Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
17 de novembro de 2014
Coletivo Big Buka – Para Charles Bukowski: uma nova chance para as coletâneas!

Coletivo Big Buka – Para Charles Bukowski: uma nova chance para as coletâneas!


As coletâneas, livros que reúnem textos de diferentes autores escrevendo sob uma mesma temática, tiveram seu ápice há cerca de cinco anos. Havia dezenas, talvez centenas de projetos de coletâneas circulando pela internet, dos mais variados selos, dos mais diferentes temas. Uma chance expressiva para que novos escritores, muitos nunca publicados, divulgassem seus textos em um livro.

No entanto, com o passar dos anos, a qualidade destas publicações caiu consideravelmente. Coletâneas se transformaram em verdadeiros balaios de escritores, e algumas saíam com setenta, com cem autores em uma mesma edição. Passou-se a desprezar a qualidade dos textos; a excelência na elaboração da capa; os cuidados com revisão gramatical, edição, produção, divulgação, e outros detalhes que fazem toda a diferença no final.

Resultado: os autores passaram a ver as coletâneas com desconfiança, e até com desprezo. Com razão. Muitos viveram na pele a experiência de ter seu texto publicado em um livro sem qualquer aprimoramento, sem qualquer cuidado, comprometimento e profissionalismo. E, atualmente, pouco se ouve falar em coletâneas. A má qualidade e o descomprometimento de editores e editoras colaboraram efetivamente para enterrar as coletâneas no hall das publicações com forte potencial para o fracasso.

Contudo, recentemente a Editora Os Dez Melhores decidiu fazer o caminho oposto da maioria das editoras, e apostar novamente em coletâneas, oferecendo para elas a mesma qualidade, dedicação e exclusividade destinadas aos seus autores solos, e aos lançamentos de seu selo social, o Nascedouro.

Jana Lauxen e Alexandre Durigon, editores da Editora Os Dez Melhores, sabem o desafio que tem pela frente:

– O desleixo e a falta de profissionalismo que assinalaram a publicação de coletâneas nos últimos anos marcaram negativamente este gênero literário, e precisamos agora romper as barreiras e as desconfianças que assombram este tipo de publicação. Mas estamos dispostos a fazer acontecer – garante Alexandre, que escreve sob o pseudônimo Afobório.

E é Afobório, aliás, o nome por trás da organização do primeiro coletivo da Editora Os Dez Melhores. Trata-se do livro Big Buka – Para Charles Bukowski, que buscará homenagear o escritor Charles Bukowski através de contos que versem sobre as temáticas que sempre permearam sua obra: bebedeiras, mulheres, literatura, cotidiano, melancolia.

Serão selecionados somente dez textos, de dez autores. A ideia é justamente publicar poucos escritores, a fim de oferecer a cada um a atenção e os serviços que merecem.

E assim como ocorre com todos os lançamentos realizados pela Editora Os Dez Melhores, o coletivo Big Buka – Para Charles Bukowski contará com uma ilustração inédita e exclusiva em sua capa, elaborada pelo ilustrador gaúcho Emerson Wiskow. Também desfrutará de todo aparato de divulgação oferecido pela editora, que através de sua assessoria de comunicação elaborará releases, resenhas, entrevistas com os autores e reportagens sobre a obra, contatando mais de 300 veículos de comunicação, entre impressos e digitais – incluindo os das cidades dos escritores selecionados.

Todo o investimento deste lançamento, bem como a divulgação e distribuição da obra, ficará sob inteira responsabilidade da editora. Ou seja: os autores selecionados não precisarão pagar qualquer taxa, e nem se comprometer com a aquisição de um número X de exemplares. Muito pelo contrário: cada autor receberá, gratuitamente, um exemplar do livro.

A tiragem da publicação será comercializada e distribuída pela própria editora através de atividades literárias envolvendo escolas e instituições de ensino.
A seletiva, que selecionará dez contos para o coletivo Big Buka – Para Charles Bukowski, está aberta até o dia 10 de dezembro de 2014.

Confira o regulamento, e participe:

É a chance de ser você e mais nove.


Leia Mais
24 de outubro de 2014
"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues

"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues



O movimento natural do Universo, criação e destruição, que transborda em uma sintaxe explosiva, ecoando em uma polissemia de vozes, fazendo do estranho belo e do belo estranho. Esse é o tom do primeiro livro de Sahmaroni Rodrigues, Cantos. Em seus contos “o tumulto na vida das personagens roda nas engrenagens da carne e da alma”. Com uma sintaxe sofisticada e desconstruída, Cantos é o quinto livro publicado pela Editora Substânsia e o livro de estreia do artista performático, escritor e educador Sahmaroni Rodrigues. A capa é assinada por Lily Oliveira e o projeto gráfico por Nathan Matos. O lançamento ocorrerá dia 29 de outubro às 18:30 horas, Candeeiro Café&Arte, Rua Wanderly Uchôa, 230. Benfica, Fortaleza-CEO livro será vendido a R$ 30,00.

Sahmaroni Rodrigues nasceu em Catarina-CE. Formado em Letras pela UFC. Doutorando em Educação Brasileira: entende a academia como um conjunto de linhagens espirituais, assim como a Umbanda é, as neopentecostais o são e o ateísmo também. Participou até 2012 do coletivo artístico Projeto Cadafalso com trabalhos que transitavam entre literatura e artes visuais. Tem como lema: Amor fati. É feliz.

Abaixo, um dos textos do livro



Um homem honrado

E com os olhos vermelhos fui à sua casa e lhe disse: Devolva-me tudo que é meu! Olhos nos meus abriu sua gaveta de contas pagas e me devolveu uma algema sem as chaves e um pau duro e solitário.

Sahmaroni Rodrigues

Leia Mais
15 de outubro de 2014
Os contos de Anderson Henrique - pequena nota

Os contos de Anderson Henrique - pequena nota



Anelisa sangrava flores é um livro de contos publicado em 2014 pela Editora Penalux. A orelha do livro e o seu prefácio anunciam ao leitor que se trata de um livro que se norteia na literatura fantástica latina. Ao ler o livro, percebi que havia de fato essa influência na obra. Mas não me pareceu ser um livro exclusivamente fantástico.

São 13 contos que abordam diversas narrativas, como por exemplo a estória de um garoto que cresceu além do normal, uma mulher que envelhecia os namorados, um pescador que ao encontrar um garoto, misteriosamente, pesca centenas de peixes. Etc.

O autor, Anderson Henrique, deixa em suas narrativas alguma mensagem ao leitor. Seja essa mensagem de caráter social ou amorosa. Os fatos fantásticos que acontecem entre os personagens as vezes são explicados ao leitor e as vezes não são explicados. Lembrando que a literatura de caráter fantástica acontece quando os fatos surreais acontecem de maneira inexplicada. Portanto, afirmar que esta obra é essencialmente fantástica, seria um equívoco.



