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28 de abril de 2014

Escritores defuntos e seus restos




Menos de uma semana após a morte de Gabriel García Márquez, a notícia: o escritor deixou um romance inédito. Leitores entraram em polvorosa, bem como o mercado editorial. Mas não tão rápido: no desdobramento, os detalhes. Jornalistas dizendo que já sabiam. Amigos dizendo que não foi apenas este romance, mas outros vários textos. A família “decidindo” se vai permitir a publicação ou não. No meio de tudo isso, o detalhe mais importante: todos os textos deixados pelo autor estão inacabados. O quão inacabados, o quão perto de um fim, de uma conclusão, não se sabe.

Ainda.

A história da literatura mundial está repleta de casos de escritores que, após baterem as botas, deixaram vários textos sem final pelo caminho. Escritores como Albert Camus, John Steinbeck, Jack London, Edgar Allan Poe e tantos outros, já tiveram livros não terminados retirados do limbo e levados ao alcance do público. Quando isso ocorre, geralmente abre-se uma discussão em torno da validade da publicação de tais obras – ou mesmo se poderiam ser consideradas como tal, uma vez que ficaram inconclusas.

Não custa lembrar que o caso mais notório envolvendo um nome de peso, antes deste, foi quando da morte de José Saramago. Poucas semanas após seu falecimento, surgiu na mídia a história de que ele teria deixado “algumas páginas de um novo romance” e “muitas cartas e outros textos”, que em seu devido tempo provavelmente se tornarão livros. Sobre isso, a própria viúva, Pilar del Rio, saiu-se com um “vamos ver”, quando questionada sobre a possibilidade dessas cartas e outros textos serem publicados. Sem contar com Claraboia, romance da juventude que havia sido publicado uma única vez em vida, quando o autor ainda era um jovem adulto. Posteriormente, o autor revisou a obra e disse que só seria publicado mediante a vontade de sua esposa, que para a felicidade dos leitores, autorizou e acabou saindo um ano depois.

Em seguida, foi divulgado que Saramago tinha por hábito não começar a escrever um novo romance até decidir-se pelo título. Daí a demora em começar a escrever o romance posterior a Caim. De qualquer forma, soube-se que o livro se chamaria (ou se chamará, já que será editado, em Portugal, ainda este ano) Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.

Não resta dúvida de que este romance Saramago iria publicar ao concluir. Mas será que ele gostaria de ver, impressas em livro, as trinta e poucas páginas que deixou deste que ia em andamento quando a Impiedosa o pegou? Não temos como exercer futurologia, mas eu me arrisco a dizer que sim, até pela natureza ligeiramente vaidosa do autor – que gostava de parecer humilde socialmente, mas a língua o traía, de vez em quando. Vamos ver se as cartas e outros textos sairão. E qual o valor disso, uma vez que, novamente, entramos na questão: se era pra ser editado, por que ele não o fez em vida?

O caso mais notório dentre todos talvez seja o de Franz Kafka. Depois de uma curta vida de saúde muito frágil, Kafka deixou seu melhor amigo, Max Brod, com todos os seus manuscritos, publicados e inéditos, e o seguinte pedido, quase uma ordem: “Queridíssimo Max. Meu último pedido: Tudo que eu deixo para trás... na forma de diários, manuscritos, cartas (minhas e dos outros para mim), rascunhos e o que mais houver, deve ser queimado sem ser lido”. Aí fica aquela pergunta cretina, mas válida: se era pra ser queimado de uma vez por todas, por que ele mesmo não o fez? Ao que se sabe, Kafka morreu de inanição. A tuberculose o pegou de tal forma, que em dado momento, ele não conseguia mais se alimentar, e como não existia ainda a alimentação por sonda, ele acabou por morrer, de fome, em consequência da doença. Em outras palavras: ele teve tempo de fazê-lo, ele pôde fazê-lo. Possivelmente, em algum nível do seu inconsciente, ele tinha dúvidas sobre seu real desejo.

Aliás, neste momento, esta pergunta também vale para o que Gabriel García Márquez deixou. Se não queria ver publicado, porque ele mesmo não destruiu? Até eu, que não sou ninguém, jogo textos fora. Por que ele não o faria?

A resposta, pra mim, não pode ser outra: porque ele sabia do seu valor, lógico. Sabe-se que Gabo parou de escrever por volta do final de 2006, quando reuniu uns amigos para um jantar e anunciou, durante a refeição, que a partir dali não escreveria mais uma única linha. Portanto, nesta época, estes textos inacabados já existiam e ele ainda tinha o domínio sobre si mesmo, antes de entrar nessa espiral descendente por conta da senilidade. Este romance, Em agosto nos vemos, começou a ser escrito em 1999. Gabo chegou a ler o primeiro capítulo em público, inclusive.

Por que não jogou fora, se não conseguia terminá-lo nem tinha a intenção de fazê-lo? Não preciso me repetir, creio. Sendo assim, publique-se! Ou não?

Logo que a notícia de manuscritos inéditos de José Saramago veio a público, começaram a perguntar à viúva, Pilar del Rio, quando seriam lançados. Ela dava respostas evasivas, ou não respondia, e quatro anos depois, ainda paira certo mistério.

Se esse tipo de atitude não é para valorizar o produto – e a escolha da palavra aqui é tristemente intencional – então, é porque eu não nasci ontem e esse mundo me tornou maledicente demais. Mas eu duvido que não seja uma forma de valorizar, de querer fazer um leilão com os despojos do morto.

Os livros de José Saramago acabam de mudar de editora em Portugal. A Fundação Saramago disse que “seis casas editorias” procuraram os herdeiros para negociar a obra do autor, depois que foi anunciado que Saramago sairia do Editorial Caminho, onde esteve por trinta anos. Também afirmaram que a própria Fundação cogitou publicá-lo. Mas no final, decidiram-se pela editora Porto. Ótimo. Mas que ninguém ache que não houve cifras, e altas. Ótimo de novo, o autor merece! Então, qual o problema?

Nenhum. A narrativa acima apenas serve para ilustrar a questão da valorização do autor num mercado cada vez mais competitivo e atento às mídias modernas. A necessidade de criar notícia e impacto parece cada dia mais premente.

E como não querer gerar curiosidade e ânsia em seus leitores? Afinal, não são estes que comemoram quando se descobre algo inédito no baú de algum escritor defunto, e não são estes que comprarão seus restos?

Ora, isso tudo é tão-somente uma jogada de marketing, e sobre isso não me restam dúvidas.

Naturalmente, isso não é novidade no mundo das letras. Encarnação, livro que José de Alencar escrevia quando morreu, em 1877, só foi publicado em 1893, depois de terminado por seu filho. O que se passou nesse período, e os verdadeiros motivos do filho neste ínterim, jamais saberemos ao certo.

Da mesma forma, pouco sabemos sobre os meandros por onde correm as águas no tocante ao interesse das editoras, das questões familiares, equilibrado com o interesse real do público. Mas que esse tipo de notícia é também uma oportunidade pra fazer da questão um espetáculo, sem dúvida.

Daí, outra pergunta emerge: vale a pena chafurdar o espólio dos escritores? Vale a pena trazer à lume uma obra esboçada, não revisada, não concluída?

Pelo aspecto financeiro, certamente, do contrário as famílias sequer se interessariam. Pelo aspecto da curiosidade dos leitores, também. Algumas vezes, para que aquela obra específica seja comparada com o todo maior da obra, também faz valer a pena este ressuscitar.

O problema é esse travo que fica na boca, essa sensação de que tem alguma coisa por trás. Seria vaidade da família? Uma atitude caça-níquel? Ou algo que sim, tem enorme valor e merece ser levado para as livrarias, comercializado para ser lido, discutido, estudado?

Pelo sim, pelo não, talvez o que nos reste seja mesmo analisar caso a caso. Ou então resignar-nos com a amarga sensação de que estamos sendo feitos de idiotas.




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2 comentários:

  1. Questão muito delicada.
    Colocando-me no lugar do autor-morto, eu ficaria, do além-túmulo, muito incomodado em ter uma obra minha inacabada sendo publicada. Isso por questões obsessivas minhas.
    Colocando-me no lugar dos leitores, especialmente daqueles que são admiradores fiéis do autor, eu teria imenso interesse e curiosidade em ler qualquer coisa literária escrita por ele. Mesmo inacabado, o texto instiga a imaginação do leitor a fantasiar como teria sido o desenvolvimento e o desfecho da trama.
    Colocando-me no lugar dos familiares, teria pleno interesse em tentar perpetuar o nome do autor, após a morte, também através de textos inéditos. E, evidentemente, também haveria motivações financeiras envolvidas nisso.

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    1. É, é tudo muito complexo. O que move o leitor, muitas vezes, nesses casos é pura curiosidade. No âmbito familiar, digo por descendentes de grandes poetas, o que se houve falar é que estão interessados no dinheiro, a memória viria em segundo lugar. É difícil acreditar, mas é assim que é, em alguns casos. Quanto a editora? Sinceramente, acho que tem de tudo um pouco, dinheiro, fetiche, respeito, desrespeito, curiosidade. Mas que importa, não é? Já estão todos mortos, devem pensar alguns.

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