Garrafinha, conto de Alex Costa
Garrafinha
era mesmo levada e levada. Aquele areia parecia mágica ao toque de seus
pezinhos: “calce a chinelinha, Garrafinha, que é pra não pegar frieira!... Essa
areia tá empestada de xixi e cocô de cachorro.” – preocupação válida. Como era
sapeca a menina Garrafinha! A ida à praia era sempre um evento para a
pequenina. Fazia mil e uma perguntas à mãe no dia anterior: “mas a gente vai
pr’aquela que tem aquelas aranhas vermelhas na água, mamãe?” – e o riso das
tias solteiras. “Não, Garrafinha! Nós iremos àquela que tem a estátua daquela
índia que você tem medo.” Tinha o cabelo de cachinhos, pretinhos como a asa da
graúna, irecemianos.
-
Epa! Volte pra cá, bonitinha! – era Garrafinha querendo aventurar-se pelo
restante da areia desconhecida.
Hora
do almoço.
-
Te aquieta nesta cadeira, criatura! Que nós só vamos mergulhar quando o sol
baixar. Quer ficar doente, é?
-
Mas, mamãe! Eu quero ir loooogo... não quero mais brincar na areia!- e a
carinha de emburrada.
Mas
engana-se quem pensa que Garrafinha se dava por vencida assim, tão facilmente.
Logo depois do almoço, quando todos descansavam, escavacando os dentes
amarelados, a pequena, que tinha espírito aventureiro, foi passear por ai.
- PelamordiDeus!
Achem a minha filha, minha pequena. – era o pranto e os soluços de uma mãe
desesperada, desfalecida de dor.
Corre
uma multidão ao apito do salva-vidas. Um corpinho boiando no mar. As mães
seguram seus filhos temendo o pior, e os pequenos querendo correr para ver o
que era aquele aglomerado de cochichos e mãos sendo levadas à boca:
era
Garrafinha sendo trazida na maré, sem recado nenhum, apenas de olhinhos
fechados e a barriguinha cheia de água salgada, com a pazinha vermelha segurada
na mãozinha rígida, sem ter a oportunidade de com ela concluir o castelo
inacabado que construía na areia fofa, à sombra da barraca.
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