Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
11 de abril de 2014
O peso da Luz – uma novela cearense escrita por Ana Miranda

O peso da Luz – uma novela cearense escrita por Ana Miranda


O enredo da trama acontece em Sobral no ano de 1919. Exatamente nesse ano, no dia 29 de maio, a teoria da relatividade de Albert Einstein seria comprovada através de uma comissão científica enviada à cidade cearense. Na verdade foram feitas duas comissões, a outra foi armada em uma cidade africana. Além de narrar o eclipse em Sobral e sua importância para o campo científico, o livro aborda a estória de Roselano, cientista paraibano e leitor efervescente de Einstein, que quando soube da notícia do eclipse em Sobral e que cientistas estrangeiros viriam para a cidade fazer observações para tentar comprovar a teoria da relatividade, rumou de Cajazeiras para o Ceará. Para esta jornada, Roselano convidou o amigo e poeta Xerxes, pegou seu papagaio Galileu e rumou à cidade cearense em busca de aventuras e de saciar a sua sede científica.

O enredo nos coloca em outra época. A escritora descreve o cenário de uma período não vivenciada por ela e talvez até mesmo não vivenciada pelo leitor, ao juntar história-científica com a ficção, a autora nos proporciona uma viagem no tempo. A descrição do porto de Camocim feita pela autora é um dos melhores exemplos de como a linguagem de Ana Miranda nos recoloca no ambiente, outro exemplo é a viagem de trem que o personagem faz de Camocim a Sobral. Enquanto ele percorre o sertão o cenário é descrito com ares poéticos. A parte que eu gostaria de transcrever é referente a descrição do centro de Sobral:

Charretes e carroças passavam nas ruas, abarrotadas de gente festiva, de mercadorias. Jumentinhos levavam no dorso pesadas pipas, das quais escorriam fios de água, que era vendida de casa em casa. O esplendor comercial aparecia por todo lado, fábricas, opulentos celeiros, lojas, mercados que mostravam ser ali empório de negócios. Casarões antigos, bem cuidados e cercados de jardins, ladeavam as ruas. A cidade era compacta no centro, distribuída em vias largas e alinhavadas, as casas rareavam nos arrebaldes, as ruas ficavam estreitas e tortuosas, e por todo lado muares sonolentos descansavam à sombra de alguma árvore. A praça era mimosa, a igreja sé, alta e bem cuidada, e o teatro, um esplendor, eu jamais havia visto de perto algo tão belo e primoroso como aquele teatro.

O peso da luz não tem como foco apenas a teoria da relatividade de Einstein, a cidade de Sobral também está em evidência no livro. Mais à frente o personagem Roselano elogia a cidade “Sobral era uma cidade intelectual e o povo tinha gosto pelo luxo pela boa educação.” Sobre o bom gosto ao que é luxo, a cidade até hoje ainda tem. Nomes de populares, nomes de ruas, festejos e referência a alguns ícones da sociedade sobralense aparecem e são citados ou por vezes descritos.

Há momentos em que a narração fictícia é pausada para que um ensaio documental sobre a teoria da Relatividade, ou sobre os outros eclipses realizados no Brasil sejam esclarecidos. Essa narrativa que soma ficção e ensaio, é bastante comum entre prosadores contemporâneos, isso permite que O Peso da Luz não se limite apenas a ser uma leitura de passatempo, quem o lê aprende mais sobre um dado histórico de nosso estado que poucas vezes é citado nas aulas de historia. Além de conhecer melhor um marco histórico, o livro proporciona momentos de deleite e sensibilidade com a estória de Roselano, em especial as suas (des) aventuras amorosas.

Aliás esse livro é o primeiro de uma trilogia que a autora pretende publicar sobre fatos e assuntos ligados com a cultura cearense. Eu já aguardo ansioso os próximos livros dessa coleção. Em uma entrevista, a autora comenta que esta obra é uma homenagem ao seu tio-avô que, assim como o personagem Roselano, também era inventor e da Paraíba.


Lendo O peso da luz, notamos a riqueza da pesquisa histórica e documental feita por Ana Miranda, que mescla a realidade com a ficção de maneira tão bela que prende o leitor. Digo que esta novela cearense torna-se uma leitura obrigatória em especial aos que residem em Sobral, pois a trama e história contadas no livro dizem respeito à cidade. A comprovação da teoria de Einstein na cidade sobralense pode ser lembrada também no Museu do Eclipse, situado em Sobral, lá encontra-se manchetes e recortes históricos que relembram a data histórica. Há outros livros que também comentam a vinda das comissões cientificas para Sobral. Mas o livro que une ficção-ensaio-realidade em um único corpus é O peso da luz.

Leia Mais
19 de novembro de 2012
Cem anos de dor e sofrimento, por Sergio Filho

Cem anos de dor e sofrimento, por Sergio Filho




            por Sérgio Filho

Em todo esse ano de 2012 a Paraíba comemora o centenário da mais singular obra poética da literatura brasileira: o livro de poemas Eu, de Augusto dos Anjos. Lançado com esse título em 1912 e a ele somado um adendo em edições posteriores passou-se a intitular-se Eu e outras poesias. Porém, algumas editoras, como a Editora Armazém da Cultura, preferem publicar a obra do autor paraibano com o seu nome inicial. A poesia que encontramos no Eu é uma transfiguração estética do perfil biográfico de Augusto.

O poeta Augusto veio ao mundo já dentro de uma atmosfera de decadência, como ele mesmo diz em um de seus versos mais famosos: “Sofro, desde a epigênesis da infância.” Seu pai, Alexandre dos Anjos, era dono de engenho no período de declínio desse modo de produção. E é com seu genitor, homem dado à intelectualidade, que o futuro poeta tomaria gosto pela arte literária, filosofia e latim.

Tanto seu pai quanto sua mãe, Córdula dos Anjos, eram conservadores. Consta que certa vez Augusto apaixonara-se por uma moça pobre, chamada Maria, que dele engravidou. Sabendo do ocorrido, os pais, repressores, ordenaram matar a inocente mulher juntamente com a criança que nasceria. Esse episódio marcou profundamente a visão do poeta sobre a vida, passou a ver a dor e o sofrimento como fatores essenciais para viver:

“Dor, saúde dos seres que se fanam, / Riqueza da alma, psíquico tesouro, (...) / És suprema! Os meus átomos se ufanam de pertencer-te oh! Dor, ancoradouro dos desgraçados, sol do cérebro, (...) / Minha maior ventura é estar de posse / de tuas claridades absolutas!”

O incidente com Maria está em forma de alegoria no soneto A árvore da serra, no qual Augusto dialoga com seu pai, que determina cortarem a tal árvore, pois: “– As árvores, meu filho, não têm alma!”, ao que o interlocutor clementemente pede “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”, “Esta árvore, meu pai, possui minha’lma...”. Como no poema, Augusto “triste se abraçou com o tronco /E nunca mais se levantou da terra!”, deixando morta também a semente da qual geraria sua descendência.


Porém, em 1910, o poeta casa-se com Éster Fialho, com quem teve três filhos, o primeiro, natimorto, em 1911; em 1912, nasce glória, a quem dedica o Eu; e no ano seguinte nasce Guilherme. Mas o “efeito Maria” deixaria fortes sequelas em Augusto a ponto de dizer que jamais voltaria a “amar mulher alguma”.

Como em A árvore da serra, o poema O morcego permite interpretações alegóricas quando associado a um possível caso de incesto que o poeta haveria estabelecido com a irmã Francisca dos Anjos, a Iaiá triste e solitária da família. Dessa relação incestuosa Augusto teria sofrido a implacável e inevitável cobrança de sua consciência: “A Consciência Humana é este morcego!/Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/Imperceptivelmente em nosso quarto!”.

Desde os tempos do Liceu paraibano que Augusto dos Anjos era visto pelos demais como um ser desafortunado, sobre isso escreve seu o amigo Órris Soares: “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura, e nos lábios uma crispação de demônio torturado”.

“A que escola se filiou?”, pergunta Órris Soares. A poesia de Augusto dos Anjos é na verdade um caleidoscópio estético; muitos são os estudiosos que se debruçam sobre a obra do paraibano, e munidos de argumentos exegéticos enquadram-no nesta ou naquela escola literária. As leituras de sua lírica vão desde o Barroco ao Pré-modernismo.


Na época do lançamento do Eu, foram poucos os críticos a reconhecerem a envergadura que os poemas da obra alcançariam. Gilberto Amado foi um dos que conseguiu visionar a poética do paraibano: “Começa um movimento de imitação a um rapaz histérico de extraordinário talento misantropo, Augusto dos Anjos.” Já o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, enojado pela estética de Augusto, felicitou-se quando da morte deste.

Não apenas a imagem de Augusto como poeta maior orgulha todo o povo paraibano, mas seus versos, que mesclam o erudito da poesia simbolista e o popular da variedade linguística da região, são declamados tanto por acadêmicos quanto pela gente simples e profunda conhecedora da lírica anjosiana.

Mesmo execrado pelos parnasianos e ignorado pelos modernistas de 22, a lírica lúgubre de dos Anjos sobreviveu com fôlego total a toda e qualquer opressão literária.

O pobre Augusto dos Anjos viveu enfermo da alma e morreu com pneumonia aos 30 anos, em 12 de novembro de 1914 na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. Lá descansa embaixo do Tamarindo, plantado da semente do mesmo e generoso Tamarindo que por anos acolheu as bilhões de vezes que o poeta chorou.




Leia Mais
1 de outubro de 2012
A serena Serenata de Rachel

A serena Serenata de Rachel



  

Aos dezesseis anos todo adolescente escreve poemas. Ao perder o “único” amor da vida ou o “grande” amor encontramo-nos encolhidos no canto do quarto com um papel em branco e uma caneta que derrama dores. Como diria Rilke em suas Cartas a um jovem poeta: “os jovens atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com o seu desgoverno, sua desordem e derramam-se tais” (p.59).

A jovem Rachel de Queiroz, porém, com dezesseis anos, não derramava dores, mas sim alegrias em revistas que permeavam o Siará. Era integrante ativa de algumas revistas – como A Jandaia, na qual era vice-diretora – e publicava também no jornal O Ceará, que assinava, na maioria das vezes, com pseudônimos: Rita de Queluz ou Maria Rosalinda ou Inocência ou Inez ou Zé do Guinol.
         
Quando temos em mãos poemas de adolescentes os olhos já desejam revirar, já temem o porvir, há um pouco, digamos, de enjoo pelo teor amoroso que se pode encontrar. Mas ao iniciar a leitura de Serenata, logo encontramos o violão de Rachel tocando ao fundo e a sua demonstração pela valorização dos artistas do País:

         Chopin, Mozart, Beethoven, os mestres
                                                           consagrados,
            Não me causam a emoção
            Dos versos de Catulo, acompanhados
                        Pelo meu violão... (p.19)


Apesar de sua “inocência”, devida à idade, Rachel não se entregava às dores, aos sofrimentos amorosos, queria mais era fazer sorrir os conhecidos, homenageá-los, assim como homenageava os escritores da terra; exemplo disso é o próprio nome da revista da qual participava, já mencionada. Ou quando, em um de seus poemas intitulados Bonecas e polichinelos, faz referência à filha de Araken, quando em comparação à pessoa que homenageia no poema:

      


   Vendo-a passar, esbelta e donairosa [...]
            Recorda a filha de Araken, formosa –
            a linda tabajara... Ao vê-la têm-se
            saudades da jandaia buliçosa...
            – É Iracema vestida de parisiense... (p.43)
        
Podemos pensar que, talvez, a escritora se predispusesse a ler apenas romances de cavalaria, como fica dito em um de seus dois poemas com título em inglês (Home e Spleen):
          Serve-me sempre de paliativo
            Reler um livro dos tempos velhos [...]
            “O cavaleiro cai de joelhos
            Perante a dona de seu amor...” (p.23)

        
Mas a poeta ou a poetisa Rachel de Queiroz vai além, menciona ainda Zaratustra e o mito de Ícaro. Esse citado no poema Sonhos, quando a personagem do poema encontrando-se descrente de sua imaginação, enquanto dorme acordada, se vê no mundo da Fantasia e diz para si mesma:
        
            Sei que por certo cairão um dia,
                        De asas partidas
            Quais infelizes Ícaros tristonhos... (p.29)



A escrita de Rachel vai se revelando, de certa maneira, contrária àquela de adolescentes cheia de dor ou sofrimento. A escritora aprendiz ainda brinca com a mania do cearense em desejar sol enquanto tem chuva e desejar chuva enquanto tem sol. Outros temas como as Saudações são louvadas, lembrando-nos mais uma vez os romances indianistas de Alencar, nos quais fica clara a presença da hospitalidade que o índio possuía quando um estrangeiro chegava.


Até mesmo quando a poetisa resolve escrever sobre um pouco de dor, na pele da personagem Maria, ela nos engana. No poema Rosas de santa Luzia, a personagem, tendo feito promessa para a santa, sofre as consequências de tal feito e morre, porém, se nos pusermos a reler veremos que a dor de Maria aos olhos do leitor pode não ser nada mais que uma “brincadeira” da santa com Maria.
        
Apesar da escrita adolescente e das rimas muitas vezes, vista aos olhos da estética, sem rimas ou com rimas fracas, quando você menos espera encontra-se "leve,   como leve pluma muito leve pousa" lendo ou ouvindo os poemas  de Serenata. Rachel de Queiroz com esse livro nos demonstra que o trabalho sobre a escrita pode nos levar longe. Alguns dos aspectos encontrados nos romances regionalistas da autora podem ser encontrados em alguns de seus poemas; poderíamos dizer que existem ali elementos embrionários da escrita de Rachel. Quais, você irá nos perguntar. Deixamos a resposta para a sua leitura! 

Livro: Serenata. Rachel de Queiroz.Organizadora: Ana Miranda. 1ª Edição. Armazém da Cultura: 2010, Fortaleza. R$ 30,00. Para mais informações acesse o Armazém da Cultura


Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger