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25 de setembro de 2014
Entrevista com Saulo Ribeiro (Editor da Cousa), por Nathan Matos

Entrevista com Saulo Ribeiro (Editor da Cousa), por Nathan Matos



Conheci a Editora Cousa através de um amigo, o Eduardo Lacerda, que me falou que alguém, no Espírito Santo, também tentava editar livros. Indicou o Saulo, daí começamos a nos falar, obviamente, sobre livros. Sempre fui um interessado por edição, o objeto livro pra mim sempre foi uma obra de arte, e seu conteúdo algo que não sei definir em palavras. Sendo assim, nada mais simples do que conversar através do inbox do facebook e fazer uma entrevista para encurtar a distância. Segue aqui, perguntas simples, porém essenciais para que autores e futuros editores possam entender um pouco mais sobre editar e editoras independentes.


Saulo, de onde foi que surgiu a ideia de criar a Cousa?

Foi em 2009. O meu sócio, Rodrigo Caldeira, fazia livros de maneira totalmente amadora e artesanal em casa. Eram tiragens de um único exemplar para amigos. Eu sou dramaturgo e uma peça minha ganhou um edital público para circular em várias cidades. Pensamos em fazer o livro para acompanhar a peça (Cárcere, parceria de Vinícius Piedade). Deu tão certo e foi tão gostoso fazer que não paramos desde então.

Qual o foco da linha editorial da Cousa?

Literatura em geral, teatro e dramaturgia. Mas temos ensaios, memórias e, em breve, roteiros cinematográficos e fotografia.

Vocês acreditam que há um público que sente falta da publicação de roteiros cinematográficos, tendo em vista que não é um gênero que tem um alto número de publicações?

Como o custo de produção caiu e, por outro lado, estamos inseridos em guetos artísticos, um roteiro acaba vendendo a mesma coisa que um livro de poesia ou teatro.

Nesses últimos cinco anos, percebe-se que novas editoras surgiram no mercado editorial, principalmente as editoras independentes, que quase sempre possuem uma linha editorial muito bem demarcada. Como você vê todo esse cenário?

Nosso catálogo não foi previamente demarcado. Nós começamos com uma peça de teatro e fomos aceitando o que nos agradava, independente de gênero. A Cousa é uma das poucas editoras do Espírito Santo e procuramos dar vazão a quem nos procura com uma proposta consistente.

Você acredita que ainda há espaço para novas editoras?

Sim, há. O que não quer dizer que exista um mercado consolidado. Nós estamos criando nosso mercado e modelo de negócios, buscando mecanismos de sustento fora do mercado tradicional (que, em termos de literatura, está em crise). Não é fácil, mas é um combate bom.

Editar livros, no Brasil, é fácil?

Não. É difícil. Às vezes, um sujeito me procura e jura que escreveu um excelente livro e que vai vender muito. Eu pergunto qual foi o último livro de autor estreante que ele comprou e a resposta é vaga, vazia. Tem muita gente escrevendo e pouca gente lendo. Vender um livro hoje é quase um movimento de luta de solo. Tem que pegar o leitor e dar uma chave de braço nele até ele levar a obra. O autor tem que mobilizar seu círculo de leitores e amigos.



O que fez Saulo Ribeiro se interessar pela literatura?

Os livros da minha vida me ajudaram a seguir em frente. Eles traduziram o mundo para mim. Miller, Bukowski, Marcos Rey, João Antonio, Lima Barreto me fizeram perceber que tinha gente com os mesmos pesadelos que eu. E em cada livro que leio eu continuo buscando essa tradução do mundo, das coisas.

Algumas das obras da Cousa são peças, como é o processo de editoração de livros assim? Há alguma diferença quanto aos gêneros poesia, ensaio ou contos?

Sim. Há uma preocupação com o encadeamento do texto, que é diferente da prosa e da poesia. Mas, por outro lado, também é verdade que hoje as linguagens se aproximam muito. Existem textos de teatro que se assemelham a romances, contos, poesia. E o contrário é também ocorre.


Com a entrada da Amazon em solo brasileiro, você pensa que será mais difícil para as pequenas editoras conseguirem um maior avanço entre os leitores brasileiros?

Não vejo este problema para a Cousa, pois nunca vislumbrei um alcance maior para nossos livros. Eles são vendidos no lançamento e ficam disponíveis em nossos sites e redes sociais.  As editoras independentes, acredito, não ganham e nem perdem nada. Nosso combate se faz em outra frente. Nossa venda de livros se faz com um contato maior com o leitor, com o círculo do autor. Lancei o livro de um autor espanhol célebre, chamado Fernando Arrabal, e até agora só vendi 20 livros, pois não tive o autor no evento de lançamento (veja só!). Nosso luta é no chão. É a literatura jiu-jitsu, como afirmei acima. Mas as pequenas livrarias, certamente, somam mais um problema nessa luta.

No Espírito Santo, há outras editoras independentes? Como está sendo a movimentação do sistema literário na tua cidade e em teu estado?

Sim. Temos algumas, posso citar a Pedregulho e a Aves de Água. O pessoal do Tertúlia, um site de literatura, costuma publicar alguma coisa em papel vez em quando, além de e-books. Em Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, tem a editora Cachoeiro Cult, que lança livros e faz uma revista de variedades. Estamos em um excelente momento. Muitos escritores se encontrando, apoiando. Grupos de discussão e criação surgindo. O pessoal do NEPLES (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo), vinculado à UFES, está suporte e fomentando muitas ações. Às vezes, penso que estamos vencendo a guerra. E tem hora que acho que estamos cercados. Mas temos cavado trincheiras dia e noite por aqui. Editar e escrever é isso.





