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17 de setembro de 2012
Um alfabeto sem tempo

Um alfabeto sem tempo


Um alfabeto. Depois que nos damos conta que possuímos braços, pernas, quando ainda não temos noção do espaço, é que nos “sabemos” emitindo sons. Após as primeiras pronúncias meio distorcidas queremos unir cada letra à outra para emitir uma palavra, uma interjeição, uma sílaba que seja, para nossa alegria e para os animais de duas pernas que carregam-nos em seus braços de gigantes.
               
Valéry quis emitir através das suas letras, ou do alfabeto francês, mesmo que faltassem o K e o W por serem um pouco inconvenientes, às horas do dia. A ideia surge quando um livreiro amigo e editor resolve mostrar-lhe algumas gravuras de Louis Jou, que ao vê-las exclama: É divertido! Como é divertido!(p.131) Tais gravuras levavam as letras do alfabeto como ponto de partida. Foi então que o poeta e ensaísta francês teve a ideia de escrever o seu próprio Alfabeto. Disse ele: Tenho uma ideia: as vinte e quatro horas do dia!(p.131) Michel Jarrety é quem nos conta de que forma o Alfabeto de Paul Valéry se iniciou através das palavras de René Hilsum (o tal livreiro amigo do Paul Valéry).
               
O escritor, poeta e filósofo, mais conhecido como um representante da dita “escola simbolista”, sendo um dos mais vistos representantes simbolistas da época ao lado de Baudelaire, foi influenciado por Mallarmé e influenciou diretamente Sartre. 

Jarrety, em seu posfácio, nos conta muito bem a importância e quanto tempo Valéry demorou em “criar” o seu alfabeto. Mostrando-nos as várias nuances desse Alfabeto, o organizador do livro deixa claro que o escritor simbolista era um grande revisor de sua própria obra. Em seus Cadernos existiam várias cópias, datilografadas ou não, onde se podem encontrar sinais de revisão exaustiva. Às vezes apenas um rabisco era realizado ou era efetuada a troca de uma palavra. A obra traz poemas em prosa, escrita essa tida pelo poeta como de difícil estrutura, já que para ele a prosa não poderia suster o que a poesia possuía de mais bela. Sobre isso Jarrety afirma:

Do ponto de vista formal, com efeito, a inclinação natural do poeta, que o fez sempre desconfiar da espontaneidade da escrita – e a inferioridade da prosa está sobretudo, a seu ver, em não oferecer as restrições imediatas do verso –, levou-o a desejar que esses poemas fossem submetidos a rigorosas leis de funcionamento. (p.95)Paul Valéry
               
Daí acreditarmos que além de preocupado com a estrutura do poema, do texto, preocupava-se com o funcionamento de suas palavras. Tal funcionamento tenta demonstrar que apesar da bem colocação do pensamento, após revisões, ainda assim ficava difícil exprimir algo, fica incompreensível fazer funcionar a palavra, como fica dito pelo poeta na letra E, a qual entendermos possuir uma representação da “fraqueza da potência”:

O total de minhas palavras é mudo; a potência de exprimir, em toda a sua força, resume-se e nega-se em mim. (p.23) Paul Valéry

Tal fraqueza, em vários trechos do Alfabeto, encontrada na “mudeza” das palavras, na “ausência de expressão”, aparece na forma de enigma. Esse funcionamento, que por ora é certeza, por ora é duvidoso, nos dá margem para a interrogação sobre o autor se ele acreditava ou não na existência de uma força desconhecida:

É por isso que não se deve orar senão com palavras desconhecidas. Devolvei o enigma ao enigma, enigma por enigma. Elevai o que é mistério em vós ao que é mistério em si. Há em vós algo que é igual ao que vos ultrapassa. (p.17) - Paul Valéry

Outro elemento importante na obra é o tempo, o autor primeiramente tenta escrever suas “letras” como representações das horas do dia, em alguns momentos fica nítida a mudança das estações e a mudança das horas, mas não se pode tentar fechar o Alfabeto numa cronologia exata, também não existe um tempo cíclico. O Tempo está em aberto com várias mudanças.

