Os clássicos que você nunca vai ler
Todo mundo
começa a vida de leitor de forma errática, entre tateando e experimentando de
tudo, e não há problema algum nisso, nem motivos para colocar as mãos na cabeça
e se perguntar “Ó Deus, por que eu li toda a coleção da Agatha Christie aos 15
anos, quanto tempo desperdicei!” e bobagens do gênero. Você não desperdiçou
nada. Você leu toda a Agatha Christie aos 15 (ou Sidney Sheldon, ou Danielle
Steel, ou Robin Cook) justamente por isso: porque você tinha quinze anos.
Lamenta-se, mas passar por isso aos quinze é não apenas aceitável, é
compreensível. Difícil é entender aquele seu colega que, com o dobro disso ou mais,
continua nisso ou naqueles que vieram nas gerações seguintes, como Marian Keys
ou Nicholas Sparks.
Acontece que, geralmente, vamos apurando o
nosso gosto e perfil literário ao longo da vida. Conhecemos pessoas que nos
apresentam obras que nos fazem questionar tudo aquilo que aprendemos a colocar
em xeque; quando não, questionam a nós mesmos. Passeamos por livrarias,
bibliotecas, pelo Google. Professores nos mostram obras, enfim, as
possibilidades são inúmeras.
Assim é que,
quando menos nos deparamos, estamos lendo outras coisas, numa transição que vai
se dando ao natural.
Ressurgem,
então, os clássicos. Digo ressurgem por uma razão óbvia. Se você nasceu no
Brasil, já se deparou com eles em algum momento da vida estudantil. Ou pelo
menos com a ideia deles. Quem nunca foi obrigado a ler Machado de Assis, José
de Alencar? Claro que eles não são clássicos universais, comumente aceitos
entre o cânone ocidental, mas são clássicos brasileiros. Se duvidar, é por
causa deles que muitos colegas e amigos seus odeiam ler até hoje. Mas não é
desse tipo de clássico que estou falando.
Estou me
referindo aos clássicos que você quer – ou diz que quer – mas nunca vai ler.
Vamos refletir
um pouco: o mundo editorial lança milhões de livros por ano. As tentações são
muitas. As oportunidades, idem. Aqueles grandes autores contemporâneos que você
tem por ler sendo amplamente discutidos, e você vai se debruçar sobre Guerra e Paz ? Sei.
É lindo sair
dizendo por aí que você ainda não leu Ulisses,
mas que “morre de vontade”. Isso faz você parecer inteligente, e ainda por
cima, humilde. “O cara lê muito, excelente leitor, mas ainda não leu Ulisses, embora queira muito.
Coitado, com essa vida corrida dos dias de hoje...”. Pronto, fez-se um candidato
a gênio.
Convenhamos:
você já teve que ler muito sobre esses clássicos pras aulas de literatura. Já
tirou a nota que precisava pra passar de ano. Agora, você quer mesmo é se
livrar, ler por puro diletantismo. No máximo, se você tem boa memória, guardou
na mente o suficiente do que teve que ler pras provas para sair vomitando em
mesa de bar como grande sabedoria. Afinal, quem é que aguenta ler um calhamaço
como Anna Kariênina ou vencer as milhares de páginas até
de um mais contemporâneo, como Em
busca do tempo perdido? Esses heróis são raros.
Além do mais,
hoje em dia, pra tudo tem um filme. Quando não é um filme baseado no clássico,
o que talvez fizesse as plateias contemporâneas bocejarem bovinamente durante
duas horas e meia, temos uma versão moderna, repleta de reviravoltas, livremente baseada em (coloque aqui o nome do seu clássico).
E esses são
argumentos absurdamente válidos (diferente daqueles palermas que conhecemos
cuja boca só abre pra dizer “eu não leio porque não tenho tempo”). São válidos
porque a forma como exercemos a vida nos últimos trinta anos está errada.
Absurdamente errada. Quanto mais inventamos coisas para facilitar nosso dia a
dia, menos tempo temos para nós mesmos. E se isso faz sentido pra você, então
pode parar de ler esse texto aqui mesmo e ir tomar seu Diazepam, porque já deve
estar passando da hora.
Ainda assim,
estarmos vivos não nos exime da culpa de vivermos, ainda que essa vida seja
aleatória e sem sentido. E de nos permitirmos ser puxados por todo esse
redemoinho que nos leva para o fundo do oceano com uma corrente amarrada a uma
bola de aço presa à perna. Nos permitimos entrar nessa roda-viva porque
aparentemente, ou fazemos isso ou não sobrevivemos ao mundo. E a vida vai
ficando cada vez mais irreal. Ou surreal.
O que nos faz
dar a tal desculpa da falta de tempo. Ou de que literatura boa é a “mais
dinâmica”, que faz você escapar do mundo real. Que seja. Mas chamar isso de
literatura é um pouco muito. No máximo, chega a ser entretenimento, isso dá pra
conceder.
Mas a verdade é
que nos permitimos não ler os clássicos porque, ao que consta, a vida não deixa.
Ou porque são de
uma enorme chatice, mesmo. De uma maçada sem fim. Passamos até a nos perguntar:
como é que alguém escreve, em sã consciência, um romance de 800 páginas, mil
páginas? Daí lembramos que no tempo de Tolstoi, Dostoievski, Homero, Camões,
Dante, Boccaccio, não havia televisão. Ah, está entendido, então. Tanto havia
quem escrevesse como quem realmente lesse.
Entretanto...
A sensação que
temos é a de que, se formos considerados “bons leitores”, seja lá o que isso
for, é preciso ler os clássicos. Não um nem dois, mas precisamos dizer por aí
que Crime e castigo “está nos planos”, que “eu não posso
morrer sem ler A divina
comédia”, que “James Joyce é complexo, mas não instransponível, e que ele
está nos planos da leitura do ano!”. E, sabemos bem, o nome disso é autoengano.
É você contando pra você mesmo que você tem um plano a ser executado que na
verdade você não tem a menor
vontade de executar.
Só que isso não
torna você um leitor menor. Não ler clássicos não quer dizer que você está
fadado a consumir best-sellers de bancas de jornal. Não dizem que a virtude
está no meio? Sim, você pode continuar sendo um excelente leitor de outros
grandes autores, autores laureados com grandes prêmios. Mas clássicos, não, não
são pra você. É melhor admitir isso do que ser hipócrita e carregar aquele
livro pesadíssimo com a capa virada pra cima e muito bem colocada no colo
dentro do ônibus, pra todo mundo ver o quão inteligente você é. E hipócrita,
porque, via de regra, ou você lê e não entende nada, ou desiste antes de metade.
A verdade é que
os clássicos continuarão a existir nas bibliotecas ao redor do mundo, e
continuarão a ser vigorosamente estudados e recomendados.
Mas também
continuarão fadados a serem adquiridos em versões lindas, luxuosas, prontas
para serem colocadas na prateleira da sala e relegadas ao mais completo
esquecimento.
Clássico que é
clássico não perdura no mundo para ser lido, mas pra ser usado como enfeite na
sala, como questão de prova de literatura e, sobretudo, como assunto para se
fazer parecer mais inteligente numa roda de amigos literatos, para os que têm a
necessidade de simularem grandeza tornando outros menores.
Clássico que é
clássico perdura, apesar dos seus pretensos e incautos leitores.


HAHAHA!
ResponderEliminarHAHAHA!
HAHAHA!
Adorei as provocações!
"como é que alguém escreve, em sã consciência, um romance de 800 páginas, mil páginas?"
SEMPRE me pergunto isso, quando vejo aquele horror absurdo de páginas amontoadas, independentemente de ser um 'clássico' ou não. Não impede que eu leia, mas que a resistência vem com tudo, ah, vem.