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15 de julho de 2014
Cora e Adélia Receita de Poesia em Um Dedo de Prosa, no Espaço Cultural Correios Fortaleza

Cora e Adélia Receita de Poesia em Um Dedo de Prosa, no Espaço Cultural Correios Fortaleza




Após estrear no Rio de Janeiro e passar por São Paulo, Brasília e Juiz de Fora, o espetáculo Cora e Adélia, Receita de Poesia Em Um Dedo de Prosa chega à Fortaleza para curta temporada, entre os dias 17 e 19 de julho, no Espaço Cultural Correios.

O espetáculo tem direção de Rafaela Amado, texto original de Jackson Costa e conta em seu elenco com as atrizes Sônia de Paula e Nica Bomfim. As sessões acontecem às 19h, de quinta-feira (17) a sábado (19), com entrada franca. Os ingressos serão distribuídos uma hora antes de cada apresentação, que terão 70 lugares disponíveis. Projeto sócio-cultural de incentivo à leitura, o espetáculo tem o patrocínio dos Correios e do Ministério da Cultura. A realização é da Somar Ideias. 
Em cena, duas amigas, companheiras de vida, fazem um balanço de suas histórias ao se depararem com as obras das poetisas Cora Coralina e Adélia Prado. Lembram passagens românticas, comoventes, alegres e divertidas. O real encontro das obras se dá por meio dos textos: uma completa o pensamento da outra, com continuidade e trazendo respostas.

Foto Divulgação
SERVIÇO

CORA E ADÉLIA – RECEITA DE POESIA EM UM DEDO DE PROSA
Leituras dramatizadas das obras de Cora Coralina e Adélia Prado.
Com Sônia de Paula e Nica Bomfim.
Direção, pesquisa e seleção dos poemas - Rafaela Amado.
Texto original, pesquisa e seleção dos poemas - Jackson Costa.
Local: Espaço Cultural Correios Fortaleza
Endereço: Rua Senador Alencar, 38 – Centro - Fortaleza – CE
Informações: (85) 3255-7142 - E-mail: espacoculturalce@correios.com.br
Data: De 17 a 19 de julho de 2014 – quinta a sábado, 19h.
Capacidade: 70 lugares
Grátis - Senhas distribuídas uma hora antes de cada apresentação
Acessibilidade: Intérprete de Libras

Mais informações:
blog: http://coraeadelia.blogspot.com/


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7 de março de 2014
Entrevista com Mailson Furtado

Entrevista com Mailson Furtado


Mailson Furtado mora em Varjota, sertão do Ceará, é dramaturgo, poeta, contista, cronista e acadêmico do curso de Odontologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. Até o momento, publicou dois livros Sortimento, livro de poemas, e Conto a conto. O multi-artista vem revolucionando a cultura local com seus projetos de incentivo às artes cênicas e literárias. Conversei com ele via e-mail sobre arte, vida pessoal e projetos futuros.

Léo Prudêncio – Como surgiu a Companhia de Teatro Criando Arte?

Mailson Furtado Em 2005, fui convidado a participar de penetra em um grupo de teatro em Varjota, que em minha opinião foi quando ingressei na vida pública. O grupo montou um espetáculo durante 3 meses e apresentou este em 2 oportunidades, findando logo depois. Não tinha noção do quanto aquela arte tinha me conquistado, e assim senti necessidade de continuar a praticar teatro. Na época, era membro do Grêmio Estudantil da escola e nossa plataforma abordava fortemente a Arte. Assim eu e Ronaldo Araújo, grande amigo e gremista também, tivemos a ideia de criarmos um festival de teatro na escola, para assim montarmos um novo grupo. A escola funcionava em 3 turnos e decidimos que o festival seria interturnos. Fiquei responsável por um turno, Ronaldo por outro e Magnel Carvalho por outro, no entanto, o turno que Ronaldo organizava não rendeu e tivemos que nos unir para montar um grupo só. Daí ficava desinteressante um festival com apenas 2 grupos, entra em ação uma figura importantíssima dentro de minha carreira, enquanto artista, o ator e poeta Demis Santana, hoje residente em Maceió, tendo a ideia de transformar o evento não em uma mostra de teatro mas numa Mostra Cultural, surgindo a Mostra de Cultura, Diversão e Arte de Varjota, o maior evento cultural da cidade até hoje, que reúne todos os grupos locais em um só evento. E a partir daí, o espetáculo Loteria 2 2 2 foi um sucesso, que foi meu primeiro texto, e não conseguimos parar mais.

L. P. – Quais os dramaturgos que mais lhe influenciam?

M. F. – Em minha trajetória como dramaturgo, tive poucas influências, afinal, digo com sinceridade que comecei a escrever dramaturgias e a fazer teatro, fazendo e não estudando, assim minha primeira bagagem teatral veio principalmente da prática. Com o passar do tempo, a exigência de teoria e conhecimentos técnicos é exigido e não dá mais para continuar leigo no assunto, caso queira crescer na área, ainda assim, grande parte do meu conhecimento teatral, veio de leituras individuais. No entanto, neste momento [2006-2008], eu já havia produzido algumas obras que versavam sempre sobre uma crítica social ao capitalismo, com uma comédia excessivamente irônica, partindo meio ao surreal, fantasioso e infantil, tais características vieram da influência que sofri da obra de Chaplin e do mexicano Roberto Bolaños. Com os estudos, vim a mudar ou experimentar outras características, como o teatro épico de Bertold Brecht e principalmente o teatro do Oprimido de Augusto Boal, que hoje, sem dúvida, é minha maior influência. O teatro de rua e teatro regional do Nordeste, principalmente a influência Armorial, movimento criado por Ariano Suassuna, é a minha marca atual, embora permaneça com minha característica inicial, a crítica social.

