“Pensar que um dia as coisas nasceram”
Talvez falar sobre Noemi
Jaffe seja complicado, uma vez que li apenas um livro da autora. Porém, li um
alfabeto inteiro de ideias e imagens que me fez perceber que o brincar com as
palavras ainda é digno de nota em todo bom escritor que quer inventar novas
possibilidades de existência. E é isso que acontece em A verdadeira história do alfabeto e
alguns verbetes de um dicionário.
Voltar à origem das coisas,
imaginar como determinado objeto surgiu, sempre foi algo que me deixou
impressionado. Às vezes, ponho-me a buscar respostar para a criação de objetos
variados, seja a invenção da borracha ou do lápis à criação de um navio, por
exemplo. Nesses imaginares, perdia-me, e ainda me perco, criando inúmeras
possibilidades em como tudo, em certo momento, teve seu ponto originário. E se
me recordo bem, já havia me perguntado de que maneira as letras do alfabeto
teriam surgido. Ainda bem que Noemi Jaffe tem as respostas.
As 26 letras do alfabeto
contêm sua invenção em 26 textos (contos?) escritos por Noemi. As possibilidades
são as mais variadas possíveis, passando por cientistas e músicos, a invenção
das letras pode ter sido gerado até mesmo por questões amorosas.
A escritora, porém concebe a
partida do livro iniciando pela letra A, quando Epicuro desejava constatar o
desejo dos átomos de uns pelos outros, encaminhando-se até a letra Z, a qual um
cientista compreendeu que ela melhor representaria que “vários outros prótons,
elétrons e até alguns nêutrons vinham recusando-se a seguir o caminho adequado
desde que surgiu o tempo”.
Assim, acredito que apesar de
tantas outras estórias que surgem no caminhar pelo alfabeto a “inventora das
origens” nos quer dizer algo, como se a presença dos átomos em nossas vidas, em
nossa criação, e de tudo que está ao nosso redor pudesse ser reflexo do que
realmente acontece no mundo. Talvez essa interpretação seja um pouco exagerada,
mas sabemos que os átomos estão presentes em tudo.
O importante é que Noemi
consegue fazer o leitor se prender ao mundo criado entorno da palavra que
começa a ganhar significado, quase sempre, por alguma motivação, simples ou
complexa. Indo dos átomos ao momento quando o homem da era da pedra se põe a
divagar sobre os significados, a escritora atua de maneira pontual e consegue
dar respostas à pergunta que sempre fiz a mim mesmo: De onde surgiu tal
palavra? Porém, ela vai além e nos diz de onde surgiram cada letra do alfabeto.
Fora o alfabeto, o livro
ainda traz alguns verbetes que são praticamente desconhecidos por nós,
leitores, e cria novos significados. A palavra Palanca, por exemplo, quer
dizer cidade, pai, bigode. Mas também pode ser o nome de uma cidade que foi
invadida, em abril de 1944, pelos nozólios (o que são nozólios?). Também temos
a palavra Jaja, que quer
dizer jiboia, jogo, deserto. Nota-se que os significados dado às palavras,
muitas vezes, não estão relacionados e meio que estão em aberto, como se a
criadora dos significados deixasse em aberto para que nós comecemos a criar os
significados para as palavras desconhecidos ou até mesmo para as que
conhecemos, empregando-as de formas diferentes.
Criar é o que os artistas
fazem de melhor, dar novos significados, novas chances de existência é o que
move, muitas vezes, pessoas como Noemi Jaffe, que inquietas tentam dar
“esperanças” a quem lê, no sentido em que a leitura pode ser sim uma salvação. A verdadeira história do alfabeto e
alguns verbetes de um dicionário é
mais do que um alfabeto ou do que uma coleção de verbetes, é uma verdadeira
máquina de criar fantasias. E o leitor que ainda prefere a realidade crua de
determinados autores, que muitas vezes perdem-se no sensacionalismo acabam
esquecendo que, às vezes, é melhor se deixar levar pelo espírito da Literatura.

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