Os estranhos, conto de Maria Inez
![]() |
| imagens de AndersKrisar |
por Maria Inez
Quem me visse no canto do muro, acharia estranho. Uma
menina de 7 anos se arrastando com passos lentos e cansados, como uma velha.
Eu me esgueirava pesadamente, como nas tardes de
sexta-feira, quando já sobrecarregada e esgotada de tantos cômodos limpos e
arrumados, depois dos fins de semana que dona Esther reunia sua família
numerosa, escandalosa e bêbada, eu caía na cama para um sono cheio de dores,
medos e lágrimas. Mas naquela sexta não seria assim.
Naquele dia, a família de Dona Esther na sala fazia
uma algazarra para comemorar o aniversário do seu único filho. Toda essa
confusão me empurrava para frente. Somente eu sabia que estava fugindo quando
enfim cheguei à rua deserta. Para todos os lados eu olhava, menos para trás. O
medo de voltar era maior do que o de estar ali sozinha. E foi nesse instante que
descobri uma palavra estranha, sem saber pronunciá-la direito: esperança.
Angustiada, e receosa do que poderia acontecer, tinha
como refrigério a fé em que iria encontrar minha mãe, custasse o que custasse. Faria
qualquer coisa para isso acontecer. Ao avistar um guarda, a dúvida me desafiou.
Havia dois guardas que patrulhavam a região na época
em que morava com minha mãe e meus irmãos num centro espírita na rua Uranos. Um
deles era tão violento quanto dona Esther, a mulher da qual eu estava fugindo. O
outro era amável e educado, ajudava minha mãe a atravessar a rua nos dias frios
em que sua perna esquerda, inutilizada após uma surra do seu crudelíssimo pai,
se ressentia de dores tão terríveis quanto as minhas sextas-feiras na casa da
ex-patroa.
– Moço, o senhor conhece a minha mãe? – perguntei com
a apreensão de quem só tem uma alternativa.
– Não, menina – disse-me ele, desinteressado. Não sei
nem quem é você.
– Moço, eu quero ver minha mãe.
Estranhando meu apelo, pediu para que lhe contasse
minha história. Pensei em dizer tudo: que vivia presa numa casa onde, além de
apanhar por qualquer erro, passava os dias limpando todos os cômodos, dava
comida para os porcos e as galinhas e era obrigada a fazer favores sexuais para
o filho da dona da casa.
Lembrei-me dos conselhos de minha mãe: "Não fale
com estranhos". Desde que ela me deixara na casa de dona Esther, o mundo todo
era feito de "estranhos".
E eu me calei.
– Mas a sua mãe não vem te visitar? – perguntou o
guarda, duvidando do pouco que lhe contei.
– Minha patroa falou que minha mãe está viajando.
O guarda pediu o nome da minha mãe e o endereço de
onde morávamos até o dia em que ela acreditou que poderia me proporcionar um
melhor futuro se fosse morar com dona Esther. Um futuro com três refeições ao
dia, uma cama quente para dormir e principalmente uma escola onde eu aprendesse
a ler.
– A gente morava na rua Uranos, – falei – em um centro
espírita.
O guarda anotou tudo e aconselhou-me a voltar para a
casa de minha algoz – essa palavra eu conhecera, com as faces avermelhadas
pelos tapas que recebia, nos momentos em que lhe perguntava quando frequentaria
a escola ou quando não concordava em entrar no quarto de seu filho.
Antevendo uma nova sessão de espancamentos, voltei
para a casa de D. Esther. Sorte minha que a festa continuava animada e nem deram
por minha falta. Quando estivessem fartos, eu teria que limpar e arrumar todos
os cômodos e o quintal. A vida se repetiria enfadonha como as batidas do
relógio da sala, cujas horas nunca aprendera a ler: vassoura, cachorros, rações,
porcos, favores sexuais.
Esqueci-me do guarda. Fui ao quintal fazer minhas
obrigações de todas as sextas-feiras: deixá-lo limpo para os encontros
familiares do fim de semana, tão repetitivos quanto minhas tarefas.
– Nei, gritou uma voz conhecida no momento em que estava
me agachando com a pá para recolher o cocô dos cachorros.
Sem levantar a cabeça, sabia que era minha mamãe: só
ela me chamava de Nei.
Corri em sua direção. Abracei-a, sem perceber a
companhia do guarda.
– Que saudade, minha filha – dizia apertando-me.
A emoção acabou quando dona Esther apareceu.
– Por que você mentiu pra minha filha? – gritou mamãe.
Mamãe, o guarda e algumas outras pessoas foram para
dentro da casa, onde, a portas fechadas, tiveram uma tensa conversa. Enquanto
isso, fiquei na companhia de uma mulher que se apresentou como assistente
social.
Meia hora depois, mamãe voltou.
– Tô levando minha filha –, anunciou.
Eu abracei minha mãe e falei:
– Eu quero morar na rua, eu quero passar fome, passar
frio... mas nunca mais quero viver com estranhos.

0 comentários:
Enviar um comentário