Lanternas cor de aurora: os haicais de Sânzio de Azevedo
O autor, Sânzio de Azevedo, é um dos mais
respeitados estudiosos em literatura Cearense e Brasileira. Professor
aposentado da Universidade Federal do Ceará - UFC já publicou mais de vinco e
cinco livros. Dentre os títulos publicados destacam-se: Literatura Cearense (1976);
Cantos da Antevéspera (1990); O
Parnasianismo na Poesia Brasileira (2004) e Breve História da Padaria Espiritual (2011). Os textos dele sobre a
Padaria Espiritual são bastante citados e de leitura obrigatória para os
estudiosos em Literatura Cearense.
O livro, Lanternas
cor de aurora, se inicia com o autor explicando a origem e estrutura do
haicai. Quando eu conheci o autor em um evento acadêmico, levei este livro para
que o autografasse, na ocasião, Sânzio disse que o livro era fruto de
exercícios poéticos. Brincadeiras do cotidiano ou não, o certo é que esse livro
desperta atenção por quem o lê. O livro é pequeno, em espessura, porém durante
a leitura ele se demonstra profundo e denso. No texto que abre o livro ele
explica que na obra apresentada, há apenas um haicai sem rima e que todos os
poemas seguem a risca o esquema do haicai clássico. O primeiro haicai do livro
demonstra a intensidade da descrição imagética:
Nuvens
Dói-nos contemplar
Castelos altos e belos
Desfeitos em ar.
Como se percebe o haicai exige uma linguagem apurada,
simples, direta e metafórica. No poema lido acima, o mundo é descrito com o
auxilio da imaginação do poeta que aguça no leitor os caminhos descritivos/imagéticos
a percorrer. O haicai abaixo merece também a nossa atenção:
Velhice
Um rictus contracto
Agora. O riso de
outrora
Ficou no retrato.
Esse poema, de caráter filosófico, nos faz refletir
os ciclos da vida. Seguindo a estrutura 5-7-5 Sânzio de Azevedo sintetiza a
reflexão que muitos fazem diante do espelho ao deparar-se com as marcas do
tempo. A propósito, o poeta abre o seu baú de memórias e desta forma torna a
leitura deste livro ainda mais aconchegante, pois eu acredito que partilhar com
alguém as suas memórias é mais do que um voto de confiança e prestígio. Sendo
assim leitor, sinta privilegiado. Aconchegue mais na cadeira (ou na cama) e
leia os seguintes versos em que o poeta divide as suas memórias:
Saudade
Volto o tempo, diante
da
TV. Que bom é rever
Os filmes da Atlântida!
Vitrola Antiga
Do aparelho fanho
Remotas, ecoam notas
De valsas d’antanho...
A memória é várias vezes ligada a objetos que nos
levam a recordação de uma época que dificilmente voltará, como um filme ou uma
música. As recordações sempre voltam quando olhamos velhos retratos ou
refazemos certos caminhos pela cidade. A memória é um forte elemento que
percorrer nesse Lanternas cor de Aurora
como também em outros livros do autor.
Como disse no começo de nossa conversa, o Ceará
(nossa literatura, nossos grandes autores, nossa historia, nossas paisagens)
tem presença constante nesse livro de haicais. O poema escolhido para a
contracapa do livro já anuncia o que virá:
Ceará
Declama um poema
A onda que sobe, estronda
E ecoa: Iracema!
Ler os autores que propagam o nosso mundo cearense é
fundamental para manter viva a nossa herança cultural além de também
conhecermos melhor o lugar que moramos, pois uma das funções da boa literatura
é instruir. Este livro não somente instrui quem o lê, como uma boa obra
literária Lanternas cor de aurora
comove o leitor com rápidos golpes poéticos. Eis um livro em que a
sensibilidade poética aflora em versos curtos, porém pulsantes.

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