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2 de agosto de 2014
NICOMEDES, O CARECA - OU COMO UMA ESPINHA E UM GATO RESOLVEM OS PROBLEMAS DE UM HOMEM CALVO

NICOMEDES, O CARECA - OU COMO UMA ESPINHA E UM GATO RESOLVEM OS PROBLEMAS DE UM HOMEM CALVO



O que pode um careca fazer para substituir o cabelo? Atenção: não vale fazer implantes! Um careca pode usar uma cabeleira, pode usar serpentinas, pode colocar uma meada de lã, pode usar esparguete. Pode? Pode mesmo? Não, não pode. Não pode, mesmo que seja muito vaidoso, que adore carnaval, que goste do quentinho da lã e que se perca de amores por um bom prato de esparguete.

Vamos lá saber a razão. Nicomedes, o careca é a história de um homem que, não lidando bem com a sua calvície, tenta encontrar soluções para o que considera um problema. Sempre que Nicomedes escolhe um adereço para cobrir a careca, algo de inesperado lhe surge na cabeça. Tudo começou com a sua primeira escolha, uma cabeleira. Logo lhe surgiu um cabeleireiro. Isso aborrece profundamente Nicomedes. Por isso, decide nada colocar.

Ao longo de 44 páginas, numa sucessão de eventos que divertem o leitor (e por leitor entenda-se, aqui, aquele que interpreta a ilustração e lê o texto e aquele que interpreta a ilustração e ouve o texto), os autores, Pinto e Chinto, ensinam com maestria como a persistência é um valor que resulta em benefício para quem a preserva.

A dupla de galegos não surpreende. A qualidade já é norma nas obras de sua autoria. Destinado a um público infantil, ou seja, para ser lido por miúdos e graúdos, Nicomedes, o careca é mais uma boa edição da Kalandraka, editora grande no mundo da edição para pequenos.


Apesar de não assentar numa linha narrativa contínua, esta história, essencialmente construída sobre quadros independentes, ganha consistência pelas surpresas e pela imaginação de Nicomedes que, página a página, prendem o leitor.

Esperem, esperem! O nosso herói tomou uma decisão: «Nicomedes decidiu não pôr nada na cabeça, porque lhe aparecia lá sempre alguém em cima.» A ideia até foi boa, «mas um piloto confundiu a cabeça dele com uma pista de aterragem.»

Em Nicomedes, o careca, a coesão textual é assegurada por dois conjuntos de anáforas, recurso muito utilizado nas narrativas para a infância. Os problemas começam por «e apareceu-lhe», as soluções por «então». «Então pôs um pedaço de relva. E apareceu-lhe um futebolista em cima da cabeça. Então pôs serpentinas. E apareceu-lhe um casal que gostava muito de festas.»
Num momento de clímax, Nicomedes «então teve uma ideia» que «foi pôr uma espinha de sardinha em cima da cabeça». O pobre do Nicomedes colocou a espinha para afastar todo o tipo de pessoas. E conseguiu! Este foi o ponto de viragem que originou um desenlace feliz. Mas … e o gato? O gato saltou para a cabeça de Nicomedes que, inesperadamente, se viu com uma linda cabeleira. E mais: «às vezes, com a cauda pendurada atrás, Nicomedes ficava com um ar muito moderno, como se tivesse um rabo-de-cavalo.»
David Pintor e Carlos López, isto é, Pinto e Chinto, têm mais de 20 obras dedicadas à literatura infantil e são, atualmente, dos mais premiados e produtivos autores galegos.

Nicomedes, o careca foi lançado em junho de 2013. Com capa dura e feito com papel proveniente de fontes responsáveis, com a respetiva certificação pelo FSC (Forest Stewardship Council), é um livro para ser lido e sentido. As ilustrações cuidadas e repletas de humor, e um herói que não desiste perante as adversidades, também contribuem para o enriquecimento de leitores e ouvintes.



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17 de março de 2014
Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno

Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno



Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. […]
Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.


O Malhadinhas é uma obra de referência da literatura em língua portuguesa. E aconselha-se a todos os que gostam de ler, mesmo aos que gostam de se vangloriar das suas leituras alternativas, conceito vago aqui atribuído aos textos que acompanham bem um cabelo despenteado com cuidado, umas calças rotas com desvelo ou a ligação a um coletivo (sim, coletivo) de produções orgulhosamente pouco assistidas. O Malhadinhas não é uma obra alternativa. Faz parte das correntes principais do bem escrever, do bem ler e do bem fazer literatura.

A narrativa acompanha a vida de um homem, António Malhadas, desde os tempos em que quer casar até à sua morte. Valores como os do amor, da lealdade e da fidelidade são abordados por António Malhadas, narrador-protagonista, que conduz o leitor pelos caminhos difíceis de montes, vales e conceitos que dão sal e sabor à vida humana. Para o leitor, no entanto, fica a parte da análise mais difícil e profunda. Afinal, é sempre o leitor que coloca o sal, a malagueta, a canela e o açúcar na confeção artística do escritor. Também por isto se pode medir a qualidade da escrita e da obra literária. Diga o leitor, por gentileza, que o que foi acabado de ser escrito não é verdade. Coloque todo o sal e toda a malagueta, alguma canela, um pouquinho de açúcar. Se, para este artigo, houver sal e malagueta, açúcar e canela, o que não é certo. Certo é que para esta obra de Aquilino Ribeiro tão conhecidos ingredientes existem e deverão ser usados. Com toda a certeza.

