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5 de fevereiro de 2014
Rompendo o silêncio, de Alice Walker

Rompendo o silêncio, de Alice Walker


por Raquel da Silva Barros

Meu primeiro “encontro” com a escritora afro-americana Alice Walker aconteceu com a leitura de sua obra-prima, A Cor Púrpura (1982), romance que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer de Ficção, sendo a primeira escritora negra a auferi-lo, e a adaptação cinematográfica homônima, dirigida por Steven Spielberg. Os laços que construímos nesse diálogo inicial foram suficientes para que uma amizade surgisse. A partir daí, abracei a missão de difundir sua escrita, que denuncia, principalmente, a discriminação gênero-racial, evidenciando a mulher negra e sua trajetória de luta.

Conhecida por sua atuação militante contra os diversos tipos de opressão, Walker já fez várias viagens nas quais testemunhou o sofrimento de pessoas que tiveram seu cotidiano abalado pela violência humana. Em 2006, ela foi a Ruanda e ao Congo, com a Organização Women for International Women, e em 2009, viajou para a Palestina/Israel com o grupo pacifista CODEPINK. Os relatos dessa dolorosa excursão aos “umbrais dos infernos” são apresentados em um de seus livros mais recentes, Rompendo o Silêncio, publicado no Brasil em 2011 pela Editora Bertrand Brasil.

Tal como Coração das Trevas, de Joseph Conrad, Walker elabora uma espécie de diário de viagem, no qual tenta traduzir em palavras as histórias que escutou e a tristeza nos olhos de quem vivenciou o horror. Através dessa conexão literária, a escritora busca vincular nosso tempo ao do escritor de origem polonesa, mostrando que a discussão sobre questões polêmicas, tais como o genocídio, não está desatualizada. Pelo contrário, ela deve ser reforçada, uma vez que esse assunto costuma “estar fora das lentes da grande mídia e, principalmente, dos governos”, como afirma Walker em entrevista. Com o objetivo de alcançar o maior público possível, a escritora elabora um livro em formato curto e de rápida leitura. Mesmo não escrevendo sobre tudo aquilo que viu, ouviu e sentiu, ela destaca a importância de disseminar as situações de violência e de sofrimento pelo mundo.

Genocídio no Congo

Nas primeiras páginas, Walker fala de uma visita feita a uma jovem mulher (trinta e seis anos na época), chamada Generose, que estava em um hospital local. Ela habitava em uma aldeia no Congo que fora aterrorizada pelos membros do Interharmwe (uma das milícias armadas responsáveis pelo genocídio em Ruanda), fazendo com que muitas famílias dormissem na floresta ou se escondessem em seus próprios campos, quando não eram brutalmente assassinadas. Certa noite, estando em casa com os dois filhos e o marido doente, Generose teve sua casa invadida por tais assassinos que exigiam comida. Irritados com a pouca provisão alimentar, eles esquartejaram seu marido e a amarraram junto aos filhos. Depois, cortaram um pedaço de sua perna e fritaram-na. Quando parecia cozida, ofereceram às crianças, obrigando-as a comer a carne da própria mãe. O menino, que se recusou a tal prática, foi morto a tiros, sem nenhuma hesitação. A menina, por sua vez, temendo o mesmo destino do irmão, arriscou morder um pedacinho. Se ela sobreviveu ou não, Generose não pôde afirmar, pois conseguiu se arrastar para longe – e lutar pela vida –, não presenciando os demais acontecimentos daquela noite sangrenta.

Diante dessa história, Walker adoeceu e teve que recorrer ao círculo budista do qual faz parte. Diante dessa história, é impossível não se emocionar e perceber o quanto somos pequenos e impotentes frente à brutalidade e à ignorância humana. Por causa dessa história, já presenciei diversos “Nossa!”, “Que terrível!”, além das várias expressões faciais, que misturam horror e espanto. E é por essa história, por Generose, e por tantas outras famílias vítimas da violência física e psicológica, que a escritora escreve e anseia conscientização.

“O que aconteceu com a humanidade? [...] Porque, o que quer que estivesse acontecendo com a humanidade, estava acontecendo com todos nós.
Não importa se a crueldade está oculta; não importa se os gritos de dor e terror estão distantes. Vivemos em um único mundo. Somos um único povo.”

Constantemente reforçado no livro, a percepção do mundo como o lar de uma única e grande família – a humana –, em que todos têm os mesmos direitos e deveres, independente de raça, cor, religião, é o principal impulsor da escrita e da prática ativista de Walker. Utopia? Talvez. Mas é a crença na mudança que faz com a autora continue testemunhando, escrevendo e denunciando. Assim, ela leva ao mundo a realidade dos locais aonde muitos não podem ir.

Destruição na Faixa de Gaza

Do Congo à Faixa de Gaza, Alice Walker, recuperada do primeiro choque, enfrenta, mais uma vez, a cruel realidade de seus “irmãos”. Antes mesmo de chegar ao destino, sendo mantida na fronteira por cerca de cinco horas, a escritora se vê obrigada a se habituar aos constantes bombardeios.

“Eu nunca havia estado tão perto de bombas sendo lançadas e aproveitei a oportunidade para questionar minha vida. Será que tinha vivido da melhor maneira possível?”

Durante sua estadia nos territórios da Palestina/Israel, ela rememora a situação de opressão racial nos Estados Unidos da América, da qual foi vítima. Sentindo-se em casa, devido ao “sabor de gueto” que a Cidade de Gaza lhe proporcionara, ela vê em cada história, em cada escombro e em cada lágrima derramada, o seu próprio passado. Assim, cria conexões entre as violências atuais e a difícil história de vida do povo negro estadunidense.

