1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas
Quer saber uma das maneiras mais
divertidas de voltar ao Brasil no ano de 1995? É só escutar o disco dos Mamonas
Assassinas. Alguns devem estar achando que estou de brincadeira, porque eles
eram uma banda com letras satíricas, aí é que está à questão, uma das funções
da sátira é desenvolver um texto crítico-social, esses eram os Mamonas
Assassinas. Aristóteles comenta que na sátira "os poetas imitam os homens piores do que são, e naquela, melhores
do que eles ordinariamente são." Não são poemas que comentarei, são canções,
mas acredito que o comentário de Aristóteles em sua poética é bastante
pertinente para a construção de nosso diálogo sobre o tema proposto. A escritora Leyla Perrone-Moisés
comenta que “a linguagem não pode
substituir o mundo, nem ao menos representá-lo fielmente. Pode apenas evocá-lo,
aludir a ele através de um pacto que implica a perda do real concreto.” Sendo
assim, conseguimos sim evocar uma época remota através da arte, podemos sim
compreender o que foi 1995 no Brasil através das canções mamônicas.
O fator social é importante na
construção satírica, pois é a partir da vida “fora da caverna” que o poeta se
inspira para satirizar. O crítico Antonio Candido sobre a análise social comenta
“que o externo (no caso o social)
importa, não como elemento que desempenha um certo papel na construção da
estrutura, tornando-se, portanto, interno.” O fator social é elemento
interno à produção artística, ela faz parte da gênese criativa não como fator
de estrutura mas sim no fator que gostaria de pontuar aqui, a linguagem. Por exemplo
a letra de Chopis Centis, a começar
pelo título já nos é estranha, mas se os autores desta canção a fizessem tal
qual ordena a gramática, a criticidade e potencia dessa música seria evacuada.
Antes de começar a discorrer sobre alguns trechos do
disco, irei apresentar a banda: Dinho
(Alecsander Alves) - vocais e violão; Bento
Hinoto (Alberto Hinoto) - guitarra e violão; Samuel Reoli (Samuel Reis de Oliveira) – baixo; Sérgio Reoli (Sérgio Reis de Oliveira) –
bateria e Júlio Rasec (Júlio César)
- teclados, backing vocals e vocais. Sobre o sucesso da banda e saudade que
eles deixaram, acredito que não se tenha necessidade de comentar.
O disco homônimo da banda é dificilmente
classificável, pois nele há uma abrangência de ritmos musicais, há quem comente
que a proposta da banda era satirizar os mais variados ritmos, por isso
encontramos no disco: brega; baião; havy metal; pop rock; rap e o pagode. Embora eles
façam esse passeio musical a pegada pop rock persegue o álbum inteiro. O instrumental
da banda é excelente. O guitarrista Bento
Hinoto formulou excelentes riffs e solos. A pegada do baterista
Sério Reoli e o baixo desconcertante
de Samuel mereceram elogios vindo de
inúmeros músicos. Esse disco é clássico para a maioria dos adultos de hoje que
viveram a infância nos anos 90. Impossível não soltar gargalhadas nas canções do disco.
O disco abre com a canção 1406, o título faz referência à parte
final de número de tele-vendas. A letra fala sobre o consumismo e a divisão de
classes: o rico e o pobre. Alias o consumismo é satirizado em vários trechos
como nesse:
Eu queria um
apartamento no Guarujá
Mas o melhor
que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe
como parte um coração
Ver seu
filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe
como é frustrante
Ver sua
filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe
como eu fico chateado
Ver meu
cachorro babando por um carro importado
A
idéia de consumo é reforçada no refrão: “Money,
que é good e nois num have/ se nois hevasse nois num tava aqui playando/ mas
nois precisa de worká”. Essa mistura de linguagens e idiomas pode ser
entendida por os estrangeiros estarem no Brasil também trabalhando, ou os
brasileiros que saem do país em busca de uma vida econômica melhor. O tema do consumismo volta em certo trecho da canção Pelados em Santos:
Na Brasília
amarela com roda gaúcha
ela não quis
entrar.
Feijão com
jabá
a desgraçada
não quer compartilhar
Vejam
só: o “dom Ruan” da canção é dono de um automóvel popular, com rodas que não
são importadas e a sua musa recusa-se a entrar por capricho, mas nem por causa
desse capricho ela recusa comer um prato tipicamente apreciado por populares.
Não importa o que ela pense porque “ela é lindha! Muito mais do que lindha! Very
very beatiful!”. Voltando a nossa viagem no tempo, encontramos a visão geral do
Brasil de 1995 comentada na canção Cabeça
de Bagre II, acompanhe o trecho:
Fome, miséria,
incompreensão,
O Brasil é
Treta Campeão
(...)
Note que em vez de grafar TETRA ele
grafa TRETRA. Na gíria a palavra "treta" significa dentre várias coisas: rolo e
desentendimento. De fato o tetra campeonato da seleção brasileira de futebol,
não resultou em saltos positivos para a situação social do Brasil. Na verdade
eles ironizam afirmando que embora o país passasse por “fome, miséria,
incompreensão”, tínhamos motivos para esquecer-se de tudo por causa de uma
conquista esportiva. Sem falar que o eu-lirico da canção repetiu inúmeras vezes
a 5° série. Seria esse trecho uma crítica a educação dos brasileiros nas
escolas?
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| Show em Fortaleza-CE |
Lembra do filme Uma linda Mulher com Julia Roberts e Richard Geret. Este filme é satirizado na canção Uma arlinda mulher, a mulher descrita nessa canção foge de todas as
qualificações líricas clássicas:
Te encontrei
toda remelenta e estronchada
Num bar
entregue às bebida
Te cortei os
cabelos do sovaco e as unhas do pé
te chamei de
querida
Te ensinei
todos os auto-reverse da vida
e o movimento
de translação que faz a terra girar
Te falei que o
importante é competir
mas te mato de
pancada se você não ganhar
Mesmo em tempos ditos pós-modernos ainda
é complicado para alguns aceitar a homossexualidade de alguém, imagine isso há
quase vinte anos atrás. Olhe que não faz tanto tempo assim, o tema ainda era
polêmico. Para polemizar mais ainda o vocalista Dinho a cantava devidamente
vestido de mulher. O tema é satírico-dissertado na canção Robocop Gay:
Abra sua mente
Gay também é
gente
Baiano fala
oxente
(e come o quê)
E come vatapá
Você pode ser
gótico
Ser punk ou
skinhead
Tem gay que é
muhamed
Tentando
camuflar
(allah meu bom
allah)
Faça bem a
barba
Arranque seu
bigode
Gaúcho também
pode
Não tem que
disfarçar
Faça uma
plástica
Aí entre na
ginástica
Boneca
cibernética
Um robocop
gay…
Passaram-se quase vinte anos e o tema ainda é polêmico, ainda é
discutido e para alguns ainda não aceitável. Acredito que no trecho “ontem eu
era católico/ hoje sou um gay” deixaram muitos padres de cabelo em pé. Alias desde os riffs, nota-se uma canção animada, dessas boas para espantar o tédio.
A saga de um nordestino em busca de
condições melhores no sudeste brasileiro é narrada na canção Jumento Celestino.
A canção perderia a sua energia se não tivesse o elemento musical de origem
nordestina: o baião. Essa canção, na minha mais humilde opinião, é a melhor
canção do disco pelo conjunto da obra: letra e som:
Tava ruim lá
na Bahia, profissão de bóia-fria
Trabalhando
noite e dia, num era isso que eu queria
Eu vim-me
embora pra "Sum Paulo",
Eu vim no
lombo dum jumento com pouco conhecimento
Enfrentando
chuva e vento e dando uns peido fedorento (vish)
Até minha
bunda fez um calo
Chegando na
capital, uns puta predião legal
As mina
pagando um pau, mas meu jumento tava mal
Precisando
reformar
Fiz a pintura,
importei quatro ferradura
Troquei até
dentadura e pra completar a belezura
Eu instalei um
Road-Star!
Nem o jumento escapa de uma incrementada
capitalista, pois até o “irmão-nordestino”, como diria Luís Gonzaga, não escapa
das prestações, ou seja, o animal foi adquirido como se adquire um automóvel. ainda por cima o baiano nem havia terminado de pagar as prestações. A linguagem descrita na letra, tipicamente nordestina, coloca em evidência a fala característica típica de um cordel em que o cantador descreve uma estória rica em aventuras e desfeche engraçados. É
inevitável não soltar boas gargalhadas nessa e em outras canções.
Porém na noite do dia 2 de março de
1996, o jatinho que transportava a banda de um show de Brasília, chocou-se na
Serra da Cantareira, colocando um ponto final na banda de maior sucesso meteorológico
da historia da indústria fonográfica brasileira. Esse texto teve apenas como
objetivo lembrar um pouco dos Mamonas, das canções, do Brasil de 1995 e
principalmente lembrar de minha infância, escutava muito eles. Que a memória
deles seja eterna.
ARQUIVOS CITADOS
ARISTÓTELES;
HORÁCIO; LONGINO. A poética Clássica.
Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2005.
CANDIDO,
Antonio. Literatura e sociedade. 2° Ed.
São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1967.
PERRONE-MOISÉS,
Leyla. Flores da Escrivaninha –
ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
FICHA TÉCNICA E TRACKLIST DO
ALBUM MAMONAS ASSASSINAS (1995)
Álbum:
Mamonas Assassinas
Intérprete:
Mamonas Assassinas
Lançamento:
setembro de 1995
Gravadora:
EMI
Produtor:
Rick Bonadio (o “Creuzebek”)
Dinho:
voz
Bento
Hinoto: guitarras, violão e backing vocal
Júlio
Rasec: teclados, backing vocal e “Maria” em “Vira-Vira”
Samuel
Reoli: baixo e backing vocal
Sérgio
Reoli: bateria e backing vocal
1.
1406 (Dinho / Júlio Rasec)
2.
Vira-Vira (Dinho / Júlio Rasec)
3.
Pelados Em Santos (Dinho)
4.
Chopis Centis (Dinho / Júlio Rasec)
5.
Jumento Celestino (Bento Hinoto / Dinho)
6.
Sabão Crá-Crá (The Mad Ku-Ku) (Folclore Popular / Marvin Hatley)
7.
Uma Arlinda Mulher (Bento Hinoto / Dinho)
8.
Cabeça de Bagre II (Bento Hinoto / Dinho / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio
Reoli)
9.
Mundo Animal (Dinho)
10.
Robocop Gay (Dinho / Júlio Rasec)
11.
Bois Don’t Cry (Dinho)
12.
Débil Mental (Dinho / Bento Hinoto / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
13.
Sábado de Sol (Felipe / Pedro / Rafael)
14.
Lá Vem O Alemão (Dinho / Júlio Rasec)



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