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20 de março de 2014

Garrafinha, conto de Alex Costa



Garrafinha era mesmo levada e levada. Aquele areia parecia mágica ao toque de seus pezinhos: “calce a chinelinha, Garrafinha, que é pra não pegar frieira!... Essa areia tá empestada de xixi e cocô de cachorro.” – preocupação válida. Como era sapeca a menina Garrafinha! A ida à praia era sempre um evento para a pequenina. Fazia mil e uma perguntas à mãe no dia anterior: “mas a gente vai pr’aquela que tem aquelas aranhas vermelhas na água, mamãe?” – e o riso das tias solteiras. “Não, Garrafinha! Nós iremos àquela que tem a estátua daquela índia que você tem medo.” Tinha o cabelo de cachinhos, pretinhos como a asa da graúna, irecemianos.  

- Epa! Volte pra cá, bonitinha! – era Garrafinha querendo aventurar-se pelo restante da areia desconhecida.

Hora do almoço. 

- Te aquieta nesta cadeira, criatura! Que nós só vamos mergulhar quando o sol baixar. Quer ficar doente, é?

- Mas, mamãe! Eu quero ir loooogo... não quero mais brincar na areia!- e a carinha de emburrada.

Mas engana-se quem pensa que Garrafinha se dava por vencida assim, tão facilmente. Logo depois do almoço, quando todos descansavam, escavacando os dentes amarelados, a pequena, que tinha espírito aventureiro, foi passear por ai.

- PelamordiDeus! Achem a minha filha, minha pequena. – era o pranto e os soluços de uma mãe desesperada, desfalecida de dor.

Corre uma multidão ao apito do salva-vidas. Um corpinho boiando no mar. As mães seguram seus filhos temendo o pior, e os pequenos querendo correr para ver o que era aquele aglomerado de cochichos e mãos sendo levadas à boca:

era Garrafinha sendo trazida na maré, sem recado nenhum, apenas de olhinhos fechados e a barriguinha cheia de água salgada, com a pazinha vermelha segurada na mãozinha rígida, sem ter a oportunidade de com ela concluir o castelo inacabado que construía na areia fofa, à sombra da barraca.


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