Olhos de Mirela, conto de Alex Costa
– Meu pai disse que nós voltaremos lá
ano que vem, duas vezes – disse Mirela, de nariz empinadinho, entre uma pernada
e outra, no deslizar dos patins.
O som do quebrar das ondas atrapalhava
um pouco o discurso da viajante. O mar parecia bravio, desconhecia Orlando.
– Ganhei também um I-pod rosa, um tablet das
princesas loiras e aproveitei pra trocar o note.
Comprei tudo na Disney – ao olhar para as amigas que haviam ficado um pouco
mais atrás, Mirela prendeu a roda dos patins em um buraco no piso do calçadão,
torceu o pé, bateu com a cabeça no meio fio.
– Corre, gente... a Mirela caiu e está
toda se debatendo no chão quente! Acorda, Mirela... acorda! – todas gritavam.
Correu Aparecida, filha da rendeira da
orla, com sainha de renda e blusa de crochê.
– Moça, aguenta ai que a ambulância já
tá chegando, visse!
Mirela, agarrada à barra da saia da
menina-mulata, sentia nas mãos a suavidade do algodão macio, emaranhando os
dedos roxos pelos buraquinhos da renda branca, arfando sem ar. Teve ainda
forças para virar-se de lado, com duas lágrimas a correr pelos trilhos rosados
do rostinho pueril, e morreu olhando o sol descendo com todo o seu esplendor
sobre as águas verdes da praia de Iracema.
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