[GRANDES] AUTORES DE UM LIVRO SÓ
Vamos deixar claro logo uma coisa:
quando eu me refiro a “autores de um livro só”, não quero dizer necessariamente
que o pessoal sobre o qual você vai ler a seguir só escreveu um único livro. É como naquela expressão, “one-hit
wonders”, aquela turma que fez sucesso com uma música e depois cadê? Nunca mais
(essa daqui, por exemplo).
Pois exemplos na literatura abundam.
Seja lá por qual motivo, razão ou circunstância, tem gente que nasceu e morreu
para a literatura com uma única obra, descansam em paz no mundo das letras com
sua obra-prima e nada mais.
Mas chega de ficar na escuridão,
porque a crônica de hoje vai trazer à tona algumas teorias a respeito desse
pessoal que se apaga depois da primeira dose (ou complicar mais ainda o
negócio). Senta aí e preste atenção nos causos
a seguir.
Comecemos com o único exemplo
brasileiro da lista: (Não, por mais que a gente quisesse, não é do Paulo Coelho
que eu vou falar. É do) Raduan Nassar. Crucifiquem-me. Quem gosta de literatura
brasileira e pensa no autor, lembra logo de Lavoura
arcaica. Antes dos anos 80, o autor tinha dois livros publicados, ambos
ficaram famosos, mas Lavoura arcaica
é que foi, verdadeiramente, elevado ao status de obra-prima. Pois um belo dia,
ele acordou e disse para si mesmo, “Ah, não quero mais isso pra mim, não”.
Pegou o dinheiro que tinha e investiu numa fazenda, onde foi se refugiar e
esquecer da vida loca da capital.
Como mesmo quem vira eremita tem necessidades, Raduan resolveu mudar de vida de
novo em 2010. Quer dizer, mais ou menos. Doou a tal fazenda, que era enorme,
para uma universidade e foi para uma outra, bem menor. (Gesto bonito, hein,
Raduan? Ganhou pontinhos com Nosso Senhor). Em seguida, voltou a trancar-se em
seu silêncio. A verdadeira motivação do escritor? Ninguém sabe, ninguém viu. E
a menos que ele tenha escrito a resposta e mandado botar num cofre, vai ficar
para sempre o enigma. Mas vai que criar vaca, cabrito e plantar não era mesmo
melhor que escrever?
Outro que resolveu se refugiar da
sociedade foi J. D. Salinger, autor do clássico O apanhador no campo de centeio. O autor morreu em 2010 e sua
editora já anunciou que ele deixou “pelo menos” cinco livros inéditos (o que na
prática significa dizer que ele deixou cinco livros prontos e uma papelada
imensa que eles vão tentar transformar em livro pra continuar ganhando dinheiro
em cima do defunto). Mas o primeiro, só em 2015. Enquanto isso, diga aí: quais
foram os outros três livros que o autor publicou em vida? Rá!, não lembra, né?
Pois Salinger é mais um caso de autor de um livro só. E o pior: o último dos
três foi publicado em 1963, quase cinquenta
anos antes da morte do autor. O que o levou a este silêncio de quase meio
século? Alguns crimes famosos estão diretamente conectados ao livro. Quando
Mark Chapman assassinou John Lennon, um exemplar do livro foi encontrado com
ele, junto com a frase: “Esta é a minha declaração”, e assinou como sendo
Holden Caulfield. Descobriu-se depois que ele se identificava a tal ponto com o
personagem que queria oficialmente mudar seu nome para Holden. No ano seguinte,
John Hinckley Jr tentou assassinar o presidente Ronald Reagan, e mais uma vez,
o livro foi encontrado com o (quase) assassino. Outro caso que teve muita
repercussão à época foi o assassinato da modelo e atriz Rebecca Schaeffer. Seu
assassino, Robert John Bardo, havia ido à casa dela, na tentativa de
“conversar” com ela, com um exemplar do Apanhador
nas mãos.
Outros crimes também estão associados
ao livro. Só que quando tudo isso aconteceu, Salinger já tinha se recolhido em
Cornish, New Hampshire, uma cidade que, em 2010, tinha menos de dois mil
habitantes. Imagine em 1953, quando Salinger foi pra lá. Se os crimes cometidos
em nome do seu livro colaboraram para que ele se tornasse ainda mais recluso?
