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20 de março de 2014
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Garrafinha, conto de Alex Costa



Garrafinha era mesmo levada e levada. Aquele areia parecia mágica ao toque de seus pezinhos: “calce a chinelinha, Garrafinha, que é pra não pegar frieira!... Essa areia tá empestada de xixi e cocô de cachorro.” – preocupação válida. Como era sapeca a menina Garrafinha! A ida à praia era sempre um evento para a pequenina. Fazia mil e uma perguntas à mãe no dia anterior: “mas a gente vai pr’aquela que tem aquelas aranhas vermelhas na água, mamãe?” – e o riso das tias solteiras. “Não, Garrafinha! Nós iremos àquela que tem a estátua daquela índia que você tem medo.” Tinha o cabelo de cachinhos, pretinhos como a asa da graúna, irecemianos.  

- Epa! Volte pra cá, bonitinha! – era Garrafinha querendo aventurar-se pelo restante da areia desconhecida.

Hora do almoço. 

- Te aquieta nesta cadeira, criatura! Que nós só vamos mergulhar quando o sol baixar. Quer ficar doente, é?

- Mas, mamãe! Eu quero ir loooogo... não quero mais brincar na areia!- e a carinha de emburrada.

Mas engana-se quem pensa que Garrafinha se dava por vencida assim, tão facilmente. Logo depois do almoço, quando todos descansavam, escavacando os dentes amarelados, a pequena, que tinha espírito aventureiro, foi passear por ai.

- PelamordiDeus! Achem a minha filha, minha pequena. – era o pranto e os soluços de uma mãe desesperada, desfalecida de dor.

Corre uma multidão ao apito do salva-vidas. Um corpinho boiando no mar. As mães seguram seus filhos temendo o pior, e os pequenos querendo correr para ver o que era aquele aglomerado de cochichos e mãos sendo levadas à boca:

era Garrafinha sendo trazida na maré, sem recado nenhum, apenas de olhinhos fechados e a barriguinha cheia de água salgada, com a pazinha vermelha segurada na mãozinha rígida, sem ter a oportunidade de com ela concluir o castelo inacabado que construía na areia fofa, à sombra da barraca.


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5 de março de 2014
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Olhos de Mirela, conto de Alex Costa

Quem não se apaixonaria pela Disney, assim, vista pelos olhos de Mirela? A descrição era um mar de cores, era o sobe e desce da montanha russa mais alta do mundo. Dois álbuns repletos de fotografias pelo parque, pelos hotéis, pelo Magic World. Amizade forte com o Mickey, Minnie, que Pateta! Era a inveja das amigas da escola que encantava Mirela, naquele fim de tarde à beira-mar.

– Meu pai disse que nós voltaremos lá ano que vem, duas vezes – disse Mirela, de nariz empinadinho, entre uma pernada e outra, no deslizar dos patins.

O som do quebrar das ondas atrapalhava um pouco o discurso da viajante. O mar parecia bravio, desconhecia Orlando.

– Ganhei também um I-pod rosa, um tablet das princesas loiras e aproveitei pra trocar o note. Comprei tudo na Disney – ao olhar para as amigas que haviam ficado um pouco mais atrás, Mirela prendeu a roda dos patins em um buraco no piso do calçadão, torceu o pé, bateu com a cabeça no meio fio.

– Corre, gente... a Mirela caiu e está toda se debatendo no chão quente! Acorda, Mirela... acorda! – todas gritavam.

Correu Aparecida, filha da rendeira da orla, com sainha de renda e blusa de crochê.

– Moça, aguenta ai que a ambulância já tá chegando, visse!


Mirela, agarrada à barra da saia da menina-mulata, sentia nas mãos a suavidade do algodão macio, emaranhando os dedos roxos pelos buraquinhos da renda branca, arfando sem ar. Teve ainda forças para virar-se de lado, com duas lágrimas a correr pelos trilhos rosados do rostinho pueril, e morreu olhando o sol descendo com todo o seu esplendor sobre as águas verdes da praia de Iracema. 
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4 de março de 2014
Irenita

Irenita

imagem de Nestor Jr.
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por Edilson Pereira

Novamente o principedasmarés adentrou o materialbrutudoincosciente da fonte ressequida de Irene, logo de Irene... Ainda ontem esteve ele perambulando o engodo do infernointerno da menina que um dia cantou como se chamasse o vento, e esse vinha, vinha como Héracles decidido a perfurar Dejanira mais uma vez. E Irene, escondia-se?

Ele voltou; impecavelmente, surgiu como se de repente tivesse decidido Godot a não deixar mais ninguém a esperar; impávido, leve e tranquilo retornou: – Quem voltou? Godot? – não, quem voltou foi ele, o príncipe bronzeado que era como aquela luz que antecede o crepúsculo e o seu brilho faz o bronze beirar o dourado, trazendo consigo a beleza da gozada que geralmente vem numa velocidade arrebatadora e estonteante, como uma voçoroca que rasga o solo mais rude. Belo, fatigado e cínico. Chegou ele com sua cara de pescador urbano, tirando do saco, que estava próximo a um saco outro, calmantes ervas que embriagavam Constanza, Constanza não, esta viveu bem depois da belle époque. O que sei, foi que depois de tirar ou retirar o saco que perto de outro saco estava, amassou seu conteúdo bem amassadinho até fazer aparecer o sumo existente naquelas plantinhas apaziguantes. Com a delicadeza dos galantes descarados, socou-as num cachimbo sublime e ofereceu a jovem que o olhava nervosa. Ela foi jovem sim...


