PARAÍSO, crônica quentinha da série Cartônicas.
PARAÍSO
Se realmente existir - e acredito nisto -
deve ser um lugar onde as flores exalam teu cheiro e as camas são feitas com
teus abraços. Decerto lá não haverá dor, não haverá apertos repentinos no peito
nem noites mal dormidas com lágrimas no travesseiro; deve ser um lugar onde os
pássaros cantam afinadas valsas para que a natureza dance, e cantarão um dia
para nós, habitantes únicos do paraíso que idealizei para nossa morada.
Quando lá chegarmos, no nosso paraíso, terá uma admirável fartura de frutas doces
e saborosos vinhos; teremos paz do deitar ao levantar, e dançaremos por entre
as árvores carregadas de frutos proibidos. Permita-me, meu bem, derrubar-te,
carinhosamente, na grama macia dos nossos jardins, para te fazer cócegas e te
beijar a boca, sem a preocupação de sermos observados e, totalmente despidos,
banharmo-nos nos rios de águas claras e puras, como cada palavra que sai da
boca tua. Apenas peço-te, meu anjo, que não me ofereças o fruto da árvore que
nos proibiram de comer, pois males terríveis aconteceram em outros paraísos que
tentaram tal feito. Espera mais um pouco, e teremos então nossos saborosos
frutos, os quais plantaremos com nossas próprias mãos e colheremos para saciar
nossa mais terrível fome. Então espera, por mais difícil que seja a espera
neste terreno que agora estamos, que cada dia mais se parece com um pedaço do
inferno, espera.

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