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31 de julho de 2012

(Desordem) Em alguma parte




Com dois breves comentários críticos, de Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin, iniciei a leitura de Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar. Ao contrário do que alguns jornalistas desinformados dizem por aí, não faz tanto tempo assim que o poeta não publica um livro. Seu último livro de poesia foi escrito em 2005 e se intitula Um gato chamado gatinho.

Em alguma parte alguma me deixou leve. Apesar de existirem temas como a morte, os mortos, a imensidão e o silêncio do universo e de se conhecer como “duplo”, senti que as palavras de Gullar me puxavam para cima.

O livro é dividido em quatro partes, aparentemente as partes vão se “diluindo”, de maneira até chegar ao eterno e ao infinito das palavras, do ser, do universo. Como? Aí vocês terão que ler. Na primeira parte do livro, Gullar me fez lembrar a partir de seus dois primeiros poemas, “Fica o não dito por dito” e “Desordem”, os poemas e a maneira de escrever-imaginar de Manoel de Barros. Manoel de Barros nos leva a tentar entender a poesia, e que para entendê-la você deve não entender entendendo. Que a poesia ela se faz no momento em que se diz algo, no momento em que a palavra se cria. A dúvida de muitas pessoas ao lerem poesia se faz a partir da falta do entendimento do que Gullar diz a respeito do poeta, da poesia:

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
( o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite.
(trecho do poema Fica o dito por não dito)



Assim, Gullar brinca com as palavras fazendo travar nossas mentes com tanto disse não-disse. No poema “Desordem” irá ele nos “assegurar” quanto a palavra:

é próprio da palavra
não dizer
ou
                melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser

isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não coisa) é só
gramática
(trecho do poema Desordem)





Parece que o poeta questiona perante seu leitor o entendimento que ele possa vir a ter a partir dos significados das palavras, do dizer das coisas, do ser enquanto si. Parece que o ser (humano) enquanto não se conhece, não conhecerá o dizer das palavras, os significados das coisas, até porque o que são os significados das coisas? Daí ser “próprio da palavra/ não dizer/ ou/ melhor dizendo/ só dizer”.
               
O que podemos notar no livro de Gullar, é que mesmo quando ao tratar de temas que, talvez, não agradem a muitos leitores, como a morte, ele consegue nos trazer uma leveza na alma. Diz em seu poema “A morte” que:

a morte não tem falta de nada
não tem nada
é nada
                a paz do nada
(trecho do poema A morte)

E a partir dessa leitura fiquei tentando imaginar que a morte pode ser esse nada que tantos temem, que eu mesmo temo, e que ao mesmo tempo pode ser a melhor coisa que nos pode existir, talvez conseguindo a “paz pura”, o nada. Talvez imaginando que isso possa ocorrer fique mais fácil para admitir a morte em nosso entremeio.
               
A morte ainda aparece levemente sobre os traços dos mortos que o acompanham, as manhãs como momentos flagrados do eterno ressoam nos horários marcados por ele em seus poemas, ao cortar as unhas, ao olhar nos olhos azuis do gato. Gato esse que aparece em vários outros poemas, até mesmo como uma lembrança, que senta ao lado da poltrona, de tanta a saudade de seu dono. Outros tantos animais estão presentes em seu livro: lagarto, mosca, aranha, louva-deus, vespa, abelha fazem a orquestração da natureza no meio da amabilidade das palavras de Ferreira Gullar.



               
       
O universo, como já comentado, passa a ser mais estimado a partir da segunda parte, no qual também tratará sobre a luz, as estrelas e a existência dos astros a partir do conhecimento de uma revista de astrologia. A pintura também tem lugar na terceira parte do livro e na quarta e última parte é feita uma “invocação” pelos poemas, pela voz, pelo trejeito de Maria Rilke.

Gullar não deixou por menos o seu silêncio de mais de cinco anos e através dos seus poemas nos deixa, pelo menos a mim, mais em paz conosco. Talvez uma necessidade do poeta de transmitir, talvez não. Talvez seja essa a sensação que senti quando deitado em minha rede, lendo em voz alta para mim mesmo, ele apenas quis “dizer” como disse em seu poema “Desordem”.

O livro, que me foi presenteado, Em alguma parte alguma foi publicado em 2010 pela editora José Olympio, com uma capa simples ele se entrega discretamente nas prateleiras de livrarias conhecidas ou não. Você ainda pode assistir a entrevista de Ferreira Gullar no programa RodaViva.




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