O desenrolar de cada conto é o que prende o leitor. Pois sempre estamos nos perguntando sobre o que acontecerá na próxima página. Prender um leitor hoje é algo difícil para alguns autores, mas Anderson Henrique me prendeu por todos os 19 contos de Anelisa sangrava flores. E você, caro leitor, permita-se prender também a esse livro.

Leia Mais
25 de setembro de 2014
O mar sempre tem razão, de Munique Duarte

O mar sempre tem razão, de Munique Duarte


por Munique Duarte 

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro, pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, como muito requebrar de língua, mas compreendia e rejeitava as hospitalidades, até acordar no frio da madrugada sobre um fino colchão sujo. Mulheres para um lado, homens para o outro. Mas o dia era de todos tomando sol sobre o casco do navio. Lagartos enjaulados na esperança de rotinas melhores.

Sozinha, não tinha mais passado. O sangue em suas veias não se repetia em mais ninguém. Viuvinha de olhos secos. A vinte seis dias de seu destino. Apenas uma lembrança a assaltava. Uma casa enorme, muito antiga, com portas enormes onde passaria um gigante. As janelas com os vidros meio quebrados. As escadas com degraus de castelo. Todas as camas pareciam de livros encantados, com lençóis muito brancos. Havia um homem que sempre dizia que ela era o seu tesouro. Imaginava um baú com moedas faiscantes e colares de pérolas. Todas as pérolas do mundo. O homem a tirara da rua. Ela adorava comer batatas no fim da noite. Seu quarto era pequeno, com perfume de amora. Era um mistério de onde vinha o perfume. Assim como a visita de tantas pessoas que acontecia nos fins de semana. Ficava a maior parte do tempo no quarto, brincando com uma boneca vestida de rosa. Às vezes, passeava no jardim com o homem que resolveu criá-la. Ele era calado, já bem velho. Sempre dizia que um dia ela estaria pronta. E que seria a mais linda de todas. Não entendia nada já pensando nas batatas do jantar.

Um dia um homem calvo entrou seu quarto. Ela nunca o havia visto pela casa. Vestia-se bem. Fechou a porta e começou a conversar assuntos simples. De olhos vivos ela o observava. Os olhos deles pareciam duas bolotas de ferro frio. Naquela noite enjeitara as batatas do jantar. Uma dor lhe subia do umbigo e fazia seus olhos se encherem de lágrimas. Lembrava-se das mãos geladas do homem com olhos de ferro. Tantos outros homens com olhares de metal ainda entraram em seu quarto depois daquele dia. Por tantos outros dias, por tantos outros anos.

O mar enorme se acinzentava com o fim do dia. Olhos ao seu redor a espetavam, mas não a sangravam. Era um coágulo vestido de preto. Viuvinha debaixo de gaivotas. Seus olhos secos de amora não se importavam mais. O destino incerto ainda aguardava dias balançando sobre a água. O mar é uma placa azul enorme que se desfaz toda a noite. O mar é uma cidade enorme cheia de flores com vagas para se hospedar.


Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos Espelho Oxidado, pela Editora Multifoco. Bloga em textosimperdoaveis.blogspot.com. Em 2015, lançará seu primeiro romance.

Leia Mais
28 de agosto de 2014
Gaiola pequena, de Munique Duarte

Gaiola pequena, de Munique Duarte


por Munique Duarte

Bateu a porta e bateu em retirada feito cão raivoso. Ao sair, sentiu um nó na traqueia de quem não via o mundo lá fora há muito tempo. A claridade o tonteou. Fora do prumo. Caminhando e varrendo a calçada irregular com as solas dos pés. O mundo do lado de fora é uma gaiola gigante, cheia de gente que acha estar livre e feliz. Ele esqueceu os óculos, mas as pessoas eram transeuntes vivas, apressadas, coloridas, rarefeitas, falantes. Não falava há dias. Ouvia muito e não falava. Não falava porque ninguém o entendia. Foi ficando derretido, aos poucos, como neve no anúncio da primavera. Murcho. Escutando. Até que naquele dia ensolarado e quente de quinta-feira de manhã resolveu dar um basta. Calado, bateu a porta. Mudo, saiu percorrendo a calçada irregular com nó de gravata desajustada na goela. Ele não era culpado. Era simples de ideias, mas ninguém as ouvia. E quando resolviam ouvir o pobre enforcado nas angústias, ninguém compreendia. O mundo é uma gaiola imensa cheirando a gás carbônico. Entre tantos casos e descasos, e desencontros, preferiu bater a porta e ir embora. Sem malas e com uns trocados no bolso. Caminhou muito. Doía a sola dos pés. Encontrou um velho amigo.

Encarou a cara do conhecido como se tudo estivesse normal. Ouviu todas as suas ladainhas. Porque amigos são contadores de belas ladainhas melosas. Havia três meses que não o via. Porque andava trancado muito em casa, na gaiola pequena. Foi perguntado pela ausência. Respondeu que largou o trabalho e que agora se dedicava a olhar o horizonte e a escrever artigos que talvez algum dia alguma revista pudesse aceitar. Mentia. A vida seria mesmo só observação dali em diante. Mas sobre escrever, era tudo mentira. Conversar com o amigo era como se o nó da traqueia piorasse. Fingiu querer atravessar a rua. Antecipou o até logo, com desejo de até nunca.

  Atravessou no vermelho do semáforo, e a vontade de desbravar o mundo passava a ganhar uma cor amarelada, sem o fulgor do bater da porta. Nunca mais veria os lábios em formato de coração do primeiro amor de sua vida que se tornara sua esposa. Talvez melhor assim. Talvez não. A família dela o dava náuseas. Pessoas que falam muito, sem direção. Ela era linda, com cabelos cor de laranja e lábios vermelhos, feito um coração. Cara de russa. Uma boneca estrangeira. Ele, um eterno estrangeiro na gaiola. Ela, pássaro raro. Devia estar chorando pela batida na porta. Preso na pequena gaiola. Preso na grande gaiola. Atravessou a rua em sentido contrário. Pensou em fazer a mentira da escrita para a revista se tornar uma verdade. Depois pensou em desistir. A gaiola grande é complicada e cheira forte a gás carbônico. Muito ruído. Sem possibilidade de compreensão. Estava calado nos últimos dias. Estava sufocado pela gravata imaginária do adversário. Caminhava rápido em sentido contrário. Imaginava outros mundos, outros amores, outras gaiolas. Atravessava o corredor do prédio. Lembrou do passado. Sempre calado, ninguém o compreendia. Queria olhar para sempre o horizonte pela fresta da gaiola. Impossível. Terminou o corredor. Estava diante da porta batida. Titubeou na campainha. Lábios de coração atenderam. Os olhos da boneca russa estavam secos. Os dele verdadeiramente cansados. A gaiola grande oferece muita coisa para ser vista. Ele deu o primeiro passo para dentro da gaiola pequena. Sentiu-se o mesmo. As angústias são as mesmas. Tomou a boneca de cabelos cor de laranja nos braços. Quando os lábios se encontraram, fulgor. A gaiola pequena se tornou gaiola grande. Voaram na imaginação. Estavam a sós. A salvo. Mais tarde chegariam os outros, cheirando a gás carbônico. Quem sabe, bater a porta outra vez. Entre o acaso e o descaso, ele seria então observador de horizontes. Amava sua boneca russa bailando entre ocaso e estrelas.


Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários e foi participante da Mostra de Tuiteratura, em São Paulo. Em fevereiro de 2014, lançou o livro de contos Espelho Oxidado, pela Editora Multifoco. Bloga em textosimperdoaveis.blogspot.com. Em 2015, lançará seu primeiro romance.


Leia Mais
21 de agosto de 2014
Desencanto, por Manhana Castro

Desencanto, por Manhana Castro

Retirado de http://migre.me/kXtQn

Ele a convidou para sair, ela resolveu aceitar o convite. Ele sugeriu o shopping; ela, um museu.
Ele ficou sem entender por que um museu e, mesmo contrariado, resolveu aceitar a sugestão. De maneira amável, ela disse que poderia ir ao shopping em outra ocasião, mas gostaria de sair para um lugar um pouco diferente do comum.
Entraram no museu.
Ela ficou atônita diante de um quadro estilo Barroco, uma tela do séc. XVII.
A pintura era uma mulher deitada sobre uma espécie de divã com um livro nas mãos. O rosto dela tinha uma vivacidade quase real, daria para sentir as mesmas emoções do seu olhar perdido sobre as letras. Os contrastes intensos de luz e sombras causava uma epifania na outra moça.
Seus olhos estavam embebidos em lágrimas. Ele, perplexo e aturdido, não compreendeu o porquê daquela emoção “desnecessária”.
Ela tentou explicar: Imagine que essa tela foi pintada no séc. XVII, como será que a senhora se sentia no momento exato da pintura? Parece-me que o pintor revelou essencialmente a consciência de uma mulher; é engraçado como a noção de tempo varia de acordo com a visão de mundo de cada um, creio que essa tela do séc. XVII poderia representar, muito bem, outra “figura feminina” do séc. XXI.
Ele demonstrou certa estranheza com a fala da senhorita, não entendeu o significado daquela emoção “sem sentido”. Na expressão facial ficou explícito certo desprezo ou certo tipo de pensamento “natural”. Que bobagem tudo isso!
No caminho ficaram mudos, em silêncio... Apenas uma pausa para ele reclamar sobre o preço da gasolina.  Ela meneou a cabeça graciosamente.
Ele a deixou em casa e disse que poderiam marcar outros encontros, ela sorriu sem jeito e constrangida, sabia que não se encontrariam mais no século XXI.