Talvez. Salinger nunca gostou de atenção e da exposição na mídia. Conforme o
autor disse numa de suas últimas entrevistas (a última foi em 1980): “Existe
uma paz maravilhosa em não ser publicado. Publicar implica numa terrível
invasão da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas eu
escrevo apenas para mim mesmo e para satisfazer o meu próprio prazer”. E não
custa lembrar que o livro ficou famoso desde seu lançamento, em 1951. Com casos
pipocando nas TVs e jornais envolvendo seu nome e crimes famosos, seria
razoável crer que os crimes tornaram-no ainda mais voltado para dentro de si
mesmo. Outras teorias dão conta de que Salinger era melindroso e detestava as
críticas aos seus livros, e sofria muito com elas. Para um homem que bebia
urina, falava em línguas e dava em cima das amigas adolescentes de sua filha
(informações publicadas por ela própria) e tinha inclinações e práticas sexuais
“estranhas”, segundo a ex-esposa, tudo caminha com segurança pelo reino da
possibilidade. Porém, é difícil julgar e mais difícil ainda compreender.
Um que ficou famoso pelo oposto dos
dois acima foi F. Scott Fitzgerald, o eterno – e eterno mesmo – autor de O grande Gatsby. Fitzgerald viveu uma
época pré-quebra da bolsa de Nova York, a chamada “Era do Jazz”, que ele viveu
aos píncaros. Pois este rapaz, que se casou com Zelda Fitzgerald, um personagem
à parte, teve das mais tresloucadas vidas. Naqueles tempos, onde o estilo
extravagante de vida era o tom em quase toda a alta sociedade estadunidense, o
negócio era ir a festas todas as noites, viver em barcos na Riviera Francesa,
curtir o luxo e a opulência... Nisso, ele completou apenas quatro romances
durante sua vida, e vários contos (alguns também bastante famosos). Tendo sido
alcoólatra pela maior parte dos anos de sua vida adulta, Scott Fitzgerald
começou a sentir o declínio da saúde por volta dos anos 30, quando contraiu
tuberculose. Daí pra frente, o negócio degringolou de vez. Sofreu dois ataques
cardíacos nesta mesma década e em 1940 morreu aos 44 anos. Por mais que se
escreva muito sobre ele e sua desvairada esposa, que se filme sobre sua vida e
sua obra, o que ficou e ficará, de verdade, é o romance O grande Gatsby, que não é outra coisa senão o retrato fidedigno da
época em que o autor mais “aproveitou a vida”, por assim dizer.
Outro que a vida de excessos levou pra
dentro do bueiro foi Truman Capote. Autor de À sangue frio, publicado em 1966, Capote ficou famoso tanto por
este livro, que praticamente criou o gênero da narrativa não-ficcional de casos
de homicídios, a partir de uma perspectiva jornalística e uma narrativa
esfuziante, no chamado New Journalism,
quanto por seu gênio extremamente temperamental e vaidoso, e seu vício em álcool
e outras drogas, além de uma inclinação por freqüentar festas e eventos com
outras pessoas famosas. Truman Capote tinha uma vida social intensa e
desregrada. Depois de passar anos pesquisando in loco sobre os crimes descritos no seu livro famoso, inclusive
fazendo amizades com as esposas dos acusados e vizinhos, para delas conseguir
depoimentos, o autor jamais conseguiu terminar outro livro. Escreveu alguns
contos, esparsamente, e mesmo seu Bonequinha
de luxo, novela publicada oito anos antes de À sangue frio, teve um filme
famoso (com Audrey Hepburn), não um livro. Pouco se sabe de fato dos motivos
que levaram Capote a não conseguir alavancar sua carreira novamente, nem fazer
nada de maior consistência. O fato é que o barril de pólvora que era sua vida
deixou rastros, e fortes indícios de que as polêmicas envolvendo o próprio
livro (o autor foi acusado de fazer por onde os criminosos retratados em seu
livro serem logo executados, para que assim seu livro tivesse o final que ele
desejava) e sua vida pessoal tenham enfraquecido suas forças e sua capacidade
de escrever. Sua biografia fala por si só.
