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26 de novembro de 2013

A culpa é de Dostoiévski





Eu não sabia de nada. Pensava que os números é que moviam os mundos e que tudo podia ser explicado através de fórmulas, através de equações. Enganei-me. Havia um Estudo em vermelho no meio do caminho. E esse caminho, maltrapilho, mal traçado foi se modificando, transformando-se em ouro, como aquele caminho de tijolos amarelos, totalmente preenchido e que nos leva a algum lugar ou lugar nenhum. Afundei-me.

Foi na leitura, tardia, se é que existe momento para se iniciar a ler, do livro de Conan Doyle que me vi, pela primeira vez, como homem. O ressoar das letras, que até então eram esquecidas, passou a ter vez em meus dias. Fui, aos poucos, deixando de lado os livros programáticos que nos permitem deixar de viver e entrando na imaginação infinita que possuímos ao ler.

De repente, estava a ler os cárceres de Graciliano Ramos, que me tomaram tempo e me fizeram nausear sobre o sofá. Reclamei? Nunca! O tempo nunca foi perdido, ainda mais por ter lido Carpeaux, que dizia que o escritor alagoano possuía, em sua escrita, traços dostoievskianos. Perguntei: Quem? Corri. E entre as prateleiras achei traduções feitas por tabela de Rachel de Queiroz que, mesmo mal falada hoje por críticos, me levou a outra dimensão de mim mesmo.

Foi lendo os textos do escritor russo que me pus a questionar, a perceber que a programação em que eu vivia poderia ser desautomatizada. E assim o fiz. Desliguei o botão, eu mesmo. E só agora me dou conta do quanto devo a Dostoiévski e a Conan Doyle e a Graciliano Ramos e a muitos outros escritores que impuseram a mim o Mundo.

Toda uma dimensão de veredas me foi posta. O olhar que eu possuía tomou foco e pus a ver a seca e os mares que existia em mim. Daí em diante, os livros foram lidos com mais vontade do que comida. Enquanto a metade dos dias eram gastos em leituras a outra metade aguardava ansiosamente para viver.

E após ler algumas obras que marcaram a parca vida que me tem, iniciei o processo de manter as impressões comigo, mas logo me vi na necessidade de vertê-las para o papel. Não podia manter comigo os diálogos que imaginava com leitores imaginativos. Escrevi. Inventei de criar baús internéticos que pudessem guardar o que eu sentia.

Hoje, o que escrevo, não na tentativa de ser crítico por profissão, pois o que mantenho comigo são impressões de minhas leituras, se deve a Dostoiévski. Sem ele, fundamentalmente, o mundo para mim não existiria, seria eu apenas um programa compilado pelo sistema e teria me perdido entre os mais uns que andam sobre a calçada em busca de cumprir horários; e por isso achei um culpado pela minha desautomatização: a culpa é de Dostoiévski.
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