L. P. – Há limites entre o teatro e outros gêneros literários?

M. F. Com certeza não. A beleza do teatro está justamente nessa possibilidade de experimentação que o mesmo oferece, não apenas com gêneros literários, mas com gêneros artísticos. Assim poemas, prosa, músicas, quadros podem ser dramatizados, coisa que outras artes não conseguem fazer de uma maneira tão explícita e completa.

L. P. – Quais as conquistas que a CIA de teatro de vocês já ganharam?

M. F.  A principal conquista, digo sempre, é a possibilidade de eu estar aqui 8 anos depois de sua criação contando a sua história de uma forma ativa e não apenas como memória, enfim, a principal conquista, sem dúvidas, é a nossa resistência a esse mercado, curtíssimo, principalmente aqui no sertão cearense há quase uma década. A possibilidade de termos nos apresentado nos grandes centros cênicos do estado e em grandes festivais, como visitar inúmeras cidades, são outras conquistas, onde levamos sempre o nome de nosso lugar. Quanto a títulos, ano passado, 2013, tivemos a felicidade de receber uma comenda de Moção de Congratulação pelas atividades que já realizamos na cidade, ofertada pela Câmara Municipal de Varjota e este ano já recebemos com grande alegria o título de Destaques do Ano de 2013, com o troféu Carlos Câmara, na categoria Interior, prêmio este que é o Oscar do teatro cearense e com grande orgulho recebemos.

L. P. – Você também transita entre outros gêneros como a poesia e o conto, mas qual dos gêneros literários você costuma escrever mais?
  
M. F.  Com certeza, entre verso, conto e dramaturgia, o que mais me conquista é o verso. Digo que sou bem mais poeta, que contista ou dramaturgo. Sem dúvidas, o verso é a modalidade que mais me identifico.


L. P. – Como surgiu a ideia do seu primeiro livro, o Sortimento?

M. F.  O Sortimento surgiu em 2007, ano que mais produzi literariamente, sendo uma fase que marca muito meu trabalho enquanto poeta. Dessa grande produção, veio a necessidade e o sonho de publicar uma obra e assim o Sortimento nasceu. O nome do projeto nasceu por conta da minha vertente eclética que adquiri enquanto poeta, onde ganhei influências desde a escola arcádica até a moderna e pós-moderna, onde em sua grande parte minha obra ainda hoje é, daí sortimento.

L. P. – O seu segundo livro, Conto a Conto, possui escritos recentes ou é uma mistura de períodos?

M. F.  A maioria é recente, e foram construídos justamente para o livro, alguns não, em outros a construção é recente, porém a ideia não. Enfim, ele é mesclado.


L. P. – Você participa do grupo literário Pescaria, pode nos falar um pouco sobre ele?

M. F. – O Pescaria é uma das mais novas experiências que estou podendo desfrutar e sem dúvida, uma das melhores, enquanto autor. A ideia de criar um grupo literário veio quando eu e meu amigo Erasmo Portavoz, também membro do grupo, fomos à Bienal do Livro, em Fortaleza, e notamos a necessidade que nossa cidade possuía de ter um movimento literário consolidado, como já existia no teatro, dança e capoeira, assim surgiu a ideia. Dentro dela, veio outra ideia, essa para editoração de um jornal literário, que carregaria o nome do grupo. O jornal tomou forma e teve sua 1ª edição lançada em março de 2013, embora o grupo, não. E assim a ideia foi esfriando, embora o jornal tivesse sendo produzido e distribuído e já na sua quarta edição. A ideia inicial do grupo era de reunirmos na praça da Matriz da cidade, coisa que não deu certo e nenhum encontro aconteceu, até que em uma conversa informal com Felipe Ximenes, grande amigo e também membro do grupo, marcamos certo dia, de debatermos literatura, artes, filosofia na margem do Rio Acaraú e chamamos na oportunidade outros amigos, ainda sem imaginar que o Pescaria surgiria. Foi um sucesso nossa primeira pesca, como chamamos nossas reuniões e na outra semana o grupo estava formado, onde construímos as ideias, objetivos. Assim somos um grupo não somente de produção literária, mas de estudos também. E em apenas 4 meses de grupo, o Pescaria já realizou 2 eventos literários em Varjota, participou de 2 exposições, já fora de Varjota, visitou já 3 cidades para eventos literários e a cada dia recebe menções sobre o trabalho realizado. Além do jornal, onde divulgamos nosso trabalho, há o blog Pescaria, ao qual os convido a conhecer neste link http://opescaria.blogspot.com .

L. P. – Quais são os projetos futuros que você tem pra realizar?

M. F.  Tenho inúmeros projetos de gaveta, alguns até prontos. De início, estamos em montagem de um novo espetáculo com a CIA Criando Arte, onde pretendemos circular a região novamente, este que deve ter novamente elementos Armoriais e ser um pouco metalinguístico, afinal, pretendemos falar de arte dentro da montagem, abordando elementos circenses e de outras vertentes artísticas. Planejamos iniciar a montagem em meados de abril e iniciar a circulação no segundo semestre deste ano. Literariamente, estou com algumas obras prontas, uma delas em Poesia Concreta e Neoconcreta intitulada Versos Pingados, que pretendo encaminhar a editoras o quanto antes. Há também um trabalho de dramaturgia, que é uma antologia de três obras minhas, chamada Criando Arte no Teatro, a qual não tenho planos de lançar agora. Estou na produção de um romance, que talvez termine este ano, embora pretendo estudá-lo ainda bastante ainda de pensar numa publicação e estou com um trabalho histórico com meu amigo Erasmo Portavoz sobre as manifestações artísticas dentro da história da cidade de Varjota, projeto que está em andamento e pretendemos lançar em 2016. Claro, sem esquecer do Pescaria, onde ainda este ano queremos montar uma antologia poética com as obras dos pescadores do grupo, projeto ainda não iniciado, mas que tenho plena confiança que dará tudo certo. No mais, é isso.