Aquilino Ribeiro não foge de expressões regionais para elevar a língua portuguesa a um nível de qualidade apenas ao alcance dos que escrevem muito bem. António Malhadas, «provido de lábia muito pitoresca», inicia a narração com um exemplar parágrafo do que acaba de ser constatado:

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra ─ eu cá nunca me avistei com ele ─ mas a verdade é que a neve vinha, com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

Depois da difícil tarefa de se casar, que envolveu fugas e ameaças de violência, António Malhadas viaja pelo norte de Portugal desenvolvendo a sua atividade de almocreve, enquanto se vai envolvendo em brigas e disputas, consequência do seu espírito conflituoso e do seu sentido de justiça.
O leitor de O Malhadinhas que conhece o obra de um outro Ribeiro, João Ubaldo, não deixará de se lembrar de Sargento Getúlio, do seu monólogo e de um comportamento que, podendo ser criticável, se guia por um código de honra e por um sentido de justiça próprio de quem tem a lealdade como princípio norteador da vida. A ação de António Malhadas e de Getúlio dos Santos Bezerra pode ser criticada? Pode e deve. Coloque nelas o leitor o sal e a malagueta que achar conveniente. Alguma canela. Talvez algum açúcar. Qualquer um dos autores deixou obra para ser saboreada. Com diferenças, com parecenças, com qualidade e com armas.
António Malhadas, entre muitas referências a armas de fogo e armas brancas, ensaia comparação com a espada mitológica que Rolando recebeu de Carlos Magno:

Que a minha faca era afiada e leveira … Se afiada a trazia muitas vezes tive pena de não ter à mão a catana de Durandarte. Há encontros na vida e pendências que um homem honrado não provoca nem espera, e que só se resolvem de pulso rijo e botando as unhas a uma arma. A faca, mesmo assim, nunca a saquei para homem cordo de génio e liso nas contas, nem para jagodes pobre do juízo ou com água chilra nas veias.

Esta viagem pela vida do «ti Malhadinhas», com a sua linguagem de cariz popular, é bem real. Tão real que chegou ao fim. A morte já a sentia António Malhadas quando, doente na cama, lamentou a recusa da mulher, Brízida, em lhe chegar a arma: «Nem da espingardinha me deixas despedir. Olha que a não levo para a tumba, alma de Barbazu!»
Se não foi desta que morreu, foi passado algum tempo. Não muito, mas o suficiente para se enfurecer com quem já o dava por morto e ele a sentir-se ainda «para lavar e durar». Mas uma tarde …

Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho do marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E ─ o justo juiz lhe perdoe as facadas que as não deu em nenhum santo ─ nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem para a outra do negro rio.
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6 de março de 2014
Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer

Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer


Acampado em torno da gigantesca mafumeira de Neerlândia, um batalhão revolucionário, composto em grande parte de adolescentes fugidos da escola, esperou durante três meses. Depois regressaram às suas casas pelos próprios meios e aí continuaram à espera. Quase sessenta anos depois, ainda o coronel esperava.

O coronel de Gabriel García Márquez ficou anos e anos à espera de uma carta que lhe traria notícias de uma pensão que nunca chegou, promessa de um governo que, entretanto, caiu. Mas o coronel esperava …

Enquanto isso, ia alimentando um galo, herança do filho falecido, que lhe haveria de render bom dinheiro em lutas. Mas o galo só comia. E o coronel alimentava …

Com uma promessa por cumprir e um galo que só comia, Ninguém Escreve ao Coronel percorre os dias de um coronel que «durante cinquenta e seis anos […] não fizera outra coisa, senão esperar.». A pensão fora prometida pela sua participação na «revolução», ao lado do mais tarde figura central, em Cem Anos de Solidão, Aureliano Buendía.

– Com quem falas – perguntou a mulher.
– Com o inglês disfarçado de tigre que apareceu no acampamento do coronel Aureliano Buendía – respondeu o coronel.

A narrativa começa em outubro, «uma das poucas coisas que chegavam», com o coronel a sentir que lhe nasciam «fungos e lírios venenosos nas tripas». E começa sem que fique dúvida alguma a respeito das dificuldades do coronel e da mulher, um ser a quem «as perturbações respiratórias obrigavam […] a perguntar afirmando»:

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha. Tirou a panela do fogão, despejou metade da água no chão de terra, e com uma faca raspou o interior da caixa para dentro da panela até se soltarem as últimas raspas de pó de café misturadas com ferrugem da lata.

 Um autor clássico como García Márquez não precisa que as suas histórias se identifiquem com os acontecimentos do presente. Elas sobrevivem só por si, em todos os tempos. Ninguém Escreve ao Coronel foi publicado pela primeira vez em 1961 e é, juntamente com toda a qualidade que o liberta da atualidade, um romance que poderia ser baseado nas notícias do jornal de hoje, o que não é motivo de alegria.



A história de Ninguém Escreve ao Coronel é simples, elegante, preocupante e, pelo que infelizmente se pode constatar, eterna. Os governantes gananciosos prometem. O povo sofrido e crente aguarda. O coronel estava na lista de espera para a atribuição da reforma mas a sua vez nunca mais chegava. A vida dele e da mulher era de miséria. O filho fora assassinado pela polícia por distribuir propaganda da oposição. O casal conseguiu algum dinheiro com a venda da máquina de costura de Agustín, o filho, que era alfaiate, e tinham esperança no galo, preparado para apostas e combates. O problema é que faltava mais de um mês para a luta.



Sem dinheiro, o coronel e a mulher discutem de que forma poderão resolver o problema. A mulher receia que o galo não ganhe a luta. O romance termina com a resposta aliviada do coronel:


– É um galo que não pode perder.

– Mas supõe que perde.

– Ainda faltam quarenta e cinco dias para começarmos a pensar nisso – replicou o coronel.

A mulher ficou desesperada.

E entretanto o que comemos – perguntou, e agarrou o coronel pelas bandas do casaco do pijama. Sacudiu-o com energia.

– Diz lá, o que vamos comer.

O coronel precisou de setenta e cinco anos – os setenta e cinco anos da sua vida, minuto a minuto – para chegar a este instante. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de responder:

– Merda!

Em Ninguém Escreve ao Coronel, de forma muito discreta, Gabriel García Márquez apresenta algum do realismo mágico que seria consagrado, alguns anos depois, em Cem Anos de Solidão. Em 1982, o colombiano receberia o Prémio Nobel da Literatura. Em 2009, García Marquez, sem dúvida um dos grandes da literatura universal, anuncia que não escreverá mais livros. 



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17 de dezembro de 2013
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”






Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.

Foi no dia 29 de maio que Ernst pensou em suicidar-se. Foi também nesse dia que Mylia resolveu sair de casa ainda de noite. No mesmo dia, Kaas foi assassinado, Busbeck usou os serviços de uma prostituta e Hinnerk foi morto.

Kaas é filho biológico de Ernst e Mylia que se conheceram no Hospício Georg Rosenberg. Antes disso, com dezoito anos, Mylia tinha sido levada ao médico pelos pais. O médico é Theodor Busbeck. Theodor desenvolve um estudo sobre o mal e o horror ao longo da história.