Leia Mais
14 de agosto de 2014
Saudade, por Fabiano Oliveira

Saudade, por Fabiano Oliveira



por Fabiano Oliveira


Olhos pesados, pensamento pesado, sono pesado. Ainda assim, acordo. A poltrona pequena conseguiu suportar meu cansaço. Nem tão bem, é verdade – precisei ficar com uma perna sobre um braço e a cabeça caída sobre o outro. Nem deu tempo de tirar a roupa, mais uma vez. Meu sono sempre vem assim, arredio quando preciso dele e sedutor quando menos espero. Começa com uma prostração e o coração fica mais sereno. Levanto, me estico, tomo um copo d’água e abro a janela para sentir o cheiro da noite, que não é muito diferente do dia, a não ser pela temperatura. O vento me beija. Não é comum ventar por aqui. Se ainda fosse perto do mar ou da serra eu entenderia, mas aqui não, as montanhas fazem questão de deixar o ar pesado, parecendo espesso demais para ser inalado. O alumínio assovia e a brisa invade a sala. Volto a sentar, minha cabeça pende para o lado e despenco antes de me certificar que perdi mais uma batalha desta guerra inglória. Não sei quanto tempo se passou, mas deve estar perto de amanhecer. A televisão ligada mostra um filme dos anos noventa do qual ninguém (a não ser algum homem de meia-idade com o rosto engordurado e cheirando a mofo) se lembra. No lado direito da minha calça uma mancha persiste em existir. Um amarelo claro difícil de ser percebido no jeans quase bege, que deveria ser branco. Gostar de mostarda é uma responsabilidade. O pior é que a mancha me faz lembrar Elisa. Sinto falta dela. Falta não, saudade mesmo. A boa e velha saudade tão conhecida do idioma português, com quem tem um relacionamento monogâmico e satisfatório desde sempre. A mancha é o meu pensamento dela, minhas memórias nostálgicas e indeléveis do que foi e, mais ainda, do que poderia ter sido. Um conjunto de situações, fatos e acasos cambaleantes que não se juntaram no meu caminho, ou eu me desviei, não sei. Só tenho consciência que estou semideitado numa poltrona velha e, muito provavelmente, sem consciência. Tínhamos ido a um restaurante caro, desses que tocam músicas bem baixinho, geralmente jazz, apenas para ambientar as conversas e principalmente os olhares. Ela havia pedido sem nenhum motivo aparente para ir lá e eu não entendi por quê. Não vivo uma vida relaxada financeiramente, mas às vezes posso me dar ao luxo de aproveitar os excessos do nosso sistema. Ela pediu para nos encontrarmos já no restaurante. Pendendo sobre minha barriga, um livro de páginas amareladas e aberto antes da metade está prestes a cair. Conta a história de um homem sem história que, na avidez de construir um passado, acaba negligenciando o presente. Antes de começar a ler, contei o que sabia da obra para Elisa, que se interessou e acabou lendo antes de mim. Ela terminou num domingo. Eu assistia ao jogo quando senti um peso sobre meu colo. “Fim de merda” foi o que ela disse, com os olhos ainda inchados e úmidos, depois de arremessar aquele bolo de páginas mal encadernado. Sempre sentimental e impulsiva. Essas características me assustavam e, naquele momento, eu não sabia o que dizer e nem se tinha alguma culpa na tristeza dela. “Como assim? É muito ruim?”, “Ele se mata para viver só no passado e não ter que lidar com o presente”. Ótimo, ainda estragou a surpresa do livro, me deixou com raiva de duas coisas com uma só frase. “Precisava me contar o final? E, além disso, para que tudo isso? É só um livro”. Antes de terminar de pronunciar a última palavra, já sabia que não deveria tê-las dito, mas não tive o reflexo mental necessário para reagir a tempo. Os olhos dela ficaram colericamente mais arregalados do que já estavam e a boca abriu-se quase formando um ângulo de 180°. Puxou o ar, mas não disse nada, virou à direita e num rompante fez o caminho de volta para o quarto que era nosso, mas, naquele momento, supus ser só dela. Olhei para o meu companheiro de sono: a capa é de um vermelho intenso, quase vinho tinto. Foi isso que chamou minha atenção e me fez levá-lo para casa. Pena a atração de suas páginas serem inversamente proporcionais à exuberância externa. Elisa usava um vestido preto na altura dos joelhos com pedrinhas que brilhavam à luz dos faróis do trânsito confuso de um sábado à noite. Mas o que chamou a minha atenção foram suas unhas: escarlates. O contraste com a pele era hipnotizante. Com o salto alto ela ficava do meu tamanho, nunca me incomodei com isso e ela também gostava de não ter que ficar na ponta dos pés para me beijar. Pés que não combinavam com o chão preto e sem vida da calçada. O chão da sala é até bonito. Apesar dos riscos, a madeira ainda não perdeu a vida e o brilho sempre atraiu minha atenção nas manhãs ensolaradas. É verdade que já acumula algumas manchas, principalmente de cerveja, cujas garrafas fazem a ornamentação. Mas uma marca me persegue, no canto direito da sala, embaixo da janela. Era um desses muitos jantares de amigos que costumava receber quando ainda não morávamos juntos. Eu tinha feito um peixe assado e escolhi um vinho no supermercado. Não era dos mais caros, mas não chegava a ser dos piores. Levei quatro garrafas. Quando fui abrir a primeira, percebi que tinha esquecido de comprar um saca-rolhas novo. O antigo tinha quebrado e só restava um com menos engrenagens e que exigia uma coordenação motora e força incrivelmente maiores. Abri a primeira até com facilidade e fui aplaudido. Segui o mesmo caminho com a segunda. Na terceira, pequei pela soberba. Fui para a sala na tentativa de mostrar minha mais recente habilidade, mas nem cheguei a enfiar o metal na rolha. A garrafa já suada deslizou pelos meus dedos, que estavam certos da vitória, se espatifando em milhares de pedaços minúsculos embebidos no líquido desperdiçado. Desde então sou obrigado a ver o que restou e lembrar os acontecimentos. Ela pediu um salmão com alcaparras e eu um medalhão com molho de mostarda dijon. Enquanto os pratos eram feitos – o que eu supus que demoraria uns quarenta minutos - me ocupei bebendo um vinho dos mais baratos. Sabia que Elisa odiava meu hábito de beber sem motivo, mas nunca quis agradá-la nesse ponto. Já esperava uma repreensão, que não veio. Ela me olhava nos olhos de vez em quando de uma maneira mais furtiva do que de costume e com um semblante que misturava pena e indecisão. “Não vai reclamar?”, soltei. “Não, vou deixar você ter seus últimos momentos comigo em paz”. Com a taça ainda suspensa, franzi a testa e lancei um olhar inocentemente inquisidor. Ela ficou em silêncio, não falaria mais nada se eu não perguntasse. “Como assim?”, “Vou me mudar, depois de amanhã viajo para a França”. Reclamei incrédulo, pensando se tratar de uma brincadeira, mas sua expressão linearmente séria me deixou a par da realidade, dura como a mesa de mogno onde, apoiado sobre os cotovelos, deixei cair o peso do meu corpo, que parecia levar o mundo nas costas sem conseguir soltar. “A gente já não dá certo há um tempo”, e assim ela foi explicando a derrocada do nosso relacionamento, desde as festas que eu costumava ir com meus amigos até a minha dificuldade em dar alguma brecha emocional, passando pela nossa recente separação e volta, morando em casas separadas - obviamente ela se esqueceu do seu ciúme crônico. Não parava de falar e eu consentia olhando para a quina de uma parede qualquer, a visão até desfocada, não importava, eu só queria desaparecer para algum lugar onde os conflitos caíssem no esquecimento. Olhei as horas – já tinham se passado cinquenta minutos – “sábado é foda” pensei baixo o suficiente para Elisa não ouvir minha mente. Se pelos menos a comida chegasse logo ela pararia, eu acho. Entre as reclamações ela foi soltando uma informação ou outra. Disse que a passagem está comprada e que acertou com a conhecida de uma amiga, que mora em Paris, para ficar na casa dela até arrumar um lugar. Vai com visto de turista, uma mala e só. Tive vontade de chorar. “A maldita vai me abandonar aqui, nessa cidade tosca do cada um por si”, pensei. Claro que o relacionamento não foi de todo ruim. Tivemos momentos genuinamente felizes, talvez mais pela ignorância do que pelo conhecimento do que acontecia. A princípio nenhuma briga era importante demais para ser levada em consideração quando pensávamos sobre os rumos de nós dois juntos. Ela reclamava se eu olhasse para outras mulheres na rua, mesmo que de soslaio. Internamente, eu não achava válido, mas aceitava as vociferações de uma maneira passiva e confiante que o amor seria maior. Enquanto isso, ela insistia em não me dar espaço e eu contestava a falta de privacidade que me era imposta no âmbito mais cotidiano. Ela não se incomodava com minhas palavras contrárias e a vida seguia seu curso, nós juntos parecia o mais natural. E o dia a dia era realmente agradável. Nunca fui uma pessoa comunicativa, pelo contrário, nutri durante a infância e a adolescência um medo crônico de gente. Quanto menos contato e olhares cruzados, melhor. Com ela eu me sentia diferente, gostava de senti-la e captar suas emoções pelas janelas da alma. “Fui fazer a barba logo hoje”, pensei enquanto esperava os pratos chegarem. Sempre odiei raspar os pelos do rosto, mas fazia por pressão de Elisa, que dizia ter a pele hipersensível. Nunca achei que isso fosse verdade. A barba pinica o meu peito, pressionado contra o queixo. Isso me incomodaria se estivesse acordado. Estranhamente tenho muito mais barba nesse ponto do rosto do que em qualquer outra parte da face. Esse tempo todo querendo saber que horas são e não me dei conta que tenho um relógio no pulso esquerdo. Ele deslizou e está praticamente na minha mão. Postergo, desde que o ganhei de presente, uma ida a qualquer relojoaria para ajustá-lo. Está convenientemente virado para mim, mas um pouco longe. Forço a vista, sempre tive uma visão de dar inveja e me gabava de não precisar de óculos. Penso em Elisa. Tive vontade de perguntar que horas são para ela, gostava de fazer isso quando tinha preguiça de pegar o relógio. Ela deve estar falando francês muito bem agora. Sempre foi melhor do que eu. Nunca viajamos juntos de avião. O último passeio foi a uma cidade pequena do litoral, para onde tivemos a infeliz ideia de ir durante o carnaval. Depois de seis horas presos no carro chegamos a uma típica casa de veraneio dessas que as pessoas descrevem de viagens que não deram certo. Geladeira corroída pela maresia, uma televisão velha e um forte cheiro de mofo no quarto. Depois de três dias, o resultado: quatro brigas, dois pratos quebrados e reclamações dos vizinhos por excesso de barulho. Poderia tê-la amado mais, perdido mais horas de sono em conversas inúteis de madrugada, ao invés de rolar para o lado depois de transarmos e roncar. Meus olhos poderiam tolerar mais os pais dela e meus ouvidos não precisavam sentir tanta repulsa ao ouvir as besteiras que eles diziam sobre o fato de estarmos juntos. Ela viajaria para fazer um mestrado e eu iria com ela, vivendo de algum dinheiro que acumulei e trabalhando no próximo livro. Teria uma influência europeia, os leitores gostam disso. Pode ser um lixo, mas se tiver uma roupa chic e não chique eles adoram e consomem nem que seja só a embalagem. Eu conheceria a banlieue francesa, o Vaticano, lugares sobre os quais meu conhecimento é formado metade por filmes e a outra metade por imaginação. A gente se casaria longe da nossa família, numa cerimônia apenas com nós dois. Mandaríamos algumas fotos para nossos pais. Nosso filho teria um nome em língua estrangeira e falaria outros idiomas melhor que eu, mas sem deixar de aprender o português. A vida teria suas dificuldades, mas estas não se comparariam com os prazeres do companheirismo e pareceríamos viver sempre sob o som de uma composição leve de Mozart. Nada nunca nem poderia ter sido. Meses depois cá estou eu, sem ter notícias dela, a não ser por um e-mail. Ela disse que chegou bem. Deve ter se sentido solitária na primeira noite. Esse traço de insegurança nunca a abandonou. Um país diferente e, mais do que isso, uma língua diferente, assustam qualquer pessoa normal. A saudade de ouvir a melodia do português pode se tornar uma doença crônica. Mas nunca se sabe. Nesse exato momento ela pode estar tomando café da manhã com algum francês que vai dizer, ou já disse a ela, um baise-moi com mais convicção do que qualquer palavra já saiu da minha boca. Enquanto isso, eu sigo aqui, com os mesmos conhecidos e os mesmos poucos amigos. O ponteiro menor não se move, o dos minutos também se recusa. O vento não sopra, a cidade dorme. Será que não está na hora de acordar? Daqui a pouco os trens vão começar a passar aqui ao lado. Despertadores vão tocar e corpos pesados levantarão para, cada um a sua maneira, deixar as ruas um pouco mais barulhentas. Ainda nada. O dos segundos está como eu na poltrona: estático. Lá fora parece uma pintura, nem as nuvens se mexem. O sol deve ter se esquecido de aparecer e eu não vou despertar. O livro continua onde está, parecia que ia escorregar, mas não o fez. Eu parei. O tempo parou e eu não percebi.



