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18 de julho de 2014
Perfil Poesia Brasileira – Cacaso: “Fazendo versinhos, querendo carinho”

Perfil Poesia Brasileira – Cacaso: “Fazendo versinhos, querendo carinho”

Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse
Ah se pelo menos o coração não tivesse memória
Como seria menos linda e mais suave
minha história. 
-
Cacaso

Os anos 70 é uma década marcante na poesia brasileira, sem espaço no grande mercado editorial brasileiro ou não desejando fazer parte dele, muitos poetas resolveram transbordar seus poemas em papéis mimeografados, distribuídos ou vendidos em bares, ruas, saraus e encontros literários, alguns começaram a publicar por si mesmo seus livros e fazer a distribuição nesse circuito. Resultado, uma poesia bem mais irreverente, mas seria de qualidade? Nem todos, porém com muita liberdade, ousando na forma e no conteúdo. 

Essa geração, que recebeu tantos nomes, poetas marginais, geração mimeógrafo, revelou nomes que hoje se tornariam grandes best-sellers de, quem suspeitaria que um Paulo Leminski, uma Ana Cristina Cesár, um Chacal, um Waly Salomão seriam vendidos hoje igual a pão?

Dos nomes dessa geração, destaco aqui Antônio Carlos de Brito, o nosso CACASO, menino das Minas Gerais, que nasceu no dia 13 de março de 1944, na cidade de Uberaba, assim como o cometa Halley, passou tão rapidamente por nossos olhos, que foi-se no dia 27 de dezembro de 1987, deixando seus amigos do Rio de Janeiro e de todo Brasil com falta de versos no peito.

Cacaso foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC/RJ, Rio que foi a cidade do poeta durante o maior período da sua vida, mesmo mantendo relações de amor com sua Minas, tanto que escreveu um livro intitulado Mar de Mineiro, Já resenhado aqui no LiteraturaBR 
(http://www.literaturabr.com/2013/02/mar-de-mineiro-o-desaguar-em-si_12.html). 

Seu primeiro livro A palavra cerzida (1967) é o mais musical de sua obra, o poeta foi letrista e fez parcerias com Edu Lobo, Tom Jobim, Francis Hime, Sivuca, João Donato, Joyce, ainda nesse primeiro livro, poemas ainda mais longos, divido em partes, se modificariam com a publicação de seus outros livros, Grupo escolar (1974), Beijo na Boca (1975), Segunda classe (1975 em parceria com Luís Olavo Fontes) Na corda bamba (1978) e o já citado Mar de mineiro (1982). Essa fase anos 70, é talvez a mais genial na carreira da Cacaso, o verso muito conciso, o verso irônico, não ausente de lirismo, torna o autor, na minha perspectiva de admirador de toda geração dos anos 70, um dos mais originais dessa fase.

( Lero -Lero Parceria de Cacaso com Edu Lobo)

Heloísa Buarque de Hollanda, em 1975, publicou um livro chamado 26 poetas hoje, uma antologia que é o marco da dita “poesia marginal”. Não é à toa que o livro, que reúne nomes como Francisco Alvim, Torquato Neto, Capinan, Ana Cristina Cesár , Chacal, Waly Salomão. Tem como epígrafe de abertura um poema de Cacaso:

Modéstia à parte

Exagerado em matéria de ironia e em
matéria de matéria moderado.

Assim é Cacaso e sua poesia, contida em tamanho, transbordante de ironia e de lirismo, mas chega de LERO-LERO vamos aos poemas e as canções de Antônio Carlos de Brito.


Estilhaço

não me procure mais
não relembre
cada um sofre pra seu
lado

Falando sério
Outro amor? Não caio mais

Amor Amor, Cacaso e Sueli Costa 

PRÉ-HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA PERIFÉRICA OU
NINGUÉM SEURA ESSA AMÉRICA LATINA
OU OS IMPOSSÍVEIS HISTÓRICOS OU
A OUTRA MARGEM DO IPIRANGA

jamais mudar pela violência
mas manter pela violência
morte ou dependência


CONTANDO VANTAGEM
Muitas mulheres na minha vida.
Eu é que sei o quanto dói.