No capítulo IV, a que Gonçalo M. Tavares deu o nome de Theodor, Hanna, Mylia, no sub-capítulo 2, Mylia encontra-se pela primeira vez com o médico.

Com dezoito anos Mylia sabia já como humilhar os homens. Conhecia o intervalo existente entre a sedução e a repulsa e sabia manipular esse espaço: reduzindo-o, ampliando-o, fingindo que ele não existe para logo a seguir o exibir de modo ostensivo. Só se humilha quem se aproxima, sabia já por instinto Mylia, e preparava-se assim para exercer essa habilidade perversa  de puxar primeiro para depois empurrar – sobre aquele médico que avançava, logo nos primeiros segundos após a saída dos seus pais, para algo que Mylia receava e desejava: um interrogatório.
─ Sou esquizofrénica ─ disse ela, sem deixar que o médico Theodor Busbeck abrisse a boca. ─ Li nos livros. Sei bem o que sou. Sou esquizofrénica, louca. Vejo coisas que não existem e sou perigosa. Quer-me curar?

Menos de dois anos após este primeiro encontro, e com grande espanto de ambas as famílias, Theodor Busbeck e Mylia casavam-se.

Ao oitavo ano de casamento, porém, Theodor Busbeck decide internar Mylia «no piso dois do Hospício Georg Rosenberg, o mais conceituado da cidade». Foi lá que Mylia conheceu Ernst Spengler e foi lá que engravidou deste. Ainda casada, coube a Theodor Busbeck decidir o futuro de um filho que não era seu. Busbeck decide divorciar-se e perfilhar o bebé.

Narrativa densa sobre a condição humana e o poder do acaso, Jerusalém dirige o leitor por uma cidade de múltiplos nomes  talvez a razão para o autor não lhe chamar nome nenhum  onde não há vilões sem coração nem vítimas sem mácula.

A principal preocupação de Jerusalém não é apresentar pessoas, mas antes dissecar-lhes os sentimentos, as aparências, as reações, abrindo deste modo uma janela através da qual podem ser observadas e compreendidas. 

29 de maio. Hanna é a prostituta. Hinnerk conhece Busbeck quando este se encontrava com a prostituta, momentos antes de usar os seus serviços. Por isso, Hinnerk afasta-se. Dirige-se para a igreja. Por essa altura, já Kaas, o filho de Mylia e Ernst que Busbeck perfilhou, está morto numa ruela da cidade. Hinnerk encontrou Mylia e Ernst perto da igreja. Hinnerk Obst trazia uma pistola e isso excitava-o. Mylia está caída e Ernst pede-lhe ajuda porque sozinho não a consegue levantar. Hinnerk sentia-se agradado.

Aquela sensação de estar a ajudar alguém, por pouco significativa que fosse essa ajuda, parecia ter modificado algo no seu organismo: um desvio da excitação. Agradava-lhe aquela disposição para ser útil e agradava-lhe os olhares simples daquele casal.

Entretanto, começam os três a brincar com a arma. Quando Mylia a tem na mão, aponta-a à cabeça de Hinnerk. «E se eu disparar? ─ pergunta Mylia àquele homem que estranhamente a começa a atrair e a excitar. Dispare ─ diz Hinnerk, divertido ─ , dispare!»

A história está quase no fim. A frase seguinte é já em novo capítulo, breve e penúltimo de um enredo trágico e violento que está a terminar: «Mylia tem quarenta e oito anos e está fechada na cela de um hospital-prisão. Tem ainda alguns anos de pena para cumprir […]».

Após a prolepse, a ação regressa ao fatídico dia 29 de maio, no momento em que Mylia se dirige para a igreja. Alguém se encontra no seu interior.

A história termina assim:

O som de uma chave na fechadura, alguém abre ligeiramente a porta, muito pouco: ela vê uns olhos a espreitar na sua direção, com medo, cautelosos. Mylia sente que não suporta mais, sente-se a desmaiar, a mão direita tensa segura a arma. De dentro da igreja os olhos não a largam, mas ainda não abriram a porta. Mylia tem de falar para quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do corpo a voz mais firme:
─ Matei um homem ─ diz Mylia. ─ Deixam-me entrar?

Publicado pela primeira vez em 2004, Jerusalém recebeu os mais importantes prémios em língua portuguesa: Prémio Ler/Millenium BCP 2004, Prémio José Saramago 2005 e Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007.

José Saramago, aquando da entrega do prémio que leva o seu nome, disse a respeito da obra e do autor: «Jerusalém é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!»

29 de maio. Uma pergunta deve ser feita: quem matou o jovem Kaas?

29 de maio. Outra pergunta deverá ser feita: quem matou Hinnerk Obst?


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18 de novembro de 2013
História de liberdades e ansiedades, a que José Cardos Pires deu o nome de ‘O anjo ancorado’

História de liberdades e ansiedades, a que José Cardos Pires deu o nome de ‘O anjo ancorado’


«Num dia de abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» É com a referência ao mês e ao ano em que decorre a ação que José Cardoso Pires inicia aquilo a que chamou não «uma fábula social mas simplesmente uma fábula, no sentido em que se trata de uma narração de sucessos inventados para instruir ou divertir (Dic. Morais)».

Esta é uma daquelas obras em que as referências temporais não têm qualquer relevância. Se de outras já foi dito que passaram incólumes os tempos, salientando-se desta forma o seu caráter intemporal e a sua intensidade literária, desta se pode afirmar que as datas nada interessam, independentemente de qualquer análise qualitativa. Quando se diz que nada interessa, entenda-se que nada interessa até novembro de 2013. Um cachimbo que o condutor do automóvel trazia «nos dentes», pode fazer o leitor protestar esta verdade. Isto, se cuidar já não ser moda e preferir colocar outros fumos na boca de quem, atualmente, goza os prazeres de uma vida rica e ao sabor dos ventos e vontades do momento.

(«Que faz você amanhã?»
«Não sei. E você?»)

Para o rigor ser absoluto, há que acrescentar a esta singular lista de marcas possíveis de uma época, o esclarecimento de que determinado garoto não se espantou «grandemente de ver uma senhora de calças e a fumar». O Talbot Lago não entra na lista. Se era carro de luxo, assim continua a ser.

