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6 de dezembro de 2014
8º livro da Lote 42!

8º livro da Lote 42!




A Lote 42 lança hoje, 6 de dezembro, o livro 42 Haicais e 7 Ilustrações, dos jornalistas João Varella e FP Rodrigues. Escrito a lápis, o projeto gráfico deixa explícito o processo de criação e editoração. Será o primeiro lançamento na Tatuí, banca de rua da Lote 42 especializada em publicações independentes.

No processo criativo, o autor foi explorando o gênero dos haicais (forma poética japonesa, com com frases de cinco, sete e cinco sílabas) e descobrindo suas possibilidades. Alguns dos poemas que estão no livro surgiram primeiro como tuítes, outros como anotações e outros ainda enquanto transcrevia os poemas à folha de papel. Uma desconstrução do haicai, logo na gênese da criação.

“Lápis e papel permitem formas que extrapolam as capacidades do editor de texto do computador”, afirma Varella.

A experimentação também esteve presente nos desenhos de FP Rodrigues, deixando o traço percorrer de forma livre a folha em branco para criar figuras e imagens que se comunicam com os haicais, mas também com vida própria.

Projeto gráfico
Publicar os poemas escritos à mão foi o ponto de partida para o projeto gráfico, concebido pelo designer Gustavo Piqueira, da Casa Rex. Ficam evidentes as marcas da escrita, como letras apagadas, folhas amassadas e demais intervenções. Também foram incorporados alguns comentários escritos durante a revisão (destacados em laranja), que acrescentam novos sentidos aos haicais.

Para que não seja um mero mimetizar de um caderno, o projeto gráfico buscou envolver os haicais e as ilustrações com outro acabamento. A capa é branca, apenas com título e nomes dos autores bastante discretos. Nela foi aplicada, um a um, tinta acrílica com estêncils dos números 42 e 7. Dessa forma, o livro ganhou textura e uma nova camada de leitura. São mil exemplares, mas cada um é único.

Outra característica a destacar-se é a inversão da ordem de leitura. Seguindo a tradição oriental, a orientação é que o leitor folheie o livro da direita para a esquerda.

Praxe da Lote 42, a editora montou um hotsite para o livro, com conteúdo extra, como textos que os autores escreveram contando seus processos criativos. Pode ser acessado neste link: www.lote42.com.br/42haicais

OS AUTORES
Sobre João Varella
Jornalista gaúcho, nasceu em Guaíba em 1985 e mora na cidade de São Paulo desde 2009. Escreve para a revista IstoÉ Dinheiro, o jornal espanhol El Economista e o blog Trilhos Urbanos. É autor dos livros Curitibocas Diálogos Urbanos (Coração Brasil, 2007) e A Agenda (Novo Conceito, 2013). Em 2012, fundou a editora Lote 42. Ele escreveu os haicais do livro.

Sobre FP Rodrigues
Jornalista, publicitário, ilustrador e produtor cultural, nasceu em Curitiba em 1985, onde morou até 2009, quando se mudou para a capital paulista. É colaborador do blog Trilhos Urbanos e dos jornais literários Rascunho e Cândido. Ele fez as ilustrações do livro.

SOBRE A LOTE 42
A Lote 42 se apresenta como “uma editora com alma de start-up” por estar aberta a inovações e usar o ambiente digital como um complemento para as suas obras. A editora já lançou os livros Já Matei por Menos, O Pintinho, Manual de Sobrevivência dos Tímidos, Seu Azul, O Pintinho 2, Indiscotíveis e Desenhos Invisíveis. Cada obra tem um hotsite com mais informações e conteúdo extra. Acesse o site da editora para mais informações: lote42.com.br

SERVIÇO
Lançamento de 42 Haicais e 7 Ilustrações
QUANDO 6 de dezembro, a partir das 16h20
ONDE Banca Tatuí - Rua Barão de Tatuí, 275, Santa Cecília, São Paulo, (mapa)
QUANTO Grátis. O livro custa R$ 29,90
CLASSIFICAÇÃO Livre

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5 de novembro de 2014
Poemas de Léo Prudêncio

Poemas de Léo Prudêncio

Pintura a óleo de Badida Campos


após ler: sobre heróis e tumbas. de ernesto sabato

1.

é que por acaso
nascem as paixões

(e como corrói por dentro,
silenciosamente, como um câncer)

aquilo que chamas
- paixão, amor ou atração
ainda irá te levar
(cada vez mais)
para o fundo da fossa

2.

há no subterrâneo
ou em praças populares
partículas visíveis de mim

mas

feche a porta ao entrar
no meu ressinto
fique à vontade
o país não é nosso
mas a casa é minha

somos feitos
a partir
de pequenos segredos
e de minúsculos silêncios

3.

te amo tanto
que me torno cinzas
e lembranças
será eterno
-nosso amor-
enquanto as cinzas
de meu corpo
voarem


haicais

*
não é o monte everest
é um pé de siriguela
com formigas nele
*
eu sou esses passos
cansados e rasteiros que
ficaram na praia
*
solitário no galho
de árvore, o passarinho

admira o fim do dia


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3 de setembro de 2014
Os haicais de Jack Kerouac

Os haicais de Jack Kerouac


Jack Kerouac certamente é mais conhecido pelas suas narrativas, em especial pelo livro On the Road – Na estrada. Os poemas do autor americano, para alguns, soam como leituras curiosas, pois o traço da escrita poética é pouco comentada pela crítica. Reunir um volume com todos os haicais escritos pelo autor mais lido da geração beat, além de preciosos, são curiosos. Ao lermos o Livro de haicais nos deparamos com o dia a dia do poeta beat, como também nos deparamos com questionamentos filosóficos e apreciações da natureza rabiscados pelo autor.

Na introdução do livro, a organizadora Regina Weinreich comenta que o próprio autor chamava seus haicais de poemas pop: “Assim como em sua obra em prosa, a poesia de Kerouac revela um padrão similar de desenvolvimento: do convencional ao experimental. Nunca um formalista, ele escreveu muitos haicais experimentais. Alguns, meramente deixava acontecerem, para retornar a eles, refinando-os enquanto seguia em frente. Como demonstram os poemas contidos em Some of the Dharma e em seus cadernos de notas, Kerouac considerava haicai uma designação vaga, um trampolim do qual podia saltar, algo que ele podia usar livremente para seus próprios fins artísticos.” Portanto, o autor não seguia de maneira rígida os conceitos clássicos do haicai, em que o poema é metrificado em versos que seguem a sequência 5-7-5 nem segue a risca a temática de descrever paisagens.

Os haicais de Kerouac, foram reunidos em alguns manuscritos de livros e em blocos de anotação. A coleção Livro de haicais editado pela L&PM contem mais de 500 poemas, o volume foi traduzido por Cláudio Willer, mas vale ressaltar que a edição é bilíngue, pode-se ler o poema no original em inglês.

Para os fãs do autor a leitura deste livro é necessária por mostrar um lado não muito conhecido de Kerouac, que é a produção poética. Mas também essa produção é leitura obrigatória para os leitores de haicais, pois o autor ao longo do livro demonstra ser um hábil haicaísta.

Dentre as extensas temáticas exploradas pelo autor no Livro de haicais, a solidão é a mais constante. Separei abaixo alguns poemas inspirados nessa temática:


***

uma flor
na ribanceira
acenando para o desfiladeiro

***

segurando meu gato
que ronrona sob a lua,
eu suspirei
***

tarde de verão -
mastigando impacientemente
a folha de jasmim

***

O filho que quer solidão
Envelopou-se
Em seu quarto


Sabemos que o haicai clássico é marcado pela fotografia poética da paisagem, ou seja, o poeta ao deleitar-se com a natureza a descreve em golpes rápidos. Essa descrição poética da natureza é marcada pela simplicidade e pela rápida descrição. Separei abaixo 10 haicais em que Kerouac nos presenteia com as suas observações:

1
A cena nacional
- sol de fim de tarde
Naquelas árvores

2
Protegida pelas nuvens
a lua
Navega e dorme

3
Todos os insetos pararam
em homenagem
À lua

4
o pássaro pousou no galho
- dançou três vezes -
E sumiu

5
a névoa à frente
das montanhas da manhã
- fim de outono

6
Delicadamente dependurada
a Folha de Outono
Quase cai do galho

7
Ao sol do deserto
no Arizona,
Um vagão amarelo de trem

8
Pássaro subitamente quieto
em seu galho – sua
Esposa o encara

9
Uma tartaruga navegando rio abaixo
solitária sobre o tronco,
Cabeça erguida

10.
o pequeno pardal
na beira da calha
Olha ao redor



Reforço que este livro merece ser lido na íntegra. Portanto paro por aqui a minha pequena antologia com os haicais de Jack Kerouac.


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21 de abril de 2014
Lanternas cor de aurora: os haicais de Sânzio de Azevedo

Lanternas cor de aurora: os haicais de Sânzio de Azevedo




O haicai nasceu no Japão em meados do século XII sendo imortalizado por Matsuo Bashô. Essa arte poética privilegia a linguagem simples e metafórica. O haicai deve ser composto por tercetos devidamente rimados em 5-7-5, mas há também os haicais que não possuem rimas, porém a métrica é essencial para a elaboração do poema. Inspirado nessa técnica japonesa, o cearense Sânzio de Azevedo em 2006 publicou o livro Lanternas cor de Aurora.

O autor, Sânzio de Azevedo, é um dos mais respeitados estudiosos em literatura Cearense e Brasileira. Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará - UFC já publicou mais de vinco e cinco livros. Dentre os títulos publicados destacam-se: Literatura Cearense (1976); Cantos da Antevéspera (1990); O Parnasianismo na Poesia Brasileira (2004) e Breve História da Padaria Espiritual (2011). Os textos dele sobre a Padaria Espiritual são bastante citados e de leitura obrigatória para os estudiosos em Literatura Cearense.

O livro, Lanternas cor de aurora, se inicia com o autor explicando a origem e estrutura do haicai. Quando eu conheci o autor em um evento acadêmico, levei este livro para que o autografasse, na ocasião, Sânzio disse que o livro era fruto de exercícios poéticos. Brincadeiras do cotidiano ou não, o certo é que esse livro desperta atenção por quem o lê. O livro é pequeno, em espessura, porém durante a leitura ele se demonstra profundo e denso. No texto que abre o livro ele explica que na obra apresentada, há apenas um haicai sem rima e que todos os poemas seguem a risca o esquema do haicai clássico. O primeiro haicai do livro demonstra a intensidade da descrição imagética:

Nuvens
Dói-nos contemplar
Castelos altos e belos
Desfeitos em ar.


Como se percebe o haicai exige uma linguagem apurada, simples, direta e metafórica. No poema lido acima, o mundo é descrito com o auxilio da imaginação do poeta que aguça no leitor os caminhos descritivos/imagéticos a percorrer. O haicai abaixo merece também a nossa atenção:

Velhice
Um rictus contracto
Agora. O riso de outrora
Ficou no retrato.

Esse poema, de caráter filosófico, nos faz refletir os ciclos da vida. Seguindo a estrutura 5-7-5 Sânzio de Azevedo sintetiza a reflexão que muitos fazem diante do espelho ao deparar-se com as marcas do tempo. A propósito, o poeta abre o seu baú de memórias e desta forma torna a leitura deste livro ainda mais aconchegante, pois eu acredito que partilhar com alguém as suas memórias é mais do que um voto de confiança e prestígio. Sendo assim leitor, sinta privilegiado. Aconchegue mais na cadeira (ou na cama) e leia os seguintes versos em que o poeta divide as suas memórias:

Saudade
Volto o tempo, diante da
TV. Que bom é rever
Os filmes da Atlântida!

Vitrola Antiga
Do aparelho fanho
Remotas, ecoam notas
De valsas d’antanho...

A memória é várias vezes ligada a objetos que nos levam a recordação de uma época que dificilmente voltará, como um filme ou uma música. As recordações sempre voltam quando olhamos velhos retratos ou refazemos certos caminhos pela cidade. A memória é um forte elemento que percorrer nesse Lanternas cor de Aurora como também em outros livros do autor.

Como disse no começo de nossa conversa, o Ceará (nossa literatura, nossos grandes autores, nossa historia, nossas paisagens) tem presença constante nesse livro de haicais. O poema escolhido para a contracapa do livro já anuncia o que virá:

Ceará
Declama um poema
A onda que sobe, estronda
E ecoa: Iracema!




Ler os autores que propagam o nosso mundo cearense é fundamental para manter viva a nossa herança cultural além de também conhecermos melhor o lugar que moramos, pois uma das funções da boa literatura é instruir. Este livro não somente instrui quem o lê, como uma boa obra literária Lanternas cor de aurora comove o leitor com rápidos golpes poéticos. Eis um livro em que a sensibilidade poética aflora em versos curtos, porém pulsantes.
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