PANACEIA
Mesmo triste comprove
a alegria é a prova dos 9

INFÂNCIA (2)
Eu matei minha saudade mas depois
veio outra

NATUREZA MORTA
toda coisa que vive é um relâmpago [ para Charles]

FOTONOVELA
Quando você quis eu não quis
Qdo eu quis você ñ quis
Pensando mal quase q fui
Feliz

INDEFINIÇÃO
pois assim é a poesia
esta chama tão distante mas tão perto de
estar fria

Dentro de mim mora um anjo, Cacaso e Sueli Costa

LÁ EM CASA É ASSIM
meu amor diz que me ama
mas jamais me dá um beijo

pra continuar rejeitado assim
prefiro viajar pra Europa

HAPPY END
o meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente


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2 de março de 2014
1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas

1995: o Brasil e os Mamonas Assassinas




Quer saber uma das maneiras mais divertidas de voltar ao Brasil no ano de 1995? É só escutar o disco dos Mamonas Assassinas. Alguns devem estar achando que estou de brincadeira, porque eles eram uma banda com letras satíricas, aí é que está à questão, uma das funções da sátira é desenvolver um texto crítico-social, esses eram os Mamonas Assassinas. Aristóteles comenta que na sátira "os poetas imitam os homens piores do que são, e naquela, melhores do que eles ordinariamente são." Não são poemas que comentarei, são canções, mas acredito que o comentário de Aristóteles em sua poética é bastante pertinente para a construção de nosso diálogo sobre o tema proposto. A escritora Leyla Perrone-Moisés comenta que “a linguagem não pode substituir o mundo, nem ao menos representá-lo fielmente. Pode apenas evocá-lo, aludir a ele através de um pacto que implica a perda do real concreto.” Sendo assim, conseguimos sim evocar uma época remota através da arte, podemos sim compreender o que foi 1995 no Brasil através das canções mamônicas.

O fator social é importante na construção satírica, pois é a partir da vida “fora da caverna” que o poeta se inspira para satirizar. O crítico Antonio Candido sobre a análise social comenta “que o externo (no caso o social) importa, não como elemento que desempenha um certo papel na construção da estrutura, tornando-se, portanto, interno.” O fator social é elemento interno à produção artística, ela faz parte da gênese criativa não como fator de estrutura mas sim no fator que gostaria de pontuar aqui, a linguagem. Por exemplo a letra de Chopis Centis, a começar pelo título já nos é estranha, mas se os autores desta canção a fizessem tal qual ordena a gramática, a criticidade e potencia dessa música seria evacuada.

 Antes de começar a discorrer sobre alguns trechos do disco, irei apresentar a banda: Dinho (Alecsander Alves) - vocais e violão; Bento Hinoto (Alberto Hinoto) - guitarra e violão; Samuel Reoli (Samuel Reis de Oliveira) – baixo; Sérgio Reoli (Sérgio Reis de Oliveira) – bateria e Júlio Rasec (Júlio César) - teclados, backing vocals e vocais. Sobre o sucesso da banda e saudade que eles deixaram, acredito que não se tenha necessidade de comentar.

O disco homônimo da banda é dificilmente classificável, pois nele há uma abrangência de ritmos musicais, há quem comente que a proposta da banda era satirizar os mais variados ritmos, por isso encontramos no disco: brega; baião; havy metal; pop rock; rap e o pagode. Embora eles façam esse passeio musical a pegada pop rock persegue o álbum inteiro. O instrumental da banda é excelente. O guitarrista Bento Hinoto formulou excelentes riffs e solos. A pegada do baterista Sério Reoli e o baixo desconcertante de Samuel mereceram elogios vindo de inúmeros músicos. Esse disco é clássico para a maioria dos adultos de hoje que viveram a infância nos anos 90. Impossível não soltar gargalhadas nas canções do disco.

