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2 de março de 2014
1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas

1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas




Quer saber uma das maneiras mais divertidas de voltar ao Brasil no ano de 1995? É só escutar o disco dos Mamonas Assassinas. Alguns devem estar achando que estou de brincadeira, porque eles eram uma banda com letras satíricas, aí é que está à questão, uma das funções da sátira é desenvolver um texto crítico-social, esses eram os Mamonas Assassinas. Aristóteles comenta que na sátira "os poetas imitam os homens piores do que são, e naquela, melhores do que eles ordinariamente são." Não são poemas que comentarei, são canções, mas acredito que o comentário de Aristóteles em sua poética é bastante pertinente para a construção de nosso diálogo sobre o tema proposto. A escritora Leyla Perrone-Moisés comenta que “a linguagem não pode substituir o mundo, nem ao menos representá-lo fielmente. Pode apenas evocá-lo, aludir a ele através de um pacto que implica a perda do real concreto.” Sendo assim, conseguimos sim evocar uma época remota através da arte, podemos sim compreender o que foi 1995 no Brasil através das canções mamônicas.

O fator social é importante na construção satírica, pois é a partir da vida “fora da caverna” que o poeta se inspira para satirizar. O crítico Antonio Candido sobre a análise social comenta “que o externo (no caso o social) importa, não como elemento que desempenha um certo papel na construção da estrutura, tornando-se, portanto, interno.” O fator social é elemento interno à produção artística, ela faz parte da gênese criativa não como fator de estrutura mas sim no fator que gostaria de pontuar aqui, a linguagem. Por exemplo a letra de Chopis Centis, a começar pelo título já nos é estranha, mas se os autores desta canção a fizessem tal qual ordena a gramática, a criticidade e potencia dessa música seria evacuada.

 Antes de começar a discorrer sobre alguns trechos do disco, irei apresentar a banda: Dinho (Alecsander Alves) - vocais e violão; Bento Hinoto (Alberto Hinoto) - guitarra e violão; Samuel Reoli (Samuel Reis de Oliveira) – baixo; Sérgio Reoli (Sérgio Reis de Oliveira) – bateria e Júlio Rasec (Júlio César) - teclados, backing vocals e vocais. Sobre o sucesso da banda e saudade que eles deixaram, acredito que não se tenha necessidade de comentar.

O disco homônimo da banda é dificilmente classificável, pois nele há uma abrangência de ritmos musicais, há quem comente que a proposta da banda era satirizar os mais variados ritmos, por isso encontramos no disco: brega; baião; havy metal; pop rock; rap e o pagode. Embora eles façam esse passeio musical a pegada pop rock persegue o álbum inteiro. O instrumental da banda é excelente. O guitarrista Bento Hinoto formulou excelentes riffs e solos. A pegada do baterista Sério Reoli e o baixo desconcertante de Samuel mereceram elogios vindo de inúmeros músicos. Esse disco é clássico para a maioria dos adultos de hoje que viveram a infância nos anos 90. Impossível não soltar gargalhadas nas canções do disco.

O disco abre com a canção 1406, o título faz referência à parte final de número de tele-vendas. A letra fala sobre o consumismo e a divisão de classes: o rico e o pobre. Alias o consumismo é satirizado em vários trechos como nesse:

Eu queria um apartamento no Guarujá
Mas o melhor que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado

            A idéia de consumo é reforçada no refrão: “Money, que é good e nois num have/ se nois hevasse nois num tava aqui playando/ mas nois precisa de worká”. Essa mistura de linguagens e idiomas pode ser entendida por os estrangeiros estarem no Brasil também trabalhando, ou os brasileiros que saem do país em busca de uma vida econômica melhor. O tema do consumismo volta em certo trecho da canção Pelados em Santos:

Na Brasília amarela com roda gaúcha
ela não quis entrar.
Feijão com jabá
a desgraçada não quer compartilhar

        Vejam só: o “dom Ruan” da canção é dono de um automóvel popular, com rodas que não são importadas e a sua musa recusa-se a entrar por capricho, mas nem por causa desse capricho ela recusa comer um prato tipicamente apreciado por populares. Não importa o que ela pense porque “ela é lindha! Muito mais do que lindha! Very very beatiful!”. Voltando a nossa viagem no tempo, encontramos a visão geral do Brasil de 1995 comentada na canção Cabeça de Bagre II, acompanhe o trecho:

Fome, miséria, incompreensão,
O Brasil é Treta Campeão
(...)

Note que em vez de grafar TETRA ele grafa TRETRA. Na gíria a palavra "treta" significa dentre várias coisas: rolo e desentendimento. De fato o tetra campeonato da seleção brasileira de futebol, não resultou em saltos positivos para a situação social do Brasil. Na verdade eles ironizam afirmando que embora o país passasse por “fome, miséria, incompreensão”, tínhamos motivos para esquecer-se de tudo por causa de uma conquista esportiva. Sem falar que o eu-lirico da canção repetiu inúmeras vezes a 5° série. Seria esse trecho uma crítica a educação dos brasileiros nas escolas?

