684 (Conto)
-E o que vocês fazem juntos? Me conta!
Ela prestava atenção ao barulho da chuva batendo nos telhados. Não
queria ficar ali embaixo e saiu rapidamente, sentindo com prazer a chuva gelada
molhar os cabelos e as roupas pesadas. Desprotegida.
-Conversamos.
-Sério? Mas como você consegue?
-Quê?
Agora que a chuva caía pesadamente, a garota sob a marquise branca
encolheu os ombros e cruzou os braços, temendo as ameaçadoras gotas de chuva.
Essa ventania já está me congelando o bastante, ela pensou. Insistiu:
-Ele não leva nada a sério. Como você consegue manter um mísero diálogo?
-Conversamos coisas... - foi interrompida bruscamente.
-Ou será que você esconde suas piadas e só mostra pra ele? - não pareceu
ouvir o que a outra respondeu. Ou apenas não deu atenção, como era o normal.
-Você sabe que não sou assim. – e tirou o casaco. Precisava se molhar
mais. Aquilo era um procedimento de limpeza e já não tinha muita consciência do
que dizia. Não precisava mais da consciência. Não queria ter que responder a
mais nada. Queria estar sozinha ali e não dando explicações do que pensava ou
fazia. Muito menos do que conversava com ele. O Tudo. O Perfeito. O Noivo.
-Você vai ficar doente. Nós vamos ficar doentes. Eu não quero ficar
doente.
-Não me importo. Daqui a pouco vou me deitar e amanhã vai ser o mesmo de
hoje. Os dias, querida, são todos iguais.
-Lá vem você com essa tua ironia maldita. Vou pra casa, tá frio demais
aqui e você tá chata. - e repetiu para si mesma num sussurro - Não quero ficar
doente. Não quero. Nada de doença. Doença é ruim.
A garota tentou abraçar a outra desajeitadamente e depois, correu, pondo
o capuz do casaco sobre a cabeça. A outra ficou parada com um ar de escárnio. A
mesma estratégia desde a infância. "Ela nunca aguenta a ironia.",
pensou. Enquanto isso, pôde sentir os pés molhando-se finalmente dentro dos
sapatos. Eram o último reduto onde a água não tinha entrado.
Limpa.
Um trovão e estilhaços de raios brilharam no céu por um segundo. Não se
assustou e esse fato a deixou desconcertada consigo mesma. "O quanto desse
tudo de mim não conheço?", pensou. Sentou no meio-fio e olhou os carros
passarem, bem devagar, pelas ruas esburacadas do condomínio. Sentia-se
observando animais em cativeiro. Ela também era um deles, no pior estado
possível, porque sabia da angústia da morte à espreita nos anos arrastando-se
por todos os corpos. Esmagando-a, o Tempo era o companheiro inseparável da
Morte. Devoradores.
Riu de si mesma, imaginando a diretora do condomínio com as paredes
cobertas de facas, foices, armas, estacas, cruzes de diversos tamanhos e tipos.
Lembrou do apelido que dera à mulher estranha: Átropos.
Devagar, a chuva foi diminuindo. O frio estava mais dolorido, deixando
as mãos meio anestesiadas e as pontas dos dedos arroxeadas. Com a cabeça entre
os joelhos, cabelos colados no rosto, pingando vertiginosamente na calça jeans
ensopada. O casaco, ao lado dela, parecia uma bola de lama: sujo e molhado, ela
o empurrou distraidamente até que caísse num buraco. Tirou os sapatos, as meias
furadas. Jogou no buraco da rua.
Céu cor de chumbo. A garota não sabia se ia para o conforto do lar ou se
caminhava por aquelas ruas nas quais nunca se perderia. Confortável, de
qualquer forma. O não-perder-se era rotina. A rotina era a rotina. Dia-a-dia.
Pensou outra vez em ir para casa, o conforto do lar seduzindo suas carências,
mas percebeu que ainda estava sentada no meio-fio, olhando as poças de água
barrenta e aceitou a môira.
Não.
Deveria ter feito como a amiga, deveria não ter se molhado, deveria
estar em casa, rindo de um programa qualquer da televisão, comendo biscoitos da
avó, brincando com o cachorro... Mas ficou ali porque, se não sabia o que
fazer? Sabia o que abandonaria.
Não, não levarei nada de mim.
Porém, permitiu a si mesma estar onde queria estar. Só, da maneira como
desejou tanto.
Foi arremessada por uma rajada de vento. Caiu deitada na calçada,
esfregou os olhos e levantou-se assustadíssima. Olhou para os dois lados, para
cima e viu aquilo voando. Asas negras, ela pôde ver, mas de quê?
Sorriu.
Aquilo foi descendo. Era uma criatura com asas. Os olhos brancos, algo
como uma boca arreganhada com várias fileiras de dentes pontiagudos... Demônios não existem, ela disse para si
mesma.
-E então, pequena, pronta para voar?
Sentiu-se arrastada pela cintura e foi, de alguma maneira, acoplada ao
corpo estranho. Gelado. Grudada à
rigidez daquele ser, observou um
tentáculo ventoso em seu pulso. Corte e sucção lenta.
Arrebatada aos céus, sentiu-se
passar pelas nuvens. Tentou questionar, mas desistiu ao chegarem em determinada
altitude na qual se sentia sufocada. Tentou questionar a si mesma, não
conseguia raciocinar. Desistiu de questionar. Entregou-se. Um raio brilhou no
olhar da criatura e ela experimentou um êxtase supremo.
Estavam parados no ar e ela ouvia o bater das asas, firme e terrível.
Olhou a cidade embaixo de seus pés. Sorriu enquanto fechava os olhos devagar,
confiando à memória aquela imagem: dois orbes brancos que não piscavam.
- E então, pequena, pronta para voar?
Um assobio alto e sentiu-se
escorregar pelo corpo da criatura. Alguma angústia gritou dentro dela, o
coração batendo forte, mais forte, mais forte. Dois orbes brancos que não
piscavam.
Sorriu.
A criatura observou, longínqua, o pequeno corpo esparramado pelo
asfalto.

Parabéns Mariana. Que seja o primeiro de muitos outros a serem publicados.
ResponderEliminarObrigada pela presença, pela leitura... Por tudo.
EliminarBeijo, pai.
Nem sei o que dizer... Estava bom, como estava. Agora, complementado, ficou bem melhor.
EliminarUma boa revisão faz milagres.
EliminarMuito bom! Calafrios depois da "criatura"!
ResponderEliminarOi, Lucas!
EliminarCalafrios, é? hahaha Que bom, que bom!
:)