Um alfabeto sem tempo
Um alfabeto. Depois que nos damos conta que possuímos braços, pernas, quando ainda não temos noção do espaço, é que nos “sabemos” emitindo sons. Após as primeiras pronúncias meio distorcidas queremos unir cada letra à outra para emitir uma palavra, uma interjeição, uma sílaba que seja, para nossa alegria e para os animais de duas pernas que carregam-nos em seus braços de gigantes.
Valéry quis emitir através das suas letras, ou do alfabeto francês, mesmo que faltassem o K e o W por serem um pouco inconvenientes, às horas do dia. A ideia surge quando um livreiro amigo e editor resolve mostrar-lhe algumas gravuras de Louis Jou, que ao vê-las exclama: É divertido! Como é divertido!(p.131) Tais gravuras levavam as letras do alfabeto como ponto de partida. Foi então que o poeta e ensaísta francês teve a ideia de escrever o seu próprio Alfabeto. Disse ele: Tenho uma ideia: as vinte e quatro horas do dia!(p.131) Michel Jarrety é quem nos conta de que forma o Alfabeto de Paul Valéry se iniciou através das palavras de René Hilsum (o tal livreiro amigo do Paul Valéry).
O escritor, poeta e filósofo, mais conhecido como um representante da dita “escola simbolista”, sendo um dos mais vistos representantes simbolistas da época ao lado de Baudelaire, foi influenciado por Mallarmé e influenciou diretamente Sartre.
Jarrety, em seu posfácio, nos conta muito bem a importância e quanto tempo Valéry demorou em “criar” o seu alfabeto. Mostrando-nos as várias nuances desse Alfabeto, o organizador do livro deixa claro que o escritor simbolista era um grande revisor de sua própria obra. Em seus Cadernos existiam várias cópias, datilografadas ou não, onde se podem encontrar sinais de revisão exaustiva. Às vezes apenas um rabisco era realizado ou era efetuada a troca de uma palavra. A obra traz poemas em prosa, escrita essa tida pelo poeta como de difícil estrutura, já que para ele a prosa não poderia suster o que a poesia possuía de mais bela. Sobre isso Jarrety afirma:
Do ponto de vista formal, com efeito, a inclinação natural do poeta, que o fez sempre desconfiar da espontaneidade da escrita – e a inferioridade da prosa está sobretudo, a seu ver, em não oferecer as restrições imediatas do verso –, levou-o a desejar que esses poemas fossem submetidos a rigorosas leis de funcionamento. (p.95)Paul Valéry
Daí acreditarmos que além de preocupado com a estrutura do poema, do texto, preocupava-se com o funcionamento de suas palavras. Tal funcionamento tenta demonstrar que apesar da bem colocação do pensamento, após revisões, ainda assim ficava difícil exprimir algo, fica incompreensível fazer funcionar a palavra, como fica dito pelo poeta na letra E, a qual entendermos possuir uma representação da “fraqueza da potência”:
O total de minhas palavras é mudo; a potência de exprimir, em toda a sua força, resume-se e nega-se em mim. (p.23) Paul Valéry
Tal fraqueza, em vários trechos do Alfabeto, encontrada na “mudeza” das palavras, na “ausência de expressão”, aparece na forma de enigma. Esse funcionamento, que por ora é certeza, por ora é duvidoso, nos dá margem para a interrogação sobre o autor se ele acreditava ou não na existência de uma força desconhecida:
É por isso que não se deve orar senão com palavras desconhecidas. Devolvei o enigma ao enigma, enigma por enigma. Elevai o que é mistério em vós ao que é mistério em si. Há em vós algo que é igual ao que vos ultrapassa. (p.17) - Paul Valéry
Outro elemento importante na obra é o tempo, o autor primeiramente tenta escrever suas “letras” como representações das horas do dia, em alguns momentos fica nítida a mudança das estações e a mudança das horas, mas não se pode tentar fechar o Alfabeto numa cronologia exata, também não existe um tempo cíclico. O Tempo está em aberto com várias mudanças.
O tempo nunca é, pois, idêntico, e da elevação lírica da letra B, por exemplo, ao abrandamento da angústia contida na letra O, ou da ternura nascente na letra V, sua variação, de poema em poema, busca expressar as disposições do sujeito que modulam o fraseado, as inflexões, os ritmos e as pausas, as exclamações enfim, e as apóstrofes. (p.111) - Jarrety
O tempo nunca é, pois, idêntico, e da elevação lírica da letra B, por exemplo, ao abrandamento da angústia contida na letra O, ou da ternura nascente na letra V, sua variação, de poema em poema, busca expressar as disposições do sujeito que modulam o fraseado, as inflexões, os ritmos e as pausas, as exclamações enfim, e as apóstrofes. (p.111) - Jarrety
O que nos chamou atenção é que em algumas letras encontramos quadros em que podemos nos deixar pelas características do movimento romântico. Porém, nesses quadros, onde se lê um homem e uma mulher que estão enamorados e que por alguns momentos encontram-se longes, despertos do Sono para a realidade, que teme que fiquem um ao lado do outro, sempre possuem algo sinestésico, como a figura criada acerca da lua:
A lua é esse fragmento de gelo derretido. (p.15)
Esses quadros, que criam uma “sequência” de fatos, como já falamos, sem uma cronologia certa, nos fez lembrar os poemas de Cantares, de Hilda Hilst, onde o Eu deseja fundir-se ao Outro e onde a cronologia, apesar de lá existir uma consonância entre os poemas, acreditamos também não existir. Já no Alfabeto, o que encontramos é o Eu sabendo-se que não pode se fundir com o Outro, apesar de em algumas observarmos que existe uma expectativa por essa fusão, a qual cria uma angústia no Eu. A contradição existente, não só nas letras, no alfabeto valeriano, pode ser observada através da frase "emitida por um dos poemas":
O que vejo, o que penso – disputam entre o que sou. (p.41)
Assim vai se desfazendo o poema de Valéry. Entre a dúvida de saber-se Si, entre o enigma da existência do Mundo, entre o Eu e o Outro como um só ou como ânsia e angústia, temos um poeta à flor da pele.
É difícil explicarmos assim em poucas palavras todo o Alfabeto. Ele diz muito mais sobre o Corpo, sobre o Espírito, sobre o Mundo e que é tão bem explicado por Jarrety ao final do livro. Nós apreciamos a leitura como se não tivéssemos outro dia para viver. Não tínhamos conhecimento sobre esse livro do poeta francês, mas deparamo-nos com a singeleza da escrita, apesar da grande preocupação pela forma e funcionamento dela por parte do autor. Leiam-no se possível e deixem que o leitor em si procure a sua própria virtude de Ser:
A virtude de ser Si percorre-o. Ser Si arrebata-o como uma surpresa; e às vezes uma feliz surpresa, às vezes uma infelicidade imensa. (p.13) - Paul Valéry
Livro: Alfabeto. Paul Valéry. Organizador: Michel Jarrety. Tradução: Tomaz Tadeu. Editora Autêntica - Coleção Mimo. Edição Bilíngue - 2009.
Leia um trecho do livro AQUI




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