Claraboia: romance de juventude de José Saramago
Em 1947 o jovem José Saramago publica o
seu primeiro romance inicialmente chamado A
viúva, que por motivos editoriais mudou o título para Terra do Pecado. Interessante é
que a publicação de seu primeiro romance sairia sem direitos autorais. Munido
pela felicidade de ser um autor publicado, Saramago aceita as condições. A
felicidade é tanta que entre os anos 1947-1953 o jovem escritor compõe outros
romances, muitos desses ficaram inacabados. O romance que comento foi entregue
pelas mãos de um amigo a uma editora. A resposta a essa publicação Saramago
obteve quase trinta anos depois, já romancista consagrado e respeitado. Porém o
autor decidiu que o romance rejeitado nos anos cinquenta permaneceria inédito
enquanto ele vivesse, e que somente os donos de seu espólio decidirão se o
livro deveria ser publicado ou não. Assim quis o autor assim aconteceu, em 2011
a herdeira de seu espólio Pillar Del Rio autorizou a publicação de Claraboia
que inicialmente foi publicada no formato digital, depois a publicação em formato
físico.
Depois de Terra do Pecado Saramago publicaria peças de teatro;
poemas; crônicas e contos. O gênero romance voltaria a ser trabalhado no livro Manual de Pintura e caligrafia (1977), ainda assim esse romance
apresenta características de ensaio e autobiografia. Em 1980 Saramago publica Levantado do Chão, e com a
publicação deste romance alcançaria o respeito de inúmeros críticos literários.
Seu nome aparecia mundialmente após a publicação de Memorial do Convento (1982). O autor inicia a década de 90
com uma polêmica o livro Evangelho
Segundo Jesus Cristo (1991)
teve o seu nome retirado pelo governo português de um concurso literário
europeu. Após este incidente o autor muda-se de Portugal para as ilhas
Canárias, especificamente na ilha de Lanzarote, onde permaneceu até a sua morte
em 2010. Em 1995 publica o Ensaio
sobre a Cegueira, esse livro mudaria a sua própria maneira de compor
romances, em 1997 publica Todos
os Nomes e em 1998 conquista
o Prêmio Nobel de Literatura.
Quando Saramago formulou o romance Claraboia ele não tinha todo esse reconhecimento
literário ainda. Para ele se tornar um autor respeitado foi necessário anos de
trabalho e estudo dedicados à literatura. Em 1953, Saramago era mais um jovem
escritor em formação sem fama e reconhecimento internacionais. O escritor
português com a publicação de Terra
do Pecado havia conseguido
alguns elogios. Seu livro passou despercebido para muitos leitores portugueses.
A não publicação de Claraboia causou em Saramago um silêncio
literário de quase vinte anos. E como já comentado, o autor só voltaria a
explorar o romance quase trinta anos depois. O original desse livro foi
assinado sob o pseudônimo “Honorato”, o livro é dedicado à memória de seu avô
materno Jerônimo Hilário, figura essencial para a formação do autor português.
A simplicidade e sabedoria de seu avô ecoariam por toda a sua vida, em especial
em seus romances. Não é por acaso que a maioria dos heróis na literatura
saramaguiana são pessoas do povo. Isso não é diferente no romance Clarabóia. Nessa obra alguns
aspectos que tornariam Saramago um escritor respeitado estão lá, dentre esses a
sabedoria popular. Quer um exemplo? Leia abaixo o seguinte trecho em que o
personagem, que passa por problemas em seu casamento, fala:
Quando fores crescido, hás de querer ser
feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando
pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Talvez
para nunca mais!... Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu
desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se
conquiste, hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.
Impossível não se lembrar da sabedoria de
Baltasar Sete-luas (Memorial do Convento), de Cipriano (A Caverna),
de Maria de Magdala(O Evangelho segundo Jesus Cristo), de Eva (Caim).
Todos esses personagens emergem da classe não-dominate e são eles os mais
sábios em seus romances. A sabedoria do povo é sempre a mais aplaudida na obra
saramaguiana. O autor sempre dizia que caso alguém estivesse com preguiça de
ler seus livros, bastava ler a epígrafe para saber da estória do livro. Em Claraboia acontece o mesmo, eis a epígrafe:
Em todas as almas, como em todas as casas,
Além da fachada, há um interior escondido.
- Raul Brandão.
O interior dos personagens é invadido pela
claraboia que se estende no teto do sobrado. É um romance sobre o cotidiano da
vida aprofundado pelo interior de seus personagens. Os moradores do prédio são:
Silvestre e Mariana; Abel; Adriana, Isaura, Cândida e Amélia; Lídia e Paulino; Carmem,
Emílio e Henrique. Os problemas da vida apresentados por estes personagens não
fogem ao cotidiano da vida: prostituição; casamento desgastado; problemas
financeiros; assedio no trabalho. O ambiente da narrativa é o ano de 1952 na
primavera lusitana. O prédio em que moram os personagens localiza-se em uma rua
de um bairro simples de Lisboa.
Assim como os
livros seguintes, os personagens de Claraboia são essencialmente humanos. Essa
característica humanista será o ponto de partida para a obra futura O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
Uma palavra permeia muito os diálogos filosóficos do andante Abel e
do sapateiro Silvestre: Esperança. Eis um trecho de um desses diálogos:
Aprendi a ver
mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida
desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança.
Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e
por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de
nascer.
Assim como os
futuros personagens criados por Saramago, os personagens deste romance são
essencialmente humanos e sensíveis a complexa maldade. Os conflitos humanos
estão entre as temáticas debatidas por estes personagens. Assim como o autor,
esses personagens sentem a necessidade de modificar o mundo. Mas assim como seu
primeiro romance, Terra do
Pecado, este Claraboia apresenta muitos sinais de influência
de Eça de Queirós e do romance realista do século XIX como a crítica social e
as descrições físicas e psicológicas de personagens. Porem, Saramago não abusa
das descrições, as faz de maneira superficial.
Ao leitor
acostumado ao estilo anárquico de Saramago estruturar as suas narrativas,
encontrará um livro diferenciado pela correta pontuação e pelos parágrafos bem
ordenados. Porém o mesmo narrador em terceira pessoa onisciente, que comenta a
tudo que vê está presente na obra, comentando e esclarecendo os fatos que
narra. Mais que um achado histórico para os estudiosos e amantes da produção
literária de José Saramago, este livro merece ser lido não somente por ter sido
escrito por um autor que futuramente seria um Nobel, a obra é essencial por
conter um bom enredo e bons personagens.
É válido lembrar
que na época em que o escritor pleiteou a publicação deste livro, o país estava
vivenciando a ditadura de Salazar, e nesse período o governo ditatorial pregava
a ordem e os bons costumes. O enredo de Claraboia com suas temáticas cotidianas:
casamentos mal-sucedidos e problemas financeiros. Não era bem essa a imagem que
um ditador quer passar de seu país. Talvez tenha sido esse o motivo do
engavetamento deste livro.
É um livro que
nos revela um autor jovem em fase de formação. Porém o livro desassossega o
leitor, pois durante e depois da leitura do livro, ficamos a querer invadir
cada vez mais o universo literário de José Saramago.




