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1 de outubro de 2012

A serena Serenata de Rachel



  

Aos dezesseis anos todo adolescente escreve poemas. Ao perder o “único” amor da vida ou o “grande” amor encontramo-nos encolhidos no canto do quarto com um papel em branco e uma caneta que derrama dores. Como diria Rilke em suas Cartas a um jovem poeta: “os jovens atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com o seu desgoverno, sua desordem e derramam-se tais” (p.59).

A jovem Rachel de Queiroz, porém, com dezesseis anos, não derramava dores, mas sim alegrias em revistas que permeavam o Siará. Era integrante ativa de algumas revistas – como A Jandaia, na qual era vice-diretora – e publicava também no jornal O Ceará, que assinava, na maioria das vezes, com pseudônimos: Rita de Queluz ou Maria Rosalinda ou Inocência ou Inez ou Zé do Guinol.
         
Quando temos em mãos poemas de adolescentes os olhos já desejam revirar, já temem o porvir, há um pouco, digamos, de enjoo pelo teor amoroso que se pode encontrar. Mas ao iniciar a leitura de Serenata, logo encontramos o violão de Rachel tocando ao fundo e a sua demonstração pela valorização dos artistas do País:

         Chopin, Mozart, Beethoven, os mestres
                                                           consagrados,
            Não me causam a emoção
            Dos versos de Catulo, acompanhados
                        Pelo meu violão... (p.19)


Apesar de sua “inocência”, devida à idade, Rachel não se entregava às dores, aos sofrimentos amorosos, queria mais era fazer sorrir os conhecidos, homenageá-los, assim como homenageava os escritores da terra; exemplo disso é o próprio nome da revista da qual participava, já mencionada. Ou quando, em um de seus poemas intitulados Bonecas e polichinelos, faz referência à filha de Araken, quando em comparação à pessoa que homenageia no poema:

      


   Vendo-a passar, esbelta e donairosa [...]
            Recorda a filha de Araken, formosa –
            a linda tabajara... Ao vê-la têm-se
            saudades da jandaia buliçosa...
            – É Iracema vestida de parisiense... (p.43)
        
Podemos pensar que, talvez, a escritora se predispusesse a ler apenas romances de cavalaria, como fica dito em um de seus dois poemas com título em inglês (Home e Spleen):
          Serve-me sempre de paliativo
            Reler um livro dos tempos velhos [...]
            “O cavaleiro cai de joelhos
            Perante a dona de seu amor...” (p.23)

        
Mas a poeta ou a poetisa Rachel de Queiroz vai além, menciona ainda Zaratustra e o mito de Ícaro. Esse citado no poema Sonhos, quando a personagem do poema encontrando-se descrente de sua imaginação, enquanto dorme acordada, se vê no mundo da Fantasia e diz para si mesma:
        
            Sei que por certo cairão um dia,
                        De asas partidas
            Quais infelizes Ícaros tristonhos... (p.29)



A escrita de Rachel vai se revelando, de certa maneira, contrária àquela de adolescentes cheia de dor ou sofrimento. A escritora aprendiz ainda brinca com a mania do cearense em desejar sol enquanto tem chuva e desejar chuva enquanto tem sol. Outros temas como as Saudações são louvadas, lembrando-nos mais uma vez os romances indianistas de Alencar, nos quais fica clara a presença da hospitalidade que o índio possuía quando um estrangeiro chegava.


Até mesmo quando a poetisa resolve escrever sobre um pouco de dor, na pele da personagem Maria, ela nos engana. No poema Rosas de santa Luzia, a personagem, tendo feito promessa para a santa, sofre as consequências de tal feito e morre, porém, se nos pusermos a reler veremos que a dor de Maria aos olhos do leitor pode não ser nada mais que uma “brincadeira” da santa com Maria.
        
Apesar da escrita adolescente e das rimas muitas vezes, vista aos olhos da estética, sem rimas ou com rimas fracas, quando você menos espera encontra-se "leve,   como leve pluma muito leve pousa" lendo ou ouvindo os poemas  de Serenata. Rachel de Queiroz com esse livro nos demonstra que o trabalho sobre a escrita pode nos levar longe. Alguns dos aspectos encontrados nos romances regionalistas da autora podem ser encontrados em alguns de seus poemas; poderíamos dizer que existem ali elementos embrionários da escrita de Rachel. Quais, você irá nos perguntar. Deixamos a resposta para a sua leitura! 

Livro: Serenata. Rachel de Queiroz.Organizadora: Ana Miranda. 1ª Edição. Armazém da Cultura: 2010, Fortaleza. R$ 30,00. Para mais informações acesse o Armazém da Cultura


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2 comentários:

  1. "Serenata" é um livro muito bom, além de bem produzido. Ótima escolha. Recomendo, entretanto, que se troque a imagem da Clarice Lispector, que aparece no meio do texto, para que novos leitores não a copiem pensando se tratar da Rachel. Parabéns pelo espaço.

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  2. Pedimos desculpas pelo erro. Já trocamos as imagens. Grato pela atenção Raymundo.

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