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16 de dezembro de 2014
Literatura: uma salvação.

Literatura: uma salvação.




Ainda hoje, os questionamentos são os mesmos entre autores, leitores e críticos literários. Pra que serve a literatura? Ela há de engrandecer quem escreve? Ela contribui no desenvolvimento intelectual e pessoal de quem lê? Por quais motivos devemos discriminar uma obra a partir dos elementos que estão presentes em si? Nada disso possui uma resposta correta ou verdadeira. O que há de comum em tudo isso é a paixão pelas letras e pela imaginação.

Assim inicio esse texto, pois querendo falar de Sérgio Vaz, após a leitura de seu livro Literatura, pão e poesia, o primeiro que me chegou às mãos, confesso que o olhei meio enviesado. Queria saber o que que esse poeta teria de tão bom que vem chamando a atenção de editores, críticos e leitores de maneira demasiada. Falam por aí que sua poesia é marginal, por ser ela da periferia, por estar ‘despreocupada’ com uma escrita mais formal, o que contribui para um melhor ‘relacionamento’ com pessoas que não possuem, ainda, a mania de ler.

Talvez o pensamento positivo que ande sendo reverberado sobre o Vaz seja porque, além de ter escrito alguns livros que evidenciam sua preocupação com a linguagem literária, estando ela mais perto da coloquialidade, ele tem conferido à Zona Sul de São Paulo, há mais de uma década, um dos maiores saraus da ctidade, o tão conhecido Cooperifa, que faça chuva ou faça sol sempre ocorre no bar do Zé Batidão. Talvez o poeta tenha “ido longe demais” porque a sua escrita, em uma primeira leitura, pode ser considerada detentora de uma pitada de ‘autoajuda’ (apesar de não ser essa a melhor palavra para definir o que percebo em sua escrita), mas com quilos de uma poesia que é notavelmente profunda.

A verdadeira arte não embala os adormecidos. Desperta-os

Enquanto lia Literatura, pão e poesia, me perguntava por que os textos que ali se inseriam eram tão distintos entre si e, ao mesmo tempo, tão parecidos, com uma delicadeza de quem percebe os movimentos do viver das coisas que estão ao nosso alcance ou não. É fato que é isso que o poeta faz, observar mais atentamente a realidade, mas, perante essa nova poesia contemporânea, parece que muito disso anda esquecido e que estamos apenas a deleitarmo-nos num abstracionismo que não nos remete a quase nada.

O que Sérgio Vaz produz é uma literatura de acesso. E espero que essa alcunha não seja sentida de maneira negativa, uma vez que o que desejo é elevar sua poesia. Ele escreve como quem fala, contando uma história quase rimada, como se tivesse a sua frente uma plateia que clama por histórias. Tem em si o poder da oralidade, parece ter entendido muito bem o que se fazia na Antiga Grécia. Talvez isso seja reflexo, também, da sua movimentação frente às dificuldades enquanto tentava vender o seu primeiro livro, tentando chamar a atenção do público recitando textos em locais diversos para tentar viver da literatura, como já contou em inúmeras entrevistas. Talvez ele tenha consigo a importância que um poeta tem junto à comunidade, contribuindo para que ela possa se conhecer melhor, se sentir melhor mesmo com tantas agruras da realidade. O que parece, no meu ponto de vista, ter sido deixado de lado por vários novos expoentes da literatura brasileira, estamos mais “umbigóides”, menos coletivos, ao contrário de Sérgio Vaz. Muito se fala quando as câmeras estão voltadas para nós, desejamos inúmeras vezes o bem maior, e empurramos a culpa para o governo, que deveria fazer isso ou aquilo, ou afirmamos contundentemente que a leitura poderia contribuir para que a sociedade fosse mais engajada, enquanto nós não nos engajamos. Vaz não espera, ele age, pois para ele, ao contrário do que Sartre acreditava, “o inferno somos nós”. É o artista o maior responsável pela difusão da literatura ou da leitura.

O artista é a última linha da sociedade, quando ele desiste é porque não resta mais nada.

E o que resta do livro de Vaz? Resta a sinestesia dos gêneros em seu livro, pois ainda não decidi se o que li foi poesia, crônica ou contos. Além disso, as críticas que ele constrói, evidenciando a falta de leitura, a diferença social através da literatura entre as pessoas me convenceu de que, cada vez mais, sabemos menos do que somos capaz. Talvez daí surja o nome do livro de Vaz, Literatura, pão e poesia.

