Chamada a cobrar
por Ademir Furtado
De repente, ele se viu atarantado com a quantia de papéis que lhe caíam por
cima, ao abrir a caixa de correspondência. Envelopes, folhetos publicitários,
cartões de profissionais, ofertas de serviços: encanador, marcenaria,
massagens, tarô, búzios. E um pacote grande, com etiqueta, destinatário, nome
completo. Sentiu o volume, material sólido. Encheu os bolsos com o papelório
miúdo. Na ânsia de chegar logo, desferia manotaços no botão de comando do
elevador. A máquina despencou no térreo. Puxou a grade de ferro, depois a de
madeira. Lá dentro, o olhar percorreu o conjunto de teclas à procura do número
dez. Sozinho no cubículo escuro, gravata frouxa, recostado à parede, respiração
longa, suspiro. Décimo piso. Apartamento defronte do seu, a porta aberta, a
moradora telefonava. “Como fala essa aí. E não consegue ficar dentro de casa, vem
berrar aqui fora pra todo mundo ouvir. Todo dia é sempre igual”. Cumprimento
convencional. Ela fez um aceno. Ele introduziu a chave na fechadura. Enfim, o
aconchego do lar. Esvaziou os bolsos em cima da mesa e enveredou para o quarto.
Já de volta, sem camisa. Bermuda, chinelo. Abriu a janela. Um jato de
vento espalhou pelo chão a papelada do correio. Pôs-se a juntar. Mas a remessa
maior continuava imóvel. Objeto pesado. O que seria? Com os dedos trêmulos,
mãos atrapalhadas, rasgou a boca do invólucro, sacudiu o embrulho pelo fundo, trouxe
à luz o conteúdo. Um telefone celular. Em seguida, o apito da campainha invadiu
o recinto doméstico. Prendeu o utensílio com a mão, em exame minucioso. Superfície
lisa, sem nenhuma abertura para pilhas ou ligação em rede elétrica. Apenas o conjunto
de teclas com os dez algarismos e botão talk.
Atendeu. “Alô”, uma voz monótona advertiu. “Senhor Dorivaldo, o senhor foi
contemplado com este telefone celular, por favor, para confirmar o recebimento,
permaneça na linha por cinco segundos”. Perquiriu o aparelho com intenção de
desligar, não havia dispositivo para isso. Precisava dizer que não queria, não tinha
pedido nada. Reaproximou o fone do ouvido, ia cancelar. “Pronto, sua linha já
está habilitada. Parabéns. Agora fica mais fácil contatar seus clientes, amigos
e familiares em tempo integral”. Ele respondeu, exasperado, “mas eu não tenho
clientes, não tenho amigos, nem família. Eu não quero essa porcaria”. Livrou-se
com um safanão daquele presente indesejado, que foi picar em rodopios na
madeira da mesa. Entrementes, o som de chamada transformou-se em gemido
lamuriento. Atordoado, cambaleou para trás. Um espetáculo grotesco se
desenrolava ao alcance de seus olhos. A coisa crescia enquanto girava, até que
caiu de vez e parou de tocar. Fez-se o silêncio. Mas o descanso não veio. Em instantes,
o ressoar enervante de nova ligação empestou o ambiente. Aperreado pela
insistência, atendeu. “Alô”. Voz falsa, igual à anterior: “senhor Dorivaldo,
esta é uma ligação automática da Operadora de Cartões de Crédito Compre Mais,
para confirmar que seu cartão foi aprovado. Parabéns, o senhor foi contemplado
com a nossa promoção primeira anuidade
grátis”. Assim já era demais. Repeliu de si aquela inutilidade, que se
revolveu sobre o tapete. Ele pulou em cima, e passou a pisoteá-lo, aos gritos,
“mas que inferno, eu não pedi cartão de crédito, eu não preciso de cartão de
crédito, eu não quero cartão de crédito”. Ao mesmo tempo em que espezinhava
aquela descortesia maldita, descarregava toda irritação através de imprecações
verbais. Por fim, aplacada a fúria, extenuado, desabou sobre a cadeira. Mas o
cansaço deu lugar ao pânico, quando percebeu que aquela anomalia já tinha as
medidas de um tijolo. Arrancou em disparada na direção da saída. Mas conteve-se,
ao ouvir batida na porta. Espiou pelo olho mágico e reconheceu a matraqueira do
andar. Abriu.
- Oi. Desculpa, eu ouvi gritos e correrias na sua casa. Sem querer me
intrometer, mas eu vim ver se está tudo bem.
A curiosa do condomínio não falhava. Situação bizarra. Sem camisa, gotas de suor
escorriam pela face, todo escabelado. Ele não sabia o que responder, ela
continuava ali parada, o olhar se insinuando para dentro do apartamento. No
esforço do autocontrole ele preferiu esclarecer:
- Algo estranho aconteceu: um celular toca sem parar. E chora. Parece vivo.
- Vivo?
- Claro. Um ser vivo. E eu não sei de quem é.
E com palavras desconexas se embaralhou:
- A senhora? O que aconteceu? Não sabe?
Ela retrocedeu o passo. A entrada do próprio apartamento continuava
aberta. Antes de sair em retirada, ela
ainda insistiu.
- Se está tocando, deve ser seu.
- Mas eu não tenho celular
- Então deve ser da sua esposa.
- Eu não tenho esposa. Eu moro sozinho.
A fuxiqueira franziu a testa,
contraiu os lábios. O homem decidiu-se a explicar a situação:
- Um telefone apareceu na minha caixa de correspondência, mas não é meu.
Acho que alguém se enganou.
- O senhor não tem mulher?
- Não
- Nem celular?
- Também não.