João e Guida conheceram-se em casa de amigos comuns. Chegam à praia de São Romão num Talbot Lago. Por esta altura, «tinham-se visto duas, três vezes, não mais». Recorrendo à analepse, recurso que também usa para descrever as origens de João, José Cardoso Pires introduz o leitor na casa de amigos onde se conheceram, na Parede, «uma vivenda apalaçada, estilo da burguesia republicana, lago no jardim e caramanchão, como as havia antigamente em Algés e ainda hoje há no Gerês e em Sintra, por exemplo.»


João vai fazer pesca submarina. Trouxe espingarda, barbatanas, faca, escafandro e garrafa de ar comprimido. Guida passa-lhe um óleo para o aquecer. Percorre o corpo do homem em diferentes velocidades, ao sabor de palavras e pensamentos. «A mão, adivinhava-se, tinha-se tornado pensativa.»

Entretanto, apareceu por ali o garoto que não se espantou «grandemente de ver uma senhora de calças e a fumar». Aproximou-se com cuidado. Não parara ali para incomodar.

O garoto parara ali, sim, mas por uma razão muito dele: porque trazia um recado importante. Esperto como era, lá resolveu que o melhor que tinha a fazer era pôr-se de largo e só se apresentar quando tudo estivesse em ordem. Calma, portanto.
Se bem o pensou melhor o fez. E quando veio ao pé dos viajantes estendia uma amostra de renda na palma da mão. Era o recado.
«Renda de Peniche. Manda a minha irmã…»
«Mas isso nem está acabado, pequeno.»
«Não demora. A minha irmã vai comprar linha e faz o que for preciso. Renda para lençóis, renda para almofadas… para tudo o que a senhora quiser. A minha irmã já trabalhou para fora.»
«Deixa, não vale a pena.»
«Compre lá, senhora.»


Depois de alguma insistência, o rapaz consegue algum dinheiro e regressa a casa para que a irmã acabe o trabalho. Durante a tarde, ainda há tempo para que um velho habitante da aldeia persiga um perdigoto, jovem pássaro, frágil, mas que o arrasta até um precipício. O velho evita a queda e ainda consegue apanhar a pequena ave. Já tinha petisco.

Guida paga ao velho para que o pássaro não seja morto. O velho acede ao pedido.

Quando decidem abandonar o local, o garoto ainda não tinha regressado com a renda. O casal não se preocupa. A preocupação está em casa de Ernestina que tenta terminar com rapidez o trabalho. Na taberna, para onde foi o velhote do perdigoto, fala-se do mero apanhado por João e do futuro.

«Se visses o mero que os diabos apanharam.»
«À linha?»
«Querias. Um mero daqueles apanhados à linha. Foi mas foi à espingarda. Por baixo de água.»
O outro abanou a cabeça. Pretendia dizer com isso: «Ah, para aí sim.»
«Agora», tornou-lhe o velho, «é moda pescar com essas artes.»

O taberneiro está mais interessado no futuro e na clientela. Sonha com eletricidade, telefonias «por causa dos relatos da bola», telefone. O velho não liga os benefícios à vinda de gente.

«Esses banhistas quando vêm para aqui é para estarem à vontade. Interessa-lhes lá o telefone ou a eletricidade ou todas essas coisas que eles têm em casa. Querem é sossego, entendes? Sossego e bons ares.»

Entretanto, o casal começa a descer. Em breve passará pela aldeia. Irão parar? Antes, porém, soltam o perdigoto. Liberdade para o passarinho. Se a vida fosse tão linear como as vontades tão claras quanto alienadas de Guida, não se encontrariam letreiros a informar que «hoje há passarinhos.» A fome não desapareceria, mas a informação da sua existência seria ofuscada pela consciência endinheirada que, repleta de uma urbanidade distraída, observa a pobreza com o mesmo nojo com que se observa a estupidez.

O dia e a história terminam de forma inesperada. O velho regressou ao pinhal e voltou a apanhar o perdigoto.

«Filho da mãe», disse Guida.
O companheiro lançou uma risada seca:
«Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.»

Nos últimos parágrafos do texto aparecem, para além do velho e do casal, o garoto da renda, sua irmã, sua mãe, o taberneiro que ansiava por grandes quantidades de banhistas, vizinhos e outras pessoas que apareceram.

Entraram de rompante na aldeia. A meio da rua saltou-lhes o garoto dessa tarde, a acenar com o embrulho da renda. Nem afrouxaram. Da janela, a Ernestina, e da porta, a mãe, ambas viram o pequeno espalmar-se por inteiro contra a parede para não ficar esmagado. De toda a parte correu gente a ampará-lo:
«Tu magoaste-te, menino?»
Mãe, irmã, vizinhas e tendeiro, não houve quem não ficasse atordoado, como se o automóvel, ao passar, lhes tivesse aberto o chão debaixo dos pés.
«Selvagens», murmurou o taberneiro, virando-se para o belo carro vermelho que ia longe, na estrada. «Selvagens», berrou logo a seguir, com toda a raiva que cabia dentro dele.
[…]
Dentro da casa, encostada ao rolo de bilros, Ernestina apertava a renda nos dedos. Chorava em silêncio.
No automóvel, a caminho de  Lisboa:
«Que faz você amanhã
«Não sei. E você?»



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21 de outubro de 2013
O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria

O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria


O Terceiro Homem
 é um filme dirigido por Carol Reed, com Orson Welles e Joseph Cotten nos principais papéis. Estreado em 1949, foi produzido por Alexander Korda.

Korda convidou o autor inglês Graham Greene para criar um argumento para um filme. O argumento foi criado, o escritor aceitou a colaboração de outros intervenientes na película, como a do diretor Carol Reed ou a do ator Orson Welles, e o filme foi um sucesso. O livro surge depois do filme. No prefácio da obra, o escritor inglês nascido em 1904 explica parte do processo criativo:

Suponho que a maior parte dos romancistas traz nas suas cabeças ou blocos de apontamentos as primeiras ideias para histórias que nunca chegam a ser escritas. Por vezes lembramo-nos delas passados muitos anos e pensamos com pesar que deveriam ter sido boas, num tempo agora morto. Há anos, nas costas de um sobrescrito, escrevi um parágrafo de abertura: “Despedira-me de Harry havia uma semana quando o seu caixão foi descido no solo gelado de fevereiro, e foi portanto com incredulidade que […]”

Quem estava incrédulo era Rollo Martins. Mas, para saber a razão dessa incredulidade, o leitor deste artigo deverá ler o livro, ou ver o filme! Se fizer ambos, descobrirá alguns pormenores que não coincidem. Mas personagens principais, história, espírito e mensagem são os mesmos.

O enredo desenvolve-se na Áustria, após a Segunda Guerra Mundial, numa «lúgubre e destruída cidade de Viena dividida em zonas pelas Quatro Potências: a zona russa, a britânica, a americana e a francesa».

Rollo Martins é um cidadão britânico que chega à capital austríaca a convite do seu amigo de longa data Harry Lime. Mas logo lhe anunciam a morte do antigo companheiro de escola, atropelado por um automóvel. Ainda a tempo do funeral, Rollo Martins despede-se de Lime com emoção e lágrimas. Depois de ouvir a história do acidente, Martins resolve iniciar uma investigação por conta própria. Não está convencido da veracidade da história que lhe contam e que, entre outros pormenores, implicam a presença de dois homens no local do atropelamento. E tem razão para as suas desconfianças. Cedo descobre que havia um terceiro homem.

Narrado por Calloway, um polícia da Scotland Yard a quem Martins diz que os polícias «são vigaristas ou estúpidos», O Terceiro Homem é um romance policial que não choca leitores habituais, nem desilude quem se inicia no prazer da leitura.

O romance é construído sobre uma linha de que muito pouco se afasta. Martins tenta a todo o custo descobrir quem é o terceiro homem presente no atropelamento e provar que em lugar de acidente há crime. Uma das poucas ocasiões em que o autor conduz Rollo Martins para outros ambientes, mas mesmo assim com um sequestro e muito suspense, resulta num momento verdadeiramente hilariante, quase que num intervalo para descontração, com uma cena de humor que, como muitas outras em diversas situações, explora o mal-entendido, a parecença, a confusão. É preciso que se diga que «a ocupação habitual de Rollo Martins era escrever westerns baratos, que assinava com o nome de Buck Dexter». A partir do apelido com que assina os seus livros, Dexter, Rollo Martins começa por assegurar uma semana de alojamento e comida. O seu interlocutor, Crabbin, pensa que se trata de Benjamim Dexter. Mais tarde, Rollo Martins é obrigado a comparecer numa conferência em que às questões colocadas responde com uma aparente arrogância, que mais não é do que a face visível da sua ignorância.

A primeira pergunta escapou a Martins, mas felizmente Crabbin respondeu satisfatoriamente. Uma mulher de chapéu castanho com um pedaço de pele à volta da garganta perguntou com interesse apaixonado:
 Posso perguntar a Mr. Dexter se ele está ocupado com outra obra?

 Oh, sim, sim …

 Posso saber o título?

 O Terceiro Homem  disse Martins, ganhando nova confiança por ter vencido aquele obstáculo.

 Mr. Dexter, pode dizer-nos qual foi o autor que mais o influenciou?

Martins, sem pensar, disse:
 Grey.  referia-se, claro, ao autor de Cavaleiros da Saga Vermelha, e ficou satisfeito por verificar que a sua resposta tinha provocado a satisfação geral, exceto para um velho austríaco, que perguntou:

 Grey. Qual Grey? Não conheço.

Martins sentia-se agora seguro e disse:
 Zane Grey… Não conheço outro.

A colónia inglesa riu à socapa e Crabbin correu em auxílio dos austríacos.
 Isto é uma brincadeira de Mr.Dexter. Ele referia-se ao poeta Gray […]

−  E chama-se Zane Grey?

 Essa foi a brincadeira de Mr. Dexter. Zane Grey escreveu aquilo que chamamos westerns […]

 E James Joyce, onde colocaria James Joyce, Mr. Dexter?

 Que quer dizer com «colocaria»? Não quero colocar ninguém em lugar nenhum  respondeu Martins. […] agora tinha a impressão injusta de que o estavam a gozar. Zane Grey era um dos seus heróis, e raios o levassem se ia aturar mais disparates.

 Quer dizer que o colocaria entre os grandes?

 Se querem saber nunca ouvi falar dele. Que é que ele escreveu?

Não se apercebeu de que estava a causar uma enorme impressão. Só um grande escritor poderia mostrar-se tão arrogante e original.

Depois de assinar os livros de Benjamim Dexter, Rollo Martins prossegue a sua saga na tentativa de encontrar os culpados pelo estranho acidente que teria vitimado o seu amigo Harry Lime.

Rollo Martins estava numa Viena que, por aqueles tempos, era uma cidade com algumas carências e propícia a traficantes. As negociatas proliferavam. Se algumas não interferiam na saúde da população, já outras eram mantidas por gente criminosa completamente indiferente a valores tão sagrados como a vida. Como consequência da sua investigação, Martins descobriu que o tráfico de penicilina trouxe os grandes especuladores criminosos que «viram ali muito dinheiro».


A guerra e a paz (se se pode chamar paz) tinham feito surgir um grande número de negócios escuros, mas nenhum tão obscuro e vil como este. Os traficantes do mercado negro de géneros alimentares, pelo menos, forneciam alimentos e o mesmo se aplicava a todos os outros traficantes que forneciam artigos a preços extravagantes. Mas o mercado negro da penicilina era um caso muito diferente. A penicilina na Áustria era fornecida só aos hospitais militares; nem os médicos civis, nem mesmo os hospitais civis, conseguiam obtê-la por meios legais. A princípio, esta traficância era inofensiva. A penicilina era roubada por militares e vendida a preços muito altos a médicos austríacos […]. Poder-se-ia dizer que esta era uma forma de distribuição, embora injusta, porque só beneficiava os doentes ricos, mas já a distribuição original também não era justa.

Numa segunda fase, surgiram os grandes especuladores e os ladrões passaram a estar sob a sua alçada.

A terceira parte começou quando os organizadores decidiram que os lucros não eram suficientes. Não seria sempre impossível conseguir legitimamente a penicilina; eles queriam dinheiro mais rapidamente e em maior quantidade enquanto isso era possível. Começaram a misturar a penicilina com água colorida, e, quando a penicilina era em pó, misturavam-na com pó ou areia. […]
E a utilização de areia numa ferida que requer penicilina, bem, não é lá muito saudável. Já muitos homens perderam pernas e braços dessa maneira  e também as vidas. Mas talvez o mais horrível seja visitar o hospital para crianças. Compraram alguma desta penicilina para usar contra a meningite. Algumas crianças morreram e outras enlouqueceram.

