O
habitante de Pasárgada, Manuel Bndeira, nasceu no fim do século XIX, dia
19 de abril de 1886, descobre com dezoito anos que está doente do pulmão, em
uma época que ter a tísica é estar desenganado, porém só vai partir do mundo
dos homens no ano de 1968, com oitenta e dois anos de idade ao dia 13 de
outubro.
Uma
vida entre letras, viagens, solidão, cartas, músicas, Bandeira tornou-se um dos
principais poetas da literatura brasileira. Ousou, passeou entre o
Simbolismo e o Modernismo, escreveu versos de circunstância, foi um grande
cronista, flertou com a música escrevendo alguns poemas especialmente para
serem musicados. Teve uma vida de grande produção poética e acadêmica, pensou a
poesia, escreveu poesia, pautou sua existência na literatura. Foi um homem
solitário, nunca chegou a se casar, nem teve filhos.
Ao
mesmo tempo que um observador desatento possa considerar a vida do Poeta um
cinza sem graça, um desencanto, não parecia ser assim que Manuel enfrentava-na,
ele demonstrava grande resignação com sua situação, contudo soube desenvolver
um cinismo e uma ironia atroz para falar sobre as coisas do mundo e do homem.
O
documentário O poeta do
Castelo, que durante muitos anos foi de difícil acesso para o público,
mostra um pouco o cotidiano do poeta, registrado nas lentes do grande cineasta
brasileiro Joaquim Pedro de Andrade no ano de 1959. Hoje, disponível no
youtube.
No Poemeto Irônico ela destaca toda essa volubilidade,
ligado mais à carne do que ao espírito, não platônico, como comumente é
apresentado na prosa e na poesia, essa visão se confirma no seu A arte de amar, um verdadeiro
tratado sobre o amor visto na perspectiva da carne. Se o amor é carne, então ao
contrário da visão romântica ele está destinado ao fim, ele vai sucumbir, mesmo
que algo fique “suspenso no ar”. Em Vigília
de Hero, esse fim na voz do
Eu-Lírico feminino está recheado da esperança de que algo sobreviva nos
escombros da memória, já em Adeus, amor o Eu-lírico masculino não se
mostra tão esperançoso, sim sarcástico, sobre os resíduo do amor.
Encerrando nossa seleção
de poemas, o Rondó do Capitão,
com a versão musicada do Grupo Secos & Molhados, a esperança cruel de
que o amor seja mais do que a Carne, assim o Rondó é uma súplica de livrai-nos
do mal da esperança. Afinal, como disse Stendhal em seu livro Do amor, “Basta um grão
muito pequeno de esperança para que nasça o amor”.
POEMETO IRÔNICO
O que tu chamas tua
paixão,
É tão somente
curiosidade.
E os teus desejos
ferventes vão
Batendo as asas na
irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua
pele.
Sonhas um ventre de
alvura tal,
Que escuro o linho fique
ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis
que vêm
Das suas charpas, dos
seus vestidos,
Isolar tentas o odor que
tem
A trama rara dos seus
tecidos.
Encanto a encanto, toda a
prevês.
Afagos longos, carinhos
sábios,
Carícias lentas, de uma
maciez
Que se diriam feitas por
lábios...
Tu te perguntas, curioso,
quais
Serão seus gestos,
balbuciamento,
Quando descerdes nas
espirais
Deslumbradoras do
esquecimento...
E acima disso, buscas
saber
Os seus instintos, suas
tendências...
Espiar-lhe na alma por
conhecer
O que há sincero nas
aparências.
E os teus desejos
ferventes vão
Batendo as asas na
irrealidade...
O que tu chamas tua
paixão
É tão-somente curiosidade.
ARTE
DE AMAR
Se
queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
A VIGÍLIA DE HERO
Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a
vida. E no entanto
Alguma coisa em ti
pertence-me!
Em mim alguma coisa és
tu.
O lado espiritual do
nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos
meus braços!
Que eu te afeiçoe e
acaricie...
Não sei por que te falo
assim de coisas que não sáo.
Esta noite, de súbito, um
aperto
De coração tão vivo e
lancinante
Tive ao pensar numa
separação!
Não sei que tenho, tão
ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao
pé de ti...
Cruel volúpia e profunda
ternura dilaceram-me.
É como uma corrida, em
minhas veias,
De fúrias e de santas
para a ponta dos meus dedods
Que queriam tomar tua
cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus
cabelos,
Prender-te a mim por que
jamais tu me escapasses!
Oh, quisera não ser tão
voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso
amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer...
inquieta...
Ah, como poderei
contentá-la, jamais!
Quisera calmá-la na
música... Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou
cruel e melancólica!
Possui-me como sou na
ampla noite préssaga!
Sente o inefável! Guarda
apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a
sós
Na treva imensa... Ah, se
eu ouvisse a tua voz!
ADEUS, AMOR
O amor disse-me adeus, e
eu disse “Adeus,
Amor! Tu fazes bem: a
mocidade
Quer a mocidade.” Os meus
amigos
Me felicitam: “Como estás
bem conservado!”
Mas eu sei que no Louvre
e outros museus, e até nos nosso
Há múmias do velho Egito
que estão como eu bem conservadas.
Sei mais que posso ainda
receber e dar carinho e ternura.
Mas acho isso pouco, e
exijo a iluminância, o inesperado,
O trauma, o magma... Adeus,
Amor!
Todavia não estou
sozinho. Nunca estive. A vida inteira
Vivi em Tetê-à-tête com uma senhora magra, séria,
Da maior distinção.
E agora até sou seu
vizinho.
Tu que me lês adivinhaste
ela quem é.
Pois é. Portanto digo:
“Adeus, Amor!”
E à venerável minha
vizinha:
“Ao teu dispor! Mas olha,
vem
Para nossa entrevista
última,
Pela mão da tua divina
Senhora
- Nossa Senhora da Boa
Morte”.
RONDÓ DO CAPITÃO
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