Nem tanto no Brasil, mas nos Estados
Unidos, há um livro clássico lido por gerações, e este, foi, de fato, o único
livro publicado pela autora. O livro é o romance O sol é para todos (To kill a
mockingbird), publicado em 1960.
A autora, Harper Lee, foi uma grande amiga de Truman
Capote, tendo inclusive indo à cidade no Kansas com ele, onde ele foi pesquisar
para o seu livro famoso.
Num romance criado para discutir a
questão das desigualdades raciais, sociais e o estupro, Harper Lee criou uma
gema literária e um romance imortal. Mas ficou só nisso. Anos depois, chegou a
anunciar que estava escrevendo um novo romance, mas deixou-o de lado por achar
que estava se perdendo e não tinha mais nada a dizer. Muito se especula,
também, sobre sua saída de cena. Alguns dizem que, na verdade, ela não escreveu
o livro. Quem o fez teria sido Truman Capote. Estudiosos de ambos dizem que
isso é um absurdo, já que Capote era vaidoso demais para não querer que este
livro, tão popular e respeitado – tendo inclusive recebido o prêmio Pulitzer -,
não estivesse sob seu próprio nome. Outra teoria é a de que ela teve receio, à
época, de o livro ser um fracasso retumbante, após o estrondoso sucesso do
anterior. A mais provável, porém, é a afirmação que a própria autora fez a um
amigo, e que veio à público em 2011: “Eu não passaria pela pressão publicitária
pela qual passei com O sol é para todos
novamente por nenhum dinheiro. E também porque eu já disse o que queria dizer e
não o farei novamente”. Então é isso, e caso encerrado.
E você taí pensando que isso só
acontece com escritor esquisitão e de gênio indomável? Pois não. Acontece até
com quem sempre foi pacato, morava numa propriedade longe de tudo com sua
família e anos depois, ganhou o Nobel. Pensemos no livro Senhor das moscas. Um verdadeiro clássico, publicado em 1954 por
William Golding. Agora pense noutro livro dele. Vamos lá... E aí? Mais uma
chance... Nada, né? Pois é. Golding é o típico caso de escritor de um livro só.
Este é o escritor que, em 1983, viria a ganhar o cobiçado prêmio da Academia
sueca. E olhe que Senhor das moscas nem
foi o primeiro livro dele. O cara vinha publicando livros de poemas na década
de trinta, até chegar na década de cinquenta e publicar o romance pelo qual seria
lembrado (e enaltecido). E por mais que outros dez romances tenham se seguido a este, nada ficou como seu
primeiro. Acontece.
Outro caso famoso é o do L. Frank
Baum. Dizendo só assim, é capaz de você nem saber quem é. Pois eu digo. Ele
escreveu nada mais, nada menos do que O
mágico de Oz. É mole? Um clássico de umas quinhentas gerações, mais ou
menos. Agora se segura aí: existem outros dezesseis
livros que se passam na terra onde vai parar a Dorothy, o Totó, o Leão, o Homem
de Lata e o Espantalho. Todos escritos pelo mesmo L. Frank Baum. Isso sem
contar outros livros que ele escreveu fora da série. No entanto... quem lembra
de um só títulozinho?
Surfando nesta mesma onda de azar
está P. L. Travers, que ninguém sabe nem quem é. Mas se eu disser o título do
livro dela (calma aí, eu vou dizer!), na hora você vai saber do que estou
falando. Pois bem, P. L. Travers é a autora de Mary Poppins. Aposto que a primeira coisa que você se perguntou aí
foi, “E o filme era baseado num liiiiiivro?!” Pois é, é sim. Agora que você
sabe disso, vá ler o livro. Aliás, livros.
Assim como o autor de O mágico de Oz,
P. L. Travers era chegada numa continuação, e a Mary Poppins com a Julie
Andrews que você conhece do filme é apenas a primeira de quase uma dezena de
livros.
Outro que fecha a trinca com os dois
acima é Lewis Carroll, autor de Alice no
país das maravilhas. Carroll foi muitas coisas em seus 65 anos de vida.
Além de escritor, foi matemático, especialista em lógica, diácono anglicano e
fotógrafo. Aos 33 anos, publicou o primeiro livro de Alice e, aos 39, a continuação, Alice através do espelho. Depois desses
dois livros, ainda andou publicando alguns poemas, vários livros de matemática,
e, trinta anos após a publicação de sua obra-prima, seu último romance, e eu
arranjo um exemplar autografado pra quem me disser, sem ir pesquisar no Google,
qual é o título desse livro. Com um pé nas costas, sei que vou me poupar ao
trabalho de conseguir um autógrafo do Lewis Carroll direto do além, por uma
razão bem simples: ninguém lembra.
Aliás, não fosse algumas editoras brasileiras lançarem os dois livros da Alice num só
volume, poucos saberiam que a história dela teve um capítulo a mais. Outro
autor que viveu uma vida meio controversa, com acusações de pedofilia, e
problemas de saúde muito graves, o certo é que Carroll nunca conseguiu
prosseguir numa carreira sólida de escritor, na qual fez sua verdadeira fama e
fortuna – e apesar de ser um homem notadamente genial.
Falemos agora de Margaret Mitchell.
“De quem?”, você pergunta. Resposta: E o
vento levou. Desse você já ouviu falar, tenho certeza. Agora vou te contar
quem era essa Margaret: lá pelos idos do final dos anos 20, essa nobre senhora
da sociedade de Atlanta, na Geórgia, nos Estados Unidos, saiu de seu emprego
como jornalista, onde assinava uma coluna de fofocas para um jornal local, veja
só. Ela precisava se recuperar de um problema no tornozelo, e por isso, ficou
de molho em casa. Por
conta disso, ela não fazia outra coisa a não ser ler, ler muito. Um dia, seu
esposo, cansado de sair pra trabalhar e voltar do trabalho e ver a mulher com a
cara enfiada nos livros (na verdade, ele estava cansado era de ter que ir toda
semana à biblioteca pública pra pegar livros pra esposa ler, num ir-e-vir sem
fim), sugeriu a ela: “Mulher, será que não dá pra você escrever seu próprio
livro, ao invés de ficar lendo esses milhares de livros da biblioteca?”. Pois
foi assim que essa história começou. Nos três anos seguintes, ela não fez outra
coisa da vida a não ser escrever o romance, e o marido dela, que achava que ia
ter paz, trocou seis por meia dúzia, porque ao invés de sair pra pegar livros
emprestados, tinha que sair pra comprar resmas de papel, já que a mulher
escrevia sem parar, a ponto de sentar-se em cima dos próprios manuscritos, fazendo-o
de sofá.
Não há como saber se Margaret
Mitchell teria tido algum outro sucesso espetacular na carreira (a autora
ganhou o Pulitzer pelo seu famoso romance, em 1937), já que, dez anos após a
publicação de E o vento levou, ela
ainda não tinha produzido nada. Talvez os efeitos do sucesso do filme, que lhe
deram muita publicidade e pouco tempo e paz para voltar a escrever, tenham sido
fatores. Mas o certo é que sua carreira foi abreviada ainda mais porque, numa
certa tarde de 1949, em que se decidira a ir ao cinema com o marido, Margaret
Mitchell foi atropelada por um taxista, e morreu cinco dias depois. Resultado:
mais uma autora de uma obra só. Antes da fama, ela tinha escrito algumas coisas
num estilo erótico, e depois da fama descobriu-se um romance escrito na
juventude, descoberto nos anos 1990. De qualquer forma, tudo muito aquém do
clássico que ela criou, de acordo com público e crítica.
Às vezes, é a morte que abrevia as
coisas, mesmo. Quando Margaret Mitchell morreu, ela já tinha publicado E o vento levou há doze anos. Tempo suficiente pra tentar espremer alguma coisa, na maioria das vezes. Outras vezes, como no
caso da inglesa Emily Brontë, é que havia uma tuberculose no meio do caminho. A
escritora faleceu aos 30 anos (trinta anos, meu povo, isso lá é idade pra
alguém morrer?!), poucos meses depois da morte do irmão. Algumas pessoas
chegaram a dizer que ela morreu de “coração partido” por conta da morte do
irmão, mas ela morreu mesmo foi de um resfriado que virou uma gripe que
encontrou uma tuberculose mal curada e a junção de tudo isso ressuscitou o
problema. Um ano antes, ela havia publicado O
morro dos ventos uivantes, e não viveu para ver o sucesso da obra nem,
naturalmente, o fato de que se tornaria um clássico nos anos seguintes. Emily Brontë
foi mais uma que a morte arrastou para o caixão, levando uma carreira junto.