Rollo Martins estava agora mais embrenhado do que nunca nas suas pesquisas para desvendar o mistério. Tinha agora quase a certeza de que o desaparecimento de Harry Lime, que «ocupava uma posição importante numa organização de assistência social», estaria ligado ao tráfico de penicilina. E não se enganou. Martins veio a descobrir a surpreendente identidade do terceiro homem.

Pelo meio, a namorada de Harry Lime, Anna Schmidt, é levada pela Patrulha Internacional, numa cena rocambolesca que mistura agentes das quatro potências.

Subiram as escadas e o russo tentou abrir a porta de Anna. Estava bem trancada, mas ele abriu-a com o ombro, sem dar à ocupante oportunidade para a abrir. Anna estava na cama […].
Há um pouco de comédia nestas situações quando não se está envolvido. […] O russo recusou-se a sair do quarto enquanto Anna se vestia; o inglês recusou-se a ficar lá; o americano não quis deixar uma rapariga desprotegida com um soldado russo, e o francês, bem, o francês, penso que o francês achou tudo divertido. Conseguem imaginar a cena? O russo a cumprir o seu dever, observando constantemente a rapariga sem um olhar de interesse sexual; o americano, cavalheirescamente virado de costas, mas consciente […] de cada movimento; o francês a fumar o seu cigarro e a observar com ar divertidamente desprendido a rapariga que se vestia frente ao espelho do guarda-fato; e o inglês estava especado à entrada sem saber o que fazer a seguir.

Rollo Martins acaba por se encontrar com o tão esperado terceiro homem. O encontro tem lugar num «arruinado parque de diversões». O terceiro homem «soube gratificar a mulher encarregada da Roda, de maneira que ficassem com um carro só para eles». Lá em cima, o leitor de O Terceiro Homem verá o Danúbio e as desgraças de quem reduz seres humanos a pequenos pontos sem rosto.

O Terceiro Homem termina com Rollo Martins a caminhar lado a lado com Anna Schmidt, com uma última nota de humor, que recorda a confusão que o nome Dexter originou, e, na última frase, com um desabafo.

Acho que ele não trocou com ela uma única palavra: era como o fim de uma história, exceto que antes de se afastarem da minha vista a mão dela pousava no braço dele, que é como geralmente começa uma história.

Ele era um pobre observador de personalidades, mas tinha cá um jeito para westerns […]! E Crabbin? Oh, Crabbin ainda está a discutir com a embaixada britânica sobre as despesas de Dexter. Eles dizem que não podem autorizar pagamentos simultâneos em Estocolmo e Viena. Pobre Crabbin. E, pensando bem, pobres de nós!



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10 de junho de 2013
O dia dos prodígios, ou o realismo perfeito, de Lídia Jorge

O dia dos prodígios, ou o realismo perfeito, de Lídia Jorge



Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

Depois do preâmbulo, apresentado por um narrador que a revolução trouxe para ouvir as pessoas, é nomeada a primeira habitante da aldeia. Com «Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas», Lídia Jorge inicia um fio condutor a toda a história: em Vilamaninhos, as parecenças que iludem a realidade e trivialidades da vida de uma aldeia podem ser elevadas à condição de acontecimento invulgar, mágico. Vilamaninhos é uma pequena aldeia no sul de Portugal, mas poderia ser de qualquer outro país. A posição no planeta pouco interessa; apenas o ser pequena é condição importante.

Tal como em O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, o romance de Lídia Jorge apresenta alguns trechos paralelos. Ainda que tenha sido pedido às pessoas para que não falassem todas ao mesmo tempo. Fica, pois, claro que todas gostam de falar. A obra é, aliás, falada. A sua singular oralidade está assente numa construção textual não convencional.

A morte de uma cobra (ou a convicção de que estaria morta) é o mote para os intervenientes desfiarem as suas histórias, as suas opiniões, as suas discordâncias. Num ponto parecem estar de acordo: «A cobra fez duas roscas à volta da cana, saiu dela, e voando por cima dos nossos chapéus e dos nossos lenços, desapareceu no ar. Voou no ar. No ar como se fosse uma avezinha de pena.»

Jesuína Palha é das que mais gostam de contar a história, até porque foi ela quem tudo fez para matar a cobra. Mas nem sempre consegue a atenção dos outros habitantes que, por vezes, preferem combater o silêncio de outra maneira:

Quando Jesuína Palha acabou de falar, parecia ainda estar disposta a recomeçar. Via-se isso pelo cuspo dos lábios. Mas havia o som dos passos dos vizinhos que já voltavam as costas e desciam o lajedo da rampa. Como cascos de cavalo da guarda. Os rabos andando de lado a lado a enxotar o silêncio. E o freio desatado sob as trombas.

Sem nunca referir 25 de Abril de 1974, é a ele que Lídia Jorge dirige o leitor que conhece os acontecimentos dessa quinta-feira que acabou com o regime ditatorial em Portugal. No entanto, não é necessário saber que esta revolução foi feita com flores e sem tiros para perceber o sentido do relato que diferentes personagens vão fazendo. Esta revolução poderia ter sido feita em qualquer tempo e em qualquer lugar. Alguma crítica tem insistido em salientar como uma das características marcantes da obra a alienação de uma comunidade oprimida e inculta, consequência de um isolamento próprio da ditadura. Esta é uma análise descuidada. Alienadas são as suas pessoas individualmente, ou seja, o que O Dia dos Prodígios apresenta não é uma aldeia antropomórfica mas, antes, seres que tecem as suas vidas e a vida dos outros conforme as suas fragilidades como seres únicos.

Diferentes personagens desfilam na história ao ritmo das línguas viperinas dos vizinhos. De José Jorge Júnior que «contava oitenta e sete anos e vinha do outro século» se falava que a perna «já era de madeira, sem cheiro a seiva onde apetecesse picar». Da mulher deste, que «quando tentava erguer-se sobre a pá do seu assento, abanava a cabeça dizendo que não. Que não podia. Que mais doce.»
  