Num domingo de agosto em que os ventos costumam arrastar muito, arrasar muito e isso inclui pensamentos sombrios, por isso estava lá e só, exposta ao vento que soprava como um ancião quando tenta apagar a vela de suas muitas primas-veras, e esse é um momento em que o sopro evidencia uma afirmação da juventude escondida, já até esquecida. E foi nesse dia, nesse lugar que a sós se encontrava e reviveu em sonhos acordados aquele estado de graça, depois de ter largado os seus naquele almoço já mais palatável que os quitutes que aprendera a fazer na aquisição dos dotes de mulher adestrada para casar, servir e por fim. Naquele domingo esvoaçante resolvera botar seu vestido carmim a muito guardado, mas que sempre cheirou a novo. Tirou do seu armário como quem tira da mente um passado encoberto pela mesmice, fuligem, impregnada pelo tempo. Seguiu apenas sua sensibilidade de fêmea acalantada que despertara para um novoagora, inusitado como aquele domingo de abril em que... Encoberta por muitos panos e dourados falsos, esperava o prometido naquela praça que ostentava um pau, uma árvore com um tronco enorme e largo como se fosse um dos falos do divino, materializados em uma planta de espécie longínqua, diziam que esta foi trazida ainda infante, por negros que um dia circuncidados foram e num aldeamento que se assemelhava aos dos jesuítas na época do adestramento de um dos nossos ancestrais, porém aqueles, os negros como dizia minha avó, retintos, foram mantidos nesse aldeamento lá pras bandas da África, mas lá aprenderam a lutar, a roubar, a enganar. Por isso Irene hoje, ontem irenita, pensava nessa estória e sentia comichões, beliscões quentes nas coxas cobertas por sedas muitas. E esperando o prometido, o escolhido não por ela, mas pelo seu pai, devaneava e tampouco ficou aflita com essa espera. Num repente, num átimo de segundos, mas precisamente no intervalo de luz de um vagalume, apareceu um cavaleiro, meio maltrapilho, mas que cheirava a mar, a amar, mostrou-lhe um cachimbo e ela, a ainda Irenita, educada, treinada para só dizer sim, aceitou a gentileza e meio vermelha de vergonha aceitou, puxou e se engasgou. No primeiro puxo viu o mar reluzir, no segundo, viu o leão dourado de juba penteada, no terceiro melou-se de um líquido nunca visto, no terceiro, quarto, quinto sumiu pelas ruas que terminavam defronte à praça, ao passeio público de todos os domingos, foi-se como uma foice ao lado do lourobronzeadotaradoelindo que farfalhou aquelas sedas como quem dês-co-bre o doce, o cheiro a dor o prazer e ela, ai ela, completamente entregue, possuída, conduzida pelas éguas de Parmênides rumo a uma verdade, para ser exato a sua verdade. Por entre ruas escusas e tristes os tecidos que a envolviam foram sendo retirados um a um como os presentes destinados ao vaso de Pandora até aquela carne meio branca e rija se manifestar. Irenita só sentia, como se nunca houvera sido. Ele, o macho, o leão louro e sutil apropriou-se daquele terreno como se ali há muito já tivesse arado, escavacado e fincado suas enxadas, varas e outros instrumentos de lavrador, que só aqueles que detêm a destreza dos negros circuncidados tiveram. Depois do gozo, do estouro de sensações desconhecidas, a menina esbaforida inconscientemente pensou que o vento que tanto chamara com suas cantigas de amigo, veio materializado naquele pescador urbano, leão louro penteado e a mostrou plêiades e delícias novas. Irene lentamente aconchegou-se num manto, num canto, eram os cânticos e pouco a pouco, como quem se despede de uma noite de orgia, ela Irene, voltou ao si de quem ela não gostava muito, aguentava, voltou, ele o cigano, foi-se, ela, Hera, arrasada por voçorocas. Casou na semana seguinte na igreja dos maios.


“Ela desatinou viu", morrer alegrias, rasgar fantasias e dias e como se aquela que Irenita fora dela se apossasse e em pequeninas explosões reviveu o abril de ouro de sua vida, encostou-se, aconchegou-se no banco como um feto, um feto velho, uma quase castanha velha dormitou, sonhou e o cara acordou-a e tocava “Ela desatinou viu...’’ do Chico no som do radinho a pilha do cara que viu aquela em convulsões se enroscava no banco da praça do passeio público... E como se o nada esperasse do nada que comumente se esperará dos próximos agoras.






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28 de fevereiro de 2014
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A epidemia, conto de Claudia Marczak

por Claudia Marczak

O sol quase a pino, um calor quase infernal, quase meio-dia, num dia de muitos quases. Alguns quase perderam o ônibus, outros quase perderam a hora, uns tantos quase perderam um amor, poucos quase foram felizes. O vai e vem de pessoas fazia qualquer um desaparecer no meio da multidão, cada um com seu cada qual. Mudas e robóticas as pessoas seguiam o fluxo cotidiano: casa, trânsito, trabalho, trânsito, casa. Foi aí, no meio do tudo/nada que o homem caiu. Caiu assim à toa. Não esbarrou em ninguém, não tropeçou, não deu um grito, não reclamou de nada, apenas caiu assim, como um fruto despenca do pé. Com a mão em torno do pescoço e os olhos saltados das órbitas o homem tinha a cara do desespero. Em poucos segundos se formou uma pequena aglomeração em volta do homem caído:

- Chama a ambulância! – as vozes gritavam aflitas.

As pessoas mais solícitas tentavam todas as técnicas de emergência aprendidas na televisão. Estica o homem no asfalto, faz massagem cardíaca, dá tapinhas na cara, dá água ou qualquer coisa que o tirasse daquele estado angustiante. Nada de melhora. Ele permanecia com o olhar perdido, as mãos agoniadas como se tentassem tirar uma corda invisível que o sufocava.