“Lembrei-me em voz alta, já que éramos do Sul, da minha raiva diante das humilhações, dos atentados e dos assassinatos que, durante séculos, fizeram do pranto uma atividade sem-fim para os negros, e de como, quando finalmente íamos a um tribunal que deveria oferecer justiça, o juiz nos culpava pelo crime cometido contra nós mesmos, chamando-nos de chimpanzés por estar fazendo estardalhaço.”

Hoje, verdadeiramente, Walker quer fazer “estardalhaço”. Por isso, ela escreve Rompendo o Silêncio com a linguagem “apropriada” para narrar/denunciar as situações desumanas dos países que visitou. Não há camuflagem. O leitor se depara com um texto difícil de ser digerido, porém sincero. Consciente das críticas, a escritora não se permite transformar em um conto-de-fadas a história de homens e mulheres assolados pelas consequências de guerras e de conflitos políticos. Afinal, quando fala da opressão, ela fala pela alma de quem já passou pela “sombra do véu” – metáfora criada por W.E.B. Du Bois para se referir à discriminação que ele viveu desde pequeno.

Rompendo o Silêncio representa, enfim, outro passo dado por Walker em direção à mudança e à conscientização das pessoas. Mais do que um simples diário de viagem, ele é a prova de que somos uma só família; de “que ferir propositadamente qualquer um de nós significa prejudicar a todos nós”.  Evidência disso é a mistura de povos, tempos e lugares que a escritora apresenta nessa instigante leitura. Além de proporcionar o acesso a uma realidade, por muitos, desconhecida, em função do poder conservador da mídia, o livro de Walker nos desafia a fazer parte desta marcha, para a qual é preciso ser ousado e destemido.

“Ainda que o horror do que testemunhamos em lugares como Ruanda e Congo e Burma e na Palestina/Israel ameace nossa própria capacidade de falar, nós falaremos. E, como quase todos no planeta agora reconhecem nossa marcha coletiva contra o desastre global, a menos que mudemos profundamente nossos métodos, nós seremos ouvidos.”

O grito de Walker alcançou os meus ouvidos e eu resolvi atendê-lo. Se ela acredita na mudança através de um livro de cento e nove páginas apenas, eu ouso acreditar que um simples texto como esse possa contribuir na adesão de novos leitores e, principalmente, de novos militantes a favor da salvação da humanidade.




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20 de dezembro de 2013
Que é isto o homem? por Nathan Matos

Que é isto o homem? por Nathan Matos



Ouvia falar de Primo Levi, mas não havia tido a oportunidade alguma de me deparar com seus livros nas livrarias por quais passava; porém o dia chegou, lá estava ele, perguntando-me: é isto um homem?

Levar livros assim, como o de Primo Levi, para casa é um perigo para a vida de qualquer um. Vida essa que o autor italiano, formado em Química, aparentemente soube dar valor, depois do que passou no campo de concentração ao qual fora enviado. Livros que proporcionam entendermos um pouco mais sobre nossa condição humana, a partir da interiorização dos personagens, me faz perceber que a leitura é muito mais do que um simples prazer; que pode nos proporcionar a conhecer, além de momentos históricos da humanidade, a dor que os seres humanos podem infligir aos outros por concluírem que são donos da certeza absoluta. Que o seu pensar é o mais valioso e mais criterioso que existe.



O livro de Levi “não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana”, como afirma o próprio autor. E esses estudos da alma humana é que me fazem querer ler mais a cada dia. Perceber como homens que escrevem e que refletem sobre a nossa condição social e existencial tem sido o meu verdadeiro prazer. A minha pergunta básica é se iremos passar por esse mundo e continuar sem saber o que é isto um homem?

Apesar de, no prefácio do livro, Primo Levi nos contar que os capítulos foram escritos sem uma sucessão lógica, o que se percebe é que a estruturação dos fatos nos remete à construção de um sistema que existiu dentro dos campos de concentração de uma forma que podemos perceber tudo como se estivéssemos presentes, ao lado de quem sofria, conhecendo o mundo nos quais aqueles seres estavam inseridos.

Esse “mundo novo” é explicado de forma simples, apesar da sua complexidade, a partir da sua memória, contando como foi estar sob o comando dos alemães desde o momento em que corria perigo para ser transportado para o campo de concentração até o último dia em que pode se perceber, novamente, como um homem livre.

“O alvorecer surpreendeu-nos como uma traição; como se o novo dia se aliasse aos homens na determinação de nos destruir. [...] O tempo da meditação, o tempo do julgamento haviam acabado, e qualquer impulso razoável derretia-se no tumulto desenfreado, acima do qual emergiam, de repente, dolorosas como punhaladas, as lembranças ainda tão recentes, as boas lembranças de casa.”

Ao meu entender, a busca pela compreensão do que pode vir a ser a alma humana pode se dar a partir do que se questiona Levi, quando acabara de chegar ao Campo.

“E lá recebemos as primeiras pancadas, o que foi tão novo e absurdo que não chegamos a sentir dor, nem no corpo nem na alma. Apenas um profundo assombro: como é que, sem raiva, pode-se bater numa criatura?”

Estar no fundo do que a miséria humana pode lhe proporcionar é como se estar no inferno, ou pior, estar no fundo do inferno, não como os círculos de Dante, imaginativos e criados por apenas um, mas aquele sofrido por centenas de milhares do que poderiam ser considerados homens.

“Isto é o inferno. Hoje, em nossos dias, o inferno deve ser assim: uma sala grande e vazia, e nós, cansados, de pé, diante de uma torneira gotejante mais que não tem água potável, esperando algo certamente terrível, e nada acontece, e continua não acontecendo nada. Como é possível pensar? Não é mais possível; é como se estivéssemos mortos. Alguns sentam no chão. O tempo a passar, gota a gota.”

Até então, havia tempo para os que acabavam de chegar ao campo, tempo de questionar junto a si mesmo por quais razões aquilo estava acontecendo, mas apenas até aquele momento, enquanto ainda faziam parte do mundo real. Após adentrar no campo, de ter a cabeça raspada, de ser destituído de seus pertences e ter que marchar todos os dias por várias horas, carregando inúmeros pesos, com calçados com sola de madeira e apenas com uma vestimenta que logo estaria imunda e remendada, após sentir as dores de ser tratado como um mísero homem, o tempo já não passaria a existir, pois não haveria mais homens vivos dentro dos Campos. Todos estavam “mortos” em sua consciência.

“Para os homens vivos, as unidades de tempo sempre têm um valor, tanto maior quanto maiores são os recursos interiores de quem as percorre, mas, para nós, horas, dias, meses fluíam lentos do futuro para o passado, sempre lentos demais, matéria vil e supérflua de que tratávamos de nos livrar depressa. Acabara o tempo no qual os dias seguiam-se ativos, preciosos e irreparáveis; agora o futuro estava à nossa frente cinzento e informe como uma barreira intransponível. Para nós, a história tinha parado.”

Como Levi aponta, todos os que estavam nos campos de concentração já não existiam para o mundo real, pois se sentiam “fora do mundo”, como bem nos conta bem no início do livro. E esse mundo é deixado de lado quando tudo passa a ser dependente da sorte para que se possa sobreviver. Primo Levi conta que não sabia como teve sorte de permanecer vivo quando aconteciam as “seleções”, como ele foi um dos poucos italianos que sobraram em seu campo de concentração e como foi ele um dos escolhidos para trabalhar no Laboratório. Apesar de ser formado em química, ele compreendia, escassamente, que tudo aquilo era sorte.



Assim como quando teve de ser internado no Ka-Be, viver após o Ka-Be era uma benção, uma vez que esse era o local onde ficavam todos os doentes e onde se poderia facilmente ficar mais doente, enquanto se vivia no esquecimento.

“A vida no Ka-Be é vida no limbo. Os sofrimentos materiais não são muitos, a não ser a fome e os ligados às doenças. Não faz frio, não se trabalha, e – desde que não se incorra em alguma falta grave – não se apanha. [...] Pela primeira vez desde que estou no Campo, a alvorada pega-me no meio de um sono profundo; acordar é regressar do nada.”

Lá, no Ka-Be, era possível fazer contatos para tentar se sobreviver. Conseguir qualquer objeto pelo Ka-Be poderia ser motivo para se ter algumas rações a mais indo até a Bolsa. Sim, existia uma Bolsa (de cotação) para se conseguir o que se quisesse.

“A gente pode achar na Bolsa os especialistas em roubos na cozinha, com os casacos estofados por saliências misteriosas. Enquanto para a sopa existe uma cotação praticamente estável (meia ração de pão por um litro de sopa), a cotação do nabo, das cenouras, das batatas é extremamente variável e depende muito de diferentes fatores, entre os quais a eficiência e a venalidade dos guardas de serviço nos depósitos.”

Quase tudo era trocado por rações de pães. Como recebiam um pedaço de pão nos horários de alimentação, que eram escassos, os mesmos poderiam ser trocados por outros objetos e até mesmo por outros alimentos.




Para falar de é isto um homem? com maior profundidade seria preciso que nos debruçássemos ponto por ponto sobre o que nos mostra Primo Levi. Mas partindo do princípio em que não era isso que ele queria, mas sim fazer que percebêssemos como o homem pode agir, entendo que objetivar na sua preocupação de achar que ele mesmo não era mais um homem, como poucos ali, transcrevo uma parte do livro em que Primo Levi comenta sobre Lourenço, que era um dos poucos que permanecia homem, no sentido mais específico da palavras por qual entendia o autor italiano, de que ser homem é ser livre, é poder pensar sobre sua humanidade e agir como tal, ao invés de perder-se em si mesmo:

“Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos a sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros. Os SS maus e brutos, os Kapos, os políticos, os criminosos, os “proeminentes” grandes e pequenos, até os Häftlinge indiscriminados e escravos, todos os degraus da hierarquia insensata determinada pelos alemães estão, paradoxalmente, juntos numa única íntima desolação.
Lourenço, não. Lourenço era um homem; sua humanidade era pura, incontaminada, ele estava fora desse mundo de negação. Graças a Lourenço, não esqueci que eu também era um homem.”

E graças a Primo Levi, aos seus momentos dolorosos, às suas dores e inquietações, assim como o de todos os que passaram pelo mesmo que ele, não esquecerei que sou um homem.



por Nathan Matos
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26 de agosto de 2013
Centenário de Albert Camus

Centenário de Albert Camus



Olá a todos,

Estamos aqui, hoje, para informar que o LiteraturaBr, em parceria com o GEAC – Grupo de Estudos em Albert Camus – da Universidade Estadual do Ceará, realizará um caderno eletrônico contendo textos, artigos e resenhas críticas sobre a obra do escritor, crítico e pensador Albert Camus, em virtude da comemoração de seu centenário, que ocorrerá em novembro. O GEAC acredita que dessa forma será possível contribuir para uma maior divulgação do pensamento de Albert Camus entre os estudantes de outras universidade e a sociedade brasileira como um todo. Por isso, o LiteraturaBr em parceria com o GEAC convida você a enviar algum texto, que tenha produzido ou que queira produzir, para ser submetido à análise e consequentemente contribuir para o primeiro caderno eletrônico que realizaremos. Isso, talvez, é o mínimo que podemos fazer para homenagear o escritor, crítico e pensador que tem sua obra ainda pouco estudada entre os brasileiros. O texto para envio deve ser justificado, com até 08 páginas, incluindo referências e anexos; escrito em fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5. Todos os textos serão analisados pelos componentes do GEAC, ficando a revisão dos textos, produção gráfica e editorial por conta do LiteraturaBr.