O disco abre com a canção 1406, o título faz referência à parte final de número de tele-vendas. A letra fala sobre o consumismo e a divisão de classes: o rico e o pobre. Alias o consumismo é satirizado em vários trechos como nesse:

Eu queria um apartamento no Guarujá
Mas o melhor que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado

            A idéia de consumo é reforçada no refrão: “Money, que é good e nois num have/ se nois hevasse nois num tava aqui playando/ mas nois precisa de worká”. Essa mistura de linguagens e idiomas pode ser entendida por os estrangeiros estarem no Brasil também trabalhando, ou os brasileiros que saem do país em busca de uma vida econômica melhor. O tema do consumismo volta em certo trecho da canção Pelados em Santos:

Na Brasília amarela com roda gaúcha
ela não quis entrar.
Feijão com jabá
a desgraçada não quer compartilhar

        Vejam só: o “dom Ruan” da canção é dono de um automóvel popular, com rodas que não são importadas e a sua musa recusa-se a entrar por capricho, mas nem por causa desse capricho ela recusa comer um prato tipicamente apreciado por populares. Não importa o que ela pense porque “ela é lindha! Muito mais do que lindha! Very very beatiful!”. Voltando a nossa viagem no tempo, encontramos a visão geral do Brasil de 1995 comentada na canção Cabeça de Bagre II, acompanhe o trecho:

Fome, miséria, incompreensão,
O Brasil é Treta Campeão
(...)

Note que em vez de grafar TETRA ele grafa TRETRA. Na gíria a palavra "treta" significa dentre várias coisas: rolo e desentendimento. De fato o tetra campeonato da seleção brasileira de futebol, não resultou em saltos positivos para a situação social do Brasil. Na verdade eles ironizam afirmando que embora o país passasse por “fome, miséria, incompreensão”, tínhamos motivos para esquecer-se de tudo por causa de uma conquista esportiva. Sem falar que o eu-lirico da canção repetiu inúmeras vezes a 5° série. Seria esse trecho uma crítica a educação dos brasileiros nas escolas?

Show em Fortaleza-CE

Lembra do filme Uma linda Mulher com Julia Roberts e Richard Geret. Este filme é satirizado na canção Uma arlinda mulher, a mulher descrita nessa canção foge de todas as qualificações líricas clássicas:

Te encontrei toda remelenta e estronchada
Num bar entregue às bebida
Te cortei os cabelos do sovaco e as unhas do pé
te chamei de querida
Te ensinei todos os auto-reverse da vida
e o movimento de translação que faz a terra girar
Te falei que o importante é competir
mas te mato de pancada se você não ganhar

Mesmo em tempos ditos pós-modernos ainda é complicado para alguns aceitar a homossexualidade de alguém, imagine isso há quase vinte anos atrás. Olhe que não faz tanto tempo assim, o tema ainda era polêmico. Para polemizar mais ainda o vocalista Dinho a cantava devidamente vestido de mulher. O tema é satírico-dissertado na canção Robocop Gay:

Abra sua mente
Gay também é gente
Baiano fala oxente
(e come o quê)
E come vatapá

Você pode ser gótico
Ser punk ou skinhead
Tem gay que é muhamed
Tentando camuflar
(allah meu bom allah)

Faça bem a barba
Arranque seu bigode
Gaúcho também pode
Não tem que disfarçar

Faça uma plástica
Aí entre na ginástica
Boneca cibernética
Um robocop gay…

Passaram-se quase vinte anos e o tema ainda é polêmico, ainda é discutido e para alguns ainda não aceitável. Acredito que no trecho “ontem eu era católico/ hoje sou um gay” deixaram muitos padres de cabelo em pé. Alias desde os riffs, nota-se uma canção animada, dessas boas para espantar o tédio. 

A saga de um nordestino em busca de condições melhores no sudeste brasileiro é narrada na canção Jumento Celestino. A canção perderia a sua energia se não tivesse o elemento musical de origem nordestina: o baião. Essa canção, na minha mais humilde opinião, é a melhor canção do disco pelo conjunto da obra: letra e som:

Tava ruim lá na Bahia, profissão de bóia-fria
Trabalhando noite e dia, num era isso que eu queria
Eu vim-me embora pra "Sum Paulo",
Eu vim no lombo dum jumento com pouco conhecimento
Enfrentando chuva e vento e dando uns peido fedorento (vish)
Até minha bunda fez um calo
Chegando na capital, uns puta predião legal
As mina pagando um pau, mas meu jumento tava mal
Precisando reformar
Fiz a pintura, importei quatro ferradura
Troquei até dentadura e pra completar a belezura
Eu instalei um Road-Star!

Nem o jumento escapa de uma incrementada capitalista, pois até o “irmão-nordestino”, como diria Luís Gonzaga, não escapa das prestações, ou seja, o animal foi adquirido como se adquire um automóvel. ainda por cima o baiano nem havia terminado de pagar as prestações. A linguagem descrita na letra, tipicamente nordestina, coloca em evidência a fala característica típica de um cordel em que o cantador descreve uma estória rica em aventuras e desfeche engraçados. É inevitável não soltar boas gargalhadas nessa e em outras canções.

