A serena Serenata de Rachel
Aos
dezesseis anos todo adolescente escreve poemas. Ao perder o “único” amor da
vida ou o “grande” amor encontramo-nos encolhidos no canto do quarto com um
papel em branco e uma caneta que derrama dores. Como diria Rilke em suas Cartas a um jovem poeta: “os jovens atiram-se uns aos outros
quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com o seu
desgoverno, sua desordem e derramam-se tais” (p.59).
A
jovem Rachel de Queiroz, porém, com dezesseis anos, não derramava dores, mas
sim alegrias em revistas que permeavam o Siará. Era integrante ativa de algumas
revistas – como A Jandaia,
na qual era vice-diretora – e publicava também no jornal O Ceará,
que assinava, na maioria das vezes, com pseudônimos: Rita de Queluz ou Maria
Rosalinda ou Inocência ou Inez ou Zé do Guinol.
Quando
temos em mãos poemas de adolescentes os olhos já desejam revirar, já temem o
porvir, há um pouco, digamos, de enjoo pelo teor amoroso que se pode encontrar.
Mas ao iniciar a leitura de Serenata,
logo encontramos o violão de Rachel tocando ao fundo e a sua demonstração pela
valorização dos artistas do País:
Chopin, Mozart, Beethoven, os
mestres
consagrados,
Não me causam a emoção
Dos versos de Catulo, acompanhados
Pelo meu violão... (p.19)
Apesar
de sua “inocência”, devida à idade, Rachel não se entregava às dores, aos
sofrimentos amorosos, queria mais era fazer sorrir os conhecidos,
homenageá-los, assim como homenageava os escritores da terra; exemplo disso é o
próprio nome da revista da qual participava, já mencionada. Ou quando, em um de
seus poemas intitulados Bonecas
e polichinelos, faz referência à filha de Araken, quando em comparação à
pessoa que homenageia no poema:
Vendo-a passar, esbelta e donairosa [...]
Recorda a filha de Araken, formosa –
a linda tabajara... Ao vê-la têm-se
saudades da jandaia buliçosa...
– É Iracema vestida de parisiense... (p.43)
Podemos
pensar que, talvez, a escritora se predispusesse a ler apenas romances de
cavalaria, como fica dito em um de seus dois poemas com título em inglês (Home e Spleen):
– Serve-me
sempre de paliativo
Reler um livro dos tempos velhos [...]
“O cavaleiro cai de joelhos
Perante a dona de seu amor...” (p.23)
Mas a poeta ou a
poetisa Rachel de Queiroz vai além, menciona ainda Zaratustra e o mito de
Ícaro. Esse citado no poema Sonhos, quando a personagem do poema
encontrando-se descrente de sua imaginação, enquanto dorme acordada, se vê no
mundo da Fantasia e diz para si mesma:
Sei que por certo cairão um dia,
De asas partidas
Quais infelizes Ícaros tristonhos... (p.29)
A escrita de Rachel vai se revelando, de certa maneira, contrária
àquela de adolescentes cheia de dor ou sofrimento. A escritora aprendiz ainda
brinca com a mania do
cearense em desejar sol enquanto tem chuva e desejar chuva enquanto tem sol.
Outros temas como as Saudações são
louvadas, lembrando-nos mais uma vez os romances indianistas de Alencar, nos
quais fica clara a presença da hospitalidade que o índio possuía quando um
estrangeiro chegava.
Até mesmo quando a poetisa resolve escrever sobre um pouco
de dor, na pele da personagem Maria, ela nos engana. No poema Rosas de santa Luzia, a
personagem, tendo feito promessa para a santa, sofre as consequências de tal
feito e morre, porém, se nos pusermos a reler veremos que a dor de Maria aos
olhos do leitor pode não ser nada mais que uma “brincadeira” da santa com Maria.
Apesar da escrita adolescente e das rimas muitas vezes,
vista aos olhos da estética, sem rimas ou com rimas fracas, quando você menos
espera encontra-se "leve, como leve pluma muito leve pousa"
lendo ou ouvindo os poemas de Serenata. Rachel de Queiroz com esse livro
nos demonstra que o trabalho sobre a escrita pode nos levar longe. Alguns dos
aspectos encontrados nos romances regionalistas da autora podem ser encontrados
em alguns de seus poemas; poderíamos dizer que existem ali elementos
embrionários da escrita de Rachel. Quais, você irá nos perguntar. Deixamos a
resposta para a sua leitura!
Livro: Serenata. Rachel de Queiroz.Organizadora: Ana
Miranda. 1ª Edição. Armazém da Cultura: 2010, Fortaleza. R$ 30,00. Para mais
informações acesse o Armazém da Cultura



"Serenata" é um livro muito bom, além de bem produzido. Ótima escolha. Recomendo, entretanto, que se troque a imagem da Clarice Lispector, que aparece no meio do texto, para que novos leitores não a copiem pensando se tratar da Rachel. Parabéns pelo espaço.
ResponderEliminarPedimos desculpas pelo erro. Já trocamos as imagens. Grato pela atenção Raymundo.
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