Envie o texto para o e-mail do GEAC até o dia 30 de outubro: albertcamusuece@gmail.com

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7 de maio de 2013
Sobre Cartas a Nora, de James Joyce, ou Em face da última leitura, por Rebeca Xavier

Sobre Cartas a Nora, de James Joyce, ou Em face da última leitura, por Rebeca Xavier


por Rebeca Xavier


Oh ! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
(Drummond)



Eis que, uma vez envolvido pelos versos de Drummond, ele aponta a pena diretamente para a virilha do leitor e o convida lascivamente para ser pornográfico, (docemente pornográfico), e, já enredado e devidamente embriagado, o leitor cede. Ao ler as cartas que James Joyce escrevera a sua mulher, Nora Barnacle, organizadas no volume Cartas a Nora, somos invocados igualmente a ceder a essa pornografia cotidiana que nos aproxima e nos afasta em mesma escala da realidade da nossa própria carne.

Finjamos, pelo curto espaço dessa leitura ao menos, que hoje não é o dia que se apresenta, mas 16 de junho – o dia que J. Joyce escolheu para ser o dia de Molly Bloom (Bloomsday). E, dessa maneira, nos coloquemos no lugar do leitor de Drummond, que, verso após verso, se permite embriagar pela atmosfera. Porque, da mesma forma, partindo do dia 16 de junho de 1904, carta após carta, J.J. (ou Jim, como assina intimamente) se embriaga e se envolve pela jovem de olhos azuis que conheceu em Dublin, pela “flor azul-escura molhada de chuva”, por seu “pedaço da Irlanda”.


Sem se preocupar com correções gramaticais, o jovem escritor J.J. endereça um bilhete a uma moça que havia conhecido rapidamente, cinco dias antes, e com quem havia marcado um encontro, ao qual ela não compareceu.

Devo estar cego. Olhei para uma cabeça com cabelos castanho-avermelhados durante um bom tempo e decidi que não era a sua. Voltei para casa desolado. Gostaria de marcar um encontro, mas talvez isso não lhe agrade. Espero que você seja muito amável comigo para marcar um – se você não me esqueceu. (p. 29)

No dia seguinte, o encontro aconteceu e deu início à história amorosa entre James e Nora. Esse foi o dia que ficou eternizado no romance Ulysses – cuja publicação teve muito do suor de Nora, pelo que se pode compreender das cartas enviadas na mesma época – como o Bloomsday.


A história dos amantes, bem como seus ciúmes intimidades saudades carícias, ficou eternizada nas cartas que trocaram cada vez que se encontravam distantes. Nora não escrevia muito, o que causava certa angústia em J.J., no entanto, quando o fazia, instigava pensamentos intensos e carnais, deixando que a saudade se mostrasse como um processo físico também. Os tradutores Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante organizaram essas cartas (as de J.J., pois as de Nora se perderam no tempo, restando apenas algumas, anexadas no final do livro) em três grupos – “Dublin (1904)”, “Pola, Roma e Trieste (1904-1912)” e “Paris (1924)” – e, através delas, o leitor acompanha a vida do casal sob a ótica muitas vezes distorcida pela desconfiança ou pelo sentimento extremo de Joyce. O primeiro bloco reúne as cartas enviadas à Nora do momento em que o casal se conheceu à decisão de irem morar juntos longe da Irlanda, o que levou pouco menos de um ano. O romance se intensificou rapidamente, tornando Nora o “pequeno pedaço de Irlanda” de Joyce, ao qual ele iria se apegar durante toda a vida de maneira ambígua com relação à própria pátria: ele odiava tudo o que dizia respeito à Irlanda, no entanto, pegava-se à Nora como fosse ela sua pátria – ou ao menos um pedaço dela, como dizia.

No segundo e terceiro blocos estão as cartas que montam, cronologicamente, as viagens que J.J. fazia a negócios e registram os momentos de dificuldade financeira – que foram muitos – pelos quais o casal passou junto com os filhos. Até então, as intimidades são comentadas apenas de maneira rápida, sem clareza para olhos estranhos; é durante uma das viagens à Irlanda, que a saudade física começa a ser relatada, instigada pelas cartas de Nora. As cartas, então, trazem uma pornografia cotidiana, dessas de quatro paredes. dessas necessárias. dessas humanas.


O bom de ler cartas não é nem o fato de serem reais (como se estivéssemos participando, ou melhor, inseridos num diálogo casual, no pensamento corriqueiro, na parte mais intensamente humana dos nossos escritores preferidos – meio que os torna reais), claro que é um dos grandes motivos – o segundo maior, ouso –, mas tem muito mais a ver com aquela coisa da maneira de escrever. Como dizer? A carta, principalmente entre amantes, dispõe de uma informalidade carinhosa que só pode ser alcançada quando conversamos com os nossos; a narrativa, por mais que se assemelhe à realidade do diálogo desconexo de pessoas pares, não possui essa atmosfera de intimidade de lar, de quarto... são antes como a sala à meia-luz do psicólogo, forjando o conforto e nos obrigando o estar à vontade.

No entanto, surge sempre uma dúvida quando se trata da publicação de obras póstumas, diários ou cartas: Se o autor era tão cioso de uma privacidade epistolar – e sendo J.J. tão movido pelas sensações em sua vida íntima, como dá a entender pelas cartas que envia à mulher), teria ficado angustiado ao saber da publicação?