Conheço poeta que não lê, jornalista que não gosta de notícia, médicos sem remédio, 
professores que não estudam justamente porque acham que se formaram, 
como se sabedoria se medisse por grau ou degrau.

Sérgio Vaz tem a facilidade de conseguir se aprofundar em alguns temas e isso me deixou de sobreaviso, como ocorre nos “Contos celulares”. A amizade, presente no conto nº 1 é discorrido num diálogo tão pontual, que pode enganar pela sua ‘superficialidade’, mas que aponta para um amor quase descomunal entre dois amigos que queriam ‘apenas’ se falar. Evidenciar esses momentos, que podem ser tidos como clichês ou banais, de maneira a nos fazer mais humanos, faz de Sérgio um observador nato, não só porque vislumbra a realidade com olhos de poeta, mas por entender que em tudo, literalmente tudo, há poesia. Não existem possibilidades, só certeza.

O que sobra de Vaz? Poderia dizer que as inúmeras ‘frases de efeitos’ e ótimas histórias que acabam se tornando um ensino de vida, como se fossem um anúncio do que poderá acontecer conosco, e talvez isso afaste os mais puristas, pois podem acreditar que isso não poesia, mas uma maneira de se autoajudar. Porém, não seria a escrita uma maneira de nos salvarmos?

Por fim, em meio a tantos ‘causos’ e narrativas que desrespeitam as regras, os aforismos, se é que posso assim chamar, do poeta são como balas perdidas durante a leitura. Elas se desprendem entre as histórias de uma maneira que acabamos por nos sentir incomodados, é aquele momento em que nos mexemos de um lado para o outro, sem saber como agir ou sem saber o que pensar, pois nada mais poético do que utilizar-se do real e de nós mesmos para nos fazer sentir menos infernais e mais humanos:

Ninguém é obrigado a ajudar o próximo,
nem a ficar de braços cruzados.




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3 de novembro de 2014
Por escrito, de Elvira Vigna

Por escrito, de Elvira Vigna




No rastro dos escritores que começaram a tomar tom, cor e forma nos idos dos anos 90 até os dias de hoje, Elvira Vigna se situa numa posição sui generis. Primeiro porque é injusto dizer que ela começou a deixar de ser uma massa amorfa para existir nos anos 90, uma vez que a literatura parece sempre ter feito parte da vida da escritora, que começou a publicar na virada dos anos 70 para os 80 e não parou desde então. De lá pra cá, tem sido uma ativa escritora (inicialmente de livros infantis), ilustradora e tradutora. Mas apesar de um Jabuti por sua literatura infantil, tem sido desde que ela se consolidou como escritora de livros para adultos que seu nome vem sendo mais notado. Segundo porque, tal como sua obra, ela está e não está no meio literário. É um repleto perdido em lugares abstratos, onde a vida passa de maneira fugaz (e nem por isso menos atroz).

Por Escrito (Companhia das Letras, 312 páginas) não foge a esse amplo universo vigniano, que no fundo nada mais é do que o que existe de mais multifacetado dentro de nós mesmos, num juntar de peças que pode ou não resultar em alguma coisa. O que importa em sua obra - e sua mais recente traduz precisamente isto - parece ser o percurso, a trajetória, e o deserto que nos habita. 

["... eu precisava de um nome para o personagem principal que era uma mulher completamente idiota, muito fácil de ser machucada pelos outros".]* 

Por Escrito é narrado sem qualquer pacto com a linearidade. A autora abarca vários períodos (de transformação) da sua protagonista, com idas e vindas no tempo, mutações, mudanças, que exigem um leitor atento. Os personagens parecem se esconder de quem percorre olhos e dedos pelo livro. E o fazem através de uma linguagem que parece fazer de conta que é romance, que é relato, experimentando formas e caminhos de forma errática, mas nunca desviando o leitor da viagem para os recônditos dentro de si mesmo.

["... minhas histórias são sempre coisas que de fato aconteceram".]

Valderez, a narradora, é essa mulher de meia-idade que já viveu muitas vidas além da sua. Trabalha para uma empresa que lida com café, produtos de café, máquinas de café, e este emprego exige que ela esteja sempre de passagem pelos cantos-fugazes, pelos vazios abarrotados de aeroportos, carros com motorista que só se vai ver uma única vez e mais nunca, quartos de hotel, corredores e stands de eventos chatérrimos. E mais lá pra frente ela perde este bendito emprego. Até aí, sem grandes precipitações, porque 

["Nunca pude assumir tamanha fragilidade, essa facilidade com que as vezes me machuco".]


o "por escrito" que justifica o título na verdade é a forma que a narradora tem de tentar se entender. Ou não enlouquecer. Ela gosta de anotar as coisas, e resolve fazer este relato contemplativo para o amante, com quem tem uma relação de muito amor e algum desprezo. Ou de muito desprezo e algum amor, quem decide é o leitor.

