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9 de abril de 2014
Golpe Haikai: Poesia letal, espada de samurai.

Golpe Haikai: Poesia letal, espada de samurai.



 por Dassayeve Lima

Pode até ser difícil de acreditar, mas a imagem acima é de uma das poesias mais importantes do oriente, e a mais famosa do Japão, escrita há mais de 300 anos por Matsuo Bashō.

Bashō, considerado o pai do Haikai e poeta mais importante do Japão, nasceu no ano de 1644, em Tóquio no Japão, e faleceu em 1694, em Osaka, no mesmo país, tendo durante sua vida, vários seguidores, que buscavam a essência da poesia Haikai, e do estilo de vida Zen. Foi um samurai que virou um monge Zen, e fez da poesia uma prática "DÔ", ou seja, uma atividade ligada ao budismo Zen do Japão. Os “Dôs” são caminhos utilizados pela prática Zen budista. O ritual do Chá, por exemplo, é o “Cha-dô”, ou “Caminho do Chá”, e é uma tradição de cunho essencialmente social, no qual um indivíduo prepara a cerimônia que pode durar até quatro horas, como uma demonstração de respeito e honra aos seus convidados.

No caso do Haikai, o caminho é o “Haiku-Dô”. No Haiku-Dô, a poesia não é utilizada no uso meramente literário: ela tem como objetivo facilitar a iluminação espiritual. Através da interrupção do pensamento formal, o Haikai permite que o praticante Zen possa apreender conteúdos que normalmente seriam inacessíveis à razão, como se fossem pequenos insights. Essa característica específica da escrita é chamada de Koan.




Esse tipo específico de poesia, o Haikai, na sua forma clássica, segue algumas formas pré-estabelecidas. O Haikai não pode ser em sua forma original, uma poesia que expresse algo pessoal. Geralmente, é interpretado como um tipo de fotografia em texto, que capta um instante fugaz, geralmente fenômenos da natureza, no qual se utiliza apenas 17 silabas (três versos de 5-7-5), ou seja, se utilizando da velocidade e da simplicidade. É como descrever um momento, experiência ou acontecimento, utilizando o mínimo possível de sílabas para isso. Rápido e letal, como um golpe samurai. O Haikai não utiliza rimas, e segue a seguinte estrutura:

X X X X X - 5
X X X X X X X - 7
X X X X X - 5

Como se diz, “toda tradução é uma traição”, e no Haikai, isso é radicalizado. A tradução de um Haikai para outro idioma, sempre implica uma pobreza no sentido, quando não, uma alteração dele, já que nosso Alfabeto (ABC...), e modelo de escrita na horizontal, da esquerda pra direita, (“Gutemberguiano”, como diria Leminski) não dá conta da experiência estética e escrita quase que artesanal do Haikai. O Haikai não é só escrito, ele é também desenhado.

No Brasil, para se ter uma ideia, foram feitas várias traduções da poesia acima, conhecida como a “Antologia da Rã”, que pode parecer aparentemente simples, caso o que seja levado em consideração seja o "texto" (Mas um Haikai nunca é só um texto).

FURU IKE YA
KAWASU TOBIKOMU
MISU NO OTO

Uma das traduções mais conhecidas é a de Paulo Leminski:

"Velha lagoa
O sapo salta
O som da água”

 No entanto, por incrível que possa parecer, essa é apenas uma das dezenas de traduções de uma das poesias mais famosas do oriente. Ela aparenta ser simples, mas como dizia 
Paulo Leminski, de poesia e de Zen, não se deve entender, se deve experimentar. Algumas das traduções da Antologia da Rã são:

VELHA
LAGOA
UMA RÃ
MERG          ULHA
UMA RÃ

AGUÁGUA
Décio Pignatari

“O velho tanque
                                  rã salt’
                                          tomba
                                                   rumor de água”
                        Haroldo de Campos.