A fofoqueira mal se controlava mais. O olhar intrometido ora esquadrinhava
a figura excêntrica do vizinho, ora furungava a intimidade dele. Ao perceber a indelicadeza, ele se plantou
diante dela, um obstáculo à visão. Ela, ofendida, proferiu:
- Desculpe, mas o senhor é meio esquisito.
Transpôs o corredor num único tranco, e se encerrou em casa. Ele ouviu o
barulho das chaves e da correntinha de segurança. Ela se travava toda por
dentro. Novo ímpeto de cólera, esbravejou contra a parede surda:
- E também não tenho cartão de crédito. Ouviu?
Sem encontrar ajuda, voltou para casa, desanimado. Ali na sala, ouviu
grunhidos, risos de deboche. Mirou o monstrinho caído no chão, praguejou, o
dedo indicador apontado: “Miserável, desgraçado, tu não vais me destruir”. Empastelou
o excomungado na pilha de jornais velhos no canto da sala, mas um arrepio percorreu-lhe
o corpo. O zunido infernal agora parecia soluço. O traste se distendia e contraía,
em movimentos de respiração. Em estado
de choque, correu até o quarto, sem saber direito o que procurava. Não tinha
mais paciência com aquela aberração. Precisava se livrar dela. Sacou o lençol
da cama e, com o rosto retesado pela angústia, voltou para a sala. Susto, salto
involuntário, terror, tentativa de fuga, não havia escapatória. O crápula não
parava de aumentar, e subira sozinho no sofá. Uma atitude drástica, definitiva,
devia ser tomada, sem demora. Atirou-se em cima do monstrengo, cobriu-o com o tecido.
Desta vez, embora não apertasse o botão talk,
ele ouviu a mesma voz assustadora das outras vezes: “Senhor Dorivaldo, esta é
uma ligação automática das lojas Compre Melhor...” Não tinha mais nervos para
ouvir o resto. Deu várias voltas com a coberta no bandido, acomodou-o nos
braços, ganhou a saída, chamou o elevador. “Tomara que ninguém me veja”, falava
baixinho para si mesmo. Sôfrego, comprimia o botão do elevador como se
digitasse uma mensagem urgente. A máquina surgiu, ele entrou. Não percebeu que
seus movimentos eram observados. Desceu até o térreo sozinho, espiou, ninguém.
Precipitou-se em direção ao portão. Abriu, vigiou a rua. Tudo calmo e sem
movimento. Caminhada rápida até a lixeira na calçada, despejou a carga lá
dentro. Deu meia volta, ia safar-se depressa dali, mas nesse momento o sinal de
alerta transformou-se outra vez em choro de criança. Choradeira convulsiva, um
berreiro esganiçado, atordoante. As pernas já a cambalear, os olhos a se
desfazer em pranto incontrolável, foi investigar, viu algo horrendo. O desnaturado
não tinha mais a forma original, e sim de um ser humano recém nascido. Arrasado
pelo desespero, o pobre homem era um animal acuado, estrebuchando em volta do
depósito de lixo. Apanhou um pedaço de madeira jogado no calçamento, precipitou-se
sobre a lixeira e se atracou aos golpes contra o bebê-celular, que chorava cada
vez mais alto. “Morre desgraçado, me deixa em paz”. Uma pancada, uma maldição.
Precisava aniquilar o inimigo tanto na dimensão física quanto moral. Imprecações
irromperam das janelas da circunvizinhança. Insultos raivosos fulminavam o
celerado lá em baixo: “assassino”, “herege”, “covarde”. A intrusa obstinada acudiu,
aos gritos: ”Chamem uma ambulância, ele é louco”. Ele interrompeu o espancamento, só então se
deu conta do que acontecia. Os moradores dos edifícios próximos à cena irromperam
nas janelas, lançando impropérios e xingamentos. Um público ávido por dar seu
veredicto contra o lutador rebaixado na derrota. Tomou nos braços o celular, então
na forma original, mas ainda em dimensões desproporcionais. Despiu-o dos panos,
expôs ao público que o excomungava: “Vejam, é apenas um celular tocando, apareceu
lá em casa, eu nem sei de quem é, mas não é meu, e não pára de tocar”. Os protestos
calaram. A arena observava em
silêncio. Aos poucos, a plateia perdeu o interesse no
episódio, as janelas se fecharam, e ele retornou para casa. Carregava nos
braços o mesmo peso, seguido de longe pela bisbilhoteira, sempre vigilante. De
volta ao seu apartamento, recolocou o indigitado no sofá e sentou numa cadeira
em frente, sem atinar que deixara a entrada aberta. De súbito, aquela deformidade começou a emitir
vozes em vez da zoada tradicional. A forma humana reaparecia agora da estatura
de uma criança. Tombou para o chão, pôs-se de pé, direcionou os passos para o
seu algoz. Emitia sons incompreensíveis, mas que deixavam bem claro o caráter
de reprovação e ameaça. O homem não tinha mais dúvida, transformara-se em vítima
de um ataque. Disparou pelo apartamento, o animalzinho eletrônico ao seu
encalço. Trepou no sofá, galgou uma cadeira, abrigou-se em cima da mesa abaixo
da janela. O perseguidor jogou-se de encontro ao móvel, ele se desequilibrou,
balançou e caiu. A vizinha entrou nesse momento, ainda ouviu os apelos por
socorro que vinham do lado de fora. Correu até a janela, olhou para fora e viu,
lá em baixo, o corpo estendido no chão. No sofá, um celular tocava. Ela
atendeu. “Alô. Não tem ninguém aqui com esse nome”. Colocou o telefone no
bolso, saiu e puxou a porta.

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