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23 de agosto de 2013
Fingidores, de Rodrigo Rosp ou Fingir ou não fingir, eis a questão

Fingidores, de Rodrigo Rosp ou Fingir ou não fingir, eis a questão



É de sabedoria popular que qualquer cidadão se utiliza de máscaras sociais para viver “bem”. E, pelo que tenho vivido, acredito piamente nisso. Até as crianças, quando desejam algo que não podem ter, usam das artimanhas mais fantásticas e diabólicas para conseguirem seu objetivo.

Porém, em meio a tantas máscaras que encontramos no dia a dia, há sempre o sujeito que “solta o verbo”, que diz o que tem para dizer sem pensar nas consequências que pode trazer para si. Caio, personagem de Fingidores, é um sujeito assim.

Ao ter o livro em mãos, pensei que se tratava de algum breve romance ou um livro de contos, até que vi ao lado do enorme nome amarelado Fingidores o seguinte: comédia em nove cenas. Parei, analisei e pensei que era brincadeira. Tirando Nelson Rodrigues, que consegue me fazer rir quando tudo está totalmente deturpado, eu não imaginava que ainda se publicava comédia no Brasil. Há tempos não lia uma. Apesar do julgamento que ia fazendo ao passar as páginas, percebi que eu estava errado e que Rodrigo Rosp, carioca de nascimento e gaúcho por fingimento, não estava para brincadeira ou talvez esteja e eu é que estou levando tudo muito a sério.

No início, o diálogo travado entre Caio e seu melhor amigo, Orteman, parece ser chato e mais um daqueles em que o autor pretende mostrar todo o seu conhecimento sobre algum tema profundo. Não sendo diferente, Rosp escolheu a morte. Mas, há uma diferença entre Rosp e os autores que tentam ser engraçados, profundos; o tema, escolhido para ser aprofundado e que serve como o eixo da comédia, tem sua razão e está muito bem colocado na peça. Sem ele não seria possível existir os Fingidores. Sem ela, talvez, Caio não pudesse ter a oportunidade de rememorar sete momentos de sua vida, com início meio e fim; tendo conquistado esse direito conversando com uma “filial da morte”.

A comédia em nove cenas se concentra em vários momentos da vida de Caio, em que podemos perceber que, provavelmente, tiveram algum significado para ele, pois, ao invés de ter apenas alguns segundos para poder ver toda a sua vida antes de morrer (sim, Caio morre, o que você esperava? Sem isso não há comédia!), consegue subverter o sistema que a morte utiliza e possibilita sete momentos inteiros com início, meio e fim para si. Nesses flashbacks, que são “revividos”, vê-se como Caio agiu a vida toda e de que maneira tratou as pessoas, principalmente as mulheres que amou, ou fingiu amar. Talvez algum leitor queira, ainda durante a leitura, chamar Caio de, digamos, cretino, pois parece que ele não se preocupava em nada com o que poderia acontecer a partir de suas ações. Talvez o rapaz que o atendeu enquanto comprava o caixão para o velho pai não tenha pensado isso, talvez tenha preferido acreditar que Caio era só mais um que estava sob o efeito entorpecente que a morte traz, ou talvez não tenha entendido metade do que Caio discerniu sobre a morte e da maneira como se dá a venda de caixões quando as pessoas morrem:

FUNCIONÁRIO
Gostaria de escolher um modelo, senhor?
CAIO
Tanto faz. Me dê algo que não pareça vagabundo, senão a Lucinha vai ficar envergonhada diante das amigas.

FUNCIONÁRIO
Temos esse modelo de mortuária sextavada envernizada superluxo.
CAIO
(observando o caixão com olhos distantes) Sim, e quanto custa?
FUNCIONÁRIO
São quatro e mil e oitocentos, senhor.
CAIO
(despertando) Quatro o quê?
FUNCIONÁRIO
Quatro mil e oitocentos, senhor. É uma madeira de qualidade premium.
CAIO
Pare de agir como se estivesse vendendo colchões. Embora exista uma bizarra analogia. Sabe, até alguns minutos atrás, eu achava que a televisão era a indústria mais perversa que existia. Mas há coisas piores. Essa porcaria de compensado não deve custar mais de trezentos e cinquenta. Acrescentando a mão de obra de ignorantes mortos de fome e mais o salário da Ivonir, não passaria de quinhentos.

Com essa sinceridade monstruosa é que Caio vai tratando sobre tudo.

Para completar, ficamos sabendo que Caio é um professor universitário e, aparentemente, frustrado por não ter conseguido emplacar o seu livro, que “coincidentemente” é uma peça de teatro, assim como o livro de Rodrigo Rosp. E um dos momentos da vida perpassado por ele é aquele em que diante de Mércio – um escritor que se entregou ao mercado apenas para ter livros e mais livros vendidos ­– e de Tati, moça a qual ele já deu em cima sete vezes, recua quando pressionado para que explique sobre o assunto tratado em seu livro.

Mas a estrutura da comédia não pode deixar Caio recuar demais. Ele é aquele que sempre avança contra todos os pontos estabelecidos pela moral e bons costumes, até mesmo contra o sistema empregado pela morte, por São Pedro, por Deus! Caio resolve então explicar aos dois, Tati e Mércio, porque transformou Hamlet em praticamente uma comédia, fazendo de Hamlet um travesti.

CAIO
(coçando a cabeça) Bem, eu quis brincar com a dualidade do personagem, que, entre tantas incertezas, talvez tivesse dúvida sobre o próprio sexo. (vendo que os dois o observam sem reação alguma) Ei, ele tinha uma mãe castradora e uma figura paterna que era um verdadeiro fantasma. Existe margem para uma série de interpretações, não acham?

