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25 de novembro de 2013
Amálgama, de Rubem Fonseca

Amálgama, de Rubem Fonseca

Em obra inédita, autor reúne 34 textos que são o mais do mesmo da sua literatura. 
Sorte nossa.

A obra que eu mais esperava esse ano chegou. Confesso, sem autoindulgência, que estava ansioso por esse livro desde que soube que 2013 traria nova obra de um dos meus autores favoritos.

Amálgama (Nova Fronteira, 160 páginas), mais recente livro de Rubem Fonseca, traz as velhas e boas características do autor: a profunda análise do caráter humano, a multiplicidade de nuances e vertentes que temos, a certeza de que, no fundo, nossa raça é execrável, e que poucas coisas, talvez nenhuma, nos salve de nós mesmos. A dura constatação de que estamos no limite de nós mesmos, apesar da capacidade que tínhamos (temos?) de sermos melhores (algo semelhante ao que faz Philip Roth).

Em seu novo livro, Rubem Fonseca narra, dentre tantas outras, a história de um pai que planeja matar o próprio filho por amor; uma mãe que pretende vender o filho que sua filha espera, assim que ele nascer, mas acaba tendo que desistir da empreitada; um entregador que se utiliza de sua bicicleta de entregas para punir as pessoas que ele considera ruins (lembrando muito, embora em matizes mais simplificadas, o conto O Cobrador); um homem que, tendo concluído que não deve satisfação de sua vida a ninguém, resolve dar uma banana pra o que quer que as pessoas venham a pensar sobre ele; a história de um rapaz intrigado ao observar, de longe, que há um homem no parque que mata gatos afogados e decide fazer algo a respeito; a história de um assassino de aluguel que ainda tem algum escrúpulo.

E há também uma novidade: Rubem Fonseca, que diz que quase não lê ficção e prefere ler poesia, resolveu, dessa vez, incluir também alguns poemas. Claro, todos dentro dos temas que lhe são caros, mas, ainda assim, poemas. 



Este ano, Rubem Fonseca fez 50 anos de carreira literária. É bastante tempo falando das mazelas que afligem o ser humano. Entretanto, eis aí uma fonte inesgotável: o que somos. Nos personagens de Amálgama, percebemos pessoas aparentemente comuns, mas cuja perspectiva de vida continua a ser, unicamente, apenas viver um dia após o outro. Não existe algo para além disso, porque a realidade que se impõe, a de que o real é igualmente efêmero, não produz em nós o sentimento de valorizar nada. Dignificar o Outro perdeu a razão de ser. A vida está cada vez mais banalizada, somos escombros de um prédio implodido, atesta Rubem Fonseca. E apesar de sermos muitos, viver é para poucos, posto que a maioria de nós apenas parece passar pela vida. 

Acabou-se a possibilidade de nos redimirmos. O que há é uma pletora que nos torna homens-cadáveres. E Rubem Fonseca consegue relatar cada vicissitude humana de forma magistral.

Como disse outra resenha sobre esse livro, na década de 60 e 70, a literatura de Rubem Fonseca tratava de mostrar as rachaduras no teto e nas paredes. Agora, ele se dedica a documentar as ruínas. 

E é exatamente isso. Para nossa sorte, ainda há quem nos abra os olhos. O que nos resta saber é se ainda há tempo.
  

NOTA

O texto aqui publicado faz parte de uma parceria entre o LiteraturaBr e o Blog Qual é a tua obra?


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26 de julho de 2012
A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos

A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos


A obra de Ionesco não me era conhecida, até que dias atrás um amigo indicou-me esta peça. E que peça! Dizem que ela pertence ao teatro do absurdo, mas já não seria o absurdo a vida? Assim, dizem, pensava o autor     

O livro, que se passa em uma cidade da França, inicia com alguns personagens conversando, entre eles Jean e Berénger, num dia de domingo. Outros personagens aparecem e o autor consegue criar diálogos interconexos de uma forma que o fio da meada não se perde. Como num jogo de tênis de mesa, Ionesco faz a cena mudar de foco para dois ou três lugares ao mesmo tempo dentro de um mesmo ambiente, as conversas são intercaladas em vários momentos a cada frase dita. Um leitor desatento tende a voltar algumas páginas se se perder em devaneios.

Daí em diante o que se verá é que rinocerontes começam a surgir. Num primeiro instante um rinoceronte passa correndo. De início acreditam ser apenas um, após um tempo de conversas entre alguns personagens, outro rinoceronte passa correndo para o lado oposto. Ainda não se sabe se é apenas um rinoceronte ou se dois ou se possuem um corno ou dois cornos ou se são asiáticos ou africanos. No dia seguinte o que se vê são rinocerontes no entremeio da cidade. O que acontece? Ninguém sabe.





Um leitor mais atento, e que tenha lido A metamorfose, de Franz Kafka, começará a desconfiar que exista algo de errado. Sim, sim, sim! As pessoas estão se transformando em paquidermes, ou melhor, em perissodátilos, como gosta de chamar Bérenger. Não ocorrerá apenas uma metamorfose, mas várias. Todos possuem familiares e amigos que estão se transformando. Será uma epidemia? Um vírus? Será invenção? Como acredita o personagem Botard, que diz que tudo é pura falácia da mídia. Para outros, como Jean, isso é totalmente aceitável. E porque não aceitar a evolução? Os homens e mulheres, crianças e idosos estão a se transformar em rinocerontes. Não há mais autoridades, ficando por fim apenas Bérenger, Daisy e Dudard.

Ao final da peça os três encontram-se no quarto de Bérenger, que já começa a enlouquecer, pois não consegue aceitar que os homens estejam se transformando. Os três não querem aceitar a tal evolução, que até mesmo o Sr. Botard era contrário.

Começam, então, a se questionarem se tal transformação para uma possível evolução é algo consciente ou se é algo realizado de forma conduzida. Durante esse questionamento, Dudard que não se sente mais à vontade na presença dos dois, começa a ficar fora de si e desce as escadas do prédio de Bérenger indo de encontro aos rinocerontes. A colega de trabalho de Bérenger, Daisy, quando solicitada por Bérenger para fazer Dudard ficar, diz:

Daisy
                Gostaria muito que ele ficasse... No entanto, cada um é livre. (p.282)

A crítica diz que a obra de Ionesco contém uma crítica aos estados totalitários, quaisquer que sejam, e que naquele momento ele falava do Nazismo. Outros comentam que a obra possui um conteúdo crítico às grandes massas que se tornavam alienadas perante a modernização do mundo. Que seriam conduzidos de forma alienadora perante a forma com que o capital mudava as relações entre os homens. Ser livre, no entanto, talvez não fosse para cada um. A liberdade de escolha, em se metamorfosear em rinoceronte, talvez não venha a ser algo consciente, e sim, dirão alguns, conduzida. Mas o homem, dirá Bérenger:

Bérenger
A Dudard
                O homem é superior ao rinoceronte! (p.283)

O homem é superior a essa tal escolha. Bérenger se encontra ao final da peça sozinho em seu quarto, entrando em pânico. Daisy também fora junto com a massa. Achou-a bonita e acreditou que eles é que possuíam a razão. Sozinho, contra os belos rinocerontes, Bérenger chega ao estado de sua própria razão. Do homem que realmente teve escolha e que por mais que confuso estivesse em alguns momentos, soube firmar seus pés em sua consciência. Como o último homem, como o resistente, Bérenger grita para a massa de rinocerontes o que ele acha certo fazer:

 Bérenger
                Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina! Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo! (p.319)

Sem se render Bérenger encontra-se isolado do resto do mundo, sem chance talvez de sobrevivência, resolve não se transformar em mais um, em não se alienar, em não se deixar conduzir. O último homem deve permanecer rígido, sem rendição.

O livro, O rinoceronte, é algo absurdamente sem sentido, para alguns, e com uma demonstração ampla de sentidos para outros. A interpretação é válida em vários tempos de nossa sociedadeA significação de sua obra, acreditamos, não perdeu força e pode ser trazida aos nossos dias. Vários olhares podem ser revelados a partir de uma nova “desconexão” do homem com a vida e com seu tempo.

Não creio que o livro de Ionesco seja algo absurdo, é o primeiro livro que leio dele, talvez os outros possam me explicar um pouco mais sobre tal adjetivo, mas acredito que o teatro de Ionesco não está para ser classificado como absurdo, no sentido literal da palavra, pois tudo que ele retrata em O rinoceronte é totalmente aplicável. A sua linguagem, dirão alguns, é desconexa, quando acredito que não. De forma simples e bem pensada, Ionesco revê a vida sobre o palco de maneira diferente de outros de seu tempo, daí ter chamado atenção de outros importantes de sua época.

A impressão que fica é que um autor como Ionesco vale muito a pena ser lido e que fundamentalmente tem que ser mais estudado, pois pouco se encontra sobre ele. O que pude encontrar na internet foram alguns textos falando sobre sua vida, e algumas poucas apreciações sobre sua obra, muitas repetições sem um aprofundamento do conteúdo. Leiamos, então, Ionesco e conversemos mais sobre esse homem insólito.


* Uma boa tradução, porém a partir do segundo ato erros de pontuação ocorrem. Colocam-se vírgulas e pontos onde não existem, mas nada que impeça o entendimento da obra.

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