Numa carta para seu editor, ficou-se sabendo que ela começou a escrever um
segundo romance, mas o manuscrito jamais foi encontrado. Então, é O morro dos ventos uivantes e só.
Agora, uma perguntinha pra vocês me
odiarem para sempre: quem foi Oscar Wilde? Vão lembrar que ele foi preso porque
era gay e teve um caso com um filhinho de papai que no fim das contas acabou
com a vida dele. Vão lembrar que ele escreveu peças, contos, poemas... Mas se
perguntarem qual o trabalho mais famoso do rapaz, eu aposto com você que vão dizer: O
retrato de Dorian Gray. Não adianta se espernear, meu povo! É a verdade e
acabou-se. Sim, ele tem várias peças famosas, aforismos (o Facebook que o diga!),
mas o famoso, famoso mesmo, é o seu
único romance sobre o garboso rapaz que roga aos deuses que o quadro no qual
está retratado envelheça em seu lugar – e tem seu pedido atendido, mas recebe
também otras cositas más que ele não
pediu, mas que estavam no pacote também. E nessas horas, esse tipo de coisa é
igual a marido ou mulher: você casa, e recebe inteiramente grátis o que gosta e
o que não gosta e vai literalmente
dormir com o pacote completo. Fim.
Dificilmente existe alguém que nunca
tenha ouvido falar em Frankenstein,
ainda que associe este nome a um monstro. Pois o monstro da história, na
verdade, nunca recebeu nome. Frankenstein é o nome do criador do monstro que, por não ter lhe concedido um nome acabou
cedendo o seu a ele, involuntariamente, no imaginário popular. Este clássico
dos clássicos foi escrito por Mary Shelley quando ela tinha menos de vinte anos
(não tem como não se deprimir quando você pensa que uma menina com menos de duas décadas de vida escreveu
um clássico e você até hoje só na promessa de escrever algo que preste, mas é a
vida). E embora ela ainda tenha escrito vários outros romances, contos, ensaios
e biografias, nada dela chegou com força no presente. As obras existem, a
maioria está editada, mas vira uma coisa pra curioso ler (e depois dizer que
bom mesmo era o Frankenstein...).
Eu poderia mencionar inúmeros outros
casos, de maior ou menor fama, de gente que ficou famosa por uma única obra,
mas a crônica iria se transformar numa versão moderna das mil e uma noites.
Em que pese tudo o que leva um autor
a escrever apenas uma obra, ou escrever uma vasta obra e no fim ser lembrado
apenas por uma (o que, convenhamos, é uma desgraça ainda pior), o certo é que a
história da literatura está repleta de casos como os narrados acima. De pessoas
memoráveis, ainda que por um único feito.
E enquanto isso, estamos nós do lado
de cá. Nós, que provavelmente não deixaremos nada para a humanidade como um
todo. Nós, os esquecíveis. Será? Consola acreditar que seremos lembrados por
aqueles que gostam de nós? Consola manter viva a ideia de que, em não
produzindo algo eterno, pelo menos demos o nosso melhor pra modificar (pra
melhor, espera-se) a nossa realidade?
Se você chegou até aqui, tem um tempo
pra pensar.
E aí, consola?

Excelente texto! Muito bom conhecer mais sobre os bastidores do universo da literatura de forma tão divertida e perspicaz, ainda mais quando se trata de um tema que atinge profundamente as feridas narcísicas de qualquer pessoa, seja ela artista ou não; (sobre) viver sem a perspectiva de deixar uma obra reconhecidamente perene e inesquecível pode ser tão angustiante e perturbador quanto ter criado uma única obra que ultrapassa e engole avassaladoramente o próprio criador.
ResponderEliminarBacana! Apesar de conhecer outros livros de autores citados como Confinados, do Golding, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, do Salinger, alguns livros de contos do Carrol, entre outros, realmente podemos considerá-los como "autores de um livro só", já que os outros livros são praticamente desconhecidos. Quando vi a crônica, pensei no livro Uma confraria de tolos, do Kenned Toole, tanto pela história maravilhosa (ganhador do Pulitzer), quando pela vida do autor, que se matou ao ter sua história recusada por diversas editoras.
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