A ambulância tardou apenas o tempo do trânsito caótico. Levaram o homem para hospital mais próximo. Correram com a maca e começaram a examiná-lo. Pressão um pouco alterada, mas nada preocupante. Coração um pouco acelerado, mas nada demais. Oxigenação do sangue em perfeita ordem. Temperatura elevada. Infecção, concluíram. Os exames comprovaram que nada havia. Tudo normal. E o homem agonizava, quase cianótico na maca do pronto atendimento. Dá-lhe antitérmico, analgésico, antialérgico, antibiótico e qualquer coisa que combatesse o que desconheciam. E o homem continuava com o olhar de quem pede socorro. Não falava, não gemia. Apenas tentava desfazer o nó invisível que lhe apertava o pescoço. Uma junta médica se formou. O que fazer com o que não se sabe?

- Interna e isola. – o médico chefe do plantão falou com a sabedoria da ignorância.

Assim foi feito. Levaram o homem pra um quarto isolado dos demais e passaram a monitorá-lo. De hora em hora exames refeitos, sinais vitais medidos e nenhuma melhora. O enfermeiro, entre um exame e outro, já angustiado com a agonia do homem, resolveu conversar com ele. Embora ele não conseguisse falar, talvez desse alguma pista do que estava acontecendo. Perguntas de praxe e o olhar suplicante por ajuda do homem.

- Eu queria poder ajudar o senhor...- desistiu o enfermeiro, reconhecendo sua impotência diante do desespero.

O homem, então, ergueu uma das mãos. Fez um gesto solto no ar, como quem escreve no vazio.

- O senhor quer uma caneta?

Sem palavras o homem se fez entender. Talvez quisesse deixar algum recado para alguém ou quem sabe explicar o que estava acontecendo. O enfermeiro correu e arrumou uma caneta e um bloquinho de receitas para o agonizante deixar seu recado.
Com dificuldades o homem sentou-se na cama e com as mãos trêmulas ele começou a escrever. Uma folha, duas, três. Os minutos passavam e ele escrevia compulsivamente. Um bloquinho inteiro, frente e verso. O enfermeiro conseguiu mais alguns bloquinhos e observava incrédulo o rapaz escrevendo como um louco. Achou melhor chamar o médico de plantão, que achou melhor chamar o chefe dos médicos, que achou melhor chamar a junta médica pra ver o que acontecia. O homem escrevia num transe. Não atendia aos chamados, apenas olhava para o vazio vez por outra e sorria. Ficou assim por horas, até sentir-se aliviado de si. Deu um suspiro aliviado ao escrever a última linha. Levantou-se e espreguiçou-se como quem desperta de um sono profundo.

- Estou bem – afirmou.

Os médicos não acreditavam no que viam. Nos bloquinhos escritos havia um romance, duas crônicas, quatro contos, vários poemas, alguns haicais e sonetos. Resolveram repetir todos os procedimentos já feitos. Tudo normal. O homem estava melhor do que antes. Não havia mais como mantê-lo no hospital. Enquanto decidiam o que fazer com o paciente curado por si só, um atendente interrompe o silêncio reflexivo dos doutores.

- Chegou mais um, igualzinho a esse aí.

Correram todos até a emergência. Um garoto, novo ainda, dezessete, dezoito anos talvez, com os mesmos sintomas. Exames normais, olhos saltados nas órbitas e as mãos em torno do pescoço tentando desfazer o nó. Correram com o garoto para o isolamento e o colocaram no mesmo quarto do homem, que já se sentindo muito bem, conversava animadamente sobre seus escritos com algumas enfermeiras. O moleque na cama agonizava.

- Dá um bloquinho pra ele – sugeriu um enfermeiro.

Foi feito rapidamente. É difícil olhar para os olhos do desespero. Receituário e caneta nas mãos do menino. Ele olhou aliviado ao ver a caneta em suas mãos. Desprezou o receituário e foi para as paredes. Uma enfermeira mais velha tentou impedi-lo, mas o chefe do plantão fez um sinal para deixá-lo. Traços, que se transformaram em desenhos, rostos, folhas, flores, letras, animais. Tudo brotava das paredes imaculadas do hospital. Algum tempo depois, um painel estava concluído. O rapaz suspirou aliviado e sorriu.

-Estou bem – afirmou.

Todos olharam para ele incrédulos. O garoto parecia ótimo. Olhava sua obra e comentava com as pessoas do quarto sobre a sua criação. Enquanto se decidia o que fazer com os dois curados, outro enfermeiro interrompeu os pensamentos técnicos da junta médica que se formara:

- Chegaram mais uns cinco ou seis, do mesmo jeito que esses dois. E tem mais, no refeitório o psiquiatra está cantando, acho que é essa coisa de ópera e tem umas duas ou três enfermeiras dançando.

A junta médica saiu ensandecida pelos corredores do hospital. Havia um ar caótico no local. As pessoas não paravam de chegar. Todas com os mesmos sintomas: as mãos no pescoço, os olhos saltando das órbitas, febre e desespero. Só se acalmavam depois de alguma coisa absolutamente inusitada. Havia os que cantavam, os que escreviam, os que compunham. Alguns médicos já se mostravam-se contaminados pelo estranho acontecimento. Na ortopedia, alguns faziam esculturas com o gesso. Na pediatria, desenhos coloridos invadiam as paredes e corredores. Na UTI podia se ouvir cantos e batuques. O alto falante do hospital requisitou a junta médica na sala do diretor do hospital. Algo grave estava definitivamente acontecendo.

- Senhores, estamos diante de uma epidemia nunca antes vista. Os últimos boletins afirmam que o que se passa aqui não é diferente do que acontece na cidade inteira e tudo avança em uma proporção devastadora.

O diretor ligou a televisão. Os plantões de todas as emissoras noticiavam o insólito. A cidade estava em caos. No metrô um grupo dissidente de uma grande orquestra se apresentava em plena plataforma.  Nas ruas o trânsito era interrompido por grupos de dançarinos que faziam performances entre os carros. Poemas eram ouvidos aos quatro ventos. Nas escolas as cores se espalhavam pelos muros, frutos das criações infantis.  A polícia foi chamada, mas em muitos casos os policiais se uniam ao movimento e aumentava a massa de delirantes. A junta média, atônita, assistia ao que era noticiado. Um dos médicos começou a desenhar na agenda. Outro batocava a caneta na mesa, tentando em vão controlar o impulso do ritmo, sob o olhar incrédulo dos demais.

- Em breve, senhores – prosseguiu o diretor – todos nós seremos contaminados. Não há nada que possamos fazer. A epidemia é definitiva, ninguém se salvará.

Os olhos tristes do diretor contrastavam com a luz e o brilho que a cidade emanava através de cores e sons. O mundo sucumbiria definitivamente à arte.
        

         


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27 de fevereiro de 2014
Os estranhos, conto de Maria Inez

Os estranhos, conto de Maria Inez

imagens de AndersKrisar

por Maria Inez
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Quem me visse no canto do muro, acharia estranho. Uma menina de 7 anos se arrastando com passos lentos e cansados, como uma velha.

Eu me esgueirava pesadamente, como nas tardes de sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e arrumados, depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores, medos e lágrimas. Mas naquela sexta não seria assim.

Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho. Toda essa confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados eu olhava, menos para trás. O medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha. E foi nesse instante que descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.

Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.

Havia dois guardas que patrulhavam a região na época em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai, se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da ex-patroa.

– Moço, o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.

Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para o filho da dona da casa.

Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo era feito de "estranhos".

E eu me calei.

– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o guarda, duvidando do pouco que lhe contei.

– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.

O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao dia, uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse a ler.

– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro espírita.

O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria a escola ou quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.

Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações, porcos, favores sexuais.

Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.

– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.

Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só ela me chamava de Nei.

Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a companhia do guarda.

– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.

A emoção acabou quando dona Esther apareceu.

– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.

Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente social.

Meia hora depois, mamãe voltou.

– Tô levando minha filha –, anunciou.

Eu abracei minha mãe e falei:

– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.
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24 de fevereiro de 2014
O dia em que o diabo soprou no meu cangote

O dia em que o diabo soprou no meu cangote



- Leve isso para aquela senhora, por favor.

O garçom foi lá entregar o bilhete. Ficou gesticulando e apontando para mim. Eu sorri. Ela sorriu. Me aproximei.

- Tudo bem?

- Tudo. Criativo você.

- Tentei me esforçar. Você mora por aqui? - Perguntei.

- Moro aqui na rua de trás.

Eu já conhecia a dona. Ela era a viúva do velho Matias, o “Nariz”. Foi encontrado morto no quarto de um motel. Overdose de cocaína. O dinheiro ficou. E quem o guardava estava se embebedando comigo. Fomos para sua casa.

Enquanto ela tomava banho eu me servia com o Jack Daniel's do falecido. Depois de vinte minutos ela apareceu com uma espingarda nas mãos apontada para mim.

- Calma aí, baby. - Disse eu.

- Acha que eu não sei quem você é? Aquela puta que matou meu marido no motel é sua namoradinha.

Ela engatilhou a porra de cano duplo. Senti o diabo soprando no meu cangote. Terminei o meu Jack e fechei os olhos


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18 de fevereiro de 2014
PE-DA-CI-NHOS, conto de Alex Costa

PE-DA-CI-NHOS, conto de Alex Costa

Ilustração: Felipe Campos

A volta da escola era também divertida: um, dois, três pulinhos no trilho do trem. Ziguezagueando entre pedras e ferros a pequena Maria brincava; um saltinho para cada vagão que imaginava estar vindo na locomotiva que se aproximava. Mas pedra e ferro traem; o sol do meio-dia gosta de embaraçar a vista das menininhas famintas. Com o pezinho preso no trilho de ferro, Maria gritava de dor e desespero, e de longe já ouvia cantar o trem cargueiro das doze horas. Chorava aos gritos, que era coberto pelos assobios da máquina velha e enferrujada, manuseada pelo impiedoso maquinista, que nem via a pequena.

– Socorro! Meu pezinho está preso, papai! – soluçava Maria.

Quando o trem saiu o túnel, Maria já não mais lutava para se soltar, apenas sentou-se no trilho, esmorecida e com o rostinho vermelho de tanto chorar, quando a sombra veloz e fria se aproximou, que deixou em pedaços os sonhos, o corpo e a blusinha de crochê da pobre menina Maria. 


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11 de fevereiro de 2014
Cano, Conto de Alex Costa