Um templo, um tanque musgoso;
Mudez apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água. Mais nada...”.
Wencelau de Moraes

“Velho tanque abandonado ao silêncio...
lança-se a rã num mergulho:
quase inaudível som da água.”
Antônio Nojiri

Embaixo do tanque
Não encontro o que procuro
Uma rã me assusta.”
Clóvis Moreira dos Santos


No lago, mergulha
uma rã... Na água, a manhã
verde-azul borbulha...”.
Cyro Armando Catta Preta

No entanto, nem só de Japão e Zen vive o Haikai. O estilo ganhou adeptos no mundo todo, e é venerado por escritores de diversos estilos e movimentos literários. Jack Kerouac, por exemplo, eterno ídolo do movimento beatnick, autor de clássicos como “On the Road” (Pé na Estrada) e “The Town and the City” (Cidade Pequena, Cidade Grande), se aproximou da cultura oriental e do Zen budismo no final de sua vida, e dessa aproximação surgiu sua paixão pelo Haikai, que deu origem a um tipo de Haikai ocidentalizado, e por que não dizer: “Haikai Beatnick”. Em sua última entrevista, publicada na The Paris Review, em 1968, cedida a Ted Berrigan, Kerouac explica um pouco sobre o que é o Haikai, e como ele escreve os seus.

TED BERRIGAN — Você disse que haiku (Haikai) não é escrito espontaneamente, mas trabalhado várias vezes e revisado. Isso se aplica a toda a sua poesia? Por que o método para escrever poesia se diferencia do método para escrever prosa?

KEROUAC — Não, primeiramente, escrever em haiku fica melhor quando se revisa e trabalha várias vezes. Eu sei, eu tentei. Deve ser completamente econômico, sem floreios e linguagem rítmica, deve ser como uma simples foto com três linhas. Pelo menos foi assim que os mestres mais velhos fizeram, gastando meses em três linhas, e dizendo:
 No barco abandonado,
O granizo
Bate violentamente.

Isso é Shiki. Mas para o meu verso regular em inglês, eu fiz como uma prosa corrida, e para obter isso, usei um caderno do tamanho do manuscrito original de “Vanity of Duluoz”. O rolo é feito de um papel fino de centenas de metros, para a forma e comprimento do poema, assim como um músico de jazz tem que colocar sua letra numa determinada quantidade de barras, dentro de um refrão, que se repete ao longo do texto, mas neste caso o refrão não para quando a folha termina. E finalmente, na poesia você pode ser completamente livre para dizer o que quiser, você não precisa contar uma história, pode usar trocadilhos secretos.

TED BERRIGAN —  Como você escreve Haikai?

KEROUAC — Haikai? Você quer ouvir Haikai? Veja, você tem que comprimir em três linhas uma história enorme. Primeiro você começa com uma situação Haikai — então você vê uma folha, como eu tinha dito a ela (Stella) outra noite, caindo nas costas de um pardal durante uma forte tempestade de inverno em Outubro. Uma grande folha cai nas costas de um pequeno pardal. Como você pode comprimir isso em três linhas? Agora, em japonês você tem que comprimir em 17 sílabas. Não precisamos fazer isso em inglês, pois não temos o mesmo sistema silábico que o Japonês. Então você diz: “Pequeno pardal” — você não tem que dizer “pequeno” todo mundo sabe que um pardal é pequeno, então você diz:

“Pardal
Com grande folha em suas costas —
Tempestade”

Não está bom, não funciona, esqueça.

“Um pequeno pardal
Quando repentinamente uma folha toca suas costas
Do vento.”

Ah, assim que se faz. Não, está um pouco longo. Viu? Já está um pouco longo, Berrigan, entende o que quero dizer?

TED BERRIGAN —  Parece haver uma palavra extra. Que tal tirar o “quando”? Ficaria:

Um pardal
Uma folha de outono repentinamente toca suas costas —
Do vento!

Ei, isso está bom! Acho que “quando” era a palavra extra. Você pegou a ideia aqui, “Um pardal, uma folha de outono de repente”— não temos que dizer “de repente” não é?

“Um pardal
Uma folha de outono toca suas costas —
Do vento!”




Outros Haikais de Kerouac, que ilustram o seu estilo “Haikai Beatnick” são:


“Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.”

Desci da minha
torre de marfim
E não achei mundo nenhum”

“No meu armário de remédios
a mosca de inverno
está morta de velhice.”


“Café e cigarro
Meditação Zen
Pra quê?”

Em terras brasileiras, o Haikai da “América do Sul, do sal e do sol”, teve como destaque, três escritores que se dedicaram à produção desse gênero poético: Millôr Fernandes, Alice Ruiz e Paulo Leminski. Milton Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernandes, carioca, nascido em 1923, sob o signo de Leão, foi desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor, e jornalista brasileiro. Sob sua inserção no universo da escrita Haikai, Millôr afirma:

“Meu interesse pelo Haikai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro. Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas.

Novamente, nota-se um tipo diferente de Haikai, que diferente do original japonês, não se preocupa com o número de sílabas. Uma característica marcante de seus Haikais, é que geralmente eles têm um toque de humor, e muitos deles, são versos rimados, preocupação esta que não existe no Haikai tradicional.


“Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.”


“No ai
Do recém nascido
A cova do pai.”

“Prometer
E não cumprir:
Taí viver.”


“Esnobar
É exigir café fervendo

E deixar esfriar.”


Alice Ruiz, por sua vez, é poeta e tradutora, e aos 26 anos já publicava seus poemas em jornais e revistas, lançando seu primeiro livro “Navalhanaliga”, em 1980, aos 34 anos. Foi casada com o também poeta Paulo Leminski. Até agora, Alice Ruiz tem 21 livros publicados, entre poesias, traduções e uma história infantil. Selecionar alguns Haikais de Alice Ruiz, não é tarefa fácil, no entanto, estes são alguns:

“Quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa.”
  
“Você deixou tudo a tua cara
Só pra deixar tudo
Com cara de saudade.”

“Travesseiro novo
primeiras confissões
a história do amigo”

“Amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa”

Por último, Paulo Leminski, virginiano, nascido no ano do macaco em 24 de agosto de 1944, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico, compositor, faixa preta de judô e boêmio. Como um típico filho de Virgo, tentava levar cada uma das atividades que se dedicava à perfeição. Como biógrafo, escreveu as biografias de Bashō, Cruz e Souza, Jesus e Trotski com uma identidade de escrita inconfundível. Impossível não reconhecer Leminski nas análises que este fazia da poesia do simbolista e erótica de Cruz e Sousa, no processo de humanização que este deu à Jesus Cristo, no amor que este tinha ao escrever sobre o Haikai, Bashō e a cultura Zen, e no entusiasmo que ele tinha ao escrever sobre a revolução russa e seu herói: Trotski.

“En la lucha de classes
Todas las armas son buenas
Piedras, noches, poemas”
  


Leminski se aperfeiçoou no Haikai, e o fez como nenhum outro escritor brasileiro. Conseguia dizer em três linhas, o que talvez nenhum “Poema Sujo” tenha dito, e sabia dominar e brincar com as palavras como ninguém. Dizia que todos os idiomas e técnicas que aprendeu, todos os livros que leu, tudo o que aprendeu sobre a escrita e a poesia, foi para que, com o tempo, aprendesse a escrever uma poesia letal, que atingisse o leitor num só golpe. Todo o aprendizado de Leminski foi para aprender a diminuir. Escrever menos, falando mais. Obviamente, não poderia e nem pretendo dar conta da escrita e da poesia de Leminski, mas deixo aqui alguns de seus Haikais.

Isso de querer ser
Exatamente aquilo que a gente é
Ainda vai nos levar além”

“Tudo dito
Nada feito
Fito e deito”

“luxo saber
Além destas telhas
Um céu de estrelas”

“Ameixas
ame-as
ou deixe-as”

“A noite – enorme
Tudo dorme
Menos teu nome.”



Por fim, este que considero o melhor Haikai escrito por Leminski, e um dos melhores Haikais nacionais. Ainda hoje, consigo lembrar a sensação que tive ao ler esses três versos. Acredito que nenhum romance tenha me dito tanto, ou causado tanto impacto:
  
Vazio agudo

             Ando meio

Cheio de tudo

O Haikai é a poesia da experiência, do impacto, é o insight, fotografia em texto, é Koan. Haikai é um/o golpe letal.

Ai dos meus ais!
Se não fossem
Meus haikais.


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10 de março de 2014
Deus, o nome, ensaio de Anderson Fonseca

Deus, o nome, ensaio de Anderson Fonseca


por Anderson Fonseca

Seria o tempo a sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único nome?   Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa, fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em diferentes circunstâncias. Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto – tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é, quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o tempo é a sucessão desse nome no pensamento. No livro de Êxodo, cap. 3, 14, Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real. O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado.

Entretanto, a narrativa bíblica nos apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é, o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o Ser-É-em-si, é um nome a qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação circunstancial segundo outra voz, aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi, o Ser-seria.

A palavra Ser é verbo, mas também é substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois, sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua experiência só o é real, devido à relação estabelecida com o conceito que se repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa.

Conforme a Bíblia, a narrativa seria a repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa (história) ou se a narrativa é a transformação continua desse Nome. Quando se lê a Bíblia está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos séculos.  A Literatura é, portanto, a narrativa de um Nome. Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e, devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades) como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo, Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque d’Ele o homem só tem conhecimento um Nome incompleto.

Moisés esperava de Deus saber seu Nome, mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo, reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável. O Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber características que não lhe pertencem para torná-lo entendível. A Literatura, logo, é a letra que falta.

A letra que falta é a razão do Nome ser na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e enquanto narrativa, o Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.

Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:
Todas as coisas são palavras lidas
Na língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve essa infinita algaravia


Que é a história do mundo. 
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2 de março de 2014
1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas

1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas




Quer saber uma das maneiras mais divertidas de voltar ao Brasil no ano de 1995? É só escutar o disco dos Mamonas Assassinas. Alguns devem estar achando que estou de brincadeira, porque eles eram uma banda com letras satíricas, aí é que está à questão, uma das funções da sátira é desenvolver um texto crítico-social, esses eram os Mamonas Assassinas. Aristóteles comenta que na sátira "os poetas imitam os homens piores do que são, e naquela, melhores do que eles ordinariamente são." Não são poemas que comentarei, são canções, mas acredito que o comentário de Aristóteles em sua poética é bastante pertinente para a construção de nosso diálogo sobre o tema proposto. A escritora Leyla Perrone-Moisés comenta que “a linguagem não pode substituir o mundo, nem ao menos representá-lo fielmente. Pode apenas evocá-lo, aludir a ele através de um pacto que implica a perda do real concreto.” Sendo assim, conseguimos sim evocar uma época remota através da arte, podemos sim compreender o que foi 1995 no Brasil através das canções mamônicas.

O fator social é importante na construção satírica, pois é a partir da vida “fora da caverna” que o poeta se inspira para satirizar. O crítico Antonio Candido sobre a análise social comenta “que o externo (no caso o social) importa, não como elemento que desempenha um certo papel na construção da estrutura, tornando-se, portanto, interno.” O fator social é elemento interno à produção artística, ela faz parte da gênese criativa não como fator de estrutura mas sim no fator que gostaria de pontuar aqui, a linguagem. Por exemplo a letra de Chopis Centis, a começar pelo título já nos é estranha, mas se os autores desta canção a fizessem tal qual ordena a gramática, a criticidade e potencia dessa música seria evacuada.

 Antes de começar a discorrer sobre alguns trechos do disco, irei apresentar a banda: Dinho (Alecsander Alves) - vocais e violão; Bento Hinoto (Alberto Hinoto) - guitarra e violão; Samuel Reoli (Samuel Reis de Oliveira) – baixo; Sérgio Reoli (Sérgio Reis de Oliveira) – bateria e Júlio Rasec (Júlio César) - teclados, backing vocals e vocais. Sobre o sucesso da banda e saudade que eles deixaram, acredito que não se tenha necessidade de comentar.

O disco homônimo da banda é dificilmente classificável, pois nele há uma abrangência de ritmos musicais, há quem comente que a proposta da banda era satirizar os mais variados ritmos, por isso encontramos no disco: brega; baião; havy metal; pop rock; rap e o pagode. Embora eles façam esse passeio musical a pegada pop rock persegue o álbum inteiro. O instrumental da banda é excelente. O guitarrista Bento Hinoto formulou excelentes riffs e solos. A pegada do baterista Sério Reoli e o baixo desconcertante de Samuel mereceram elogios vindo de inúmeros músicos. Esse disco é clássico para a maioria dos adultos de hoje que viveram a infância nos anos 90. Impossível não soltar gargalhadas nas canções do disco.

O disco abre com a canção 1406, o título faz referência à parte final de número de tele-vendas. A letra fala sobre o consumismo e a divisão de classes: o rico e o pobre. Alias o consumismo é satirizado em vários trechos como nesse:

Eu queria um apartamento no Guarujá
Mas o melhor que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado

            A idéia de consumo é reforçada no refrão: “Money, que é good e nois num have/ se nois hevasse nois num tava aqui playando/ mas nois precisa de worká”. Essa mistura de linguagens e idiomas pode ser entendida por os estrangeiros estarem no Brasil também trabalhando, ou os brasileiros que saem do país em busca de uma vida econômica melhor. O tema do consumismo volta em certo trecho da canção Pelados em Santos:

Na Brasília amarela com roda gaúcha
ela não quis entrar.
Feijão com jabá
a desgraçada não quer compartilhar

        Vejam só: o “dom Ruan” da canção é dono de um automóvel popular, com rodas que não são importadas e a sua musa recusa-se a entrar por capricho, mas nem por causa desse capricho ela recusa comer um prato tipicamente apreciado por populares. Não importa o que ela pense porque “ela é lindha! Muito mais do que lindha! Very very beatiful!”. Voltando a nossa viagem no tempo, encontramos a visão geral do Brasil de 1995 comentada na canção Cabeça de Bagre II, acompanhe o trecho:

Fome, miséria, incompreensão,
O Brasil é Treta Campeão
(...)

Note que em vez de grafar TETRA ele grafa TRETRA. Na gíria a palavra "treta" significa dentre várias coisas: rolo e desentendimento. De fato o tetra campeonato da seleção brasileira de futebol, não resultou em saltos positivos para a situação social do Brasil. Na verdade eles ironizam afirmando que embora o país passasse por “fome, miséria, incompreensão”, tínhamos motivos para esquecer-se de tudo por causa de uma conquista esportiva. Sem falar que o eu-lirico da canção repetiu inúmeras vezes a 5° série. Seria esse trecho uma crítica a educação dos brasileiros nas escolas?

Show em Fortaleza-CE

Lembra do filme Uma linda Mulher com Julia Roberts e Richard Geret. Este filme é satirizado na canção Uma arlinda mulher, a mulher descrita nessa canção foge de todas as qualificações líricas clássicas:

Te encontrei toda remelenta e estronchada
Num bar entregue às bebida
Te cortei os cabelos do sovaco e as unhas do pé
te chamei de querida
Te ensinei todos os auto-reverse da vida
e o movimento de translação que faz a terra girar
Te falei que o importante é competir
mas te mato de pancada se você não ganhar

Mesmo em tempos ditos pós-modernos ainda é complicado para alguns aceitar a homossexualidade de alguém, imagine isso há quase vinte anos atrás. Olhe que não faz tanto tempo assim, o tema ainda era polêmico. Para polemizar mais ainda o vocalista Dinho a cantava devidamente vestido de mulher. O tema é satírico-dissertado na canção Robocop Gay:

Abra sua mente
Gay também é gente
Baiano fala oxente
(e come o quê)
E come vatapá

Você pode ser gótico
Ser punk ou skinhead
Tem gay que é muhamed
Tentando camuflar
(allah meu bom allah)

Faça bem a barba
Arranque seu bigode
Gaúcho também pode
Não tem que disfarçar

Faça uma plástica
Aí entre na ginástica
Boneca cibernética
Um robocop gay…

Passaram-se quase vinte anos e o tema ainda é polêmico, ainda é discutido e para alguns ainda não aceitável. Acredito que no trecho “ontem eu era católico/ hoje sou um gay” deixaram muitos padres de cabelo em pé. Alias desde os riffs, nota-se uma canção animada, dessas boas para espantar o tédio. 

A saga de um nordestino em busca de condições melhores no sudeste brasileiro é narrada na canção Jumento Celestino. A canção perderia a sua energia se não tivesse o elemento musical de origem nordestina: o baião. Essa canção, na minha mais humilde opinião, é a melhor canção do disco pelo conjunto da obra: letra e som:

Tava ruim lá na Bahia, profissão de bóia-fria
Trabalhando noite e dia, num era isso que eu queria
Eu vim-me embora pra "Sum Paulo",
Eu vim no lombo dum jumento com pouco conhecimento
Enfrentando chuva e vento e dando uns peido fedorento (vish)
Até minha bunda fez um calo
Chegando na capital, uns puta predião legal
As mina pagando um pau, mas meu jumento tava mal
Precisando reformar
Fiz a pintura, importei quatro ferradura
Troquei até dentadura e pra completar a belezura
Eu instalei um Road-Star!

Nem o jumento escapa de uma incrementada capitalista, pois até o “irmão-nordestino”, como diria Luís Gonzaga, não escapa das prestações, ou seja, o animal foi adquirido como se adquire um automóvel. ainda por cima o baiano nem havia terminado de pagar as prestações. A linguagem descrita na letra, tipicamente nordestina, coloca em evidência a fala característica típica de um cordel em que o cantador descreve uma estória rica em aventuras e desfeche engraçados. É inevitável não soltar boas gargalhadas nessa e em outras canções.

Porém na noite do dia 2 de março de 1996, o jatinho que transportava a banda de um show de Brasília, chocou-se na Serra da Cantareira, colocando um ponto final na banda de maior sucesso meteorológico da historia da indústria fonográfica brasileira. Esse texto teve apenas como objetivo lembrar um pouco dos Mamonas, das canções, do Brasil de 1995 e principalmente lembrar de minha infância, escutava muito eles. Que a memória deles seja eterna.



ARQUIVOS CITADOS

ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética Clássica. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2005.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 2° Ed. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1967.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da Escrivaninha – ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FICHA TÉCNICA E TRACKLIST DO ALBUM MAMONAS ASSASSINAS (1995)

Álbum: Mamonas Assassinas
Intérprete: Mamonas Assassinas
Lançamento: setembro de 1995
Gravadora: EMI
Produtor: Rick Bonadio (o “Creuzebek”)

Dinho: voz
Bento Hinoto: guitarras, violão e backing vocal
Júlio Rasec: teclados, backing vocal e “Maria” em “Vira-Vira”
Samuel Reoli: baixo e backing vocal
Sérgio Reoli: bateria e backing vocal

1. 1406 (Dinho / Júlio Rasec)
2. Vira-Vira (Dinho / Júlio Rasec)
3. Pelados Em Santos (Dinho)
4. Chopis Centis (Dinho / Júlio Rasec)
5. Jumento Celestino (Bento Hinoto / Dinho)
6. Sabão Crá-Crá (The Mad Ku-Ku) (Folclore Popular / Marvin Hatley)
7. Uma Arlinda Mulher (Bento Hinoto / Dinho)
8. Cabeça de Bagre II (Bento Hinoto / Dinho / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
9. Mundo Animal (Dinho)
10. Robocop Gay (Dinho / Júlio Rasec)
11. Bois Don’t Cry (Dinho)
12. Débil Mental (Dinho / Bento Hinoto / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
13. Sábado de Sol (Felipe / Pedro / Rafael)
14. Lá Vem O Alemão (Dinho / Júlio Rasec)
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17 de fevereiro de 2014
O som no cinema: imagens que vibram

O som no cinema: imagens que vibram


por Romário Nunes*

A música suplementa a atmosfera cinematográfica desde os primeiros filmes. Nas apresentações no cinématographe Lumière, o som de piano acompanhava as projeções ao vivo, desempenhando assim, um ritmo. Talvez por isso, muitos contestem a noção de Cinema Mudo, já que o som sempre permaneceu junto às imagens, fortalecendo a dramaticidade das cenas. 

A invenção do telefone sem fio por Landell de Moura em 1904, contribuiu para muitos cientistas pensarem na possibilidade de unir em definitivo as imagens fabricadas aos sons produzidos. Mas mesmo antes do telefone, o Fonógrafo, aparelho que Thomas Edison desenvolveu em 1878 para gravar e reproduzir o som, já alçava voos a fim de captar e emitir sensações através das ondas sonoras. Posteriormente, Edison elabora outra máquina, o Kinetoscope, que tinha a função de sincronizar as imagens da câmera ao som do Fonógrafo.

Com o Kinetoscope, Edison pôde fixar o som à película, que mesmo com uma má qualidade, foi determinante para prover os filmes de diálogos. Portanto, o cinema proporcionou o elemento sonoro em relação ao dispositivo imagético, condicionando o espectador a direcionar não somente sua visão, mas também sua audição para a tela.

Para entendermos o porquê da vontade de obter filmes sonoros, temos como exemplo o filme Berlin: sinfonia de uma cidade (1927). Este filme de Walther Ruttmann, apesar de gravado de forma silenciosa, é emblemático para pensarmos a composição sonora na máquina cinematográfica. As imagens mostram o acordar e o anoitecer da cidade de Berlin, contudo, o tom do filme é outro quando assistido acompanhado de uma partitura musical. A dramaticidade causada pelo dispositivo de áudio desloca o espectador do acento para a tela, envolvendo-o com as imagens de forma mais intensa.

Ruttmann experimentava o uso do som de várias formas. Em 1930, lança uma produção totalmente sonora, ou seja, sem imagens. Intitulado Fim de semana, esta produção aponta para a forma narrativa que o som pode gerar. A gravação surpreende pela linha narrativa e, mesmo sem ver o que se passa, nos coloca como espectadores de acontecimentos que se postam de forma sucessiva.

Outro marco na história do cinema sonoro foi o filme The jazz singer (1927) de Alan Crosland. Este musical surpreendeu a todos pela introdução de pequenas falas ao longo da narrativa. Para sua exibição, foi utilizado um sistema de sonorização através do Vitaphone, outro aparelho que sincronizava com mais qualidade a projeção a um disco que dispunha da trilha sonora. Este filme foi primordial para consolidar de vez a presença do áudio em sincronia com a imagem.

 2001: uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, contribui para refletirmos sobre a concepção do som na imagem. O filme se inicia com uma sinfonia com o plano da tela escuro. Kubrick introduz um tempo em que o som impera, e cria novas possibilidades com relação ao uso da trilha sonora, incorporando assim, outro sistema de narrar através do que captamos com nossos ouvidos na sala de cinema.

A matéria sonora cria ambientes, espaços outros, que revigoram uma narrativa cinematográfica. Hoje, a forma audiovisual ganhou força, e move-se com grande movimento, reverberando em outras linguagens como a videoinstalação, determinando para novas construções artísticas que, de certa forma, dialogam com o cinema. A junção do som à imagem trouxe possibilidades diversas à narrativa cinematográfica, e como uma arte híbrida, o cinema soube usar este elemento e incorporá-lo de modo significativo. 



*Graduado em letras/inglês pela Universidade Estadual do Ceará, têm experiência no ensino de língua inglesa em cursos de idiomas. Atualmente é mestrando em Literatura Comparada do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará, e é estudante do curso de realização em audiovisual da escola Vila das Artes na cidade de Fortaleza – CE. 


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