Leia Mais
31 de julho de 2014
Túmulo no monte Cáucaso

Túmulo no monte Cáucaso



 por Luiz Fernando Pierotti

Hoje o vento está mais frio. Apesar do céu azul, o vento está frio. Não sei especificar há quanto tempo estou parado aqui. A sombra das árvores cobre meu rosto, posso ver todo o jardim de entrada, a porta, a janela. Escuto certa movimentação dentro da casa, mas a porta permanece fechada. O vento está frio, mas o céu muito azul. Entre as folhas dos arbustos, à minha direita, vejo um pedaço da rua. Vazia. Posso observar um pedaço do meu carro, vermelho brilhante.

Sinto minha mão trêmula, acho que é o peso que ela sustenta. Não estou acostumado ao peso do metal. Não estou acostumado ao peso da situação. Sou apenas um homem. O céu está azul turquesa e eu tremo sobre o Cáucaso. Tremo como o homem que encara os olhos do diabo. Porém, hoje a mão que treme, a minha mão, será aquela que castiga, serei eu quem escreverá o epitáfio neste túmulo entre o mar Negro e o mar Cáspio.

Ouço vozes no interior da casa. O vento sopra mais forte e deita a folhagem que me esconde da rua. Posso ver meu carro, vermelho e brilhante. Sinto um pouco de tristeza quando penso nele queimado, a quilômetros daqui, mas é necessário. Vermelho e brilhante, por um momento sua cor vai escalar o ar em labaredas. É engraçado pensar nas chamas sobre o carro, no fogo em minha mão... É, sem dúvida, uma oferenda a Prometeu. A justiça dos homens sendo praticada sobre seu cárcere.

Ouço vozes no interior da casa. Penso nela. Imagino seu terror ao ouvir esta mesma voz. Imagino seu terror. Sinto náuseas quando a porta se abre.

Ele sai. Não me vê. Está vestindo um uniforme azul turquesa. O céu é azul turquesa. É seu dia. Minha mão treme. Endireito meu dedo junto ao metal e, quando ele passa por mim, tento sair devagar de entre as plantas, debaixo das árvores do jardim. Hoje o vento sopra mais gelado. Piso em um graveto e ele estala alto. Sinto náuseas. Tento ser silencioso, mas o homem se vira. Tremo. Encaro os olhos do diabo. Minha mão pesa. Ele me encara e pareço ter mil quilos na mão direita.


Sinto que sou reconhecido, já faz tempo, mas momentos como aqueles não se apagam “O que é isso? O que faz aqui!?” – olha minha mão – “Eu já fui inocentado, você...”. Hoje eu sou o castigo. Minha mão está apontada na altura de seus olhos. Cuspo fogo. Penso nela enquanto o vejo cair. Sua perna treme e sua camisa já não é azul turquesa. Penso nela e puxo o gatilho mais uma vez. E outra. E outra. Não é mais tão fácil identificar seu rosto, porém é mais fácil encará-lo. Sinto nojo. Penso nela. Venci o diabo. Não tenho medo, arranquei os olhos do mal. O vento sopra forte e as folhas das árvores cantam. Vejo meu carro e corro até ele. Obrigado,  Prometeu. Penso nela e sorrio.



Leia Mais
30 de julho de 2014
Entrevista com Dimas Carvalho

Entrevista com Dimas Carvalho

Dimas Carvalho

Durante os dias 29 e 30 de abril, o curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral, sediou o II Encontro Cearense de Literatura Fantástica. Durante o intervalo da manhã do dia 30, entrevistei o escritor e professor Dimas Carvalho. O autor já ganhou vários prêmios literários, dentre eles o Cidade de Recife e o Edital de Incentivo as Artes. Entre os livros publicados, podemos destacar Mínimo Plural, Marquipélago, Fábulas Perversas e Uma Sombra no Espelho. A entrevista, gravada em áudio, foi bastante animada e extensa, o autor conversou comigo sobre os seus livros e sobre a sua vida pessoal, que agora trago à tona para todos vocês.

Léo P  Como começou sua busca literária? As primeiras leituras, o primeiro contato literário...