José Jorge Júnior vai contando como «Jorge» chegou até si e Esperancinha desfia os filhos que foi tendo, lembrando várias vezes o morto: «O morto veio entre o Duarte e o Simão. O morto.»
Enquanto isso, José Pássaro Volante é apresentado.

Depois José Pássaro Volante. O que tem três certezas. Sabe que a terra não é redonda, mas o horizonte um círculo abobadado de azul e cinza, conforme a hora do dia e o mês do ano. Que se desloca atrás de si e das bestas para onde quer que vá. Suba e desça o barrocal, penetre a serra, monte abaixo monte acima, pernoite nas pensões à beira da estrada. Durma nas abas das medronheiras. Que o círculo é sempre um círculo de terra e ar. Como o redondel dum copo virado, atrás do ser da pessoa. Por cima os astros, por baixo o pó e as pedras, e o mesmo redondo atrás, atrás, ele no meio. Ah prisioneiro. Quem uma vez não saiu de Vilamaninhos não conheceu nem conhecerá a realidade da terra.

A suposta visão universalista do mundo é, pois, reduzida à sua visão imediata, o que fica confirmado quando se verifica que a sua casa se localiza no centro de Vilamaninhos e « no centro da casa fica a mulher bordando» e no meio desta fica «a colcha de linho cru, adamascado», no centro da qual se situa «uma figura de escamas bordadas. E a língua».

O mundo de Pássaro Volante, que não é redondo, tem o seu centro no centro da colcha de linho cru. Mas no centro, centro, a figura de escamas bordadas tem uma língua de «sedas vermelhas, reluzentes de fogo». O mundo à volta do imaginário. O imaginário com língua. A cada momento apraz dizer que esta obra é universal e intemporal. O imaginário e o mundo reduzido a um pequeno símbolo persistem para além de revoluções e as pequenas aldeias são também os bairros, a rua, a universidade, o grupo de amigos. Também por isso, esta é uma história de pessoas mais do que de comunidade, embora só nesta aquelas se realizem. O apelo ao espírito comunitário é, contudo, feito.

Depois Manuel Gertrudes. Macário, que se estivesse acordado cantaria quadras à cobra. Matilde. João Martins. Carminha. José Maria, o cantoneiro, que preferia quadras de amor. Maria Rebôla, que respondeu às preferências do cantoneiro chamando-o de herege: «Você é um herege, porque não respeita os sinais. Quem julga que uma coisa destas pode acontecer por nada?».

A cobra. Lourenço previu que fossem todos passar «a noite ao relento sem pregar um olho». Manuel Gertrudes apelou à união de todos: «Agora mais do que nunca é preciso sermos amigos, amarmo-nos uns aos outros, fazer uma frente comum». O medo a comandar a decisão e até o bom senso. Tão religioso. Tão humano. Divinal.

Carminha Rosa e sua filha, Carminha Parda, viviam estigmatizadas pelo passado. A primeira pela relação que mantivera com o padre. A segunda, por ser filha dessa relação. A passagem onde se fala destas vidas e onde se diz que «dizem que disse» e que o «padre dum cabrão» enganou a moça é um monumento à condição espiritual de muita gente, principalmente dos que pecam por palavras. Tão religioso. Tão humano. Divinal.

Tem de se dizer que «a decrepitude de José Jorge Júnior foi publicamente reconhecida». O próprio o admitiu: «Nada é proibido contra a minha pessoa», disse, alvitrando tristes espetáculos enquanto fala num hipotético «mijar na cama e montar galinhas».

A cobra. Jesuína Palha sonha com a glória futura e imagina excursões para Faro e Portimão, com escala na terra e alguém a dizer que foi naquele local que ela própria matara um animal muito feroz e que «nem homem, nem mancebo conseguiu jamais fazer o que fez essa mulher valente». Já Branca apenas espera «acordar um dia sem sentir o peso do corpo, nem dos ossos, nem das miudezas do ventre». Macário deseja uma mulher que lhe chame «querido». Fala-se que «ainda ontem Pássaro procurava a mulher na cama, e ela vá de se fazer de morta».

Um homem que aparece na terra, e que ninguém conhece, não tem a importância da cobra que ganhou asas mas contribui para a vida mágica e imaginosa de Vilamaninhos. Será «algum emigrante vindo da Argentina pra vender a casa do pai». Todos os que souberam saíram à rua. O que desejaria este de Carminha, que «abre a porta a qualquer um»?

O romance de Lídia Jorge, tão recheado de silêncios, como de palavras soltas, frases ditas e passagens inesquecíveis, é profundamente marcante. Tão marcante que parece, ao mesmo tempo, poder abdicar de qualquer uma das suas frases, sem que de nenhuma destas se possa pensar que está ali por mera distração da escritora, ou qualquer outro acaso.

É o romance de Lídia Jorge, obrigatório para quem gosta de boa literatura, um exemplo claro do que se convencionou chamar de realismo mágico? A resposta pode ser um talvez. Talvez pressupõe sim e não. Talvez sim, talvez não. Mágica é a escrita da autora. O que O Dia dos Prodígios é, de certeza, é um exemplar de realismo puro e duro. Se as classificações não chocarem, que se atribua, então, magia ao realismo da autora.

O romance termina com os lamentos de Matilde e o apelo de Macário para que se ouça música:

E Matilde disse. Desde o ano passado que me partiram nesta venda cinco copos de três, três copos de quartilho e dez de meios. Só havi disso tudo, trinta e cinco mil réis. Mas quem deve, tem o nome escrito naquele papel da parede. E Macário disse. Oh gente. Ouçam aqui o dó.

Tão musical. Tão mágico. Tão perfeito.


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15 de abril de 2013
Domingo será a vez do teu moinho

Domingo será a vez do teu moinho






Nesse tempo, ou já muito antes, era considerado um tipo insociável. Fumava desalmadamente, macerando o cigarro de um canto para o outro da boca, num jeito nervoso nada fácil de imitar, roendo a todo o momento qualquer danação íntima que se traduzia nos modos como fazia crer às pessoas que a presença delas me era insuportável.

É assim, para que não restem dúvidas em relação à sua capacidade de relacionamento com os outros, que Jorge, o narrador, começa a contar um ano da sua vida. Não um ano como os outros. Este mereceu o privilégio da narração. Porque Jorge talvez tenha descoberto que a sua insociabilidade era apenas uma máscara que encobria as suas fragilidades. Ou porque encontrou alguém digno de narração, como prefere assumir:

Quem deveria ter escrito esta narrativa era Clarisse, porquanto é dela, e só dela, que iremos falar (o que direi de mim é, afinal, pretensioso e abusivo)  e então estou certo que o leitor sentiria logo um soco no peito, prenunciador de emocionantes expectativas, se ela o agredisse com um início assim: «Chamo-me Clarisse e vou morrer. Mas, entretanto, conheci um tipo […]».

Este tipo é Jorge, o narrador, médico, que, depois de ter conhecido Clarisse, se envergonha de algumas das suas atitudes e faz corresponder às suas «ondas de fastio, arrogância e aspereza» a palavra «exibicionismo». A aspereza, que era mantida com médicos, enfermeiros, doentes e até com o dirigente máximo da clínica, nem sempre era de má índole e muitas vezes denotava um forte sentido de justiça social:

Todo eu me sacudia num risinho secreto, mal aflorado no desdém que me afilava o queixo, se me constava que o chefe da clínica, um sujeito de contumélias tresandando a alfazema e frases adocicadas, soltava guinchos de porquinho-da-índia ao dizerem-lhe que eu me negara espetaculosamente a observar uma dama da alta roda que se julgara no direito de passar adiante da gente humilde das consultas  um rebanho paciente que se reunia como reses aturdidas à porta de um açougue.

Clarisse era uma doente em fase terminal. Jorge, o seu médico.
Quando Domingo à Tarde foi publicado pela primeira vez, em 1961, Fernando Namora era já um escritor experiente. Nascido em Condeixa-a-Nova, em 1919, e, tal como Jorge, médico, Namora foi trabalhar para Lisboa, em 1951. Escritor e personagem partilham não só a profissão como também a especialidade médica. Ambos dedicam-se aos trabalhos oncológicos que, muitas vezes, apenas mitigam a doença e prolongam a esperança de quem sofre.

«E é tempo de falar de Clarisse.» É com esta frase que Jorge declara o interesse em, finalmente, começar a narrar a história da sua doente especial, depois de considerações sobre o próprio e sobre os outros, principalmente sobre «uma rapariguinha insignificante chamada Lúcia». Lúcia é uma jovem médica, com o curso terminado recentemente, desvalorizada, inicialmente, por Jorge, convencido de que se tratava de mais uma no grupo de «rapazinhos presumidos», ali colocados através das relações sociais do chefe da clínica e que «vestiam a bata como os cadetes vestem a farda dos domingos: para conquistar dactilógrafas.» Lúcia era, no entanto, diferente          . E não só fica a trabalhar com Jorge, como lhe tenta abrir o coração empedernido. Mas é Clarisse quem melhor consegue afastar Jorge da sua rotina de solidão e indiferença.

Antes, porém, de começar a falar de Clarisse, Jorge lembra algumas das suas experiências mais enriquecedoras. Fernando Namora, através de Jorge, apresenta com mestria traços da sua admiração por um povo aparentemente menos instruído:

Tenho aprendido muito com o povo. Nele, as coisas que dão à vida inesgotável grandeza não foram ainda violadas nem empobrecidas. O instinto do povo guarda-lhes o mistério e a seiva. Ainda hoje, na consulta, ao insistir com um aldeão para que me descrevesse o seu mal, ele, por fim, disse-me:
 É a natureza comida.
A natureza  o sexo. Dêem-me tratados onde se atinja esta sabedoria e esta serena humildade.

Embora Fernando Namora seja considerado um dos grandes nomes do neo-realismo em português, Domingo à Tarde não se apresenta como um  exemplo desta corrente. Constatação que não deveria preocupá-lo, avesso às escolas, às correntes e aos compromissos estéticos. Este romance é intimista, psicológico, a pessoa é mais importante do que a classe e, apesar de um fatalismo que, como conceito abstrato, tão bem serve ao neo-realismo, em Domingo à Tarde não há qualquer tipo de preocupação consistente, forte, com desigualdades sociais ou com sentimentos de classe. Mesmo que se fale num «pobre camponês, que alugava os braços a qualquer senhor medieval lá dos sítios», ou num mundo em que é permitido, «sob o mesmo céu benzido por Deus, haver hotéis majestosos, onde o burguês nem sabe que mais uso fazer do conforto, ao lado de quem não possui um farrapo para se cobrir», tal são referências pontuais sem qualquer tipo de importância no desenvolvimento da história.

O enredo progride através de uma narrativa simples. Clarisse é doente do independente Jorge e vai conquistá-lo. À medida que a doença avança, acompanhada de mudanças de humor e de perguntas inesperadas, o médico é levado pela sedução até à fronteira da loucura. Numa altura em que Clarisse não está internada, decide procurá-la. Consciente de que não se «encontrava muito bem da cabeça», mas disposto a tudo para alcançar o que desejava, vagueia pela cidade e entra em bares «onde nenhuma mulher decente consentiria em enfiar o nariz».

Entretanto, começam a passear. Conhecem todo o tipo de gente. Clarisse é extrovertida. Jorge não se abre como a sua amada. Chega a acontecer que apresenta Jorge como o médico que pode ajudar na grave doença. Ela dá esperança às pessoas. Será a que lhe sobra. Ela quer viver.

Jorge vai narrando os acontecimentos com «pormenores supérfluos» para o leitor. Justifica-os com a «harmonia do tempo, que é feita do modo como os acontecimentos se entrelaçam e valorizam». E, talvez sem que disso tivesse tido consciência, Fernando Namora acrescenta um pensamento que, sendo verdadeiro para todos, é usado de forma abusiva por pessoas com dificuldade em resolver os seus problemas: «A vida tem uma composição, de avanços, pausas, recuos, cujos processos se nos escapam.».

Jorge cede quase sempre às vontades de Clarisse:

Clarisse dispôs-se a irmos, a pé, até à chamada «praia da lota». Ainda lancei um olhar cobiçoso para as colinas arborizadas, no cimo das quais rangiam as velas dos moinhos, mas Clarisse calou-me os instintos serranos com a promessa:
 Domingo à tarde. Domingo será a vez do teu moinho …

Não houve moinho. Clarisse morreu.

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