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3 de julho de 2014
[GRANDES] AUTORES DE UM LIVRO SÓ

[GRANDES] AUTORES DE UM LIVRO SÓ




Vamos deixar claro logo uma coisa: quando eu me refiro a “autores de um livro só”, não quero dizer necessariamente que o pessoal sobre o qual você vai ler a seguir só escreveu  um único livro. É como naquela expressão, “one-hit wonders”, aquela turma que fez sucesso com uma música e depois cadê? Nunca mais (essa daqui, por exemplo).

Pois exemplos na literatura abundam. Seja lá por qual motivo, razão ou circunstância, tem gente que nasceu e morreu para a literatura com uma única obra, descansam em paz no mundo das letras com sua obra-prima e nada mais.

Mas chega de ficar na escuridão, porque a crônica de hoje vai trazer à tona algumas teorias a respeito desse pessoal que se apaga depois da primeira dose (ou complicar mais ainda o negócio). Senta aí e preste atenção nos causos a seguir.

Comecemos com o único exemplo brasileiro da lista: (Não, por mais que a gente quisesse, não é do Paulo Coelho que eu vou falar. É do) Raduan Nassar. Crucifiquem-me. Quem gosta de literatura brasileira e pensa no autor, lembra logo de Lavoura arcaica. Antes dos anos 80, o autor tinha dois livros publicados, ambos ficaram famosos, mas Lavoura arcaica é que foi, verdadeiramente, elevado ao status de obra-prima. Pois um belo dia, ele acordou e disse para si mesmo, “Ah, não quero mais isso pra mim, não”. Pegou o dinheiro que tinha e investiu numa fazenda, onde foi se refugiar e esquecer da vida loca da capital. Como mesmo quem vira eremita tem necessidades, Raduan resolveu mudar de vida de novo em 2010. Quer dizer, mais ou menos. Doou a tal fazenda, que era enorme, para uma universidade e foi para uma outra, bem menor. (Gesto bonito, hein, Raduan? Ganhou pontinhos com Nosso Senhor). Em seguida, voltou a trancar-se em seu silêncio. A verdadeira motivação do escritor? Ninguém sabe, ninguém viu. E a menos que ele tenha escrito a resposta e mandado botar num cofre, vai ficar para sempre o enigma. Mas vai que criar vaca, cabrito e plantar não era mesmo melhor que escrever?

Outro que resolveu se refugiar da sociedade foi J. D. Salinger, autor do clássico O apanhador no campo de centeio. O autor morreu em 2010 e sua editora já anunciou que ele deixou “pelo menos” cinco livros inéditos (o que na prática significa dizer que ele deixou cinco livros prontos e uma papelada imensa que eles vão tentar transformar em livro pra continuar ganhando dinheiro em cima do defunto). Mas o primeiro, só em 2015. Enquanto isso, diga aí: quais foram os outros três livros que o autor publicou em vida? Rá!, não lembra, né? Pois Salinger é mais um caso de autor de um livro só. E o pior: o último dos três foi publicado em 1963, quase cinquenta anos antes da morte do autor. O que o levou a este silêncio de quase meio século? Alguns crimes famosos estão diretamente conectados ao livro. Quando Mark Chapman assassinou John Lennon, um exemplar do livro foi encontrado com ele, junto com a frase: “Esta é a minha declaração”, e assinou como sendo Holden Caulfield. Descobriu-se depois que ele se identificava a tal ponto com o personagem que queria oficialmente mudar seu nome para Holden. No ano seguinte, John Hinckley Jr tentou assassinar o presidente Ronald Reagan, e mais uma vez, o livro foi encontrado com o (quase) assassino. Outro caso que teve muita repercussão à época foi o assassinato da modelo e atriz Rebecca Schaeffer. Seu assassino, Robert John Bardo, havia ido à casa dela, na tentativa de “conversar” com ela, com um exemplar do Apanhador nas mãos.

Outros crimes também estão associados ao livro. Só que quando tudo isso aconteceu, Salinger já tinha se recolhido em Cornish, New Hampshire, uma cidade que, em 2010, tinha menos de dois mil habitantes. Imagine em 1953, quando Salinger foi pra lá. Se os crimes cometidos em nome do seu livro colaboraram para que ele se tornasse ainda mais recluso? Talvez. Salinger nunca gostou de atenção e da exposição na mídia. Conforme o autor disse numa de suas últimas entrevistas (a última foi em 1980): “Existe uma paz maravilhosa em não ser publicado. Publicar implica numa terrível invasão da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas eu escrevo apenas para mim mesmo e para satisfazer o meu próprio prazer”. E não custa lembrar que o livro ficou famoso desde seu lançamento, em 1951. Com casos pipocando nas TVs e jornais envolvendo seu nome e crimes famosos, seria razoável crer que os crimes tornaram-no ainda mais voltado para dentro de si mesmo. Outras teorias dão conta de que Salinger era melindroso e detestava as críticas aos seus livros, e sofria muito com elas. Para um homem que bebia urina, falava em línguas e dava em cima das amigas adolescentes de sua filha (informações publicadas por ela própria) e tinha inclinações e práticas sexuais “estranhas”, segundo a ex-esposa, tudo caminha com segurança pelo reino da possibilidade. Porém, é difícil julgar e mais difícil ainda compreender.

Um que ficou famoso pelo oposto dos dois acima foi F. Scott Fitzgerald, o eterno – e eterno mesmo – autor de O grande Gatsby. Fitzgerald viveu uma época pré-quebra da bolsa de Nova York, a chamada “Era do Jazz”, que ele viveu aos píncaros. Pois este rapaz, que se casou com Zelda Fitzgerald, um personagem à parte, teve das mais tresloucadas vidas. Naqueles tempos, onde o estilo extravagante de vida era o tom em quase toda a alta sociedade estadunidense, o negócio era ir a festas todas as noites, viver em barcos na Riviera Francesa, curtir o luxo e a opulência... Nisso, ele completou apenas quatro romances durante sua vida, e vários contos (alguns também bastante famosos). Tendo sido alcoólatra pela maior parte dos anos de sua vida adulta, Scott Fitzgerald começou a sentir o declínio da saúde por volta dos anos 30, quando contraiu tuberculose. Daí pra frente, o negócio degringolou de vez. Sofreu dois ataques cardíacos nesta mesma década e em 1940 morreu aos 44 anos. Por mais que se escreva muito sobre ele e sua desvairada esposa, que se filme sobre sua vida e sua obra, o que ficou e ficará, de verdade, é o romance O grande Gatsby, que não é outra coisa senão o retrato fidedigno da época em que o autor mais “aproveitou a vida”, por assim dizer.

Outro que a vida de excessos levou pra dentro do bueiro foi Truman Capote. Autor de À sangue frio, publicado em 1966, Capote ficou famoso tanto por este livro, que praticamente criou o gênero da narrativa não-ficcional de casos de homicídios, a partir de uma perspectiva jornalística e uma narrativa esfuziante, no chamado New Journalism, quanto por seu gênio extremamente temperamental e vaidoso, e seu vício em álcool e outras drogas, além de uma inclinação por freqüentar festas e eventos com outras pessoas famosas. Truman Capote tinha uma vida social intensa e desregrada. Depois de passar anos pesquisando in loco sobre os crimes descritos no seu livro famoso, inclusive fazendo amizades com as esposas dos acusados e vizinhos, para delas conseguir depoimentos, o autor jamais conseguiu terminar outro livro. Escreveu alguns contos, esparsamente, e mesmo seu Bonequinha de luxo, novela publicada oito anos antes de À sangue frio, teve um filme famoso (com Audrey Hepburn), não um livro. Pouco se sabe de fato dos motivos que levaram Capote a não conseguir alavancar sua carreira novamente, nem fazer nada de maior consistência. O fato é que o barril de pólvora que era sua vida deixou rastros, e fortes indícios de que as polêmicas envolvendo o próprio livro (o autor foi acusado de fazer por onde os criminosos retratados em seu livro serem logo executados, para que assim seu livro tivesse o final que ele desejava) e sua vida pessoal tenham enfraquecido suas forças e sua capacidade de escrever. Sua biografia fala por si só.

Nem tanto no Brasil, mas nos Estados Unidos, há um livro clássico lido por gerações, e este, foi, de fato, o único livro publicado pela autora. O livro é o romance O sol é para todos (To kill a mockingbird), publicado em 1960. A autora, Harper Lee, foi uma grande amiga de Truman Capote, tendo inclusive indo à cidade no Kansas com ele, onde ele foi pesquisar para o seu livro famoso.

Num romance criado para discutir a questão das desigualdades raciais, sociais e o estupro, Harper Lee criou uma gema literária e um romance imortal. Mas ficou só nisso. Anos depois, chegou a anunciar que estava escrevendo um novo romance, mas deixou-o de lado por achar que estava se perdendo e não tinha mais nada a dizer. Muito se especula, também, sobre sua saída de cena. Alguns dizem que, na verdade, ela não escreveu o livro. Quem o fez teria sido Truman Capote. Estudiosos de ambos dizem que isso é um absurdo, já que Capote era vaidoso demais para não querer que este livro, tão popular e respeitado – tendo inclusive recebido o prêmio Pulitzer -, não estivesse sob seu próprio nome. Outra teoria é a de que ela teve receio, à época, de o livro ser um fracasso retumbante, após o estrondoso sucesso do anterior. A mais provável, porém, é a afirmação que a própria autora fez a um amigo, e que veio à público em 2011: “Eu não passaria pela pressão publicitária pela qual passei com O sol é para todos novamente por nenhum dinheiro. E também porque eu já disse o que queria dizer e não o farei novamente”. Então é isso, e caso encerrado.

E você taí pensando que isso só acontece com escritor esquisitão e de gênio indomável? Pois não. Acontece até com quem sempre foi pacato, morava numa propriedade longe de tudo com sua família e anos depois, ganhou o Nobel. Pensemos no livro Senhor das moscas. Um verdadeiro clássico, publicado em 1954 por William Golding. Agora pense noutro livro dele. Vamos lá... E aí? Mais uma chance... Nada, né? Pois é. Golding é o típico caso de escritor de um livro só. Este é o escritor que, em 1983, viria a ganhar o cobiçado prêmio da Academia sueca. E olhe que Senhor das moscas nem foi o primeiro livro dele. O cara vinha publicando livros de poemas na década de trinta, até chegar na década de cinquenta e publicar o romance pelo qual seria lembrado (e enaltecido). E por mais que outros dez romances tenham se seguido a este, nada ficou como seu primeiro. Acontece.

Outro caso famoso é o do L. Frank Baum. Dizendo só assim, é capaz de você nem saber quem é. Pois eu digo. Ele escreveu nada mais, nada menos do que O mágico de Oz. É mole? Um clássico de umas quinhentas gerações, mais ou menos. Agora se segura aí: existem outros dezesseis livros que se passam na terra onde vai parar a Dorothy, o Totó, o Leão, o Homem de Lata e o Espantalho. Todos escritos pelo mesmo L. Frank Baum. Isso sem contar outros livros que ele escreveu fora da série. No entanto... quem lembra de um só títulozinho?

Surfando nesta mesma onda de azar está P. L. Travers, que ninguém sabe nem quem é. Mas se eu disser o título do livro dela (calma aí, eu vou dizer!), na hora você vai saber do que estou falando. Pois bem, P. L. Travers é a autora de Mary Poppins. Aposto que a primeira coisa que você se perguntou aí foi, “E o filme era baseado num liiiiiivro?!” Pois é, é sim. Agora que você sabe disso, vá ler o livro. Aliás, livros. Assim como o autor de O mágico de Oz, P. L. Travers era chegada numa continuação, e a Mary Poppins com a Julie Andrews que você conhece do filme é apenas a primeira de quase uma dezena de livros.

Outro que fecha a trinca com os dois acima é Lewis Carroll, autor de Alice no país das maravilhas. Carroll foi muitas coisas em seus 65 anos de vida. Além de escritor, foi matemático, especialista em lógica, diácono anglicano e fotógrafo. Aos 33 anos, publicou o primeiro livro de Alice e, aos 39, a continuação, Alice através do espelho. Depois desses dois livros, ainda andou publicando alguns poemas, vários livros de matemática, e, trinta anos após a publicação de sua obra-prima, seu último romance, e eu arranjo um exemplar autografado pra quem me disser, sem ir pesquisar no Google, qual é o título desse livro. Com um pé nas costas, sei que vou me poupar ao trabalho de conseguir um autógrafo do Lewis Carroll direto do além, por uma razão bem simples: ninguém lembra. Aliás, não fosse algumas editoras brasileiras lançarem os dois livros da Alice num só volume, poucos saberiam que a história dela teve um capítulo a mais. Outro autor que viveu uma vida meio controversa, com acusações de pedofilia, e problemas de saúde muito graves, o certo é que Carroll nunca conseguiu prosseguir numa carreira sólida de escritor, na qual fez sua verdadeira fama e fortuna – e apesar de ser um homem notadamente genial.

Falemos agora de Margaret Mitchell. “De quem?”, você pergunta. Resposta: E o vento levou. Desse você já ouviu falar, tenho certeza. Agora vou te contar quem era essa Margaret: lá pelos idos do final dos anos 20, essa nobre senhora da sociedade de Atlanta, na Geórgia, nos Estados Unidos, saiu de seu emprego como jornalista, onde assinava uma coluna de fofocas para um jornal local, veja só. Ela precisava se recuperar de um problema no tornozelo, e por isso, ficou de molho em casa. Por conta disso, ela não fazia outra coisa a não ser ler, ler muito. Um dia, seu esposo, cansado de sair pra trabalhar e voltar do trabalho e ver a mulher com a cara enfiada nos livros (na verdade, ele estava cansado era de ter que ir toda semana à biblioteca pública pra pegar livros pra esposa ler, num ir-e-vir sem fim), sugeriu a ela: “Mulher, será que não dá pra você escrever seu próprio livro, ao invés de ficar lendo esses milhares de livros da biblioteca?”. Pois foi assim que essa história começou. Nos três anos seguintes, ela não fez outra coisa da vida a não ser escrever o romance, e o marido dela, que achava que ia ter paz, trocou seis por meia dúzia, porque ao invés de sair pra pegar livros emprestados, tinha que sair pra comprar resmas de papel, já que a mulher escrevia sem parar, a ponto de sentar-se em cima dos próprios manuscritos, fazendo-o de sofá.

Não há como saber se Margaret Mitchell teria tido algum outro sucesso espetacular na carreira (a autora ganhou o Pulitzer pelo seu famoso romance, em 1937), já que, dez anos após a publicação de E o vento levou, ela ainda não tinha produzido nada. Talvez os efeitos do sucesso do filme, que lhe deram muita publicidade e pouco tempo e paz para voltar a escrever, tenham sido fatores. Mas o certo é que sua carreira foi abreviada ainda mais porque, numa certa tarde de 1949, em que se decidira a ir ao cinema com o marido, Margaret Mitchell foi atropelada por um taxista, e morreu cinco dias depois. Resultado: mais uma autora de uma obra só. Antes da fama, ela tinha escrito algumas coisas num estilo erótico, e depois da fama descobriu-se um romance escrito na juventude, descoberto nos anos 1990. De qualquer forma, tudo muito aquém do clássico que ela criou, de acordo com público e crítica.

Às vezes, é a morte que abrevia as coisas, mesmo. Quando Margaret Mitchell morreu, ela já tinha publicado E o vento levoudoze anos. Tempo suficiente pra tentar espremer alguma coisa, na maioria das vezes. Outras vezes, como no caso da inglesa Emily Brontë, é que havia uma tuberculose no meio do caminho. A escritora faleceu aos 30 anos (trinta anos, meu povo, isso lá é idade pra alguém morrer?!), poucos meses depois da morte do irmão. Algumas pessoas chegaram a dizer que ela morreu de “coração partido” por conta da morte do irmão, mas ela morreu mesmo foi de um resfriado que virou uma gripe que encontrou uma tuberculose mal curada e a junção de tudo isso ressuscitou o problema. Um ano antes, ela havia publicado O morro dos ventos uivantes, e não viveu para ver o sucesso da obra nem, naturalmente, o fato de que se tornaria um clássico nos anos seguintes. Emily Brontë foi mais uma que a morte arrastou para o caixão, levando uma carreira junto. Numa carta para seu editor, ficou-se sabendo que ela começou a escrever um segundo romance, mas o manuscrito jamais foi encontrado. Então, é O morro dos ventos uivantes e só.

Agora, uma perguntinha pra vocês me odiarem para sempre: quem foi Oscar Wilde? Vão lembrar que ele foi preso porque era gay e teve um caso com um filhinho de papai que no fim das contas acabou com a vida dele. Vão lembrar que ele escreveu peças, contos, poemas... Mas se perguntarem qual o trabalho mais famoso do rapaz, eu aposto com você que vão dizer: O retrato de Dorian Gray. Não adianta se espernear, meu povo! É a verdade e acabou-se. Sim, ele tem várias peças famosas, aforismos (o Facebook que o diga!), mas o famoso, famoso mesmo, é o seu único romance sobre o garboso rapaz que roga aos deuses que o quadro no qual está retratado envelheça em seu lugar – e tem seu pedido atendido, mas recebe também otras cositas más que ele não pediu, mas que estavam no pacote também. E nessas horas, esse tipo de coisa é igual a marido ou mulher: você casa, e recebe inteiramente grátis o que gosta e o que não gosta e vai literalmente dormir com o pacote completo. Fim.

Dificilmente existe alguém que nunca tenha ouvido falar em Frankenstein, ainda que associe este nome a um monstro. Pois o monstro da história, na verdade, nunca recebeu nome. Frankenstein é o nome do criador do monstro que, por não ter lhe concedido um nome acabou cedendo o seu a ele, involuntariamente, no imaginário popular. Este clássico dos clássicos foi escrito por Mary Shelley quando ela tinha menos de vinte anos (não tem como não se deprimir quando você pensa que uma menina com menos de duas décadas de vida escreveu um clássico e você até hoje só na promessa de escrever algo que preste, mas é a vida). E embora ela ainda tenha escrito vários outros romances, contos, ensaios e biografias, nada dela chegou com força no presente. As obras existem, a maioria está editada, mas vira uma coisa pra curioso ler (e depois dizer que bom mesmo era o Frankenstein...).

Eu poderia mencionar inúmeros outros casos, de maior ou menor fama, de gente que ficou famosa por uma única obra, mas a crônica iria se transformar numa versão moderna das mil e uma noites.

Em que pese tudo o que leva um autor a escrever apenas uma obra, ou escrever uma vasta obra e no fim ser lembrado apenas por uma (o que, convenhamos, é uma desgraça ainda pior), o certo é que a história da literatura está repleta de casos como os narrados acima. De pessoas memoráveis, ainda que por um único feito.

E enquanto isso, estamos nós do lado de cá. Nós, que provavelmente não deixaremos nada para a humanidade como um todo. Nós, os esquecíveis. Será? Consola acreditar que seremos lembrados por aqueles que gostam de nós? Consola manter viva a ideia de que, em não produzindo algo eterno, pelo menos demos o nosso melhor pra modificar (pra melhor, espera-se) a nossa realidade?

Se você chegou até aqui, tem um tempo pra pensar.

E aí, consola? 



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7 de janeiro de 2013
Um copo de cólera

Um copo de cólera


por Rebeca Xavier


Cólera.
Cólera...
A palavra dança, melhor, perambula pela língua – como houvesse mais de uma língua na minha boca e todas estivessem perdidas-hipnotizadas pela pronúncia da palavra que passeia, digo, perambula por elas.
Cólera... a palavra, em si, fervilha em mim sentimentos controversos, que se batem em velocidade indescritível soltando pequenos gritos de luz, condensando-se incontivelmente num bloco único, mínimo e turbulento – que então é-me ofertado puro....
... sem gelo.

Ouvi, certa vez, uma amiga dizer-se ainda não preparada para uma dose tão densa de cólera. Hoje, depois de ter lido, confesso, de um gole seco e inesquecível, o Um copo de cólera do brasileiro Raduan Nassar, eu me questiono se um dia alguém estará preparado para essa leitura. O que R.N. nos apresenta com essa novela vai tão além da expectativa que dificulta um pouco o trabalho de qualquer pessoa que tenha a pretensão de o adjetivar. Inicia-se com duas pequenas epígrafes que chamam a atenção pela força de suas expressões: “Ninguém dirige aquele que Deus extravia” e “Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil rebento do anarquismo” e segue em sentimentos densos – ou forçosamente compactados – por cinco capítulos de poucas páginas: A chegada, Na cama, O levantar, O banho e O café da manhã.

Das epígrafes ao fim do quinto capítulo, o que R.N. nos dá pode ser dito como uma convivência de cargas sexuais e ideológicas opostas, atrativas, portanto. O narrador, em primeira pessoa, cria deliberadamente uma tensão ideológica-sexual-amorosa e, posicionando-se como macho dominador, rumina durante esse primeiro momento o seu próprio prazer e, através dele, o prazer de sua fêmea – não há palavra mais apropriada neste momento. A tensão criada torna-se quase sufocadora, ao mesmo tempo fluida, ao ser condensada inteiramente em um único período gramatical, como se fosse um gole – ou um escarro.

E quando cheguei à tarde na minha casa [...], ela já me aguardava andando pelo gramado [...] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?” [...] e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” [...] fui sem pressa pra cozinha [...] e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate [...] sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca [...] eu só sei que quando acabei de comer o tomate [...] sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto. (p. 9-11)

Todo o tempo, o narrador se apresenta como “o macho” cuja chegada é aclamada em uma das epígrafes. Apenas n’O banho e no último capítulo ele mostra a fragilidade – também anunciada – num comportamento quase edipiano, quando se permite banhar após levantar-se para o café. E, mesmo nesse momento de entrega aos cuidados da fêmea-mulher-mãe, ainda há a tensão deliberada, a ordem acatada.

[...] eu disse “me lave a cabeça, eu tenho pressa disso”, e então, me tirando do foco da ducha, suas mãos logo penetraram pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando meu couro com as unhas, me raspando a nuca dum jeito que me deixava maluco na medula, mas eu não dizia nada [...] eu só sei que me entregava inteiramente em suas mãos para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo. (p. 22-24)
  



Mas, só no sexto capítulo (o mais longo, com 55 páginas) que o copo se quebra e a cólera é espalhada por todos os lados, molhando as rachaduras mal cuidadas desse relacionamento. Cólera em seu sentido mais bestial. É nesse momento que “aquele que Deus extravia” se apresenta com força de fera, jorrando ira por todos os lados.

Um buraco de alguns palmos feito por “malditas saúvas filhas-da-puta” (p. 31) na cerca viva do jardim é a desculpa que liberta o verbo não dito. E o verbo não dito são saúvas em cercas-vivas bem podadas. Aos poucos se evidencia que as saúvas na cerca-viva não são o problema, mas o descontrole protelado ou o falso controle que alimenta a macheza do narrador.

[...] e de balde já na mão deito uma dose dupla de veneno em cada olheiro, c’uma gana que só eu é que sei o que é [...], puto com essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda [...], daí propiciei a elas a mais gorda bebedeira [...] (p. 31-32)
  
Puto” com o que havia acontecido, retorna e vê sua fêmea “[...] recostada no pára-lama do carro, a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada” (p. 32) e O esporro – título desse sexto capítulo – é literal,  liberta-se com a força de um esporro guardado e ritmicamente induzido até a exaustão. E, na exaustão, após a despedida, o ritmo reinicia-se no sétimo capítulo, A chegada – com o controle re-adquirido e o retorno na fêmea-amante-mãe que “mal continha o ímpeto de” se “abrir inteira e prematura para receber de volta aquele enorme feto” (p. 85).

R.N., que também em sua carreira teve um esporro literário e logo depois o sono, escreveu essa novela em 15 dias, em 1978, o que fomenta ainda mais a intensidade que propagandeio aqui. No entanto, duas semanas foram o período apenas do parto – para mudarmos a ótica de masculina para feminina, como ele mesmo faz ao final do livro –, a gestação foi mais longa.

Disse que escrevi a narrativa em quinze dias, mas esses quinze dias foram só o tempo de descarga. É que a novela deveria estar em estado de latência na cabeça, e sabe-se lá quanto tempo levou se carregando, ou se nutrindo - de coisas amenas, está claro - e se organizando em certos níveis, até que aflorasse à consciência. (Raduan Nassar em entrevista)

O que me resta, enfim, é a angustiante questão: Um copo apenas é muito? ou é como uma dose de uísque, sem gelo, puro, descendo pela garganta como se limpasse o ralo do juízo, eliminando as impurezas da consciência... como fosse uma purificação? ou, como diria a fêmea-amante-mãe, durante O café da manhã, “eu não tive o bastante, mas tive o suficiente”...?



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