["No papelzinho em que tomo nota do que se passa nessa manhã está escrito que não há pinheirinhos na Paulista em primeiros de janeiro. Também não há pinheirinhos nos outros dias do ano. Então, o que tomo nota no papelzinho é na verdade uma ausência de uma ausência. A condição de sem-pinheiro  não seria notada, não é para ser notada, já que essa ausência de pinheiros é a presença estabelecida, esperada, no cenário em questão. Mas sei por que tomo nota das ausências, eu sei. É isso, isso aqui que escrevo. É isso, isso aqui que escrevo. É uma questão do que está na nossa frente e nem notamos, o que está ausente mas presente. Qual dos ontens será o amanhã."]

Ao longo do romance, e ao unir as pontas soltas que a narradora vai deixando, podemos compreender essa imensidão dentro do não-lugar, que chega a ser quase um portal para quem está diante da hesitação, dos equívocos, do ir-ou-não-ir, do fazer-ou-não-fazer, dentre tantas outras efemérides que compõem a vida e o viver. E além disso, ou ainda dentro disso, temos também o que pode ou não ter sido um crime.  

["O Deserto Vermelho, de 1964, é um clássico do neo-realismo italiano. (...) Nele assim como no meu livro, as personagens aparecem ou desaparecem, sem que se veja exatamente quando, apesar de todos os detalhes estarem lá. (...) Em O Deserto Vermelho, como no meu livro, as pessoas estão sempre em lugares que não são os delas: de passagem, por acaso, ou simplesmente perdidas".]

Segundo a própria autora [Por Escrito] "é esse incômodo de você às vezes perceber que está vivendo algo que não está lá. Que a tua vida pode não ser o que você acha que é.".

["Tive na minha vida essas viagens que nunca acabavam nem começavam, de e para lugar nenhum, e onde eu passava a maior parte do tempo sem fazer nada, andando nas ruas, sentada em cadeiras pré-moldadas, deitada em colchas de hotéis baratos, olhando o negro das janelas de metrôs, o branco das janelas dos aviões, falando frases que não eram minhas. Desse período, tão longo, ficaram uns poucos dias. Uns porque nunca acabaram, outros porque nunca existiram, o anterior se debruçando sobre o novo que não conseguiu se instalar."]


["Tem uma coisa que aprendi trepando, porque fico bem mesmo trepando, ou seja, abrindo mão de qualquer defesa, qualquer controle, me permitindo uma integração completa com o que (quem) está perto de mim. E o que aprendi é o seguinte. Que é assim que se goza. E isso vale também para os que acham que estão no controle. Porque justamente não estão. São só mais frágeis. (...) O homem (no meu caso é homem porque trepo com homem) precisa inventar que tem o controle, o poder, que está lá dono da situação e que pode fazer o que quiser. É ele o mais frágil. É ele quem precisa de mais garantias, todas fictícias, para poder relazar e gozar. Se você fantasia o poder e o controle, você é muito, muito mais frágil. E isso serve mesmo quando não se está trepando."]

Elvira Vigna se entrega sem pedir permissão. Sem condescendência. E é por isso mesmo que seu Por Escrito invade, adentra sem antes bater. E é por isso que merece ser lido.

* Os trechos entre colchetes foram retirados do vídeo de apresentação do livro na página oficial da escritora, do texto de apresentação do romance escrito pela autora e de trechos do próprio livro.


SORTEIO

O LiteraturaBr dessa vez irá sortear o livro “Por escrito”, de Elvira Vigna, que foi editado pela Companhia das Letras. Pra participar é muito fácil, presta atenção pra saber como concorrer. 

Antes, alguns lembretes: a promoção é válida apenas para fan-amigos da fan page do LiteraturaBr e que têm residência no Brasil. A responsabilidade pelo envio do livro é nossa! O sorteio será realizado lá pelas 17h00m do dia 09 de novembro de 2014. O ganhador deverá entrar em contato com a fan page do LiteraturaBr para oficializar os trâmites para a entrega. 