Porém na noite do dia 2 de março de 1996, o jatinho que transportava a banda de um show de Brasília, chocou-se na Serra da Cantareira, colocando um ponto final na banda de maior sucesso meteorológico da historia da indústria fonográfica brasileira. Esse texto teve apenas como objetivo lembrar um pouco dos Mamonas, das canções, do Brasil de 1995 e principalmente lembrar de minha infância, escutava muito eles. Que a memória deles seja eterna.



ARQUIVOS CITADOS

ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética Clássica. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2005.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 2° Ed. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1967.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Flores da Escrivaninha – ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

FICHA TÉCNICA E TRACKLIST DO ALBUM MAMONAS ASSASSINAS (1995)

Álbum: Mamonas Assassinas
Intérprete: Mamonas Assassinas
Lançamento: setembro de 1995
Gravadora: EMI
Produtor: Rick Bonadio (o “Creuzebek”)

Dinho: voz
Bento Hinoto: guitarras, violão e backing vocal
Júlio Rasec: teclados, backing vocal e “Maria” em “Vira-Vira”
Samuel Reoli: baixo e backing vocal
Sérgio Reoli: bateria e backing vocal

1. 1406 (Dinho / Júlio Rasec)
2. Vira-Vira (Dinho / Júlio Rasec)
3. Pelados Em Santos (Dinho)
4. Chopis Centis (Dinho / Júlio Rasec)
5. Jumento Celestino (Bento Hinoto / Dinho)
6. Sabão Crá-Crá (The Mad Ku-Ku) (Folclore Popular / Marvin Hatley)
7. Uma Arlinda Mulher (Bento Hinoto / Dinho)
8. Cabeça de Bagre II (Bento Hinoto / Dinho / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
9. Mundo Animal (Dinho)
10. Robocop Gay (Dinho / Júlio Rasec)
11. Bois Don’t Cry (Dinho)
12. Débil Mental (Dinho / Bento Hinoto / Júlio Rasec / Samuel Reoli / Sérgio Reoli)
13. Sábado de Sol (Felipe / Pedro / Rafael)
14. Lá Vem O Alemão (Dinho / Júlio Rasec)
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9 de janeiro de 2014
O Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de Lobão

O Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de Lobão


As críticas de Lobão, contidas no seu segundo livro, Manifesto do nada na Terra do Nunca fizeram desta obra a mais polêmica de 2013. O tema central do livro é dilacerar a alma do povo brasileiro a partir de um outro texto-manifesto o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Nesse manifesto, Oswald pretendia não somente modificar a literatura brasileira, ele visionou construir um documento que servisse para modificar uma nação. O projeto de Oswald era ousado. Lobão, a partir das ideias antropófagas, lança o seu Manifesto com foco na atual situação brasileira, portanto qualquer semelhança com a realidade não será mera coincidência.

O livro inicia-se com o poema Aquarela do Brasil 2.0, em sua estrutura e linguagem nos demonstra um típico poema modernista de caráter nacionalista-crítico; através desse poema-prólogo, o autor prepara o leitor para o que virá nas próximas páginas. Lobão continua sua sagaz crítica na primeira frase do capítulo A TERRA DO NUNCA: “Amamos a pobreza”. De fato, amamos tanto a pobreza que o país embora seja uma potência econômica ainda possui milhares nas ruas mendigando o pão de cada dia, amamos tanto a pobreza que muitas escolas são esquecidas pelo governo, amamos tanto a pobreza que simplesmente nos calamos diante de tudo isso. Preferimos gritar gol e nos revoltar se o time que torcemos comete qualquer deslize. No mesmo capitulo, Lobão cita a censura que muitos sofrem por mencionarem falhas cometidas pelo atual regime de governo. É interessante o comentário que ele faz sobre um incidente envolvendo a sua pessoa, leiamos:

Um dia, após chegar de uma turnê, comentei no Twitter que estava irritadíssimo com a infraestrutura do país, as estradas federais numa buraqueira dos infernos, sem sinalização, sem iluminação, os aeroportos caindo aos pedaços, superlotados, voos atrasados, ou seja, não era algo que eu havia lido por aí: eu tinha acabado de vivenciar, de sofrer na pele a precariedade da parada.
Pois bem, por essa declaração, fui instantaneamente admoestado por ofendidíssimos legionários governistas a bradar que o Brasil está muito melhor, que nunca estivemos tão bem, que aquela declaração era puro preconceito, e, sendo assim, fui sumariamente diagnosticado como... brasilfóbico!