Dimas Carvalho – Léo, eu comecei bem cedo, na infância mesmo, eu tive a sorte, a felicidade em nascer em uma família em que todo mundo gostava de ler, meu pai não tinha muita instrução, foi armador de pesca, foi comerciante, mas ele sempre gostou de ler e minha mãe era professora. Acima de tudo, meu avô materno, Nicodemos Araújo, era escritor, nunca saiu do Acaraú, mas construiu uma carreira literária, faleceu com 94 anos e publicou 28 livros, diversos subgêneros: poesia, genealogia, dramaturgia, história e foi jornalista também, foi redator chefe do jornal O Acaraú

Bem, a casa dele está fechada hoje em dia porque como eu já disse ele já faleceu, minha avó também, a esposa dele. Minha avó faleceu agora em 2010, com quase 100 anos. Mas a casa dele fica próxima à matriz e a minha também, elas são confrontantes, tem uma praça no meio e eu fui neto único durante muito tempo. Ele só teve uma filha e minha mãe só teve dois filhos, minha irmã só nasceu muito depois de mim. Portanto, neto único e que foi quase criado só pelos avós, era uma coisa maravilhosa, era meu avô-hai (avô-pai). Meu pai morreu muito cedo, ataque cardíaco, e meu avô tornou-se realmente meu pai pra todos os efeitos. Mas acima de tudo, o seu Nicodemos, como era chamado na região, foi também o meu pai-espiritual-cultural porque desde criança eu saía da minha casa e ia pra casa dele, ele ficava lá escritório dele, que ele tinha, com a maquininha de datilografia, uma Hamilton, parece que eu tô vendo, cercado de estantes antigas abarrotadas de livros e ele sempre ou escrevendo ou lendo ou datilografando. E desde eu criança, ele me dava muitos livros de presente: histórias de fada, contos infantis, eu li todo o Monteiro Lobato para crianças, eu tive a felicidade de ler e reler Sítio do Pica-pau Amarelo todinho que ele me deu, e ele tinha na biblioteca dele muita coisa pra criança, como A Ilha do Tesouro de Stevenson, A Liga do Pimpinela Escarlate, eu adorava essa série de livros. Tinha um livro maravilhoso e que infelizmente eu queria ter guardado esse livro, que é um livro de contos de fadas ilustrado e que eu li e reli durante muitos anos chamado o Reino das Maravilhas e lia também Contos Árabes: As mil e uma noites... 

Bom, então eu vim para as letras por influência principalmente dessa pessoa. Desde criança, eu via o meu destino voltado para as letras, eu viveria como professor de literatura de redação e português, como eu fui por muito tempo antes de vir pra universidade aqui (Universidade Estadual Vale do Acaraú), onde leciono Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura. Aspirei, eu era muito ingênuo muito tolo mas jovem, Santo Agostino diz "piedade para todos os pecados, principalmente os pecados cometidos pela juventude", então eu tinha a ingenuidade de ser escritor, eu achava bonito e acalentei um projeto literário. Depois a gente cresce e vê que isso é muito difícil, porque você tem que ter muito talento e ter muita perseverança porque as dificuldades são enormes e o Brasil é um país que não lê, não compra livro e isso quando vem pro Nordeste piora muito, no Sul, eu estive agora em Santa Catarina, lá o nível é outro, lá o pessoal até que lê, mas aqui, no Nordeste, a coisa é terrível, no interior do Nordeste piora mais ainda. Acho que a pergunta foi essa né, como eu fui pra literatura. O começo foi esse. E você sabe que é uma estrada sem volta, você fica encantado. A gente entra nesse mundo e não quer mais sair dele. Por isso continuo nele até hoje.

Léo P  Nós, que fomos seus alunos, temos curiosidade em saber como foi a sua vida acadêmica. Conta um pouco sobre isso.

Dimas Carvalho – Eu passei a minha infância e adolescência no Acaraú e lá eu entrei para o grêmio do colégio que eu estudava, que também fica próximo à Igreja da Matriz, e eu não gosto de andar muito por lá porque me dá uma saudade muito grande, eu passo anos e anos sem entrar no colégio que estudei, eu evito passar por esse colégio, passei 12 anos estudando lá, ou seja, uma vida! Eu tenho muitas lembranças boas de lá. Meu “umbigo” está enterrado naquela casa em que eu moro até hoje. Mas aí, no colégio, eu entrei para o grêmio e durante 5 anos pertenci ao grêmio e, claro, sempre na função de bibliotecário. 

Era uma biblioteca muito boa, maravilhosa, eu estudava a tarde e passava a manhã nessa biblioteca e as pessoas não iam pedir livros, e eu ficava lá lendo. E tinha coisa muito boa naquela biblioteca. Depois eu fui fazer o segundo gral em Fortaleza e fui para outro colégio religioso o Colégio Cearense Marista, que na época era o colégio de ponta do Ceará, o melhor, era o que tinha os melhores professores, o que aprovava mais gente no ITA e no vestibular, enfim nos grandes vestibulares do país. E tinha um concurso pra você entrar, as vagas eram restritas e nem todo mundo podia entrar no Cearense, apesar de ser pago e muito caro. Lá eu fiz o segundo gral, que hoje é o ensino médio, e evidentemente quando fui fazer o vestibular optei por Letras na Estadual e na Federal. Passei em ambas, em primeiro lugar, e escolhi a Federal. Optei pela Federal porque eu sabia que eu ia conhecer pessoas ligadas a literatura de Fortaleza e que eram consideradas os melhores do estado, e também porque esses caras se correspondiam com meu avô. 

Quando eles lançavam algum livro, eles enviam pra casa do meu avô em Acaraú, como também o meu avô enviava seus livros para eles. Meu avô nunca saiu do Acaraú, mas teve contato com, por exemplo, Leonardo Mota, mas isso há muito tempo. Meu avô era muito tímido e extremamente humilde também, e tanto que a UVA nos 90 anos de meu avô, deu o título de honoris causa pra ele, ele dise que não ia receber em Sobral, então a UVA se deslocou pra Acaraú e ele não foi receber, se escondeu, no sítio da irmã dele em Bela Cruz, e foi eu quem o representou. Então, ele era um cara muito tímido e retraído. Então ele não conhecia pessoalmente muitos dos que se correspondiam com ele. Mas se conheciam de nome, tanto que o Artur Eduardo Benevides, que era professor da Federal, o Príncipe dos Poetas Cearenses, organiza uma antologia com poemas sobre Fortaleza, tem um poema do meu avô. O meu avô era membro da Academia Cearense de Letras, membro correspondente, eu acho que ele nunca pisou na Academia. Ele também membro da Academia Sobralense de Letras, essa ele era membro mesmo apesar de não morar em Sobral, mas era conhecido pelos membros intelectuais daqui, era amigo do Pe. Oswaldo, Pe. Sadoc, do Paulo Aragão o pai do Renato Aragão, enfim amigo de todos esses escritores que residiam aqui no anos 1930 a 1940. meu avô escrevia no jornal daqui, o Correio da Semana, e foi uma grande felicidade eu passar por mais de 2 anos nesse jornal com uma coluna de poesia, esse que é o mais antigo jornal do Ceará em circulação, fundado em 1918.

Bom, mas eu sabia que no curso de Letras da Federal eu ia ter como professores: Moreira Campos, Artur Eduardo Benevides, Otacílio Colares, Sânzio de Azevedo, Carlos D'Alge, Linhares Filho, Horácio Dídimo. Então, eu fui pra Federal porque eu queria contato com estas pessoas que eu já admirava, que eu já lia os livros e prezava. E todos foram meus professores, como alguns também que eu não citei, enfim a elite literária do Ceará na época. Eu tive o prazer, o privilégio e a honra de ter sido aluno deles e de ter sido monitor de alguns deles. Como também o privilégio de conversar, bater papo com eles no bosque das letras que tem lá. 