O tempo nunca é, pois, idêntico, e da elevação lírica da letra B, por exemplo, ao abrandamento da angústia contida na letra O, ou da ternura nascente na letra V, sua variação, de poema em poema, busca expressar as disposições do sujeito que modulam o fraseado, as inflexões, os ritmos e as pausas, as exclamações enfim, e as apóstrofes. (p.111) - Jarrety

O que nos chamou atenção é que em algumas letras encontramos quadros em que podemos nos deixar pelas características do movimento romântico. Porém, nesses quadros, onde se lê um homem e uma mulher que estão enamorados e que por alguns momentos encontram-se longes, despertos do Sono para a realidade, que teme que fiquem um ao lado do outro, sempre possuem algo sinestésico, como a figura criada acerca da lua:


A lua é esse fragmento de gelo derretido. (p.15)
               
Esses quadros, que criam uma “sequência” de fatos, como já falamos, sem uma cronologia certa, nos fez lembrar os poemas de Cantares, de Hilda Hilst, onde o Eu deseja fundir-se ao Outro e onde a cronologia, apesar de lá existir uma consonância entre os poemas, acreditamos também não existir. Já no Alfabeto, o que encontramos é o Eu sabendo-se que não pode se fundir com o Outro, apesar de em algumas observarmos que existe uma expectativa por essa fusão, a qual cria uma angústia no Eu. A contradição existente, não só nas letras, no alfabeto valeriano, pode ser observada através da frase "emitida por um dos poemas":

O que vejo, o que penso – disputam entre o que sou. (p.41)


Assim vai se desfazendo o poema de Valéry. Entre a dúvida de saber-se Si, entre o enigma da existência do Mundo, entre o Eu e o Outro como um só ou como ânsia e angústia, temos um poeta à flor da pele.

É difícil explicarmos assim em poucas palavras todo o Alfabeto. Ele diz muito mais sobre o Corpo, sobre o Espírito, sobre o Mundo e que é tão bem explicado por Jarrety ao final do livro. Nós apreciamos a leitura como se não tivéssemos outro dia para viver. Não tínhamos conhecimento sobre esse livro do poeta francês, mas deparamo-nos com a singeleza da escrita, apesar da grande preocupação pela forma e funcionamento dela por parte do autor. Leiam-no se possível  e deixem que o leitor em si procure a sua própria virtude de Ser:

A virtude de ser Si percorre-o. Ser Si arrebata-o como uma surpresa; e às vezes uma feliz surpresa, às vezes uma infelicidade imensa. (p.13) - Paul Valéry



Livro: Alfabeto. Paul Valéry. Organizador: Michel Jarrety. Tradução: Tomaz Tadeu. Editora Autêntica - Coleção Mimo. Edição Bilíngue - 2009. 

Leia um trecho do livro AQUI
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26 de julho de 2012
A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos

A humanidade do ser rinoceronte, por Nathan Matos


A obra de Ionesco não me era conhecida, até que dias atrás um amigo indicou-me esta peça. E que peça! Dizem que ela pertence ao teatro do absurdo, mas já não seria o absurdo a vida? Assim, dizem, pensava o autor     

O livro, que se passa em uma cidade da França, inicia com alguns personagens conversando, entre eles Jean e Berénger, num dia de domingo. Outros personagens aparecem e o autor consegue criar diálogos interconexos de uma forma que o fio da meada não se perde. Como num jogo de tênis de mesa, Ionesco faz a cena mudar de foco para dois ou três lugares ao mesmo tempo dentro de um mesmo ambiente, as conversas são intercaladas em vários momentos a cada frase dita. Um leitor desatento tende a voltar algumas páginas se se perder em devaneios.

Daí em diante o que se verá é que rinocerontes começam a surgir. Num primeiro instante um rinoceronte passa correndo. De início acreditam ser apenas um, após um tempo de conversas entre alguns personagens, outro rinoceronte passa correndo para o lado oposto. Ainda não se sabe se é apenas um rinoceronte ou se dois ou se possuem um corno ou dois cornos ou se são asiáticos ou africanos. No dia seguinte o que se vê são rinocerontes no entremeio da cidade. O que acontece? Ninguém sabe.





Um leitor mais atento, e que tenha lido A metamorfose, de Franz Kafka, começará a desconfiar que exista algo de errado. Sim, sim, sim! As pessoas estão se transformando em paquidermes, ou melhor, em perissodátilos, como gosta de chamar Bérenger. Não ocorrerá apenas uma metamorfose, mas várias. Todos possuem familiares e amigos que estão se transformando. Será uma epidemia? Um vírus? Será invenção? Como acredita o personagem Botard, que diz que tudo é pura falácia da mídia. Para outros, como Jean, isso é totalmente aceitável. E porque não aceitar a evolução? Os homens e mulheres, crianças e idosos estão a se transformar em rinocerontes. Não há mais autoridades, ficando por fim apenas Bérenger, Daisy e Dudard.

Ao final da peça os três encontram-se no quarto de Bérenger, que já começa a enlouquecer, pois não consegue aceitar que os homens estejam se transformando. Os três não querem aceitar a tal evolução, que até mesmo o Sr. Botard era contrário.

Começam, então, a se questionarem se tal transformação para uma possível evolução é algo consciente ou se é algo realizado de forma conduzida. Durante esse questionamento, Dudard que não se sente mais à vontade na presença dos dois, começa a ficar fora de si e desce as escadas do prédio de Bérenger indo de encontro aos rinocerontes. A colega de trabalho de Bérenger, Daisy, quando solicitada por Bérenger para fazer Dudard ficar, diz:

Daisy
                Gostaria muito que ele ficasse... No entanto, cada um é livre. (p.282)

A crítica diz que a obra de Ionesco contém uma crítica aos estados totalitários, quaisquer que sejam, e que naquele momento ele falava do Nazismo. Outros comentam que a obra possui um conteúdo crítico às grandes massas que se tornavam alienadas perante a modernização do mundo. Que seriam conduzidos de forma alienadora perante a forma com que o capital mudava as relações entre os homens. Ser livre, no entanto, talvez não fosse para cada um. A liberdade de escolha, em se metamorfosear em rinoceronte, talvez não venha a ser algo consciente, e sim, dirão alguns, conduzida. Mas o homem, dirá Bérenger:

Bérenger
A Dudard
                O homem é superior ao rinoceronte! (p.283)

O homem é superior a essa tal escolha. Bérenger se encontra ao final da peça sozinho em seu quarto, entrando em pânico. Daisy também fora junto com a massa. Achou-a bonita e acreditou que eles é que possuíam a razão. Sozinho, contra os belos rinocerontes, Bérenger chega ao estado de sua própria razão. Do homem que realmente teve escolha e que por mais que confuso estivesse em alguns momentos, soube firmar seus pés em sua consciência. Como o último homem, como o resistente, Bérenger grita para a massa de rinocerontes o que ele acha certo fazer:

 Bérenger
                Muito bem! Pior assim! Eu me defenderei contra todo mundo! Minha carabina, minha carabina! Contra todo mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo! (p.319)

Sem se render Bérenger encontra-se isolado do resto do mundo, sem chance talvez de sobrevivência, resolve não se transformar em mais um, em não se alienar, em não se deixar conduzir. O último homem deve permanecer rígido, sem rendição.

O livro, O rinoceronte, é algo absurdamente sem sentido, para alguns, e com uma demonstração ampla de sentidos para outros. A interpretação é válida em vários tempos de nossa sociedadeA significação de sua obra, acreditamos, não perdeu força e pode ser trazida aos nossos dias. Vários olhares podem ser revelados a partir de uma nova “desconexão” do homem com a vida e com seu tempo.

Não creio que o livro de Ionesco seja algo absurdo, é o primeiro livro que leio dele, talvez os outros possam me explicar um pouco mais sobre tal adjetivo, mas acredito que o teatro de Ionesco não está para ser classificado como absurdo, no sentido literal da palavra, pois tudo que ele retrata em O rinoceronte é totalmente aplicável. A sua linguagem, dirão alguns, é desconexa, quando acredito que não. De forma simples e bem pensada, Ionesco revê a vida sobre o palco de maneira diferente de outros de seu tempo, daí ter chamado atenção de outros importantes de sua época.

A impressão que fica é que um autor como Ionesco vale muito a pena ser lido e que fundamentalmente tem que ser mais estudado, pois pouco se encontra sobre ele. O que pude encontrar na internet foram alguns textos falando sobre sua vida, e algumas poucas apreciações sobre sua obra, muitas repetições sem um aprofundamento do conteúdo. Leiamos, então, Ionesco e conversemos mais sobre esse homem insólito.


* Uma boa tradução, porém a partir do segundo ato erros de pontuação ocorrem. Colocam-se vírgulas e pontos onde não existem, mas nada que impeça o entendimento da obra.

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