Esse capítulo inicial é subdividido por seções, uma das que eu gostaria de destacar é a subseção: A MPB É UMA SIGLA DE PROVETA? Nesta subparte Lobão escava a origem do ritmo brasileiro tão conhecido por ícones como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, dentre outros. No parágrafo inicial a realidade é posta: Recorremos sempre ao passado quando falamos em música popular brasileira! Você que está lendo este ensaio, diga-me qual o atual grande músico brasileiro no quesito composição? Não digo no quesito vocal, porque para esse quesito têm-se muitos por aí com uma voz exuberante! O Brasil carece de novos grandes compositores! Os nossos maiores compositores já estão avançados na idade, ou então já morreram. The Voice nenhum garantirá uma profunda renovação musical!

Lobão está certo?


Mas o buraco MPBísta é mais embaixo. Lobão argumenta que o estilo foi formado por intelectuais esquerdistas, sendo que qualquer brasileiro que negue a genialidade da MPB sofre sérios constrangimentos culturais. Na década de 1970, a verdadeira música de caráter popular era “Odair José, Waldick Soriano, Lindomar Castilho, Benito de Paula, Paulo Sérgio, Antonio Marcos, Orlando Dias, Jane & Herondy, Roberto Carlos (na década anterior, a encarnação do roquenrou, o Rei da Jovem Guarda), assim como, nas décadas anteriores, Cauby Peixoto (que foi o primeiro cantor a gravar rock no Brasil), Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Chico Alves, Silvio Caldas.” Esses para o povo eram sim os grandes cancioneiros populares, eles tocavam sem parar nas rádios (meu pai confirmou isso!), além de populares, vendiam como banana na feira, porém não eram considerados cantores populares por líderes de esquerda. Hoje, esses artistas são tidos como bregas, ou seja, ultrapassados. O que merecia de fato o selo da MPB era os músicos que faziam canções baixo astral, sem energia e sem pulsação rítmica. O mergulho de Lobão sobre a MPB merece ser lido e considerado com calma, é um assunto delicado que o autor conseguiu redigir com exuberância! Eis um dos pontos altos do livro. Lobão desfecha o assunto brilhantemente comentando que a matéria-prima de grandes compositores da MPB é a miséria do povo e sua cultura, pejorativamente nomeclaturada por intelectuais como cultura de “massa”. Melhor nas palavras do velho lobo:

Essa atitude monomaníaca é uma mentalidade concebida pelo filósofo revolucionário franco-argelino Frantz Fanon: a vocação histórica de uma burguesia nacional seria de “se negar enquanto burguesia, de se negar enquanto instrumento do capital, para se tornar totalmente escrava do capital revolucionário”. Com esse discurso de esquerda idiota, fomos vitimados por uma vasta produção de canções dedicadas a traduzir a realidade do povo através do delirante e culpado ponto de vista do intelectual/artista da classe média, no sentido de doar uma verdadeira “consistência” a algo a que o povão não tinha o menor acesso, pelo que não tinha a menor empatia, muito menos interesse: a música de cunho social com letras que deveriam ser... inteligentes.
Daí a grande frase atribuída a Joãosinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo.

A crítica musical de Lobão continua livro adentro, o segundo capítulo intitula-se UM PEQUENO MERGULHO NO MUNDO SERTANEJO UNIVERSITÁRIO (acidentalmente gonzo). Imagine um roqueiro comentando sobre o sertanejo universitário. A começar pelo que muitos pensam ser um estilo profundamente brasileiro há que se comentar que os adeptos desse estilo buscaram não as fontes de nosso sertanejo brasileiro (Tonico e Tinoco por exemplo) o buscaram na América estadunidense! Lobão utiliza um episódio pessoal para construir o capítulo: um dia de gravação para o programa A Liga, da Rede Bandeirante de Televisão. O autor sobre o cenário da festa de sertanejo a que foi submetido a acompanhar comenta:

Logo quando chegamos, perguntei se eles queriam fazer uma externa de apresentação (de praxe), mas o diretor não manifestou muito interesse e disse para entrarmos logo. Ao observar a entrada, fiquei impressionado com o tamanho do local. Parecia uma Disneylândia agrária! Um quarteirão inteiro! Recebemos aquelas fitinhas de botar no pulso e lá fomos nós adentrando aquele lugar de dimensões monumentais. Dava para perceber que era uma casa de altíssimo nível. Pessoas de aspecto próspero, muito bem-tratadas, ocupavam as dezenas de ambientes que o lugar oferecia. Havia vários auditórios de vários tamanhos, pistas de dança, chafarizes, cascatas artificiais, restaurantes, bares, tudo decorado num estilo (aí me caiu a ficha)... num estilo country!
Quando falo country, quero me referir ao country americano.
Fiquei muito surpreso, pois, na minha santa ingenuidade, imaginei se tratar de algo relacionado a um conceito mais nacionalista, pois o universitário, em geral, é sempre tão fiel, tão preocupado em defender nossas raízes. Era um peso para duas medidas, pois todos nós sabemos que o típico universitário culturalista abomina tudo o que vem de fora, como, por exemplo, o rock, sempre tão criticado por ser coisa de alienado, colonizado cultural, coisa de americanizado.

Bom, o sertanejo universitário pode se apoiar no country americano, mas o roque brasileiro não deve se irmanar de culturas exteriores? O toque humorístico de Lobão é a chave essencial desse e de todos os capítulos do livro! O encontro de Lobão com Michel Teló é narrado nesse capítulo com toques de realismo-literário. Bom, avancemos para o próximo capítulo da obra.


VAMOS ASSASSINAR A PRESIDENTA DA REPÚBLICA? É com esse título que o capítulo a seguir se apresenta. Porém não trata-se de um plano mirabolante para cometer algum homicídio, antes disso é um capítulo em que o autor desmitifica a tal Comissão da Verdade, programa efetuado pelo governo com o objetivo de resgatar e fazer justiça aos torturados e perseguidos por militares. Não espere elogios vindos por Lobão. Ele apresenta antes de comentar a comissão, a Declaração Universal dos Direitos Humanos assinada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948, logo após argumenta junto a essa Declaração a Comissão da Verdade elencada por nossos governantes. O ensaio é extenso, polêmico e visionário. Esse capítulo deixo para que você leitor o leia e tire suas próprias conclusões.

O capítulo 4 comenta a história do rock no Brasil e os motivos dele ser taxado como um gênero menor. É importante salientar que Lobão pretende não comentar a sua estrutura e comportamento, mas sim comentar os motivos dele não ser inserido na cultura nacional, assim como o samba, a bossa-nova ou a MPB. Portanto mais sobre a cultura brasileira, por tanto mais um choque cultural a vista.

Inicialmente Lobão fala sobre as difusões do rock e seus subgêneros e as suas devidas incorporações em solo brasileiro. O autor fala da precariedade auditiva de gravação de distribuição da marca Rock n'roll em solo tupiniquim. O peso das guitarras, as distorções do contra-baixo e o rufar da bateria, argumenta Lobão, são proibidos em estúdio pois assim não toca na rádio. Para o autor o brasileiro é sensível ao barulho e a distorção da guitarra! Ele diz:

O negócio é retirar o peso, a agressividade, pois o brasileiro, segundo eles, é muito romântico e se assusta com sons mais violentos.
E o mais patético é que esse produto final estuprado, deformado, edulcorado, despotencializado, diminuído, vai tocar nas rádios, borocoxô-borocoxô, do lado das bandas inglesas, americanas, alemãs, japonesas, que, sem exceção, cimentam as bandas “tupiniquins”. Sempre com a argumentação de que o público brasileiro detesta guitarra elétrica. Mas se isso é verdade, por que temos milhões de pessoas fãs de rock ’n’ roll de todos os tipos, feitios e idades?