Cano, Conto de Alex Costa

Ilustração: Felipe Campos

por Alex Costa


Dia chuvoso. A meninada toda já se encontrava na rua, aos pulos, correndo debaixo das biqueiras que despejavam fortes rajadas d’água no casco da cabeça dos infelizes. “Sai dessa biqueira... que essa água só tem merda de gato, praga ruim!” – gritava a mãe de um deles. Reuniram-se em onze para fazer uma brincadeira: esconde-esconde (na chuva).  A rua era maltratada e cheia de buracos. Bem no meio, onde os carros passavam com todo cuidado, havia um grande buraco, cheio de madeiras ao redor, que era pra ninguém cair dentro da cratera que, na verdade, era por onde a água entrava, e era conduzida por um grosso cano até o canal; era o buraco do Tadeu, e Tadeu era um velho bêbado, conhecido de todos, que os meninos gostavam de implicar.  Escolheram então quem seria aquele que iria contar: Julinho foi o escolhido. Correram todos. A chuva cada vez mais forte, a rua completamente alagada e de água até o joelho, e nem mesmo o buraco do Tadeu estava dando de conta em escorrer aquele aguaceiro todo. Saiu Julinho então com a mão a fazer aba-de-boné sobre os olhos, forçando a vista para ver se avistava algum vulto por detrás de um poste, de algum muro. Ouviu quando três bateram na mancha, que já havia ficado um pouco atrás. Trincou os dentes, sussurrou um “puta que pariu”, continuou. Do seu lado saíram mais quatro sem que ao menos ele visse seus reflexos, bateram também. Restavam alguns. Foi aproximando-se do final da rua, quando jurou ter visto um vulto correndo para se esconder atrás do carro vermelho, parado na esquina. Era Jadin, tinha certeza que era o safado! Quis voltar e bater o amigo, mas preferiu ir mais perto para conferir. Foi andando devagarinho. Lá atrás bateram mais dois, mas Julinho queria mesmo era Jadin. O vulto se mexeu, e pelo cabelo carapinho teve certeza, era o tal Jadin. Correu desembestado para não ter o trabalho de ser o jogo novamente. Viu a rua sumir de repente na sua frente, com a água a lhe tomar o mundo, misturada a lixo, animais mortos e pedaços de pau. A vista foi ficando escura e ao longe pôde ouvir alguém dizer: “trinta e um – salve todos”. Era Jadin. E o resto do dia a brincadeira foi de caça ao fujão: cadê Julinho que não quer contar outra vez? 
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7 de fevereiro de 2014
Culpa, de Mariel Reis

Culpa, de Mariel Reis

Blossom of pain, by Edvard Munch 

por Mariel Reis

Se ela não tivesse visto o que viu talvez estivesse viva aqui conosco comigo Se ao menos tivesse fugido quando a vi, resistido, dito que não tinha visto ou escutado; que não era ela que era outra que não estava ali ou era engano Se ela erguesse a mão esbofeteasse o meu rosto recobrasse meu bom senso para não contrariá-la, não questioná-la ou argumentar contra o que parecia verdade. Ela era importante para mim e para as crianças, mesmo que mortas. Por que ela não fugiu? O que ela queria? Eu nunca tive juízo nunca Ela sabia muito bem que casou com um homem sem miolo nenhum Se ela tivesse fugido ou distraída não espiasse pelas frestas da parede de tapume e não ficasse atenta ao que não lhe dizia respeito.

Ela se disse magnetizada hipnotizada imantada à cena grudada ao que via ouvia. Nojo, revolta, desprezo, amor, ela não sabia o que sentia e não decidia pelo quê O olho arregalado, a fresta, os pés pesados, a respiração intranqüila. Os meninos, todos mortos, arrumados sobre a cama como que dormindo e o menor de colo deitado no berço chorava Irritado quis calá-lo Não consegui Esganei o coitado Ela não conseguiu tirar os pés do chão correr de tão pesados Filhos? Eu não queria filhos. Atrapalham. Ela não me ouviu Sou um sujeito sem paciência sem muito jeito Sozinho e silencioso Quando engravidou do primeiro, pedi: tira Ela disse ser contra as leis de Deus. Parava pouco em casa, dirigia caminhão, não era problema. O garoto era bonito, parecia comigo. A convivência só prestava quando ele estava quieto. Ele chorava e ela corria para ver o que estava acontecendo: se sujo ou com fome. Chorava apenas por essas duas coisas.

Eu a via uma vez ou outra, o resto do tempo na estrada e o garoto cresceu. Os outros três, com uma história muito parecida. Juntava dinheiro para comprar uma casa mudar sair daquele fim de mundo dar uma vida melhor a ela quando engravidou do segundo filho pedi para tirá-lo ela se recusou mais uma vez Eu argumentei que a vida ficaria mais difícil Ela disse não se pode contrariar as leis de Deus Perguntei se Deus pagava as contas da casa? Se Ele colocava comida à mesa? Ela pare de blasfemar, homem Não me contive e dei nela com a correia da calça para ela aprender que Deus não tinha nada com a minha vida. Ela me pedia piedade, piedade. Disse a ela, chama por seu Deus, vê se Ele vem tomar a surra por você. Pare de blasfemar, homem. Me bata e não blasfeme. Batia para ela aprender a parar de chamar por Deus, por esse sujeito intrometido que impedia de ela tirar os filhos, porque tinha lá as suas leis que não significavam nada para mim. Toda marcada, ela voltou para a cozinha sem dar um pio, sem nem mesmo praguejar ou me ameaçar de polícia ou envenenamento. O filho vai mudar você, homem, advertia enquanto me servia um prato de comida. Parece tão esperto para as outras coisas, ela pontuava, e não gosta dos próprios filhos.

Não gosto de filhos, nunca tive vontade de tê-los O mais velho não conversava muito, parecido mesmo comigo. Comia a pouca comida, calado. O mais novo, nos peitos da mãe, com o choro irritante. Vezenquando o mais velho viajava comigo, gostava dele. Era quieto, falava pouco -, só o necessário. Se ela não tivesse visto o que viu a gente podia sair por aquela porta passear tomar um sorvete ir ao cinema namorar ir para um hotel e tudo seria tão diferente... Perguntei a ela o que você viu? Nada. Nada? Ela tremia. Não vi nada E os seus filhos? Você não os botou para dormir? Estão dormindo, sim Os três e o menor Eu sei, homem, eu sei Sabe mesmo? Sim Vá se lavar a gente vai sair Não tô com vontade de sair Não tá? O resto do dia está livre E a gente vai sair Tá bem, vou me lavar Ela foi tomar a chuveirada no banheiro atrás da casa, tirou o vestido florido, pendurou em uma das paredes improvisadas Lavou a longa cabeleira enegrecida Parecia mais jovem quando se banhava. Ficava outra mulher. Tranquei a porta de casa, não sem antes tirar de lá uma trouxa de roupa. Ela tomava um banho demorado. Talvez o medo, talvez. O tempo todo eu parado olhando ela pelada pisando sobre as tábuas - a água do banho empoçando - a espuma do sabonete escorrida por entre o capim Fechou o chuveiro A água fria parecia tê-la feito recobrar a calma.

Recomposta pediu as roupas Escolheu meu vestido, é? Quanto tempo você não me escolhe roupa Eu ri, alisei minha barba, olhei aquela bunda bonita sumir dentro do tecido A casa ficará trancada. Os meninos não vão ter necessidade Ela não discutiu Penteou-se diante de um caco de espelho preso a parede dos fundos da casa Se ela ao menos tivesse fugido Não fugiu Agia naturalmente Cadê o perfume? Não precisa de perfume nenhum Tinha esquecido a colônia que dei para ela de presente de aniversário O cheiro era bom Eu gostava Gosto de cheiro de mulher, despistei assim, ela olhou para trás com aqueles olhos que o meu filho caçula parecia ter herdado Não tá demorando demais não? Calma, se tá tudo bem, por que a pressa? As crianças dormindo. A noite é nossa Se ela me esbofeteasse para recobrar o bom senso se tivesse interferido Eu nunca tive juízo nunca Passou pela estrada um caminhão anunciando na agremiação a festa da noite É lá que nós vamos? Sim. Sem calcinha sem sutiã com uma sandália de salto vestido leve Os seios espetavam o tecido Era uma boa mulher, apesar dos filhos todos. Me esforcei para estragá-la Não consegui

Parece uma menininha, aquela que conheci na estrada, em minha primeira viagem Cobrava pouco mais de trinta reais para se deitar num colchão à beira da estrada no meio do mato para o amor apressado Parecia, mais uma vez, aquela menina: Sonho em ser mãe Eu não gosto de crianças Você não tem um, quando tiver... Deus não vai me castigar dessa maneira Criança não é castigo Apaguei as luzes, peguei a bicicleta. Ela na garupa Os seios roçavam às minhas costas, agarrava a minha cintura O mais velho me voltava ao pensamento: ele parecia mesmo comigo. Ela perguntou o que deu em mim Vontade de ficar sozinho com você. Sozinho com você e com o mundo. Por que não me pediu isso antes? Você ocupada com os filhos: eles em primeiro lugar. Não podia montar em você: A, B , C ou estavam acordados ou não tinham jantado ou não estavam limpos. Agora a gente tá aqui. É, a gente tá aqui.

O caminhão na revisão. A semana inteira ouvindo toda a gritaria das crianças toda exigência estúpida Com o caminhão no conserto, podia fazer muito pouco, não podia ir para longe, vê-los apenas de vez em quando, igual sempre fiz Estavam com a mãe, eu pensava, ou pior: não são meus filhos. Pior não, melhor. Meus filhos eram aqueles quatro – silenciosos - envolvidos na escuridão do cômodo, sem a requisição constante do pai ou da mãe Os quatro dormindo profundamente sob a chama da lamparina de querosene, no único cômodo, imóveis, obedientes ao silêncio respeitoso do pai e de suas necessidades de homem eram os meus filhos O bando ruidoso deprimente, não

 Ela grudada às minhas costas Passei do clube dançante pedalei para longe das poucas luzes do lugar A estrada se tornou difícil Dócil ela levantou-se da garupa da bicicleta caminhou ao meu lado no trecho da via. Era uma estrada secundária passavam poucos veículos. Os motoristas não estranhavam em nos ver caminhando pelo acostamento Havia uma ou outra casa por perto Os faróis a assustavam. A noite, não. A gente chega já, já, falei olhando para o rosto dela na escuridão Pareceu concordar Passei a mão em sua silhueta, puxando-a para perto de mim Ela não resistiu Não reclamou feito das outras vezes não disse olhe as crianças, homem Controle-se O mais velho era mesmo parecido comigo talvez eu tivesse gostado dele

Caminhamos por mais uns cem metros, apareciam pontos de prostituição. Várias mulheres na beira da estrada, iluminadas pelos faróis dos poucos veículos. Sem eles, sombras recortadas contra o fundo da noite, sem identidade. Parei perto de uma delas Programa, moço? Pra dois é mais caro Não quero sem vergonhice Quanto você quer para ir embora daqui, arrumar outro ponto? O quê? Perguntei o quanto você quer para sumir, está surda? A putinha não gostou nada do que ouviu, reagiu aos gritos, quando a esmurrei e ela para não cair agarrou-se às minhas pernas Mais uma vez a golpeei. A putinha caída, quieta. Falei para minha mulher tomar conta da bicicleta. Removi o corpo magro da prostituta para um lugar doutro lado da estrada, no matagal Fez um ruído seco quando a arremessei. Voltei. O colchão deve estar por perto, disse. Ela segurava o guidão da bicicleta, seguia calada pelo trecho da estrada. Um caminhão parou ao nosso lado Quanto é? Depende? Depende do quê? Você não quer conversar? O caminhoneiro desconfiado seguiu adiante.

Encontramos o lugar do colchão. Pulamos a mureta da estrada, levantei a bicicleta, coloquei-a bem perto de um galão de água e um caixote com uma garrafa térmica de café e papel higiênico e uma bacia. Ela - parada ali -, minha mulher. Não era mais uma à toa. Fiz o jogo: Quanto é, dona? Pra você é de graça Assim, não Quanto é, dona? A brutalidade da minha voz a convenceu de que eu não representava. Pelo quê? Por tudo? Você não vai ter dinheiro para pagar e levantou o vestido Joguei em cima dela todo meu dinheiro Taí, agora deita. Abre as pernas. Ela deitou-se no colchão imundo. Tá sentindo o cheiro de homem, cadela? Puxei-lhes os cabelos longos e enegrecidos. Não é por aí, não. Fica de quatro. Ela obedeceu. Empina a porra da bunda, empina. Gritei.

Ela voltou ao passado.


Passa sempre aqui? Gosta de crianças? Não, não gosto. Coincidência, eu também não. A noite coberta de estrelas, os meninos dormiam profundamente, a gente não precisava temer que acordassem. Você tem filhos? Não, nenhum. Quer filhos? Não. Você tem marido? Não. Por que não larga a vida e vem viver comigo? Os saltos do sapato espetavam a minha barriga Os mosquitos infernizavam. A lua emprestava o romantismo possível Ela levantou-se, retirou um pedaço de papel para a higiene, agarrou a minha barba e o meu cabelo, olhou fundo nos meus olhos, Você pode passar em outra hora, tô em horário de expediente. Ajeitou o vestido, andou em direção a mureta de segurança, saltou-a. Um caminhão passava. Ela suspendeu o vestido. Os faróis iluminavam-na. Quanto é? Ouvi. Observava de longe, afastado alguns metros do colchão. Me aproximei outra vez Você aqui de novo? Ela me disse Agora, chega. Sobe aí Você vem comigo Sabe, comecei, já fui casado, tive quatro filhos O que aconteceu? Morreram em um acidente Quer ouvir minha história? 
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31 de janeiro de 2014
684 (Conto)

684 (Conto)


por Mariana Belize
-E o que vocês fazem juntos? Me conta!

Ela prestava atenção ao barulho da chuva batendo nos telhados. Não queria ficar ali embaixo e saiu rapidamente, sentindo com prazer a chuva gelada molhar os cabelos e as roupas pesadas. Desprotegida.

-Conversamos.

-Sério? Mas como você consegue?

-Quê?

Agora que a chuva caía pesadamente, a garota sob a marquise branca encolheu os ombros e cruzou os braços, temendo as ameaçadoras gotas de chuva. Essa ventania já está me congelando o bastante, ela pensou. Insistiu:

-Ele não leva nada a sério. Como você consegue manter um mísero diálogo?

-Conversamos coisas... - foi interrompida bruscamente.

-Ou será que você esconde suas piadas e só mostra pra ele? - não pareceu ouvir o que a outra respondeu. Ou apenas não deu atenção, como era o normal.

-Você sabe que não sou assim. – e tirou o casaco. Precisava se molhar mais. Aquilo era um procedimento de limpeza e já não tinha muita consciência do que dizia. Não precisava mais da consciência. Não queria ter que responder a mais nada. Queria estar sozinha ali e não dando explicações do que pensava ou fazia. Muito menos do que conversava com ele. O Tudo. O Perfeito. O Noivo.

-Você vai ficar doente. Nós vamos ficar doentes. Eu não quero ficar doente.

-Não me importo. Daqui a pouco vou me deitar e amanhã vai ser o mesmo de hoje. Os dias, querida, são todos iguais.

-Lá vem você com essa tua ironia maldita. Vou pra casa, tá frio demais aqui e você tá chata. - e repetiu para si mesma num sussurro - Não quero ficar doente. Não quero. Nada de doença. Doença é ruim.

A garota tentou abraçar a outra desajeitadamente e depois, correu, pondo o capuz do casaco sobre a cabeça. A outra ficou parada com um ar de escárnio. A mesma estratégia desde a infância. "Ela nunca aguenta a ironia.", pensou. Enquanto isso, pôde sentir os pés molhando-se finalmente dentro dos sapatos. Eram o último reduto onde a água não tinha entrado.

Limpa.

Um trovão e estilhaços de raios brilharam no céu por um segundo. Não se assustou e esse fato a deixou desconcertada consigo mesma. "O quanto desse tudo de mim não conheço?", pensou. Sentou no meio-fio e olhou os carros passarem, bem devagar, pelas ruas esburacadas do condomínio. Sentia-se observando animais em cativeiro. Ela também era um deles, no pior estado possível, porque sabia da angústia da morte à espreita nos anos arrastando-se por todos os corpos. Esmagando-a, o Tempo era o companheiro inseparável da Morte. Devoradores.

Riu de si mesma, imaginando a diretora do condomínio com as paredes cobertas de facas, foices, armas, estacas, cruzes de diversos tamanhos e tipos. Lembrou do apelido que dera à mulher estranha: Átropos.

Devagar, a chuva foi diminuindo. O frio estava mais dolorido, deixando as mãos meio anestesiadas e as pontas dos dedos arroxeadas. Com a cabeça entre os joelhos, cabelos colados no rosto, pingando vertiginosamente na calça jeans ensopada. O casaco, ao lado dela, parecia uma bola de lama: sujo e molhado, ela o empurrou distraidamente até que caísse num buraco. Tirou os sapatos, as meias furadas. Jogou no buraco da rua.

Céu cor de chumbo. A garota não sabia se ia para o conforto do lar ou se caminhava por aquelas ruas nas quais nunca se perderia. Confortável, de qualquer forma. O não-perder-se era rotina. A rotina era a rotina. Dia-a-dia. Pensou outra vez em ir para casa, o conforto do lar seduzindo suas carências, mas percebeu que ainda estava sentada no meio-fio, olhando as poças de água barrenta e aceitou a môira.

Não.

Deveria ter feito como a amiga, deveria não ter se molhado, deveria estar em casa, rindo de um programa qualquer da televisão, comendo biscoitos da avó, brincando com o cachorro... Mas ficou ali porque, se não sabia o que fazer? Sabia o que abandonaria.

Não, não levarei nada de mim.

Porém, permitiu a si mesma estar onde queria estar. Só, da maneira como desejou tanto.

Foi arremessada por uma rajada de vento. Caiu deitada na calçada, esfregou os olhos e levantou-se assustadíssima. Olhou para os dois lados, para cima e viu aquilo voando. Asas negras, ela pôde ver, mas de quê?

Sorriu.

Aquilo foi descendo. Era uma criatura com asas. Os olhos brancos, algo como uma boca arreganhada com várias fileiras de dentes pontiagudos...  Demônios não existem, ela disse para si mesma.

-E então, pequena, pronta para voar?

Sentiu-se arrastada pela cintura e foi, de alguma maneira, acoplada ao corpo estranho. Gelado.  Grudada à rigidez daquele ser,  observou um tentáculo ventoso em seu pulso. Corte e sucção lenta. 

Arrebatada aos céus, sentiu-se passar pelas nuvens. Tentou questionar, mas desistiu ao chegarem em determinada altitude na qual se sentia sufocada. Tentou questionar a si mesma, não conseguia raciocinar. Desistiu de questionar. Entregou-se. Um raio brilhou no olhar da criatura e ela experimentou um êxtase supremo.

Estavam parados no ar e ela ouvia o bater das asas, firme e terrível. Olhou a cidade embaixo de seus pés. Sorriu enquanto fechava os olhos devagar, confiando à memória aquela imagem: dois orbes brancos que não piscavam.

- E então, pequena, pronta para voar?

Um assobio alto e sentiu-se escorregar pelo corpo da criatura. Alguma angústia gritou dentro dela, o coração batendo forte, mais forte, mais forte. Dois orbes brancos que não piscavam.

Sorriu.

A criatura observou, longínqua, o pequeno corpo esparramado pelo asfalto.


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22 de janeiro de 2014
Os moradores da torre (Conto)

Os moradores da torre (Conto)


por Maik Wanderson

Eles chegaram primeiro.

Eles eram os habitantes mais antigos daquele terreno inóspito. Estavam ali desde antes dos homens, desde antes das ruas. Surgiram no mesmo tempo das árvores, antes que o carnaubal desse lugar ao campo em que se cultivam nada mais que mortos e lembranças de vivos.

Eles viram o juazeiro erguer-se severo, pomposo. Assistiram ao espetáculo do ipê debulhando o roxo na terra quente. E presenciaram também o dia em que os homens derrubaram os troncos antigos, desabrigaram famílias, trouxeram seus muros, suas estradas, seus mortos.

Em poucos meses se ergueu o que souberam ser uma capela. A cada domingo chegavam os homens em mutirão. Uns doavam tijolos, outros areia, cimento; o pároco conseguira as carradas d’água na prefeitura; e quem não tinha o que doar trazia nas mãos o trabalho como oferta.

Onde antes havia a caatinga, agora se via a torre amarela encandeando as vistas de quem passasse. E era ali que eles moravam – despejados na derrubada das árvores, refugiaram-se no alto da igreja.

Ali imperavam os moradores ancestrais, os primeiros e eternos donos do lugar, marcando o chão com sua sombra, tão negra quanto eles próprios.

Os dias eram sempre quentes, e à tardinha sempre corria o vento vindo do litoral. Tempos atrás o ar sibilava por entre as palhas da carnaubeira e trazia assombrosos e lindos uivos do Aracati.

Agora a brisa batia muda e seca no paredão da capela, e eles aproveitavam ao menos para planar, observando as poucas pessoas que apareciam.

Havia dias, no entanto, ao menos uma vez por semana, em que as portas do prédio agourento se abriam, recebendo uma pequena multidão.

Era a única ocasião em que havia muitos vivos por ali, e do alto os antigos moradores assistiam ao evento. Chegavam as famílias de preto, trazendo o morto encaixotado à frente. Era sempre momento de muito choro, e os seres da torre fitavam cada movimento daqueles que pisavam o chão.

Era repetido sempre o mesmo rito – uns logicamente o performavam de maneira suntuosa, enquanto que outros entregavam seus mortos à terra de modo tão pobre quanto viviam. Mas a essência do ritual permanecia a mesma em todos os casos. Chegavam os chorosos em procissão, trazendo o defunto; passavam pouco mais que meia hora na capela, cantando e recitando certas frases que decoravam sem entender muito bem; lacravam o esquife, para então depositá-lo no solo. Por fim, após soterrar o ente que se fora, ornamentavam o leito de podridão com flores de papel, velas, terços e estatuetas.

Houve, porém, certa vez em que se rompeu a santa rotina do sepultamento. Uma vez, para nunca mais ser esquecida, para ser exemplo. Um lapso que seria mencionado em tom de admoestação em cada velório que viesse a acontecer naquele campo pútrido.

Chegando o cortejo defronte à capela, ouviram-se gritos de uma das mulheres. Empasmecida, ela apontava para o morto, que inexplicavelmente abrira os olhos.

A histeria se espalhou entre todos, e quando um dos homens soltou o caixão, os outros perderam o equilíbrio, derrubando o cadáver na calçada. De ventre para cima, o corpo inerte parecia contemplar o céu refletido em seus olhos de um azul vibrante.

Do alto, os moradores da torre ficaram fascinados por aqueles dois pontos de luz azul. O maior deles, mais afoito, mergulhou insolente, e na tentativa de levar para si um dos olhos, conseguiu somente furar o rosto do defunto, desfazendo o trabalho do tanatopraxista.

Os familiares do morto avançaram revoltosos, tentando espantar o invasor. Foi nesse instante que uma revoada negra avançou sobre as pessoas, que correram para o interior da igreja apavoradas, cobrindo o rosto com as mãos, clamando rezas desesperadas ao deus dos homens.

Mas Eles viviam ali antes mesmo do deus dos homens. E desde aquele dia, todos haveriam de lembrar que Eles chegaram primeiro.


E quando cada uma daquelas pessoas morresse, os moradores da torre ainda estariam lá, no alto, esperando, observando.
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