Após a explicação, Mércio e Tati o repreendem. Caio parece, em outras palavras, querer falar pelo autor, tentando deixar claro que até mesmo Hamlet é um fingidor. Que fingimos, talvez, sempre.

Falar de todo o fingimento que pode ser relacionado conosco é inútil. Sabemos o quanto podemos ser e somos Fingidores. O quanto enganamos e nos enganamos quando necessário. Fingir é uma das melhores armas do ser humano. E todo esse fingir é representado na obra de Rodrigo Rosp, ou não. Talvez seja apenas um fingimento para que continuemos a acreditar que somos pessoas sinceras, honestas e que não devemos realizar caricaturas de nossa sociedade.

Foto: Mari Lopes
Rosp consegue ao longo da obra nos aproximar cada vez mais do personagem Caio. Parece que o conhecemos como os nossos melhores amigos. Lendo a história de vida, às parcelas, de Caio, percebi que o livro Fingidores tem uma progressão. E acredito que essa progressão é fundamental para que possamos tanto entender toda a história como para compreender que a leitura atenta e paciente é importante para analisarmos a escrita de um autor e sua obra. 

A partir da progressão da vida de Caio pude identificar que a comédia de Rosp cresce vertiginosamente e nos leva até o último ato rindo e esperando que a morte ou a vida não chegue. Ficamos sem acreditar como Caio teve a ousadia de ter desavenças com um santo. Eu não podia imaginar essa comédia que me fizesse chegar ao final do livro e após uma pergunta me fizesse virar a página e querer chorar de tristeza por não haver mais nada para ler e rir.

CAIO
De novo?



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3 de dezembro de 2012
O problema do gênero em Macário, de Álvares de Azevedo

O problema do gênero em Macário, de Álvares de Azevedo


                                                                                                              por Rodrigo Ávila

Quando pensamos de imediato no movimento romântico, temos o costume de direcioná-lo para um caminho que, talvez, minimize a complexidade do movimento. Conhecido como uma estética que desenvolve uma literatura subjetiva, o qual o poeta sabe todos os segredos da natureza e do mundo circundante, o Romantismo foi um movimento que alcançou uma dimensão integral da vida humana, tanto no sentido mais subjetivo quanto no sentido político e cultural.

Manifestando-se de forma distinta em cada nação, por inúmeros motivos, o movimento romântico mostrou-se amplo e universal. No Brasil, teve como principal característica a busca de uma identidade nacional que afirmasse uma nação recém-ingressada em um sistema de independência. Para isso, os escritores desse período buscaram na própria terra elementos que pudessem retratar a “cor local” e a partir disso desvincular-se das amarras da ex-metrópole, Portugal. Nessa atividade empenhada para buscar uma autonomia, destaca-se a publicação da revista Niterói, em 1836, ressaltando a figura de Gonçalves de Magalhães. Temos também, mais adiante, a importante contribuição de José de Alencar, que criou um projeto literário que exalta o índio brasileiro à condição de epos e representante da nossa nação.

Contudo, temos que ressaltar que não houve apenas uma faceta romântica em nosso país. O ultrarromantismo também, nas palavras de Karin Volobuef, marcou “de tal forma a nossa história literária que o leitor comum tende a ver essa manifestação específica do romantismo – como o romantismo por excelência” (VOLOBUEF, 1999, p.13). Dentro desse panorama, avultaremos a figura de Álvares de Azevedo como um representante mais destacado à altura do nosso ultrarromantismo. O autor de Lira dos vinte anos teve uma produção literária vasta e abrangente para um jovem de pouca idade. Percebe-se que Azevedo vai da poesia satírica e da prosa ficcional ao ensaio crítico, não podendo deixar de fora sua produção na forma dramática, como por exemplo, o drama homônimo Macário.

Álvares de Azevedo, que, em muitos momentos, mostra uma postura anti-nacionalista e uma omissão nos debates acerca da autonomia literária brasileira, revela-nos em Macário uma profunda consciência estético-literária acerca da forma dramática. Ainda podemos ver uma postura de debate no segundo episódio deste drama, o que nos permite afirmar que ele tinha a consciência sobre o que acontecia no cenário brasileiro literário. Álvares de Azevedo prefere seguir o caminho de Byron e Musset e se ausentar dos debates, mesmo que deixe laivos de ironia sobre o assunto em sua poética, como podemos perceber na fala de Macário:

Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se (sic) talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração. “ (AZEVEDO, 1984, p.103)
       
      Revelando a abrangência e consciência sobre os temas do autor de A noite na taverna, queremos destacar que, assim como mostrou grande atividade literária e uma profunda erudição em seus ensaios críticos, Álvares de Azevedo também ressaltou a importância do problema da forma no Romantismo. Sabe-se que a estética romântica trouxe também uma postura inversa da anterior, o neoclassicismo, mostrando que é possível quebrar com a imutabilidade do gênero. Assim, a poesia romântica poderia se manifestar de forma plena, e o poeta poderia dar evasão à sua imaginação.

Logo no “Puff” vê-se que o autor discute sobre o impasse que realçamos anteriormente. Ele pergunta o “que é disforme?” (AZEVEDO, 1984, p. 18), causando uma problematização positiva acerca das questões de gênero. No texto, o autor confessa que sua ideia é grande e que talvez nunca se realize, portanto,  seu “protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego” (AZEVEDO, 1984, p. 17). Todavia, afirma que não fez Macário para o teatro e que pouco importa como ele seja classificado. Sua preocupação durante o prefácio é mostrar que o conteúdo não está subordinado à forma, e por isso, se for preciso, é necessário que o escritor rompa as barreiras impostas pelo gênero para que a ideia se efetive.

Tal postura nos lembra quase de imediato o autor cearense José de Alencar, que afirma que Iracema é fruto de um projeto inacabado, Os filhos de tupã. Segundo Alencar, “O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vai mal à prosa a mais elevada”. A elasticidade da frase permitiria então que se empregassem com mais clareza as imagens indígenas, de moda a não passarem desapercebidas. (ALENCAR, 1951, p.181) Portanto, nota-se que Iracema tem grandes manifestações poéticas dentro de uma prosa, o que leva a crítica a chamá-la de um poema em prosa.

Assim, pode-se emparelhar os dois escritores dentro de uma característica do Romantismo que é a quebra da imutabilidade do gênero, o que permite ser um movimento de (re)criação. Tal característica ganhará contornos maiores no Modernismo que acontecerá no século seguinte.

Voltando para Macário, compreende-se que Azevedo vai um pouco além de Alencar com a quebra do gênero. O drama é dividido por um prefácio, que Andréa Sirihal Werkema (2007) chama de prefácio-personagem, e por dois episódios. Todas essas partes não podem ser desmembradas do texto azevediano, pois de alguma forma elas dialogam entre si. O prefácio anuncia para o leitor que o que ele vai encontrar é um tipo de drama que talvez não suporte ser nomeado dessa forma. Segundo Werkema, “Macário apresenta, na verdade, uma discussão intrinsecamente romântica, a grande discussão sobre a hierarquia dos gêneros, formas e registros artísticos.” (WERKEMA, 2007. P. 82)

Kayser no livro Análise e interpretação da obra literária (1985) concebe o gênero dramático em três elementos essenciais: o evento, o espaço e o personagem. No mesmo livro, o autor faz uma divisão de gêneros dentro do dramático: o drama de ação, o drama de personagem e o drama de espaço.

Procurando uma solução para qual seria o gênero do drama de Álvares de Azevedo, nota-se o quão difícil é encontrar um gênero adequado. Não é um drama de ação, pois para que seja “o evento se torna portador da estrutura, criador da tensão temporal e senhor de todo o mundo dramático, então o dito evento condensa-se em acção” (KAYSER, 1985, p. 411). O teor dramático em Macário é muito fraco e não há uma ação que possa ser considerada como configuradora da estrutura. O diálogo, talvez, seja o mais forte e, portanto, o portador de toda a tensão. Não pode ser considerado drama de personagem, pois é necessário que “A unidade não [resida] na acção, mas na figura”. (KAYSER, 1985, p. 409) Ou “peculiar [...] a ordenação do tempo em que se apresenta o mundo poético, aqui construído a partir do personagem” (KAYSER, 1985, p. 410).

No drama azevediano o tempo é indefinido. Os debates avultados no texto são tão fortes que não há uma noção de continuidade do tempo. Contudo, podemos afirmar que as ações, ou melhor, os diálogos são baseados no agora.

Por último, vem o drama de espaço, que para Kayser é “A abundância de figuras e cenários” (KAYSER, 1985, p. 410). O que também não se nota em Macário, pois os cenários são quase nulos, exceto se pensarmos que a noite perfaz todos os episódios, mas ainda assim, não se vê uma caracterização de uma casa ou de um bar. E quando adentramos o segundo episódio, a caracterização fica completamente inexistente.


No primeiro episódio do drama notamos que ele é todo ancorado no diálogo entre Satã e o protagonista. A noite confere, a esta parte, um tom onírico que não deixa claro se o protagonista vive um sonho ou uma realidade, o que é confirmado como real só após o término do episódio. Os cenários são pouco apreciados na narração, mas mesmo assim percebemos um deslocamento de espaço entre os personagens (a taverna, a casa de Satã e a cidade de São Paulo, que não é nomeada).

Voltando ao prefácio “Puff”, podemos confirmar que o drama azevediano dificilmente seria encenado, pois o caráter onírico é muito forte. Como afirma Werkema:

‘Vago’, ‘incerto’, ‘aspiração romântica’ e ‘sonho’ são termos que continuam definindo o texto pela indefinição, se assim pudermos dizer. Somos obrigados a aceitar a contradição inerentemente romântica: depois de discutir e apresentar as possibilidades de construção de um certo tipo de drama romântico utópico, Álvares de Azevedo nega a Macário qualquer intencionalidade e o coloca no âmbito impreciso do delírio, do impulso controlado” (WERKENA, 2007, p.85).

Com a preparação do primeiro episódio para podermos entrar no segundo, a situação só fica mais complexa. Ao mesmo tempo em que os dois episódios são complementares, pode-se afirmar que também são extremamente contrastantes, o que faz Antonio Candido afirmar que “Macário é um drama fascinante, feito mais para a leitura do que para a apresentação, com duas partes diferentes enquanto estrutura e qualidade, sendo a primeira melhor e uma das mais altas realizações de Álvares de Azevedo” (CANDIDO, 1989, p.10).

Entendendo a afirmação de Candido, vemos que no segundo episódio de Macário a indefinição de espaço e tempo é muito grande. Sabemos que a segunda parte do drama acontece na Itália, mas o cenário não é apresentado e a mudança de uma cena para a outra acontece de forma brusca e apenas baseada em diálogos que de algum modo (des)norteiam o leitor. Neste episódio acontece o debate entre Macário e Penseroso como forma de exposição do íntimo dos personagens e figurando a tão famosa binomia azevediana.

No prefácio da segunda parte da Lira dos vinte anos, Álvares de Azevedo nos apresenta “que a unidade deste livro funda-se numa binomia: - duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces” (AZEVEDO, 1996, p. 50). Podemos ver esta binomia como um recurso que estará presente em toda a obra do autor; nos seus poemas, Azevedo, muitas vezes, realça os dois lados de determinados assuntos. Apesar de escolher sempre um caminho para seguir, ele dá espaço na sua poética para que o antitético se manifeste. Temos como exemplo o poema “Boêmios”; Puff e Nini representam aí a binomia: aquele mostrando-se um devasso e irresponsável, alheio à vida; e este como um  poeta, revelando uma posição de censura ao colega, além de ser avesso aos costumes de Puff.

Em Macário, a binomia também se faz presente. Inicialmente notamos que Macário representa o negativismo exagerado e o humor negro, e Penseroso otimismo e a esperança da existência. O antagonismo não termina aí. Ambos têm concepções literárias bem diferentes. A quarta cena é composta por uma intensa discussão literária. Cada um tem uma posição de projeto literário. Na fala dos dois personagens pode-se encontrar elucidações sobre os debates que agitavam as rodas literárias de uma cidade de São Paulo repleta de estudantes.

Sob a fala de Penseroso vemos a defesa do nacionalismo:
Esperanças! E esse Americano não sente que ele é o filho de uma nação nova, não a sente o maldito cheia de sangue, de mocidade e verdor? Não se lembra que seus arvoredos gigantescos, seus oceanos escumosos, os seus rios, suas cataratas, que tudo lá é grande e sublime?” (AZEVEDO, 1984, p.100)

Em contrapartida, Macário nos apresenta um posicionamento de um romantismo extremamente negativo e universalista:
A vida está na garrafa de conhaque, na fumaça de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida – o que resta? Palavra de honra que é deliciosa a água morno de bordo de vossos navios! [...] Acende esse cigarro, Penseroso, fuma e conversemos.” (AZEVEDO, 1984, p.101)

Vê-se que a partir dessa relação de binomia dos personagens Macário e Penseroso, Álvares de Azevedo se mostra um autor extremamente democrático em relação às questões literárias. Apesar da morte de Penseroso, e assim, simbolicamente a derrocada da vertente nacionalista e a superposição da figura diabólica e, portanto, do negativismo universalista de Macário, nota-se que o texto dá vazão para as duas vertentes, de forma que nos confirma que o autor é consciente dos debates desenvolvidos no seu contexto social e literário, mas que prefere seguir o seu caminho sob a ótica de Byron e Musset. O autor segue nas suas reflexões, deixando abertura para um homem voltado para si e para a sua condição de ser efêmero no mundo circundante.

O diálogo de Macário e Penseroso figura um problema sério do próprio drama azevediano: a impossibilidade de encenação. O diálogo retratado é difícil de ser consolidado numa atuação. O segundo episódio mostra problemas de concatenação temporal. O leitor não consegue visualizar em que período se passa a cena e muito menos o lugar.

Outra questão bem interessante sobre Macário é a introdução de uma passagem escrita no meio do drama. O leitor é convidado a atuar a partir das “Páginas de Penseroso”, uma carta de suicídio deixada pelo poeta imaculado, de forma que percebe-se a completa perda da teatralidade. Antonio Candido considera esse segundo episódio como o “momento de Penseroso” e afirma que este episódio “é inferior sob todos os pontos de vista, a começar pela composição desarticulada em dez cenas sem nexo, duas das quais desprovidas de lugar” (CANDIDO, 1989, p.12).

Um assunto bem polêmico levantado por Antonio Candido é a hipótese de que A noite na taverna seria a continuação de Macário. A partir da fala de Macário “Cala-te. Ouçamos.” (AZEVEDO,1984, p.127) nota-se o elo entre o drama e a narração de Azevedo. N’A noite na taverna o leitor assumiria o lugar de Macário, pois este faz parte de uma “pedagogia satânica” do diabo: “Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e de vinho – que importa?” (AZEVEDO, 1984, p. 126). Com a morte de Penseroso, vê-se que a figura do diabo é elevada à condição de tutor de Macário, revelando um laço de aproximação entre ambos, que se inicia no primeiro episódio. Sob a fala de Satã há um tom de afetividade, ou talvez, como afirma Antonio Candido, um homoerotismo: 






Vamos... E como é belo descorado assim! Com seus cabelos castanhos em desordem, seus olhos entreabertos e úmidos, e seus lábios feminis! Se eu não fora Satã, eu te amaria, mancebo...”(AZEVEDO, 1984, p. 86).









Acreditando na continuidade entre os livros, pode-se dizer mesmo que houve uma troca de gênero e de personagens, com a ambiência sombria de Macário permanecendo a mesma; por isso A noite na taverna constitui uma “página da vida” ideal para os ensinamentos do diabo.

A hipótese de que tenha sido apenas uma coincidência a continuidade das obras em Álvares de Azevedo nos soa frágil, pois são vários os indícios que as aproximam, considerando que Macá­­rio mais se parece como uma experimentação de gêneros. Já de início vê-se um prefácio ficcional que remete a um personagem de um poema do mesmo autor (“Boêmios”); ou quando nos deparamos com episódios tão diferentes em sua estrutura e que se complementam. Ainda não podemos deixar de notar, mediante a fala de Macário a projeção da mesma quantidade de personagens e do mesmo ambiente de A noite na taverna: “Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas...Que noite!” (AZEVEDO, 1984, p. 126) Entregue ao Satã, só resta a Macário ouvir os ensinamentos do diabo, e os contos azevedianos seriam a melhor orientação para esse caminho satânico, no qual encontramos a tríade vinho-fumo-mulher, a necrofilia, o patriciado, a morte e outros.




REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Álvares de. Macário. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1984.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. In: A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.
KAYSER, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária. 7 Ed. Coimbra: Editora Armênio Amado, 1985.
WERKENE, Andréa Sirihal. Macário, ou do drama romântico em Álvares de Azevedo. 245 F. Tese (Doutorado). 2007. Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
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26 de julho de 2012
A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos

A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos


A obra de Ionesco não me era conhecida, até que dias atrás um amigo indicou-me esta peça. E que peça! Dizem que ela pertence ao teatro do absurdo, mas já não seria o absurdo a vida? Assim, dizem, pensava o autor     

O livro, que se passa em uma cidade da França, inicia com alguns personagens conversando, entre eles Jean e Berénger, num dia de domingo. Outros personagens aparecem e o autor consegue criar diálogos interconexos de uma forma que o fio da meada não se perde. Como num jogo de tênis de mesa, Ionesco faz a cena mudar de foco para dois ou três lugares ao mesmo tempo dentro de um mesmo ambiente, as conversas são intercaladas em vários momentos a cada frase dita. Um leitor desatento tende a voltar algumas páginas se se perder em devaneios.

Daí em diante o que se verá é que rinocerontes começam a surgir. Num primeiro instante um rinoceronte passa correndo. De início acreditam ser apenas um, após um tempo de conversas entre alguns personagens, outro rinoceronte passa correndo para o lado oposto. Ainda não se sabe se é apenas um rinoceronte ou se dois ou se possuem um corno ou dois cornos ou se são asiáticos ou africanos. No dia seguinte o que se vê são rinocerontes no entremeio da cidade. O que acontece? Ninguém sabe.





Um leitor mais atento, e que tenha lido A metamorfose, de Franz Kafka, começará a desconfiar que exista algo de errado. Sim, sim, sim! As pessoas estão se transformando em paquidermes, ou melhor, em perissodátilos, como gosta de chamar Bérenger. Não ocorrerá apenas uma metamorfose, mas várias. Todos possuem familiares e amigos que estão se transformando. Será uma epidemia? Um vírus? Será invenção? Como acredita o personagem Botard, que diz que tudo é pura falácia da mídia. Para outros, como Jean, isso é totalmente aceitável. E porque não aceitar a evolução? Os homens e mulheres, crianças e idosos estão a se transformar em rinocerontes. Não há mais autoridades, ficando por fim apenas Bérenger, Daisy e Dudard.

Ao final da peça os três encontram-se no quarto de Bérenger, que já começa a enlouquecer, pois não consegue aceitar que os homens estejam se transformando. Os três não querem aceitar a tal evolução, que até mesmo o Sr. Botard era contrário.

Começam, então, a se questionarem se tal transformação para uma possível evolução é algo consciente ou se é algo realizado de forma conduzida. Durante esse questionamento, Dudard que não se sente mais à vontade na presença dos dois, começa a ficar fora de si e desce as escadas do prédio de Bérenger indo de encontro aos rinocerontes. A colega de trabalho de Bérenger, Daisy, quando solicitada por Bérenger para fazer Dudard ficar, diz:

Daisy
                Gostaria muito que ele ficasse... No entanto, cada um é livre. (p.282)

A crítica diz que a obra de Ionesco contém uma crítica aos estados totalitários, quaisquer que sejam, e que naquele momento ele falava do Nazismo. Outros comentam que a obra possui um conteúdo crítico às grandes massas que se tornavam alienadas perante a modernização do mundo. Que seriam conduzidos de forma alienadora perante a forma com que o capital mudava as relações entre os homens. Ser livre, no entanto, talvez não fosse para cada um. A liberdade de escolha, em se metamorfosear em rinoceronte, talvez não venha a ser algo consciente, e sim, dirão alguns, conduzida. Mas o homem, dirá Bérenger:

Bérenger
A Dudard
                O homem é superior ao rinoceronte! (p.283)

O homem é superior a essa tal escolha. Bérenger se encontra ao final da peça sozinho em seu quarto, entrando em pânico. Daisy também fora junto com a massa. Achou-a bonita e acreditou que eles é que possuíam a razão. Sozinho, contra os belos rinocerontes, Bérenger chega ao estado de sua própria razão. Do homem que realmente teve escolha e que por mais que confuso estivesse em alguns momentos, soube firmar seus pés em sua consciência. Como o último homem, como o resistente, Bérenger grita para a massa de rinocerontes o que ele acha certo fazer:

 Bérenger
                Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina! Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo! (p.319)

Sem se render Bérenger encontra-se isolado do resto do mundo, sem chance talvez de sobrevivência, resolve não se transformar em mais um, em não se alienar, em não se deixar conduzir. O último homem deve permanecer rígido, sem rendição.

O livro, O rinoceronte, é algo absurdamente sem sentido, para alguns, e com uma demonstração ampla de sentidos para outros. A interpretação é válida em vários tempos de nossa sociedadeA significação de sua obra, acreditamos, não perdeu força e pode ser trazida aos nossos dias. Vários olhares podem ser revelados a partir de uma nova “desconexão” do homem com a vida e com seu tempo.

Não creio que o livro de Ionesco seja algo absurdo, é o primeiro livro que leio dele, talvez os outros possam me explicar um pouco mais sobre tal adjetivo, mas acredito que o teatro de Ionesco não está para ser classificado como absurdo, no sentido literal da palavra, pois tudo que ele retrata em O rinoceronte é totalmente aplicável. A sua linguagem, dirão alguns, é desconexa, quando acredito que não. De forma simples e bem pensada, Ionesco revê a vida sobre o palco de maneira diferente de outros de seu tempo, daí ter chamado atenção de outros importantes de sua época.

A impressão que fica é que um autor como Ionesco vale muito a pena ser lido e que fundamentalmente tem que ser mais estudado, pois pouco se encontra sobre ele. O que pude encontrar na internet foram alguns textos falando sobre sua vida, e algumas poucas apreciações sobre sua obra, muitas repetições sem um aprofundamento do conteúdo. Leiamos, então, Ionesco e conversemos mais sobre esse homem insólito.


* Uma boa tradução, porém a partir do segundo ato erros de pontuação ocorrem. Colocam-se vírgulas e pontos onde não existem, mas nada que impeça o entendimento da obra.

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