Fonte: JOYCE, James. Cartas a Nora ; organização, apresentação e tradução Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante. – 1. ed. – SP: Iluminuras, 2012. 128p.
Onde encontrar: Livraria Cultura ou Saraiva (R$38,00)
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18 de março de 2013
Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: Bildungsroman ou romance de formação

Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: Bildungsroman ou romance de formação




Quando estamos nos preparando para algum tipo de apresentação, avaliação ou seleção fica quase impossível visualizarmos o que virá posteriormente. Esse texto surgiu diante de uma árdua preparação para uma seleção de mestrado. Durante um ano, no qual passei quase seis meses praticamente na clausura mergulhado em livros, tive que ministrar o tormento que é um processo seletivo, de estar preparado tanto para a vitória como para o fracasso. Sempre é difícil perder. Contudo, caso não fosse aprovado, havia entendido que não poderia pensar que seria um derrotado ou que não havia aprendido nada nesse período de preparação. Pelo contrário, ganhei o que ninguém pode me tirar: o conhecimento. Descobri novos autores e pude conhecer melhor outros já consagrados, mas que nunca tive a oportunidade de estudar de forma mais dedicada.

Conceição Evaristo foi uma autora que pude conhecer durante esse processo. Trazendo um livro simples, mas cheio de conteúdo a ser estudado, a escritora enfatiza uma área que precisa ser discutido com equilíbrio e que causa polêmica em alguns meios acadêmicos: a literatura afro-brasileira, como também a literatura de autoria feminina.

Nota-se que atualmente podemos ver tanto posturas radicais na defesa da “literatura dos excluídos” quanto a arrogância, e por que não ignorância, de professores que viram as costas para discussões que consideram inferiores ou desnecessárias.

Quem estuda literatura não pode se prender aos pontos extremos, mas deve viver a literatura democraticamente. 

Este ensaio não tem o objetivo de defesa de quaisquer área da Literatura, mas sim discutir, sem nenhuma máscara tendenciosa, temas que estão sendo avultados no espaço literário.

Alguns aspectos relevantes

Conceição Evaristo, autora mineira radicada no Rio de Janeiro, narra a história da protagonista feminina e negra que dá nome a sua obra, Ponciá Vicêncio. Já no início, percebe-se, não pela linguagem ou estrutura, mas por representar, digamos, a “literatura dos excluídos”, que é um romance de autoria feminina e negra, o que faz do livro um colaborador para um reexame da nossa literatura e do nosso passado nacional.

Nessa frente, o livro destaca a cultura negra (ou Negritude) e firma a figura da mulher como detentora da escolha, assim, quebrando com a hegemonia masculina. Vê-se que Conceição Evaristo “emprestou” a sua vivência para o romance, ato que ela mesma chamou de “Escrevivência”. Algo semelhante ao que afirma Antonio Candido:

 externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (CANDIDO, 2010, p.14, grifos do autor).


Na obra de Evaristo, nota-se a presença de uma protagonista negra que realiza uma viagem espaço-temporal na tentativa de encontrar-se consigo mesma, buscando, assim, a sua essencialidade em meio a um mundo circundante fragmentado.

Evaristo, sob a ótica da protagonista, ressalta a cultura negra e os problemas de ser negro em um país preconceituoso e que marginaliza a Negritude. É a partir da literatura afro-brasileira que a autora mineira mostra que a sua escrita é distinta da literatura nacional, pois como foi afirmado acima, o cânone além de excluir a literatura feminina, também exclui a literatura afro-brasileira, estabelecendo uma hegemonia branca. Segundo Eduardo de Assis Duarte, no texto Literatura afro-brasileira: um conceito em construção (2005), a literatura negra se difere das letras nacionais por alguns critérios de configuração. Primeiro, pela sua temática, retratando o negro como tema principal; segundo, pela autoria, ou seja, uma escrita que nasce de um autor afro-brasileiro; terceiro, pelo ponto de vista, pois não basta ser negro, é necessário que o autor se identifique com a visão de mundo desse povo; quarto, pela linguagem que deve mostrar um discurso específico, ou melhor, mostrar o vocabulário, expressões que encontramos na cultura negra; e quinto, pelo público leitor que possa receber essa literatura de formação afrodescendente. Todos esses elementos configuradores não podem ser isolados, pois desta forma não conseguirão ilustrar a literatura afro-brasileira de forma completa.

1.      Bildungsroman

Dinamizando passado e presente a obra de Conceição Evaristo narrará uma personagem em busca de uma autonomia. O romance vai desde a infância de Ponciá até a sua idade adulta, escrito de forma fragmentada, clareando, ao decorrer do enredo, as lacunas deixadas durante o ir e vir de memórias. Com as brechas da narrativa preenchidas, nota-se que este romance narra a trajetória de Ponciá rumo a uma liberdade e a uma busca da sua identidade. Para isso, a personagem terá que desvincular-se da sua terra e da sua família para que possa amadurecer, assim, pode-se chamar a narrativa de Evaristo como romance de formação ou, segundo o termo alemão, Bildungsroman.

 Ao mesmo tempo que configura uma literatura afro-brasileira, o livro também mostra a formação e a busca de amadurecimento de Ponciá. O Bildungsroman é a narração de um sujeito que sai da sua origem em busca do autoconhecimento. Como pode ser percebido, a protagonista

Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. (EVARISTO, 2006, p.33)

No trecho, a personagem já não acha suficiente viver na terra dos Vicêncios, já não se identificava com aquela vida, a qual era a mesma de geração em geração. Então, cheia de esperanças, parte para a cidade em busca de uma vida melhor:

O inspirado coração de Ponciá ditava futuros sucessos para a vida da moça. A crença era o único bem que ela havia trazido para enfrentar uma viagem que durou três dias e três noites. [...] Haveria, sim, de traçar o seu destino. (EVARISTO, 2006, p.36)

 Todavia, Ponciá torna-se empregada doméstica, uma das profissões que estigmatizaram um regime marginalizado no qual o negro sempre é inserido nas grandes cidades.


Nesse contexto, Ponciá consegue comprar um barraco na favela, casa-se e tem sete filhos, mas todos morrem após o nascimento. Tais acontecimentos, principalmente a morte dos filhos, colaboram para afirmar o caráter trágico e cruel da narrativa, o que faz que a protagonista entre em um estado de letargia profunda e volte-se cada vez mais para dentro de si, mergulhando nas suas memórias. Pode-se dizer, com base em Georg Lukács, que em Ponciá há um “descompasso entre interioridade e mundo” (LUKÁCS, 2000, p), pois vê-se que ela cada vez mais se desliga da esfera circundante, fugindo desse mundo desconcertado mediante suas lembranças da infância, que no termo de Octavio Paz (1984), é o “tempo sem datas”, a idade que não sentimos angústias ou a qual o tempo não seja contado.

Quando Ponciá Vicêncio viu o arco-íris no céu, sentiu um calafrio. Recordou o medo que tivera durante toda a sua infância. Diziam que a menina que passasse por debaixo do arco-íris virava menino. [...] Naquele época Poncia Vicêncio gostava de ser menina. Gostava de ser ela própria. Gostava de tudo. Gostava. Gostava da roça, do rio que corria entre as pernas, gostava dos pés de pequi, dos pés de coco-de-catarro, das canas e do milharal. (EVARISTO, 2006, P.13)

O amadurecimento, característica do romance de formação, acontece a partir de muito sofrimento de Ponciá. Depois de uma série de infortúnios, a personagem reencontra a família que tanto sonhou um dia reunir novamente, fechando, assim, o ciclo do Bildungsroman, pois geralmente o protagonista “encontra-se de volta a sua família” (ARRUDA, 2007, p. 23).

Ponciá Vicêncio representa uma heroína problemática que vive um devaneio memorialístico como fuga:

Ponciá Vicêncio não queria mais nada com a vida que lhe era apresentada. Ficava olhando sempre um outro lugar de outras vivências. Pouco se dava se fazia sol ou se chovia. Quem era ela? Não sabia dizer. Ficava feliz e ansiosa pelos momentos de sua auto-ausência. (EVARISTO, 2003, p. 90)

A citação mostra claramente que a protagonista gostava de encontrar-se com suas memórias as quais a deixavam feliz. Este processo de negação do mundo torna o passado o responsável em resgatar uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács,

Descomedidamente, a riqueza interna do puramente psicológico é elevada a única essencialidade, e, com uma inexorabilidade igualmente descomedida, revela-se a insignificância de sua existência no todo do mundo; o isolamento da alma, a sua insularidade em a relação a todo apoio e todo vínculo, agrava-se até o descomedido, e ao mesmo tempo o fato de esse estado de alma depender justamente dessa situação do mundo é aclarado com luzes impenitentes. (LUKÁCS, 2000, p. 124)

Conceição Evaristo elabora um desfecho mítico-religioso para narrativa. Ponciá depois de muito tempo reencontra a família e volta para a sua terra, completando o ciclo cíclico da personagem, na qual nota-se a efetivação da herança deixada pelo Vô Vicêncio. Em uma leitura, afirma-se que o autoconhecimento de Ponciá chega ao seu ápice e que o mundo a qual está inserida já não abarca seu modo de viver. No último parágrafo do romance vemos um fim poético, marca da autora mineira:

Lá fora, no céu cor de íris, um enorme angorô multicolorido se diluía lentamente, enquanto Ponciá Vicêncio, elo e herança da memória reencontrada pelos seus, não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio. (EVARISTO, 2003, p. 128)

Com a presença dos três elementos que iniciam o livro, o angorô, o rio e o barro, representado pela estatueta do homem-barro na janela, destacado no parágrafo anterior ao desfecho, Evaristo encerra a trajetória de forma cíclica de Ponciá Vicêncio. O que não deixamos de observar é o caráter de comunhão entre Ponciá e a Natureza que eterniza a personagem: “Lá fora,[...] Ponciá Vicêncio [...] não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio.” O que também fecha o ciclo que foi iniciado no seu nascimento, pois para a mãe

A menina nunca tinha sido dela. Voltava para o rio, para as águas-mãe. A filha nunca lhe coube, nem no tempo em que estava prenhe dela. [...] O aviso de que a menina estava apenas emprestada foi dado ali pelos sete meses. Uma manhã, Maria Vicêncio acordou ouvindo um choro de criança. [...] O choro vinha de dentro dela. [...] Caminhou intuitivamente para o rio e à medida que adentrava nas águas, a dor experimentada pela filha se fazia ouvir de uma maneira mais calma. (EVARISTO, 2003, p. 124-5)

E mais a frente afirma:

Ponciá voltaria ao lugar das águas e lá encontraria a substância, o húmus para o seu viver. (EVARISTO, 2003, p. 125)

Diante das considerações acima, encerramos este texto ressaltando que o livro transita em várias esferas da crítica literária, tanto na literatura afro-brasileira como na literatura feminina, mas que não o encerra só aí. O livro de Conceição Evaristo nos mostra a história pós-abolição do povo negro que luta para a melhoria de vida e para alcançar um espaço de igualdade com o branco; mas, a partir disso, também encontramos uma dimensão humana, pois navega no psicologismo do homem em toda a sua indagação da vida e da existência.


por Rodrigo de Agrela 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARRUDA, Aline Alves. Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: um bildungsroman feminino e negro. 2007. 106 f. (Mestrado em Teoria da Literatura) Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte – MG.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Estudos de teoria e história literária. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.
DUARTE, Constância Lima. Feminismo e Literatura no Brasil. Estudos Avançados. USP, Vol. 17, n. 49, São Paulo, Set/Dez, 2003.
DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e Afro-descendência. In: Literatura, Política e Identidades: ensaios. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2005.
______. (Org.). Literatura e Afrodescendência no Brasil: Analogia Crítica. Vol. 02. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Duas cidade, Ed. 34, 2000.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.




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5 de março de 2013
De inéditos e ineditismos

De inéditos e ineditismos



por Pedro Fernandes de O. Neto*

Passados dois anos da publicação de Claraboia, findei nesta semana a leitura do romance perdido de José Saramago. Perdido foi a expressão utilizada durante a campanha de publicidade da obra. O escritor compôs esse texto ainda nos idos de 1950, depois de uma decepção literária anos antes com Terra do pecado, e o datiloscrito ficou escondido pelas mãos dos editores aos quais Saramago submeteu a obra, até quando do recebimento do Prêmio Nobel em 1998. Depois disso, manifestando interesse em editá-lo, o autor foi categórico: o livro só viria a lume depois de sua morte e se os responsáveis por seu espólio assim quisessem. Se o romance hoje está ao alcance do grande público é, sim, graças a Pilar del Río, viúva e presidenta da fundação que leva o nome do romancista.

Bom, mas não será este um texto para apreciação crítica do romance em questão; isso é já assunto para outra ocasião. O caso aqui citado é para introduzir um comentário acerca de um modismo mercadológico que tem tido seu boom nos últimos anos. Os da nova geração de leitores já terão se acostumado com essa moda que é a de remexer arquivos esquecidos pelo tempo a fim de achar entre os papeis – e são muitos – deixados pelo escritor um texto qualquer que dê brecha para uma publicação inédita e de preferência surpreendente, cheia de revelações a ponto de até mudar determinados conceitos acerca dos já fossilizados.

No caso de Saramago há uma diferença dos demais porque houve uma manifestação ainda em vida por parte do escritor em não querer ver o livro esquecido feito de estandarte capital ou mesmo ser capaz de receber a vaia da crítica ou o seu silêncio, como foi em relação à Terra do pecado. Mas, ao dizer que depois da sua morte fizessem o que quisessem com o achado já abria margens para acreditar que a sua publicação não seria de todo mau grado do escritor. Quero me referir a outros casos em que o autor já morto – e em alguns que a obra já se encontra em domínio público – que uma decisão do tipo, isto é, tornar público aquilo que ele escondeu por toda uma vida ou mesmo disse não querer vê-lo publicado, deixa-se ser integralmente levada por uma equipe editorial que tem, antes do interesse artístico e estético, os claros interesses de lucro sobre o produto; e aqui, incluo na mesma lista os parentes ou os estudiosos da obra de um escritor.

E para todos os lados se multiplicam casos; e para grande maioria deles há exageros. Há brechas na lei de direitos autorais, por exemplo, que dá muita permissividade aos herdeiros para tomar determinadas decisões, como a de publicação de originais. Digo isso porque, sabendo que escritor sempre escreve mais do que publica, sei também que ele tem seus critérios críticos e capacidade de seleção que não estão ao alcance, em boa parte das vezes, dos herdeiros. Para uma situação do tipo, parece sensato que a decisão do autor deveria ser um direito irrevogável; seja o herdeiro quem seja, a decisão do autor é um direito literário e, sobretudo, moral e de respeito à sua memória. Para aquelas situações que não envolvem o nome de herdeiros, nem de instituições designadas pelo autor, talvez fosse justo a existência, no âmbito da justiça, de fóruns especializados que pudessem avaliar, por exemplo, a decisão de publicação. Em todo caso não se deve acreditar que o simples fato de o autor não ter dado fim àquilo que não foi publicado seja sempre uma interpretação direta de que deve ser feito público; nem que deixado a um herdeiro responsável este tenha todo direito de exploração do material.

E, por fim, cumpre ainda pensar em casos mais extravagantes, como os de intervenção dos herdeiros sobre os textos, seja pela reescritura do manuscrito, pela supressão de parágrafos, pela escrita de conclusões aos textos. Todas essas situações infringem diretamente sobre a escrita e não se constituem em trabalhos inéditos como vão sendo propalados pela mídia. Pode ser que a intenção ou tema estejam ali preservados, mas as intervenções, por si só, descaracterizam a originalidade do texto e fazem dele o texto de outro autor. Estou aqui pensando naquela personagem de Jorge Luis Borges no conto “Pierre Menard, o autor de Dom Quixote” que se debruça na fatídica ideia de reescritura do romance de Cervantes e, mesmo que sejam repetidas os pontos e as vírgulas, tudo à sua imagem do texto original, já no fim não será o Dom Quixote de Cervantes, mas o de Pierre Menard. Fato é que, se isso fosse levado a sério não teríamos a imagem que temos, por exemplo, hoje, de Kafka. Já no caso de Saramago, a própria Pilar já deu negativas à mídia de qualquer inédito do escritor, restando apenas as poucas páginas para o último romance em que ele trabalhava no ano em que morreu; no caso de Claraboia, o texto já estava pronto, havia sido encaminhado para edição e as únicas alterações feitas foram as de adequação ortográfica; entre 1950 e 2011, nós, os usuários da língua portuguesa, já passamos por duas reformas.