O Moreira eu gostava muito, com aquele paletó dele, parece que eu tô vendo, sempre fumando, muito magro, muito simples. Então, o Moreirinha, era assim que a gente o chamava,  ficava sempre rodeado de alunos batendo papo. Tinha também o Pedro Paulo Montenegro, professor de Teoria da Literatura, ele era excepcional. era uma constelação de grandes intelectuais da literatura cearense. Foram 4 anos de felicidade que eu tive. E no latim eu tive o José Alves Fernandes, que era o “papa” do latim no Ceará. Fiz grego com o professor Rebolças Macambira, um dos maiores linguistas de todos os tempos do Brasil. Ele era poliglota, a aula dele era um espetáculo. Enfim, eu tive o prazer de estudar com essas pessoas maravilhosas.


Léo P – Como foi o lançamento do seu primeiro livro Poemas (1988)? Com certeza seu avô acompanhou.

Dimas Carvalho – Ele fazia uma poesia bem diferente da minha, uma poesia neo-parnasiana, neo-simbolista, muito rimada e com a métrica perfeita. Ele tinha um livro, que até eu não guardei, o Manual de versificação do Olavo Bilac, todo mundo tinha na época, que ensinava a técnica do verso. E a poesia do meu avô, que era um homem muito religioso, que era muito caridoso, ele doava todos os meses cestas com alimentos pras pessoas carentes, me lembro de mais ele fazendo isso. Ia pra Bela Cruz, município em que ele nasceu, e ele deixava lá com um parente nosso o João Bonfim, e ele está lá ainda com o mesmo comércio, ele deixava lá as sacolinhas de alimento com os nomes das pessoas. 

Naquele tempo as coisas eram muito mais difíceis que hoje, tinha muita gente pedindo esmola nas ruas, Brasil estava em um patamas econômico bem abaixo que o de hoje, havia muita pobreza, ainda há, mas naquele tempo havia muito mais. No Acaraú, toda sexta-feira, as pessoas saiam pedindo esmolas e cada um tinha os seus mendigos e lá em casa nós tínhamos os nossos mendigos, toda sexta eles iam pra lá papai não estava em casa mas mamãe botava, lembro dela colocando farinha dentro de um saco de palha, que eles levavam.

Pois sim, a poesia do meu avô era muito mística, muito religiosa e que eu não tenho muito isso, e ele achava estranho. E nesse livro ele me ajudou também de maneira financeira, porque eu era estudante “liso” e saiu mimeografado porque eu não tinha dinheiro pra mandar pra uma gráfica e saiu barato muito precariamente, papel ruim, capa ruim muito feia, mas eu queria publicar. Eu tinha 24 anos na época e era inédito em livro. O livro inclusive é dedicado a ele. Inclusive fui enganado financeiramente, um sujeito ficou de publicar meu livro e não publicou, um cara que era funcionário da Universidade Federal do Ceará, faleceu a pouco tempo, não vou o nome porque não vem ao caso, ele era extremamente “velhaco” como se diz esperto, e eu era muito novo e ingenuo, e ele se aproveitou da minha ingenuidade e pegou meu dinheiro e gastou em outras coisas e não publicou o meu livro, tive que conseguir dinheiro de novo. Enfim, mas o livro saiu.

Léo P  E você pensa em republicar esse primeiro livro?

Dimas Carvalho – Léo, é tão difícil fazer primeira edição, imagine a segunda. Porque, pelo menos no meu caso, eu não tenho dinheiro, eu sou professor. E um livro hoje é cinco mil reais ou sete mil reais. Então, pra uma pessoa abastada de posses não é muita coisa, mas pra mim vale muito, desequilibra o meu orçamento. Claro que eu gostaria de reeditar os meus livros, quem não gostaria, até porque ele saiu só com trezentos exemplares. Eu gostaria de republicar meus seis livros de poemas, o sétimo está pronto mas não está ainda publicado, estou aguardando algum edital, ou concurso literário. Penso em fazer uma antologia dos meus poemas e contos, mas tudo isso esbarra nas condições financeiras. (…) e você publica e não tem retorno financeiro, não repercute, a crítica não se pronuncia, enfim, é muito complicado ser escritor no Brasil.



Leia Mais
25 de julho de 2014
SENTIMENTOS À FLOR DA PELE

SENTIMENTOS À FLOR DA PELE


- O seu problema é ficar planejando demais as coisas. Faça mais e pense menos.

- E o seu problema é não planejar nada.

- Existem situações que dispensam planejamento. É só seguir o instinto.

- Tipo?

- Porra, assim de supetão não me vem nenhum exemplo em mente?

- Supetão?

(...)

- De qualquer forma eu prefiro planejar e fazer as coisas com racionalidade.

- Esse é o problema da raça humana. Estão cada vez mais usando apenas a racionalidade e deixando as emoções se perderem. Muito em breve seremos um bando de zumbis sem sentimentos.

- Tudo bem, Seu Sentimental, vamos tomar mais uma?

- Viu? Pra que perguntar? Apenas peça mais uma.

Pediram outra cerveja e o garçom falou que estava fechando o bar.
O homem levantou-se, puxou uma arma e obrigou o garçom a trazer a cerveja.

- Esse é seu exemplo de sentimentalismo?

Esticou-se na cadeira, guardou a arma na cintura e acendeu um charuto.

- Ao se recusar a trazer a cerveja ele mexeu com meus sentimentos. Logo, eu reagi a isso. Sacou? Está tudo aqui, querida (tocou com o dedo o peito de sua mulher). Tá tudo aqui, ó.

Olharam-se e compartilharam um silêncio de cumplicidade.



Leia Mais
24 de julho de 2014
Ausência

Ausência




por Vera Rossi

Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”

A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.

Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.

“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.

“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          

A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.      



Vera Helena Rossi é escritora e pesquisadora. Mestre em Literatura e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, ministrou no Espaço Revista Cult o curso Jornalismo Literário: a dimensão estética da reportagem. Finalista do Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana e vencedora do concurso de contos avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Revista Celuzlose, Portal Cronópios, entre outros . É autora dos livros Mind the Gap (contos) e Telefone Sem Fio (romance) ambos pela Editora Patuá. Mantém o blog Palimpsesto:http://verahelena.blogspot.com.  

Leia Mais
17 de julho de 2014
O Elevador Social

O Elevador Social



por Jeovane Cazer

Oito horas de trabalho ordinário e quase três horas de engarrafamento depois, Pablo chegou ao prédio onde mora e chamou o elevador social.

Às vezes, o elevador estava vazio, e Pablo subia sozinho no silêncio até o 22º andar. Às vezes, tinha gente. Na maioria das vezes em que tinha gente, havia uma pessoa. Davam-se boa noite e, depois, cada um olhava pro seu canto. Pablo preferia assistir os números vermelhos dos andares mudarem no visor digital. Muitas vezes, as mulheres que entravam no elevador com ele também gostavam de olhar para o visor digital. Ele gostava da ideia de compartilhar com elas o olhar em direção ao visor. Era bom pensar que era um lance só entre ele e as mulheres.
Havia um espelho; era uma opção olhar para o espelho, mas quase sempre o outro tinha a mesma ideia de olhar para o espelho, e iam acabar olhando um para o outro pelo espelho – nem pensar. Também havia o truque de mexer no celular para não ter que olhar para canto algum nem para cara de ninguém.

 Quando havia duas pessoas dentro do elevador, geralmente era um casal. Pablo achava um saco quando começavam a conversar entre si como se ele não estivesse ali, sobre coisas comezinhas do dia a dia do casal, passando pela conta de luz que o outro não pagou, a gestos de amor – enfim sós, ele, o marido e a esposa entre quatro paredes.

E quando o casal tinha uma criança, ela encarava Pablo como se nunca tivesse visto outro ser humano além dos pais; ele se sentia como um ET ou, quando a criança ria da cara dele, um palhaço, o que para Pablo era estranho e irônico, porque ele sempre achou palhaços figuras tristes.

O pior era quando ele dizia ‘boa noite’ a alguém no elevador e a pessoa passava a contar toda a sua vida –a própria definição de um chato, pensava Pablo.

Dessa vez, o elevador abriu e havia apenas uma mulher lá dentro. Era morena, aparentava ter entre 27 e 30 anos, tinha cabelos lisos que batiam nos ombros, castanhos claros e repartidos ao meio, olhos grandes e amendoados, a boca não era pequena nem grande, os lábios grossos e sem batom – estavam um pouco ressecados nos cantos. Vestia uma camisa de abotoar branca de algodão, com o primeiro botão aberto deixando aparecer o início do colo queimado de sol, e uma saia longa preta com bordados que descia um palmo abaixo dos joelhos.

A mulher disse apenas o protocolar “boa noite” e ficou junto à porta, cabeça baixa, com uma sacola branca de tecido que segurava pela alça com as duas mãos, com esmalte preto, rente ao abdome. No braço esquerdo, havia um relógio analógico de pulso azul e um ornamento com fio de embira amarrado três vezes ao redor do braço com nó bem feito.

Quando a porta do elevador se fechou, Pablo notou que ela não apertara nenhum andar. Ele achou estranho, mas ficou quieto e abaixou a cabeça olhando para os pés da moça: ela calçava sandálias rasteiras de cor preta com tiras incrustadas de tachas metálicas em volta dos pés. Na lateral do pé, havia a tatuagem de um ramo de flor que subia em formas curvilíneas um pouco acima do calcanhar até encontrar o desenho de uma borboleta na vertical, como se estivesse pairando no ar, com asas de escamas internas em azul celeste e as externas em preto intercalado com áreas sem tinta.

Suspendeu os olhos e encontrou os olhos dela o espreitando. Então, com os olhos vidrados nele, a mulher se aproximou de Pablo, soltou a sacola no chão e o esbofeteou com a palma da mão bem aberta e estatelada na face esburacada de cicatrizes de espinhas e áspera de barba mal formada crescendo. Com o impacto, os óculos de armação retrô nerd de Pablo caíram no chão. Ele ficou atônito, sem reação. Em seguida, ela agarrou os cabelos ondulados, negros e oleosos de Pablo, puxando com toda força, enquanto ele se arqueava e gritava, paralisado pelas mãos femininas manufaturando a dor. Ele, que veio ao mundo pela dor, não segurou a estranha nem pediu que ela parasse. Pensou na agonia daqueles que arderam nas chamas da inquisição, e viu que a sua dor era fichinha perto disso – outro dia mesmo, experimentou a sensação de tocar, por acidente, a ponta do dedo numa panela ardente no fogão, e com certeza não suportaria aquele contato com o calor por mais de 1 segundo.

Pensou no ritual de flagelo da crucificação dos romanos, e achou que sua aflição era nada em comparação. Na verdade, já agradecia àquela mulher por não ser queimado na fogueira nem estar pregado na cruz. Pablo apenas sentia a dor como algo que devesse experimentar, como uma revelação ou rito de passagem.

Aquilo durou uns doze andares, até que ela largou o cabelo dele e o beijou. Forçou a boca contra a dele, abrindo espaço com a língua entre os lábios de Pablo, que cedeu finalmente ao toque úmido e quente da língua da desconhecida. O gosto agridoce da boca da estranha – mais cedo, ela tinha comido chocolates e fumado cigarros – se misturou ao cheiro extenuante de hidratante corporal que exalava da pele da mulher. Sugavam a boca um do outro com pressa e perigo.

Em seguida, ela afundou o nariz no pescoço dele, respirando o ar que pairava no vão entre suas narinas e os poros do pescoço branco e úmido de Pablo, passando os braços ao redor do abdômen dele e o apertando contra o corpo dela bem forte. Ela emitia um gemido de cólera enquanto enfiava as unhas na carne de Pablo sob a blusa dele, como se quisesse arrancar suas costelas, uma resposta ou mesmo sangue. Pablo fazia um som surdo de dor e pensava naqueles que tombaram com grandeza nos campos de batalha sangrenta de Montese, na II Guerra Mundial, e no modo como eles enfrentaram a dor e a morte numa guerra que eles não provocaram. Contudo, entre a guerra e o tédio, alguns preferem à primeira. Naquele momento, a coragem e a resignação de Pablo eram a mesma.

Ele olhou os números dos andares passando: 19, 20, 21. 
Enfim, o visor mostrava o número 22 – o último andar.
A porta se abriu.

Pablo olhou para baixo e viu os pés de tamanho 37 dela numa sandália rasteira preta com tiras incrustadas de tachas metálicas. Tinham o formato romano, em que o primeiro e segundo dedos têm o mesmo comprimento e, a partir do terceiro prodactilo, o tamanho dos dedos vai diminuindo progressiva e harmoniosamente. As unhas estavam pintadas com esmalte Hits preto. Pablo levantou os olhos para a mulher, que estava junto à porta do elevador de cabeça baixa, com uma sacola de tecido branca que segurava pela alça com as duas mãos rente ao abdômen. Pablo olhou para o visor digital que mostrava P em vermelho escuro. Baixou os olhos no painel de números dos andares e viu que as bordas dos botões 8 e 22 estavam fluorescentes em vermelho. A porta se fechou e subiram no silêncio. Pablo checou o celular, mesmo sem rede, com medo de encarar a estranha... 


Jeovane Cazer - Reside em Brasília, tradutor - graduado em Letras-Tradução pela Universidade de Brasília.
Gosta de literatura e de poesia pós-moderna. 
Fala pouco, por isso escreve muito. 
Mantém um blog com seus textos: http://www.recuo.wordpress.com


Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger