A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos
A obra de Ionesco não me era conhecida, até que dias atrás um amigo indicou-me esta peça. E que peça! Dizem que ela pertence ao teatro do absurdo, mas já não seria o absurdo a vida? Assim, dizem, pensava o autor
O livro, que se passa
em uma cidade da França, inicia com alguns personagens conversando, entre eles
Jean e Berénger, num dia de domingo. Outros personagens aparecem e o autor
consegue criar diálogos interconexos de uma forma que o fio da meada não se
perde. Como num jogo de tênis de mesa, Ionesco faz a cena mudar de foco para
dois ou três lugares ao mesmo tempo dentro de um mesmo ambiente, as conversas
são intercaladas em vários momentos a cada frase dita. Um leitor desatento
tende a voltar algumas páginas se se perder em devaneios.
Daí em diante o que
se verá é que rinocerontes começam a surgir. Num primeiro instante um
rinoceronte passa correndo. De início acreditam ser apenas um, após um tempo de
conversas entre alguns personagens, outro rinoceronte passa correndo para o
lado oposto. Ainda não se sabe se é apenas um rinoceronte ou se dois ou se
possuem um corno ou dois cornos ou se são asiáticos ou africanos. No dia
seguinte o que se vê são rinocerontes no entremeio da cidade. O que acontece?
Ninguém sabe.
Um
leitor mais atento, e que tenha lido A metamorfose, de Franz Kafka,
começará a desconfiar que exista algo de errado. Sim, sim, sim! As pessoas
estão se transformando em paquidermes, ou melhor, em perissodátilos, como gosta
de chamar Bérenger. Não ocorrerá apenas uma metamorfose, mas várias. Todos
possuem familiares e amigos que estão se transformando. Será uma epidemia? Um
vírus? Será invenção? Como acredita o personagem Botard, que diz que tudo é
pura falácia da mídia. Para outros, como Jean, isso é totalmente aceitável. E
porque não aceitar a evolução? Os homens e mulheres, crianças
e idosos estão a se transformar em rinocerontes. Não há mais autoridades,
ficando por fim apenas Bérenger, Daisy e Dudard.
Ao
final da peça os três encontram-se no quarto de Bérenger, que já começa a
enlouquecer, pois não consegue aceitar que os homens estejam se transformando.
Os três não querem aceitar a tal evolução, que até mesmo o Sr. Botard era
contrário.
Começam, então, a se
questionarem se tal transformação para uma possível evolução é algo consciente ou
se é algo realizado de forma conduzida. Durante esse
questionamento, Dudard que não se sente mais à vontade na presença dos dois,
começa a ficar fora de si e desce as escadas do prédio de Bérenger indo de
encontro aos rinocerontes. A colega de trabalho de Bérenger, Daisy, quando
solicitada por Bérenger para fazer Dudard ficar, diz:
Daisy
Gostaria muito que
ele ficasse... No entanto, cada um é livre. (p.282)
A crítica diz que a
obra de Ionesco contém uma crítica aos estados totalitários, quaisquer que
sejam, e que naquele momento ele falava do Nazismo. Outros comentam que a obra
possui um conteúdo crítico às grandes massas que se tornavam alienadas perante
a modernização do mundo. Que seriam conduzidos de forma alienadora perante a
forma com que o capital mudava as relações entre os homens. Ser livre, no
entanto, talvez não fosse para cada um. A liberdade de escolha, em se
metamorfosear em rinoceronte, talvez não venha a ser algo consciente, e sim,
dirão alguns, conduzida. Mas o homem, dirá Bérenger:
Bérenger
A Dudard
O homem é superior ao rinoceronte! (p.283)
O homem é superior a
essa tal escolha. Bérenger se encontra ao final da peça sozinho em seu quarto,
entrando em pânico. Daisy também fora junto com a massa. Achou-a bonita e
acreditou que eles é que possuíam a razão. Sozinho, contra os belos
rinocerontes, Bérenger chega ao estado de sua própria razão. Do homem que
realmente teve escolha e que por mais que confuso estivesse em alguns momentos,
soube firmar seus pés em sua consciência. Como o último homem, como o
resistente, Bérenger grita para a massa de rinocerontes o que ele acha certo
fazer:
Bérenger
Muito
bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha
carabina! Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo
mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo! (p.319)
Sem se render
Bérenger encontra-se isolado do resto do mundo, sem chance talvez de
sobrevivência, resolve não se transformar em mais um, em não se alienar, em não
se deixar conduzir. O último homem deve permanecer rígido, sem rendição.
O livro, O
rinoceronte, é algo absurdamente sem sentido, para alguns, e com uma
demonstração ampla de sentidos para outros. A interpretação é válida em vários
tempos de nossa sociedade. A significação de sua obra, acreditamos,
não perdeu força e pode ser trazida aos nossos dias. Vários olhares podem ser
revelados a partir de uma nova “desconexão” do homem com a vida e com seu
tempo.
Não creio que o livro
de Ionesco seja algo absurdo, é o primeiro livro que leio dele, talvez os
outros possam me explicar um pouco mais sobre tal adjetivo, mas acredito que o
teatro de Ionesco não está para ser classificado como absurdo, no sentido
literal da palavra, pois tudo que ele retrata em O rinoceronte é
totalmente aplicável. A sua linguagem, dirão alguns, é desconexa, quando
acredito que não. De forma simples e bem pensada, Ionesco revê a vida sobre o
palco de maneira diferente de outros de seu tempo, daí ter chamado atenção de
outros importantes de sua época.
A impressão que fica
é que um autor como Ionesco vale muito a pena ser lido e que fundamentalmente
tem que ser mais estudado, pois pouco se encontra sobre ele. O que pude
encontrar na internet foram alguns textos falando sobre sua vida, e algumas
poucas apreciações sobre sua obra, muitas repetições sem um aprofundamento do conteúdo.
Leiamos, então, Ionesco e conversemos mais sobre esse homem insólito.
* Uma boa tradução, porém a partir do
segundo ato erros de pontuação ocorrem. Colocam-se vírgulas e pontos onde não
existem, mas nada que impeça o entendimento da obra.


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