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17 de abril de 2014
Os clássicos que você nunca vai ler

Os clássicos que você nunca vai ler




Todo mundo começa a vida de leitor de forma errática, entre tateando e experimentando de tudo, e não há problema algum nisso, nem motivos para colocar as mãos na cabeça e se perguntar “Ó Deus, por que eu li toda a coleção da Agatha Christie aos 15 anos, quanto tempo desperdicei!” e bobagens do gênero. Você não desperdiçou nada. Você leu toda a Agatha Christie aos 15 (ou Sidney Sheldon, ou Danielle Steel, ou Robin Cook) justamente por isso: porque você tinha quinze anos. Lamenta-se, mas passar por isso aos quinze é não apenas aceitável, é compreensível. Difícil é entender aquele seu colega que, com o dobro disso ou mais, continua nisso ou naqueles que vieram nas gerações seguintes, como Marian Keys ou Nicholas Sparks.

Acontece que, geralmente, vamos apurando o nosso gosto e perfil literário ao longo da vida. Conhecemos pessoas que nos apresentam obras que nos fazem questionar tudo aquilo que aprendemos a colocar em xeque; quando não, questionam a nós mesmos. Passeamos por livrarias, bibliotecas, pelo Google. Professores nos mostram obras, enfim, as possibilidades são inúmeras.

Assim é que, quando menos nos deparamos, estamos lendo outras coisas, numa transição que vai se dando ao natural.

Ressurgem, então, os clássicos. Digo ressurgem por uma razão óbvia. Se você nasceu no Brasil, já se deparou com eles em algum momento da vida estudantil. Ou pelo menos com a ideia deles. Quem nunca foi obrigado a ler Machado de Assis, José de Alencar? Claro que eles não são clássicos universais, comumente aceitos entre o cânone ocidental, mas são clássicos brasileiros. Se duvidar, é por causa deles que muitos colegas e amigos seus odeiam ler até hoje. Mas não é desse tipo de clássico que estou falando.


Estou me referindo aos clássicos que você quer – ou diz que quer – mas nunca vai ler.

Vamos refletir um pouco: o mundo editorial lança milhões de livros por ano. As tentações são muitas. As oportunidades, idem. Aqueles grandes autores contemporâneos que você tem por ler sendo amplamente discutidos, e você vai se debruçar sobre Guerra e Paz ? Sei.

É lindo sair dizendo por aí que você ainda não leu Ulisses, mas que “morre de vontade”. Isso faz você parecer inteligente, e ainda por cima, humilde. “O cara lê muito, excelente leitor, mas ainda não leu Ulisses, embora queira muito. Coitado, com essa vida corrida dos dias de hoje...”. Pronto, fez-se um candidato a gênio.

Convenhamos: você já teve que ler muito sobre esses clássicos pras aulas de literatura. Já tirou a nota que precisava pra passar de ano. Agora, você quer mesmo é se livrar, ler por puro diletantismo. No máximo, se você tem boa memória, guardou na mente o suficiente do que teve que ler pras provas para sair vomitando em mesa de bar como grande sabedoria. Afinal, quem é que aguenta ler um calhamaço como Anna Kariênina ou vencer as milhares de páginas até de um mais contemporâneo, como Em busca do tempo perdido? Esses heróis são raros.  

Além do mais, hoje em dia, pra tudo tem um filme. Quando não é um filme baseado no clássico, o que talvez fizesse as plateias contemporâneas bocejarem bovinamente durante duas horas e meia, temos uma versão moderna, repleta de reviravoltas, livremente baseada em (coloque aqui o nome do seu clássico).

E esses são argumentos absurdamente válidos (diferente daqueles palermas que conhecemos cuja boca só abre pra dizer “eu não leio porque não tenho tempo”). São válidos porque a forma como exercemos a vida nos últimos trinta anos está errada. Absurdamente errada. Quanto mais inventamos coisas para facilitar nosso dia a dia, menos tempo temos para nós mesmos. E se isso faz sentido pra você, então pode parar de ler esse texto aqui mesmo e ir tomar seu Diazepam, porque já deve estar passando da hora.

Ainda assim, estarmos vivos não nos exime da culpa de vivermos, ainda que essa vida seja aleatória e sem sentido. E de nos permitirmos ser puxados por todo esse redemoinho que nos leva para o fundo do oceano com uma corrente amarrada a uma bola de aço presa à perna. Nos permitimos entrar nessa roda-viva porque aparentemente, ou fazemos isso ou não sobrevivemos ao mundo. E a vida vai ficando cada vez mais irreal. Ou surreal.

O que nos faz dar a tal desculpa da falta de tempo. Ou de que literatura boa é a “mais dinâmica”, que faz você escapar do mundo real. Que seja. Mas chamar isso de literatura é um pouco muito. No máximo, chega a ser entretenimento, isso dá pra conceder.

Mas a verdade é que nos permitimos não ler os clássicos porque, ao que consta, a vida não deixa.

Ou porque são de uma enorme chatice, mesmo. De uma maçada sem fim. Passamos até a nos perguntar: como é que alguém escreve, em sã consciência, um romance de 800 páginas, mil páginas? Daí lembramos que no tempo de Tolstoi, Dostoievski, Homero, Camões, Dante, Boccaccio, não havia televisão. Ah, está entendido, então. Tanto havia quem escrevesse como quem realmente lesse.

Entretanto...

A sensação que temos é a de que, se formos considerados “bons leitores”, seja lá o que isso for, é preciso ler os clássicos. Não um nem dois, mas precisamos dizer por aí que Crime e castigo “está nos planos”, que “eu não posso morrer sem ler A divina comédia”, que “James Joyce é complexo, mas não instransponível, e que ele está nos planos da leitura do ano!”. E, sabemos bem, o nome disso é autoengano. É você contando pra você mesmo que você tem um plano a ser executado que na verdade você não tem a menor vontade de executar.

Só que isso não torna você um leitor menor. Não ler clássicos não quer dizer que você está fadado a consumir best-sellers de bancas de jornal. Não dizem que a virtude está no meio? Sim, você pode continuar sendo um excelente leitor de outros grandes autores, autores laureados com grandes prêmios. Mas clássicos, não, não são pra você. É melhor admitir isso do que ser hipócrita e carregar aquele livro pesadíssimo com a capa virada pra cima e muito bem colocada no colo dentro do ônibus, pra todo mundo ver o quão inteligente você é. E hipócrita, porque, via de regra, ou você lê e não entende nada, ou desiste antes de metade.

A verdade é que os clássicos continuarão a existir nas bibliotecas ao redor do mundo, e continuarão a ser vigorosamente estudados e recomendados.

Mas também continuarão fadados a serem adquiridos em versões lindas, luxuosas, prontas para serem colocadas na prateleira da sala e relegadas ao mais completo esquecimento.

Clássico que é clássico não perdura no mundo para ser lido, mas pra ser usado como enfeite na sala, como questão de prova de literatura e, sobretudo, como assunto para se fazer parecer mais inteligente numa roda de amigos literatos, para os que têm a necessidade de simularem grandeza tornando outros menores.

Clássico que é clássico perdura, apesar dos seus pretensos e incautos leitores.



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