Escritores defuntos e seus restos
Menos de uma semana após a morte de
Gabriel García Márquez, a notícia: o escritor deixou um romance inédito.
Leitores entraram em polvorosa, bem como o mercado editorial. Mas não tão
rápido: no desdobramento, os detalhes. Jornalistas dizendo que já sabiam.
Amigos dizendo que não foi apenas este romance, mas outros vários textos. A
família “decidindo” se vai permitir a publicação ou não. No meio de tudo isso,
o detalhe mais importante: todos os textos deixados pelo autor estão
inacabados. O quão inacabados, o quão perto de um fim, de uma conclusão, não se
sabe.
Ainda.
A história da literatura mundial está
repleta de casos de escritores que, após baterem as botas, deixaram vários
textos sem final pelo caminho. Escritores como Albert Camus, John Steinbeck,
Jack London, Edgar Allan Poe e tantos outros, já tiveram livros não terminados
retirados do limbo e levados ao alcance do público. Quando isso ocorre,
geralmente abre-se uma discussão em torno da validade da publicação de tais
obras – ou mesmo se poderiam ser consideradas como tal, uma vez que ficaram
inconclusas.
Não custa lembrar que o caso mais notório
envolvendo um nome de peso, antes deste, foi quando da morte de José Saramago. Poucas
semanas após seu falecimento, surgiu na mídia a história de que ele teria
deixado “algumas páginas de um novo romance” e “muitas cartas e outros textos”,
que em seu devido tempo provavelmente se tornarão livros. Sobre isso, a própria
viúva, Pilar del Rio, saiu-se com um “vamos ver”, quando questionada sobre a
possibilidade dessas cartas e outros textos serem publicados. Sem contar com Claraboia, romance da juventude que
havia sido publicado uma única vez em vida, quando o autor ainda era um jovem
adulto. Posteriormente, o autor revisou a obra e disse que só seria publicado
mediante a vontade de sua esposa, que para a felicidade dos leitores, autorizou
e acabou saindo um ano depois.
Em seguida, foi divulgado que Saramago
tinha por hábito não começar a escrever um novo romance até decidir-se pelo
título. Daí a demora em começar a escrever o romance posterior a Caim. De qualquer forma, soube-se que o
livro se chamaria (ou se chamará, já que será editado, em Portugal, ainda este
ano) Alabardas, alabardas, espingardas,
espingardas.
Não resta dúvida de que este romance
Saramago iria publicar ao concluir. Mas será que ele gostaria de ver, impressas
em livro, as trinta e poucas páginas que deixou deste que ia em andamento
quando a Impiedosa o pegou? Não temos como exercer futurologia, mas eu me arrisco
a dizer que sim, até pela natureza ligeiramente vaidosa do autor – que gostava
de parecer humilde socialmente, mas a língua o traía, de vez em quando. Vamos ver se
as cartas e outros textos sairão. E qual o valor disso, uma vez que, novamente,
entramos na questão: se era pra ser editado, por que ele não o fez em vida?
O caso mais notório dentre todos talvez
seja o de Franz Kafka. Depois de uma curta vida de saúde muito frágil, Kafka
deixou seu melhor amigo, Max Brod, com todos os seus manuscritos, publicados e
inéditos, e o seguinte pedido, quase uma ordem: “Queridíssimo Max. Meu último
pedido: Tudo que eu deixo para trás... na forma de diários, manuscritos, cartas
(minhas e dos outros para mim), rascunhos e o que mais houver, deve ser
queimado sem ser lido”. Aí fica aquela pergunta cretina, mas válida: se era pra
ser queimado de uma vez por todas, por que ele mesmo não o fez? Ao que se sabe,
Kafka morreu de inanição. A tuberculose o pegou de tal forma, que em dado
momento, ele não conseguia mais se alimentar, e como não existia ainda a
alimentação por sonda, ele acabou por morrer, de fome, em consequência da
doença. Em outras palavras: ele teve tempo de fazê-lo, ele pôde fazê-lo. Possivelmente,
em algum nível do seu inconsciente, ele tinha dúvidas sobre seu real desejo.
Aliás, neste momento, esta pergunta
também vale para o que Gabriel García Márquez deixou. Se não queria ver
publicado, porque ele mesmo não destruiu? Até eu, que não sou ninguém, jogo
textos fora. Por que ele não o faria?
A resposta, pra mim, não pode ser outra:
porque ele sabia do seu valor, lógico. Sabe-se que Gabo parou de escrever por
volta do final de 2006, quando reuniu uns amigos para um jantar e anunciou,
durante a refeição, que a partir dali não escreveria mais uma única linha.
Portanto, nesta época, estes textos inacabados já existiam e ele ainda tinha o
domínio sobre si mesmo, antes de entrar nessa espiral descendente por conta da
senilidade. Este romance, Em agosto nos
vemos, começou a ser escrito em 1999. Gabo chegou a ler o primeiro capítulo
em público, inclusive.
Por que não jogou fora, se não conseguia
terminá-lo nem tinha a intenção de fazê-lo? Não preciso me repetir, creio.
Sendo assim, publique-se! Ou não?
Logo que a notícia de manuscritos inéditos
de José Saramago veio a público, começaram a perguntar à viúva, Pilar del Rio,
quando seriam lançados. Ela dava respostas evasivas, ou não respondia, e quatro
anos depois, ainda paira certo mistério.
Se esse tipo de atitude não é para
valorizar o produto – e a escolha da palavra aqui é tristemente intencional –
então, é porque eu não nasci ontem e esse mundo me tornou maledicente demais.
Mas eu duvido que não seja uma forma de valorizar, de querer fazer um leilão
com os despojos do morto.
Os livros de José Saramago acabam de
mudar de editora em Portugal. A Fundação
Saramago disse que “seis casas editorias” procuraram os herdeiros para negociar
a obra do autor, depois que foi anunciado que Saramago sairia do Editorial
Caminho, onde esteve por trinta anos. Também afirmaram que a própria Fundação
cogitou publicá-lo. Mas no final, decidiram-se pela editora Porto. Ótimo. Mas
que ninguém ache que não houve cifras, e altas. Ótimo de novo, o autor merece!
Então, qual o problema?
Nenhum. A narrativa acima apenas serve
para ilustrar a questão da valorização do autor num mercado cada vez mais
competitivo e atento às mídias modernas. A necessidade de criar notícia e
impacto parece cada dia mais premente.
E como não querer gerar curiosidade e
ânsia em seus leitores? Afinal, não são estes que comemoram quando se descobre
algo inédito no baú de algum escritor defunto, e não são estes que comprarão
seus restos?
Ora, isso tudo é tão-somente uma jogada
de marketing, e sobre isso não me restam dúvidas.
Naturalmente, isso não é novidade no
mundo das letras. Encarnação, livro
que José de Alencar escrevia quando morreu, em 1877, só foi publicado em 1893,
depois de terminado por seu filho. O que se passou nesse período, e os
verdadeiros motivos do filho neste ínterim, jamais saberemos ao certo.
Da mesma forma, pouco sabemos sobre os
meandros por onde correm as águas no tocante ao interesse das editoras, das
questões familiares, equilibrado com o interesse real do público. Mas que esse
tipo de notícia é também uma oportunidade pra fazer da questão um espetáculo,
sem dúvida.
Daí, outra pergunta emerge: vale a pena
chafurdar o espólio dos escritores? Vale a pena trazer à lume uma obra
esboçada, não revisada, não concluída?
Pelo aspecto financeiro, certamente, do
contrário as famílias sequer se interessariam. Pelo aspecto da curiosidade dos
leitores, também. Algumas vezes, para que aquela obra específica seja comparada
com o todo maior da obra, também faz valer a pena este ressuscitar.
O problema é esse travo que fica na boca,
essa sensação de que tem alguma coisa por trás. Seria vaidade da família? Uma
atitude caça-níquel? Ou algo que sim, tem enorme valor e merece ser levado para
as livrarias, comercializado para ser lido, discutido, estudado?
Pelo sim, pelo não, talvez o que nos
reste seja mesmo analisar caso a caso. Ou então resignar-nos com a amarga
sensação de que estamos sendo feitos de idiotas.

