocorre, principalmente se o autor estiver sendo publicado por uma pequena editora. Mas sejamos sinceros e capazes de admitir que um autor que chega numa final de um Prêmio Telecom, por exemplo, tem consigo a certeza de que seu livro venderá mais algumas dezenas e que seu bolso, aleluia, irá sentir o gosto do dinheiro um pouquinho a mais. Não que o escritor seja louco por dinheiro, para muitos escrever é uma profissão, daí a felicidade ao ganhar um prêmio literário, de preferência aqueles que ao final dão um cheque.

Questiono-me, assim, sobre o que realmente importa em uma nova publicação. Seria a quantidade ao invés da qualidade? Importa saber quantos prêmios determinado autor venceu ou saber quantos milhares foi investido para que o seu livro vire um best seller?

Em ambas as hipóteses, acabo por achar que o bom senso fica de lado e deixamos o mercado do capital ganhar essa corrida. Os leitores ficam submetidos a esse sistema e acostumados a ele. Assim, ler autores que são publicados por pequenas editoras ou que se autopublicam vira um problema no Brasil. Para alguns, eles não são quase nada, pois não têm investimento e muito menos ganharam prêmio algum, com certeza eles não escrevem bem, por quais motivos deveríamos comprar sua obra? 

No final das contas, parece que a culpa é da pequena editora, ainda desconhecida, que, apesar dos trabalhos hercúleos que realiza, é menosprezada. 




Leia Mais
21 de junho de 2014
Literatura é fingimento OU O carnaval dos curumins

Literatura é fingimento OU O carnaval dos curumins





Há um fenômeno na literatura brasileira que tem se agravado mais a cada ano: os jovens autores da nossa literatura que se dão ares de celebridade. Seja porque se tornam midiáticos com o advento das redes sociais, seja porque as editoras fazem matérias pagas parecerem elogios verdadeiros, o certo é que há nas nossas letras, nos últimos anos, uma leva de “personalidades literárias” que  aparecem em fotos enormes no jornal, têm cinco mil amigos no Facebook e vão às muitas feiras literárias pelo país, almejando ou vivendo um estrelato que só existe na cabeça deles. 

Ora, sabemos que, à exceção do Paulo Coelho e mais uns três gatos pingados, nenhum autor consegue viver exclusivamente de literatura, a menos que viva uma vida inspirada nos hábitos de São Francisco e ande muito de bicicleta, porque do contrário, haja palestra e curso para complementar a renda. E tudo isso é muito, muito digno; eu diria até necessário a um país que começa ainda a formar os seus leitores, depois dos adventos de grandes booms literários que fizeram as recentes gerações despertar para a leitura e a consequente formação de leitores – ou compradores de livros, o que para as editoras dá na mesma.

Mas não estou falando do escritor descrito acima. Estou falando de um tipo muito mais peculiar. Acompanhe o caso: dia desses, abri uma revista de cultura e me deparo com uma entrevista na qual o articulista já começa dando a entender que o entrevistado é um chato (ele até faz uso do adjetivo), mas de forma disfarçada, descrição feita de propósito, até, digamos, para já ajudar a criar a atmosfera do que viria a seguir. Mas é isso mesmo. Pelas afirmações do entrevistado, o leitor da matéria tem a nítida impressão de que estamos dando a conhecer um Shakespeare das letras brasileiras, inclusive com todos os medos, receios, inseguranças, faniquitos e pseudo-humildades inerentes a todos os que, no fundo, querem dar a entender que estão escrevendo uma grande obra. Pose, muita pose. Mas estão ali, firmes! São verdadeiros arautos da Nova Grande Literatura Brasileira (quiçá universal. Aliás, quiçá não, no seu devido tempo, universal sim, com certeza! Pelo menos segundo estes incautos literatos).

Ler uma frase como: “Dizer que ler melhora as pessoas é a pior forma de elitismo. Literatura não muda a vida de ninguém" é de lascar. Elitismo é soltar frases de efeito com a boca cheia de verdades absolutas, verdades fundamentais. E o autor da frase justifica tão gloriosa afirmativa com o exemplo de que seus irmãos tiveram acesso aos mesmos livros que ele, mas não gostam de ler, e nem por isso são menos felizes. Equívoco, meu caro, equívoco! Primeiro porque não se pode, com a mente sã, falar por todo mundo sem antes perguntar a opinião de cada um dos envolvidos. Alguém, além de mim, compreende que não há como ele saber a respeito do nível de felicidade ou infelicidade de seus irmãos porque a vida deles só cabe a eles?

E tem mais: literatura não muda mesmo a vida de ninguém. Assim como não muda o fato de você ter ganho o prêmio acumulado da mega-sena, ter a pessoa mais interessante do mundo apaixonada por você, ter um emprego bacana ou pessoas dispostas a serem amigos verdadeiros. Nada disso muda a vida de  ninguém, se o personagem envolvido em cada um dos exemplos acima não se permitir nem fizer bom uso da oportunidade diante de si. Portanto, obviamente que a literatura não muda a vida de ninguém. Não há coisa alguma no mundo que o faça por si só. É preciso deixar-se tocar para que a mágica aconteça. Sem o elemento humano do permitir-se, tudo o que se tirar da cartola não passa de um mero truque de circo. Permita-se, e a magia acontecerá, e só aquele que se permite compreende o quão arrebatadora é essa força.

Mas não me surpreende. Esta leva de escritores é resultado de uma turma mimada que cresceu no mundo da internet vendo que, lá fora, determinados autores possuem o status de celebridades. Em terras tupiniquins, ninguém chega sequer perto disso, principalmente em termos de finanças e contratos. Mas a pose, repito, ah!, a pose, essa existe. E tem que fazer bonito pra sair na foto parecendo mesmo que é o que se pensa ser. Ou seja: uma trupe de deslumbrados – e iludidos. Essa coisa meio tribo indígena ainda por ser descoberta pela sociedade, essa turma de gente intocável que sabe muito bem usar a máscara da camaradagem.


E por falar em máscaras: “Uma reclamação muito comum que fazem à literatura contemporânea brasileira é que ela só escreve sobre o seu mundinho, uma Higienópolis branca e classe média. (...) Muita gente se inspira na própria vida para fazer ficção. No meu caso, o que inspira não é a vida, e sim outras obras. Meu dia a dia não tem nada interessante para ser literatura”.

Volto ao que disse antes: eis aí o exemplo acurado da turma que cresceu diante do computador e acha que se basta, que interagir para além do portão de casa cansa a beleza, e fazem logo aquela cara com um biquinho de nojo. Autores que olham de esguelha, com aquele olhar de “não encosta aqui não, querido!”. Sabe aqueles vendedores de determinadas lojas que se escondem quando a gente vai chegando perto para pedir ajuda? Aqueles que nos atendem com cara de quem estão fazendo um favor descomunal? Pois são estes. Afinal, quem não escreve sobre a vida escreve sobre o quê? E as “outras obras” por acaso baseiam-se em quê? Onde é que está a piada no que esse arrogante inominável disse?

Não tem piada. Ele realmente disse o que disse, a sério.

Você poderá vociferar, pensando que tem razão: “Mas o Mário, o Oswald de Andrade, Tarsila, não participaram das “feiras” de suas épocas?” Participaram. Mas não existe nos anais da história desse país um só registro de que eram desses ignóbeis. Ao contrário, ao contrário! Eram de uma humildade de fazer Gandhi e Madre Teresa corar, de fazerem Nelson Mandela e Chico Mendes parecerem escravocratas latifundiários. E esse cidadão, quem é? Pois eu vos digo: rigorosamente ninguém. Rigorosamente uma garrafa d’água vazia encostada na parede de cabeça para baixo para não virar criadouro de mosquito da dengue. A distância que o separa de mim e de você é que ele é como um gato de telhado – que passa a noite aos gemidos, grunhidos e miados, às vezes mais distantes, às vezes não, e essa é a obra dele (e dessa leva de párias na qual ele está representado): fazer barulho, querer causar, querer incomodar. Acontece que enquanto eu ou você reclamamos com aquilo que é pertinente, mostrando os dentes, ele reclama fazendo pose para as fotos. É dessa gente que no dia que morre, morre também a obra sem deixar vestígio, e tal como o gato lá em cima no telhado, quando some só deixa alívio.

Mas voltando à ideia do coletivo ao qual ele pertence: trata-se de um pessoal que está no Facebook, no Twitter, no Instagram, se duvidar ainda mantêm seus perfis de Orkut e guardam arquivos da época do MSN, com a esperança de que ainda farão algo com aquilo (ou porque acham que tudo que um dia escreveram, em algum momento poderá valer ouro). São autores que estão presentes nestes muitos blogs de editoras que viraram febre - parece-me mesmo que depois que uma grande editora criou o seu, se as outras não seguissem, era o atestado claro de que eram nanicas diante da "poderosa" - escrevendo textos-umbigo, repletos de loas a si próprios, onde não há uma só linha em que um ego maior que a solidão do território lunar deixe de transparecer. Ora, mas que dizer desses egos, ou de qualquer um? Ego é um negócio mais antigo do que o próprio Tutancâmon mumificado, mais antigo do que as pirâmides do Egito - com o senão de que ego inflado, em momento algum, chega a ter qualquer tipo de beleza.   

É dessa leva de deuses da atual literatura brasileira que devemos nos resguardar, e observar com cautela. Midas tem muito a nos ensinar. Não consigo enxergar com bons olhos essa gente que almeja a ubiquidade. Bem sabemos que quem quer estar em toda parte não está em lugar nenhum.

Fora que essas pessoas são verdadeiras nulidades enquanto gente. Existem para essas redes como personagens de si mesmos, são pessoas de papelão, capazes de curtir aquela foto enorme com uma flor igualmente gigantesca onde está escrito em cima ou abaixo em letras garrafais e cores berrantes Bom dia seguido de trezentos e vinte e sete pontos de exclamação, se assim lhes aprouver (ou se vier de algum “amiguinho” de rede social), mas são de uma verdadeira vacuidade para assuntos sérios. Reflita comigo: quantos desses vocês já viram em qualquer lugar da mídia acrescentando seus dois centavos que seja sobre as nossas diferenças sociais históricas, sobre a Torre de Babel que são os três poderes, sobre as mazelas do nosso país? Se você viu algum, pode ter certeza que ele não é o mesmo que frequenta festas literárias a rodo, nem se acha o rei ou rainha da cocada preta. E sabe por quê? Porque esses autores metidos a VIPs – ou reis e rainhas do camarote – não querem deixar de agradar a todos. E quem quer angariar um séquito a este preço, francamente, está fadado a levar uma facada nas costas, ou no baço, ou onde quer que seja. São pessoas que não se arriscam para nada. Não porque elas não tenham pensamentos a esse respeito. Mas é que são muito indiferentes a isso tudo; quando não, aliado a isso, não querem perder leitores desse ou daquele segmento ideológico.


Outra frase pescada da dita entrevista, a última, e retumbante verdade colossal: “Em literatura dá pra fingir melhor” [que é inteligente]. Podemos concordar. Basta a gente olhar certos vencedores de determinados prêmios, nos quais os laureados – e nem precisa investigar muito – é afeto desse ou daquele. Da mesma forma, outros deixam de ganhar o prêmio porque são desafetos desse e daquele jurado. Literatura é ou não é fingimento?

Finge-se melhor em literatura quando não se sabe fazer outra coisa a não ser mentir. São autores que, como num carnaval, usam as máscaras que querem, escolhem para si os personagens que querem, sem lembrar que a festa do rei Momo acaba na quarta-feira de cinzas.

Intocados em suas ocas, esses verdadeiros curumins não conseguem compreender a fragilidade de suas próprias vestes, e muito menos de suas próprias máscaras. Querem montar um cenário chiaroscuro, onde ora parece que contribuem com algo de valor, ora são apenas o que são: pastiches de si mesmos.

O que me vem como muito certo é que a literatura não precisa de gente que chega aos holofotes para vilipendiá-la. Muito menos travestido de eloquente inteligência. A literatura precisa de críticos de verdade, de gente que tenha opinião legítima – e não opiniões baseadas na polêmica, nas frases de efeito. Aliás, que recurso cansado, este, hein? Utilize-se de outro expediente, caro escritor grandiloquente, porque, francamente, a literatura requer gente que a ame de verdade – inclusive para descer o sarrafo! – e não de foliões de três dias.

Terminada a leitura, abre-se o clarão da certeza, como Moisés foi capaz de abrir o mar vermelho: se todos os chatos do mundo deveriam fazer literatura, como sugere a revista na qual li o mencionado agrupamento de impropérios, percebe-se claramente que os chatos brasileiros têm se esforçado bastante.

Leia Mais
25 de janeiro de 2014
“Por que não compramos livros de poetas brasileiros?”

“Por que não compramos livros de poetas brasileiros?”




Foi com essa pergunta, meio fajuta e sincera – que um amigo, dentro de uma livraria, me fez – que fiquei pensando com determinada (in)certeza. Não o respondi ainda e talvez essa crônica seja uma tentativa para tal. Uma tentativa, veja bem.

No mesmo instante em que se calou, eu pensei que isso não era verdade. Compramos poesia de brasileiros, tanto que no último ano tivemos um Leminski batendo recordes e tirando do topo da lista dos mais vendidos títulos que há quase 50 semanas estavam imbatíveis.

Porém, antes que a resposta fosse dada, entregue assim de bandeja, achando que iria me sair muito bem em respondê-lo, pensei direito e entendi que não era a esses poetas brasileiros que meu amigo se referia. Perguntava ele porque não compramos livros de poetas brasileiros, mas estava a colocar na estante o livro de uma moça que apareceu faz pouco tempo e que já foi finalista de um desses prêmios literários. Aos poucos, pude entender que a pergunta era mais complexa do que aparentava e me questiono, até agora, se realmente compramos ou não compramos livros de poetas brasileiros.

Os poetas brasileiros são lidos e comprados, mas o que meu amigo, acredito, estava a se perguntar era quanto aos novos poetas, aos que estão estreando, se não merecem a mesma atenção que os nossos grandes nomes.

Os novos autores se expõem cada vez mais nas redes sociais, muitas vezes buscando algum leitor que o possa apreciar. Tentam, a todo custo, entrar no cenário literário nacional participando de festas literárias e inventando novas “esquisitices literárias”. Ainda há as editoras independentes que apostam nesses desconhecidos e que pretendem dar folhas brancas à imaginação dos que querem um espaço nas prateleiras não só das livrarias, mas principalmente dos leitores.

Na realidade, compramos livros de poeta brasileiros, sejam eles conhecidos ou não, porém, a fatia do bolo a que cabe aos novos autores é mínima, ainda, e isso ainda vai perdurar por algum tempo, pois, apesar do brasileiro estar lendo mais (acredito nisso), a poesia ainda é algo que não satisfaz. É algo bonito, que não se entende e que, portanto, talvez, não valha a pena ser comprada e lida. Isso é o que pensa, pensou eu, a maioria dos leitores brasileiros. Mas posso estar errado, tomara que eu esteja.

Porque a poesia não é um, digamos, produto rentável, ao contrário das biografias ou romances e dos livros de autoajuda, mas sim, ela consegue ser vendida, ainda conseguimos tirar parcos exemplares das estantes, seja em sebos ou não. Quanto à pergunta do meu amigo, talvez ele queria apenas me fazer perceber que até nós, que lemos bastante poesia, costumeiramente, seja brasileira ou não, temos que nos dar mais chances de conhecer coisas novas, textos novos. Afinal, nem só de pão vive o homem.



Leia Mais
17 de janeiro de 2014
A escrita de Charles Bukowski

A escrita de Charles Bukowski



por Dassayeve Távora Lima

Muito já foi dito sobre Charles Bukowski, inclusive, grande parte dita por ele mesmo. Romancista, contista, poeta e com algumas incursões pelo mundo do cinema, Bukowski nasceu em Andernach, Alemanha, no ano de 1920, e adotou Los Angeles como cidade natal, apaixonado pela vida boêmia que encontrava ali. Bukowski é tido até hoje como um “beat honorário”, título que sempre recusou, pois ele mesmo afirmava que fazia questão de não participar de nenhum movimento literário. Odiava falar sobre literatura e guardava um ódio especial pelos escritores em geral, chegando até mesmo a recusar-se a falar com William Burroughs, um dos grandes escritores beats, em uma determinada ocasião, afirmando que não tinha interesse nenhum no que ele tinha a dizer. Sua escrita foi marcada por três características principais: o teor autobiográfico, a simplicidade da escrita e o ambiente underground onde eram vividas as suas estórias.

O que torna o teor autobiográfico de sua escrita atrativo em alguns aspectos, é que Bukowski, encarnado em Henry Chinaski, se torna uma espécie de “sobrevivente do cotidiano”. O escritor consegue nos mostrar o óbvio aniquilador dos nossos dias, que talvez por ser tão óbvio, sequer conseguimos enxergar. Exemplos disso são seus romances “Factótum” e “Misto Quente”, no qual é apresentada uma sequência de sua vida. Misto Quente narra o sofrimento de sua infância e juventude, vivida no período da Grande Depressão americana, atormentada pelo pai violento, uma mãe passiva, poucos ou nenhum amigo, busca por afirmação, problemas com acne e consequentemente, repúdio por parte das meninas de sua idade. Obviamente, isso não é lá tão anormal ou fora da realidade de muitos, mas o cotidiano descrito de forma tão bem humorada, clara, fria e objetiva, nos faz ver como a vida em si é quase que “kafkiana”. Factótum, por sua vez, narra a continuação da vida do seu alterego, Henry Chinaski, pulando de emprego em emprego, todos eles miseráveis, enquanto tenta sua grande chance como escritor. Nas horas vagas, bebe e transa e bebe.

A simplicidade de sua escrita já teve muitas explicações. Escrita de protesto ao rebuscamento literário, vocabulário pobre, herança beatnick, até mesmo explicações astrológicas que dizem: “Bukowski tem Vênus em Virgem, isso explica sua escrita simples e pragmática”. No entanto, o que com certeza parece ser crucial, seria a “criação” da sua “escola literária”. Charles Bukowski interessava-se por tudo e sempre leu de tudo. Ele mesmo dizia que muitas vezes, como não tinha para onde ir, passava o dia na biblioteca pública, folheando todos os tipos de livros, dos grandes romances aos livros de biologia, enquanto matava o tempo para ir ao bar à noite. Dessa vasta literatura, com certeza dois nomes se destacam: Ernest Hemingway e John Fante, sendo este último, o escritor mais influente para ele. No prefácio, escrito por Charles Bukowski, em “Pergunte ao Pó”, de John Fante, ele afirma:

Uma biblioteca era um bom lugar para se estar quando você não tinha nada para comer ou beber e a senhoria estava à procura de você e do aluguel atrasado. Na biblioteca, pelo menos, você podia usar os toaletes. Eu via um bom número de outros vagabundos ali, a maioria dormindo sobre os livros.

Eu continuava dando voltas na grande sala, tirando livros das estantes, lendo algumas linhas, algumas páginas, e depois os colocando de volta.

Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.

Hemingway


Bukowski encontrou em Fante e em Hemingway a coragem e a simplicidade. John Fante, autor de “Espere a Primavera Bandini” e “Pergunte ao Pó”, é também conhecido por sua escrita simples. No seu primeiro romance, Espere a Primavera Bandini, sua narrativa é tão clara (e por que não dizer honesta?), que quase se acredita que quem o escreveu foi mesmo Arturo Bandini, a criança que protagoniza o romance. Tão objetivo que chega a ser infantil, mas nem por isso, um romance seco e pobre.  Ernest Hemingway, autor de clássicos como “O Sol Também se Levanta” e “O Velho e o Mar”, também tinha preferência por uma escrita simples. O boxeador das palavras, como diria Bukowski, escrevia quase que de forma descritiva; fotografias em formas de palavras, sem muitos simbolismos, sem adornos, sem linguagem poética desnecessária, sem mensagens subliminares, apenas a estória que lhe envolve pelo simples fato de ser uma estória envolvente. A descrição é a parte que cabe ao escritor. Inclusive, Hemingway é conhecido por ter escrito o conto mais curto do mundo. A lenda diz que o escritor foi desafiado a escrever um conto com apenas seis palavras, e assim o fez.

“For sale:                                          “Vende-se:
Baby Shoes,                                       Sapatos de bebê
Never worn.”                                     Nunca usados.”

O menor conto do mundo se sustenta em grande parte pela sugestão. Um casal possivelmente preocupado com sua situação financeira, a possível gravidez desejada, meses de gestação, compra do enxoval, a felicidade de um casal, até que a morte do bebê, que nunca teve a chance de usar seus sapatos, surpreende a todos. Tudo isso em apenas sei palavras. Sobre sua escrita, Hemingway afirma:

Então há outro segredo. Não há nenhum S I M B O L I S M O. O mar é o mar. O velho é um velho. O garoto é um garoto e o peixe é um peixe. O tubarão é todos os tubarões, nem melhor nem pior. Todo o simbolismo de que as pessoas falam é besteira. O que está além é o que você vê além quando compreende.” (Trecho de uma carta de Hemingway para Bernard Berenson, 1952)

Esses escritores tinham em comum uma escrita sem muitos rodeios, direto ao ponto, falando da vida comum, comum a eles inclusive, falando da dor sem medo ou embelezamento demasiado dela. Escrita crua e viva.

Por esse gosto pela objetividade, sem abrir mão da beleza, Bukowski também foi um grande poeta, considerado, inclusive, o maior poeta americano por Jean-Paul Sartre. Afirmava que não via sentido escrever grandes romances, se o essencial podia ser dito em duas ou três linhas de um poema. Seus poemas em geral, não eram tão curtos, mas é como se houvesse uma espécie de “preparação” para o leitor em sua escrita, para um êxtase final, no qual o leitor deve estar preparado. Em “O Pássaro Azul” (Blue Bird), um de seus poemas mais conhecidos, o método se repete. O poema fala sobre sua relação com um pássaro que vive em seu peito, e no qual os dois mantém uma relação de amor e ódio. O pássaro a qualquer momento podendo foder com a vida do Bukowski e este constantemente inalando fumaça de cigarro e despejando uísque no pássaro. No entanto, o clímax é quando Bukowski, em poucas linhas faz a seguinte pergunta:

E isto é bom o suficiente para
Fazer um homem
Chorar, mas eu não
Choro, e
Você?
                       
Admito que muitas vezes quase chorei. São as poucas linhas que dizem mais que um romance.

Por último, falar do cenário de suas estórias é falar basicamente de três coisas: bares, corrida de cavalos e Los Angeles. Vários temas permeiam a escrita de Charles Bukowski: apostas, brigas, os falidos do mundo em geral, mulheres, bebida, sexo, drogas e música clássica. No entanto, o que surpreende nas suas narrativas, é que ele consegue tratar de quase tudo no mesmo cenário underground: as ruas de Los Angeles. Quase toda sua obra gira em torno de fazer apostas nas corridas de cavalos, fugir dos ladrões nos hipódromos, brigar em bares, beber em bares, viver em bares e, até mesmo, transar em bares. Tudo isso, sem precisar sair de sua terra adotiva. 


Bukowski soube como ninguém dar visibilidade ao submundo, aos esquecidos, e fez dos losers da sua realidade, verdadeiros heróis e anti-heróis. O herói de Bukowski não é somente aquele que vence uma luta travada no bar e como prêmio recebe os agrados de uma prostituta ou uma bebida de graça. O herói de Bukowski é também aquele que passa três ou quatro dias sem comer, é aquele que dorme na praça, é aquele que vive com um dólar por dia e é aquele que foge da senhoria, para não pagar a pensão. A saga heroica de seus personagens começa em L.A, termina em L.A, com pouco ou nenhum dinheiro, com pouquíssimas refeições, sapatos velhos, vinho barato e um maço de cigarros. No máximo, o grande herói de Bukowski tem como prêmio sobreviver o cotidiano, e ganhar dois dólares por hora de trabalho. Bukowski era um escritor que, munido de sarcasmo, coragem e sinceridade, escrevia a vida como ela é, sem enfeites, ainda que para isso, fosse preciso estar constantemente embriagado.
Leia Mais
6 de novembro de 2013
O Beabá das biografias

O Beabá das biografias




Em briga de cachorro grande quem sou eu para meter minha língua? Enquanto a questão estava entre os reis da MPB acompanhei de camarote o disse me disse; quando a coisa descambou para o terreno da literatura (perdão pela divisória de áreas, como se a biografia não fosse um gênero textual e estivesse alheio à literatura, mas já me explico sobre), como dizia, quando a questão aqui chegou, dei algumas deixas na minha página no Facebook, principalmente no caso Paulo Leminski, e, enfim, quase um mês depois, é impossível não dizer nada sobre o caso. Ao menos posso ter uma opinião formada sobre, mesmo porque a briga é de cachorro grande, mas o que respinga, respinga diretamente no cidadão comum. E por isso mesmo me vejo um tanto quanto obrigado a dizer alguma coisa, a emitir um parecer sobre.

Permitam-me um esclarecimento: não é o caso de ser a biografia um gênero que me apetece ler. Não. Acho esse texto maçante, chato, e foram muito poucos autores que consegui ler falando da vida alheia. E o que li foi quando eu dispunha de certo tempo para ser queimado com qualquer coisa. Logo, minha visão sobre o gênero perde-se na restrição de alguns textos: alguns deles redigidos para uma coleção caprichada até da Editora Três – textos, aliás, que deve ter em qualquer biblioteca de escola, porque depois de saírem das bancas de revista foram parar aí, sendo talvez os primeiros lugares a que foram destinados. Cito de memória dessa coleção, Castro Alves, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Euclides da Cunha – todos lidos na minha adolescência. No período de Faculdade ainda cheguei a ler a biografia extensa de Joachim Fest, Hitler, em dois volumes; do mesmo autor, No bunker de Hitler – os últimos dias do Terceiro Reich. Paulo Leminski – o bandido que sabia latim, de Toninho Vaz. Acresceria aqui a biografia de Caio Túlio Costa, Cale-se. No mestrado a breve biografia informativa Saramago, de João Marques Lopes, o que deve ter sido o último título. Atravessaram o meu caminho mais uma quantidade de textos do gênero, como a pretensa biografia de Fernando Pessoa redigida por José Paulo Cavalcanti Filho e a bem cuidada sobre Getúlio Vargas redigida por Lira Neto, de quem até acompanhei certa vez uma palestra num desses eventos literários.

Aliás, contam-se pelos dedos da mão e ficam dedos órfãos os nomes de biógrafos bem conceituados no Brasil. Parece-me que a biografia é, por aqui, um gênero dos mais marginais. E não quero é reduzi-lo ao esmo, do lugar nenhum, ao dissociá-lo do território da literatura, termo esse que tem, no lugar que aqui assumo, outra conotação: é literatura aquele texto que tem no trabalho com a linguagem a medida exata de sua existência. O texto biográfico, pelo caráter informativo, muito se aproxima do trabalho com a linguagem jornalística, cuja transparência do dito é, ainda que impossível de ser alcançada, o lugar ansiado pelo escrevedor. Um exemplo preciso é o trabalho biográfico redigido por Paulo Leminski nos quatro textos mais tarde reunidos num só título, Vida. Está aí mais que o preceito informativo da biografia, a voz do poeta rasurando a todo tempo a ordem morfológica, sintática e, consequentemente, a própria forma do gênero.

Mas a questão aqui é fora desses lugares textuais; diz respeito à validade do gênero e o modo como dele se apossa o biógrafo para a elaboração das suas personas históricas. Diz respeito ainda aos trânsitos e os limites entre o privado e o público, onde finda um e principia o outro, ou onde os dois se interseccionam. E todo o imbróglio da questão parece ter nascido aí, desde a ação jurídica interposta à biografia de Roberto Carlos – até então o caso mais sintomático nas discussões porque veio seguido da proibição de circulação de uma obra. Tudo o que foi dito sobre essa polêmica que aflora com depoimentos de outros tipos da classe musical como Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, me parece que é produto de um mal entendido ou uma distorção levada ao extremo; primeiro, por uma mídia medíocre como a que temos interessada muito mais em ver o circo pegar fogo que no debate profícuo sobre a questão, depois, por um grupo não menos despreparado nas leituras e interpretações dos ditos. No caso de Chico Buarque e os demais de seu grupo me parece que nunca houve uma censura prévia, como hoje são acusados, sobre o assunto; a legitimidade da defesa da vida privada parece ser, se não me engano, um pleno direito de qualquer cidadão, seja ele famoso ou não. E é em nome desse direito a tecla que tanto se bate na ideia de autorização ou não da biografia. Da mesma maneira que se entendeu isso errado, se entendeu também o depoimento recente do próprio Roberto Carlos que teria se pronunciado a favor das biografias não autorizadas. No meu parco entendimento, o cantor não cedeu à questão: a biografia permanece sendo-lhe um atentado se nela o biógrafo se beneficia de situações licenciosas. O que grupo contrário ao tema não terá percebido é a desconsideração que eles fazem da existência dos meios legais pelos quais o biografado ofendido pode recorrer.

O mero receio da difamação, medo que transparece no gesto de proibição das biografias não autorizadas passa, basicamente, por duas questões culturais: uma, a de que o verdadeiro herói é destituído da mácula, concepção tradicionalista e reduzida do sujeito, uma vez que o que nos constitui é nada mais do que nossas imperfeições, as verdadeiras idiossincrasias que nos coloca em lugar do diferente e não do próprio; outra, que essa imagem sem mácula foi construída sob uma farsa que uma vez exposta em sua real forma é capaz de tudo ruir e deixar o herói soterrado debaixo das ruínas do que eram glórias. Cabe nessa hora o dito popular de que quem não deve não teme.



Mas, vejamos, o dito tem suas limitações. A meu ver no jogo das perfeições e imperfeições aquilo que pode se constituir em mácula da personagem histórica só fará sentido se esta servir para esclarecer algum impasse na obra do artista, já que ao falar dele é sobre a obra o que estaremos buscando falar. Pode ser até que esta seja uma visão muito particular de quem primeiro vê a obra para só depois olhar o seu autor. Quando há seis anos me decidi em estudar a obra de José Saramago, por exemplo, não fiz porque tivesse uma afeição biográfica entre eu e o escritor português, embora mais tarde descobrisse isso, mas no primeiro instante o que me motivou foi o seu trabalho literário. Mais: a obra de todo artista é pública – não se produz literatura, música, pintura, dança, arquitetura, teatro etc. para si ou para um reduto familiar, se produz para um público e nesse caso, mesmo o núcleo familiar, se constitui já em esfera pública. Ao público só interessa o fato que sirva de esclarecimento sobre obra. Parece que é aqui em que as duas esferas, a privada e não privada, se interseccionam. As situações escusas a essa intersecção devem ser tratadas apenas como fofoca? Apelo gratuito do biógrafo para vender o escrito? O problema é que, cada vez mais, o gesto escabroso é o que constitui, ao menos para o grande público, num definidor de personalidades. Em alguns casos, naqueles que não chega a ter a alcunha de difamatórios (eis um termo cujo conceito tem suas variantes de pessoa para pessoa), o consolo para a pessoa pública parece vir de outro dito corrente: se é para falar, que falem, ou bem ou mal, o importante é que falem. Talvez esteja em falta a necessidade de certo despudor sobre a imagem que outro faz de nós mesmos.

No limite a que as coisas chegaram é necessário apenas que seja feito alguns esclarecimentos: posicionar-se contra as biografias não autorizadas não constitui uma censura. Pode até ser uma apologia à contrariedade da liberdade de expressão, mas deve prevalecer o bom senso, principalmente do biógrafo, que cada um tem uma posição sobre si, e essa posição deve ser até o limite respeitada. O que apenas me intriga, mas isso é já tema para outra conversa, é o grande poder que os familiares usufruem sobre a obra artística do artista depois de morto; há casos estapafúrdios envolvendo pesquisadores e famílias de artistas quanto ao trato que aqueles mantêm com a produção artística estudada. Também no caso das biografias é preciso que haja uma compreensão acerca da autonomia do pesquisador e novamente tem valia seu limite de atuação e sua postura ética, duas características que me parecem ser as que melhor devem guiar quem se aventura redesenhar seres históricos que é o que todos nós somos em seres de tinta e papel.

Outro esclarecimento diz respeito ao debate; mesmo atrapalhado e atabalhoado, a questão vem recebendo os palpites de diversos setores da sociedade. E isto só enriquece na elaboração de uma proposta conveniente a ambas as partes. Proposta que, a meu ver, deve ser guiada pela liberação das biografias. Ainda que este esteja longe de ser um gênero que me apeteça ler, a história das ideias e a memória de um povo estarão mais bem enriquecidas se delas soubermos sobre o seu nascimento e sua gênese e sobre os seus produtores que são estes, ideias e povo, seus principais constituintes.


*Aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (2012, Appris, 280p.) e editor do blog Letras in.verso e re.verso e do caderno-revista de poesia 7faces.

Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger