"POESIA", nova Cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr
Um salve à
Desconstrução
Da métrica.
Das metáforas e
metonímias que estão escritas na negritude dos teus olhos miúdos bebo. E
alimento-me da intensidade dos últimos versos dos teus poemas, que são sempre
os que me consomem e trazem consigo os tiros mais certeiros. Teu corpo é por
inteiro poesia, e teus lábios são as rimas que chegaram para desconstruir a
métrica que haviam nos imposto, amantes. Tu és poesia em acordes, em estrofes,
em melodias e há arte também no sal do teu suor. Teu toque levanta os pelos da
minha nuca, e vejo no teu corpo arte, e divino é o Artista que te fez - artista
também. Foi contigo que descobri que sonho também tem cheiro, gosto e deixa
manchas terríveis nas roupas. E tu és ainda o objeto caro que eu, criança
pobre, não posso levar para casa. E a vitrine que nos separa parece ser límpida
e forte, e até os meus olhos ela encanta. Se tu soubesses do carinho que lateja
no meu peito, do anseio que tenho por te dá-lo, não se manteria assim, tão
distante, e correria aos meus braços, quebraria esta vitrine e conheceria o
calor de um corpo diferente dos que te iludiram e te deixaram neste mesmo
lugar, objeto secundário. No interior do meu peito algo sangra. Não te culpo,
ao contrário: inocento-te. E neste peito uma dor fremente liquida a vontade de
sorrir que me surge de quando em vez. Sou teu à hora que tu quiseres. E quando
quiseres, acena-me e me chama: levantar-me-ei desta calçada que agora estou,
limparei meus olhos e te sorrirei, e cínico te direi que está tudo bem.

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