Mas para que os casos de absurdos sejam freados, uma vez estarmos no auge da moda dos inéditos, muita coisa há que ser revista. O direito de posse não deve ser confundido com o direito de publicação e difusão dos escritos – ainda mais quando se envolve capital sobre. Afinal, propriedade intelectual não se transmite por herança e muitos dos casos em que envolvem dinheiro podem ser enquadrados como apropriação e uso claro de exploração indevida. Que estes escritos estejam acessíveis aos estudiosos e leitores da obra do escritor, é válido, agora que sejam tornados produtos de venda sem o consentimento do autor ainda em vida ou simplesmente pelo interesse financeiro de herdeiros, não; o ideal é que, em última ocasião, seja dado a um fórum de especialistas a decisão. Um trabalho artístico, seja de que natureza for, não pode estar atrelado simplesmente às leis de mercado; como criação intelectual têm em sua natureza outros valores e estes precisam ser preservados.

*Aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (2012, Appris, 280p.) e editor do blog Letras in.verso e re.verso e do caderno-revista de poesia 7faces.



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4 de março de 2013
Conceição Lima e a linguagem-morada

Conceição Lima e a linguagem-morada



por Bruno Gaudêncio

O Útero da Casa (Lexonics, 2º edição, 2012) é um livro de poemas de Conceição Lima, um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea. Poeta e jornalista conceituada, natural de Santana, na Ilha de São Tomé e Príncipe, Conceição estudou jornalismo em Portugal e Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros em Londres, onde também conquistou o grau de mestre. Foi, durante anos, produtora dos serviços de língua portuguesa na BBC de Londres. Exerceu cargos de direção de rádio, televisão e periódicos do seu país, aonde chegou a ser produtora e coordenadora do principal sistema de Televisão, a TVS – Televisão São-Tomense.

Porém, apesar de sua dedicação ao jornalismo, tanto em São Tomé e Príncipe como na Inglaterra, é na poesia que seu nome se firma como uma das maiores vozes de sua nação. Sua trajetória poética iniciou-se justamente com O Útero da Casa (Editorial Caminho, 2004) e logo depois vieram mais dois outros títulos: A Dolorosa Raiz de Mincondó (Editorial Caminho, 2006) e O País de Akendenguê (Editorial Caminho, 2011). Em 2012, com o patrocínio do Banco Equador, de São Tomé e Príncipe, os seus três livros ganharam segundas edições.

Constituído por 28 poemas, O Útero da Casa demonstra desde o início a força poética de uma autora comprometida com si mesmo e seu país de origem. Através de “lugares metonímicos”, no dizer da crítica literária portuguesa Inocência Mata (prefaciadora da obra), Conceição Lima deslumbra o seu leitor ao construir e reconstruir os seus lugares de afetividade; o seu país, rico em simbolismos e lutas, a partir de um “eu feminino”, em que a casa ganha uma dimensão de amargura e rememoração.

Amargura causada por um arquivo de memórias e sensações. Rememoração de lugares íntimos, de pessoas próximas, causando um “imaginário territorial”, numa cartografia sentimental, onde o traço político se efetiva. Um passado que busca combater um período sombrio e perturbador de seu país, num momento pós- independência ou pós-colonial.

A história recente da Ilha de São Tomé e Príncipe é marcada por diversas lutas, pois o pequeno país africano passou pelo processo de descolonização com o surgimento de grupos nacionalistas, nos anos 1960, até a conquista da independência em 1975. Porém a liberdade partidária esteve ceifada durante muitos anos, visto que apenas em 1990 iniciou-se a transição para a democracia, com a institucionalização do pluripartidarismo e a adoção de uma nova constituição.

Portanto, na poesia de Conceição Lima um traço marcante é a tentativa de uma “reconstrução identitária” – coletiva e ao mesmo tempo individual – no qual o lugar matriarcal ganha um primeiro plano, numa voz feminina que se forma num universo de memórias, em meio a barcos, canaviais, praças de lutas, datas comemorativas, amores e amizades, dentre outros.

Um exemplo do universo político na poesia de Conceição Lima está presente no poema Os Heróis, onde uma atmosfera mórbida é desvendada numa lógica de memórias conflituosa perceptivelmente relacionada às lutas de um país por independência e democracia:
Na raiz da praça
sob o mastro
ossos visíveis, severos, palpitam.
Pássaros em pânico derrubam trombetas
recuam em silêncio as estatuas
para paisagens longínquas.
Os mortos que morreram sem perguntas
regressam devagar de olhos abertos
indagando por suas asas crucificadas.

É perceptível a ruptura com “o colonizador”, com uma “imagética do passado”, algo presente também em poemas como “1975”, “Mostra-me o Sangue Agora” e “Manifesto Imaginário de um Serviçal”. Há ainda outro valor identitário presente em O Útero da Casa, numa assimilação de uma identidade maior, a africanidade, algo continental, pois, a partir do meio do livro, a autora amplia-se poeticamente numa busca mais coletiva que íntima, mais africana que são tomense, – algo que se cristalizará nos dois livros subsequentes da autora: A Dolorosa Raiz de Mincondó e O País de Akendenguê.

Concluo assim a minha breve incursão sobre um livro que considero paradigmático no universo da produção poética africana contemporânea, – por ser um maravilhoso tratado de amor a um país, num discurso que prende por sua historicidade, por seus valores memorialísticos, afetivos e políticos. O Brasil e o mundo precisam conhecer mais a poesia de Conceição Lima, aquela que afirma que através de uma linguagem morada “Não basta o delírio das lágrimas libertas”.

Livro: LIMA, Conceição. O Útero da Casa. 2º edição. São Tomé e Príncipe: Lexonics, 2012
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