Não é que o produto rock n'roll brasileiro não tenha qualidade, ele tem sim! Porém a agressividade da musica é muitas vezes barrada na produção do material. Isso muitas vezes retira o brilho do rock made in Brasil. Porém como eu  já havia alertado, o problema principal visto por Lobão é que o rock não é visto como algo incorporado à cultura brasileira por ser algo importado. Ora mais, o futebol também é importado, mas mesmo assim é impossível não associar o futebol ao Brasil! Nesse mesmo capítulo, ele argumenta o episódio da Lollapalooza, evento musical realizado pela primeira vez no Brasil em 2012. Lobão foi convidado a participar do evento, ele e outras atrações nacionais em horário inconveniente. O roqueiro fez uma manifestação em redes sociais com direito a artigo publicado em jornal, porém no dia da anunciação das datas acontece o seguinte:

Na manhã de segunda eu ligo meu computador para assistir ao vivo a apresentação oficial do Lollapalooza versão brasileira. Apreensivo, assisto ao vocalista do Jane’s Addiction apresentando exclusivamente as atrações internacionais e meio que se desculpando por não ter tido tempo de se informar sobre as atrações locais, e disse que achava o cantor do Rappa... sexy (!).
Logo em seguida ele passa a bola para o produtor das atrações nacionais, que começa sorrindo e anuncia a seguinte mensagem: “O Lobão, vocês sabem como é que é... tem muito talento, mas é meio lunático, ficou por aí dizendo que o line-up seria separado entre atrações nacionais e internacionais... Loucura... Imagina! Isso nunca aconteceu. Lobão é mesmo um cara muito louco, he, he...” etc. e tal... E começou a anunciar as datas... todas trocadas!

E mais uma vez Lobão se dá mal em verde e amarelo.

No capítulo O REACIONÁRIO, o autor mais uma vez fala sobre a música, o alvo dessa vez é a Lei Rouanet. Pois bem, Lobão comenta a enxurrada de artistas consagrados que se beneficiam de uma lei que na pratica deveria ser para artistas iniciantes. Essa é mais uma realidade na Terra do Nunca.

O capítulo seguinte, VIAGEM AO CORAÇÃO DO BRASIL, comenta a viagem de Lobão à região norte de nosso país. O coração do país que ele foca no título é alma do povo brasileiro, leia e você entenderá o que estou falando. As decepções políticas do autor são narradas no penúltimo capítulo CONFESSO A VOCÊS SOU UMA BESTA QUADRADADA.

A última parte do livro, a cereja do bolo, trata-se de uma carta crítica, porém bem humorada de Lobão ao mentor da Semana de Arte Moderna de 1922: Oswald de Andrade. Esse é outro ponto alto do livro.

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente” brada Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. O que Lobão escreve a seguir é de sumo questionamento:

Por quê? Por quê? Me perdoe, querido Oswald, ao mesmo tempo que só a antropofagia nos une na nossa miséria social, econômica, filosófica, moral, política, cultural, ela nos aparta de todas as possibilidades de crescimento vindas de nós mesmos e do resto do mundo.
Esse imperativo antropofágico não passa de uma desculpa esfarrapada a encobrir um clamor recalcado de um nacionalismo reativo. O canibalismo, como signo de deglutição crítica do outro, simplesmente nos amputará o próprio sentido crítico.
A antropofagia só nos uniu em torno de um ressentimento soberbo, sonso e velado. Nos decretar antropófagos é uma maneira um tanto imbecil de ser brasileiro, uma afirmação que nos conduz a perpetuar a permanência de toda a nossa precariedade nacional, abdicando de qualquer preocupação em organizar uma sociedade que realmente funcione.

Durante a leitura dessa resenha, acredito que você leitor deve ter notado que Lobão dispara críticas à vasta cultura brasileira: a política, a música, as leis, o governo e até mesmo a nossa produção literária. O autor faz isso com o auxílio de uma linguagem bastante irônica, dando ao livro momentos de riso e de reflexão. Infelizmente o ato de pensar é para poucos, o de reflexão mais ainda, a leitura desse livro faz-se necessária para compreendermos não a face mascarada, mas a face real de nosso país. O livro é munido de uma seleta pesquisa feita por Lobão, portanto o que ele diz é embasado teoricamente, isso é necessário pois há os que gostam de consultar fontes.


 Porém algo é preciso ser dito, este livro em suma é uma carta de amor ao Brasil, baseada em sua principal manifestação cultural: a Semana de Arte Moderna de 1922. Porém fica a incógnita: Lobão tem razão? Leia antes de bater.

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