Show em Fortaleza-CE

Lembra do filme Uma linda Mulher com Julia Roberts e Richard Geret. Este filme é satirizado na canção Uma arlinda mulher, a mulher descrita nessa canção foge de todas as qualificações líricas clássicas:

Te encontrei toda remelenta e estronchada
Num bar entregue às bebida
Te cortei os cabelos do sovaco e as unhas do pé
te chamei de querida
Te ensinei todos os auto-reverse da vida
e o movimento de translação que faz a terra girar
Te falei que o importante é competir
mas te mato de pancada se você não ganhar

Mesmo em tempos ditos pós-modernos ainda é complicado para alguns aceitar a homossexualidade de alguém, imagine isso há quase vinte anos atrás. Olhe que não faz tanto tempo assim, o tema ainda era polêmico. Para polemizar mais ainda o vocalista Dinho a cantava devidamente vestido de mulher. O tema é satírico-dissertado na canção Robocop Gay:

Abra sua mente
Gay também é gente
Baiano fala oxente
(e come o quê)
E come vatapá

Você pode ser gótico
Ser punk ou skinhead
Tem gay que é muhamed
Tentando camuflar
(allah meu bom allah)

Faça bem a barba
Arranque seu bigode
Gaúcho também pode
Não tem que disfarçar

Faça uma plástica
Aí entre na ginástica
Boneca cibernética
Um robocop gay…

Passaram-se quase vinte anos e o tema ainda é polêmico, ainda é discutido e para alguns ainda não aceitável. Acredito que no trecho “ontem eu era católico/ hoje sou um gay” deixaram muitos padres de cabelo em pé. Alias desde os riffs, nota-se uma canção animada, dessas boas para espantar o tédio. 

A saga de um nordestino em busca de condições melhores no sudeste brasileiro é narrada na canção Jumento Celestino. A canção perderia a sua energia se não tivesse o elemento musical de origem nordestina: o baião. Essa canção, na minha mais humilde opinião, é a melhor canção do disco pelo conjunto da obra: letra e som:

Tava ruim lá na Bahia, profissão de bóia-fria
Trabalhando noite e dia, num era isso que eu queria
Eu vim-me embora pra "Sum Paulo",
Eu vim no lombo dum jumento com pouco conhecimento
Enfrentando chuva e vento e dando uns peido fedorento (vish)
Até minha bunda fez um calo
Chegando na capital, uns puta predião legal
As mina pagando um pau, mas meu jumento tava mal
Precisando reformar
Fiz a pintura, importei quatro ferradura
Troquei até dentadura e pra completar a belezura
Eu instalei um Road-Star!

Nem o jumento escapa de uma incrementada capitalista, pois até o “irmão-nordestino”, como diria Luís Gonzaga, não escapa das prestações, ou seja, o animal foi adquirido como se adquire um automóvel. ainda por cima o baiano nem havia terminado de pagar as prestações. A linguagem descrita na letra, tipicamente nordestina, coloca em evidência a fala característica típica de um cordel em que o cantador descreve uma estória rica em aventuras e desfeche engraçados. É inevitável não soltar boas gargalhadas nessa e em outras canções.

Porém na noite do dia 2 de março de 1996, o jatinho que transportava a banda de um show de Brasília, chocou-se na Serra da Cantareira, colocando um ponto final na banda de maior sucesso meteorológico da historia da indústria fonográfica brasileira. Esse texto teve apenas como objetivo lembrar um pouco dos Mamonas, das canções, do Brasil de 1995 e principalmente lembrar de minha infância, escutava muito eles. Que a memória deles seja eterna.



ARQUIVOS CITADOS

ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética Clássica. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2005.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 2° Ed. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1967.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da Escrivaninha – ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FICHA TÉCNICA E TRACKLIST DO ALBUM MAMONAS ASSASSINAS (1995)

Álbum: Mamonas Assassinas
Intérprete: Mamonas Assassinas
Lançamento: setembro de 1995
Gravadora: EMI
Produtor: Rick Bonadio (o “Creuzebek”)

Dinho: voz
Bento Hinoto: guitarras, violão e backing vocal
Júlio Rasec: teclados, backing vocal e “Maria” em “Vira-Vira”
Samuel Reoli: baixo e backing vocal
Sérgio Reoli: bateria e backing vocal

1. 1406 (Dinho / Júlio Rasec)
2. Vira-Vira (Dinho / Júlio Rasec)
3. Pelados Em Santos (Dinho)
4. Chopis Centis (Dinho / Júlio Rasec)
5. Jumento Celestino (Bento Hinoto / Dinho)
6. Sabão Crá-Crá (The Mad Ku-Ku) (Folclore Popular / Marvin Hatley)
7. Uma Arlinda Mulher (Bento Hinoto / Dinho)
8. Cabeça de Bagre II (Bento Hinoto / Dinho / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
9. Mundo Animal (Dinho)
10. Robocop Gay (Dinho / Júlio Rasec)
11. Bois Don’t Cry (Dinho)
12. Débil Mental (Dinho / Bento Hinoto / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
13. Sábado de Sol (Felipe / Pedro / Rafael)
14. Lá Vem O Alemão (Dinho / Júlio Rasec)
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