Agora, sim, ao regulamento:
1. Curtir a fan page do LiteraturaBr<
http://www.facebook.com/literaturabr>; 
2. Marcar dois amigos nos comentários e compartilhar o sorteio;
3. Acessar a aba “Promoções” e clicar em “Quero Participar”;
<https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/400425>
4. Compartilhar a imagem do banner da promoção (só é válido o compartilhamento a partir da imagem da nossa fan page; o compartilhamento também deve ser público).
Este sorteio também pode ser lido aqui: 
https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/400425


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29 de outubro de 2014
Artesão das Palavras: uma conversa entre amigos

Artesão das Palavras: uma conversa entre amigos


por Jana Lauxen

O escritor, tal e qual um artesão, que modela o barro bruto até que se transforme em um bonito vaso, trabalha sob o mesmo princípio: vai municiando-se de um grande conjunto de palavras soltas e moldando-as, até que se transformem em um texto bem-acabado e interessante.
Esta certamente foi a premissa da qual partiu Luiz Valério de Paula Trindade (www.luizvalerio.com.br), autor da obra Artesão das Palavras. Em seu livro de estreia, o escritor paulista reuniu trinta e três crônicas e duas poesias, versando sobre os mais variados temas: do arrependimento ao amor, da felicidade ao envelhecimento, da maternidade ao romantismo. Poucos assuntos ficaram fora da transformação que Luiz promoveu, convertendo palavras soltas e vagas em textos intensos e relevantes.
Os pontos levantados na obra são universais; impossível ao leitor não se identificar com a maneira leve e direta do autor em expor seus pensamentos e ideias. Através de uma simplicidade ímpar, Luiz Valério conseguiu tornar seu livro uma espécie de válvula de escape literária, permitindo que seus leitores, em meio ao caos do dia a dia, parem para respirar e refletir sobre assuntos que são comuns a todos nós – e que geralmente ignoramos, ocupados que estamos em correr sem parar.
As análises e ponderações contidas na obra são agradáveis e sensatas, mesmo abordando temas muitas vezes controversos. Para escrever, Luiz Valério inspirou-se na natureza humana e suas muitas nuanças – que, apesar de serem individuais e intransferíveis, são sempre similares em sua essência. Até por que, no fim somos todos iguais, e sofremos das mesmas angústias, e exaltamos as mesmas alegrias, e trazemos nossas personalidades repletas de labirintos e becos sem saída.
Luiz Valério se propôs, com sucesso, a percorrer estes labirintos e becos, e ali encontrou farto e vasto material humano e social para refletir através de suas crônicas.
Seus textos parecem dialogar com o leitor de maneira amigável e sincera. E embora deixe claro seu posicionamento sobre determinados assuntos, Luiz Valério não se impõe, e mantém aberto um espaço para contestações e divagações, que somente vem a acrescentar e enriquecer o debate. Como em uma conversa entre amigos.
Logo, é impossível não se deixar envolver pela escrita precisa e esmerada de Luiz, que não poupou esforços para tornar seu texto atraente, reflexivo e repleto de informações. Tanto que, ao terminar sua leitura, bate aquela tristeza estranha, que apenas alguns livros são capazes de provocar.
Luiz Valério inspirou-se na vida que vê e percebe para escrever as crônicas que integram o livro Artesão das Palavras. Mas não só em sua vida e em suas percepções particulares, mas na vida que vê e sente em sua volta, e que percebe e apreende das pessoas ao seu redor.
Há, ainda, um detalhe aparentemente sutil, mas que, em minha opinião, confere ao livro um charme estilístico e elegante: ao longo da obra, foram incorporadas imagens coloridas que, de certa forma, casam com os temas abordados, acrescentando aos textos de forma certeira e incisiva.
Por estas razões, é praticamente impossível não se identificar com uma ou com todas as crônicas presentes na obra. E é por isso que o livro Artesão das Palavras é leitura recomendada para todos que, mais do que simplesmente viver, querem tirar da vida reflexões e análises capazes de tornar seus dias mais leves, mais lógicos e mais felizes.
Como um artesão de sua própria existência.




Jana Lauxen tem 29 anos e é escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (2009) e O Túmulo do Ladrão (2013).
Página na internet: www.janalauxen.com   

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15 de outubro de 2014
Os contos de Anderson Henrique - pequena nota

Os contos de Anderson Henrique - pequena nota



Anelisa sangrava flores é um livro de contos publicado em 2014 pela Editora Penalux. A orelha do livro e o seu prefácio anunciam ao leitor que se trata de um livro que se norteia na literatura fantástica latina. Ao ler o livro, percebi que havia de fato essa influência na obra. Mas não me pareceu ser um livro exclusivamente fantástico.

São 13 contos que abordam diversas narrativas, como por exemplo a estória de um garoto que cresceu além do normal, uma mulher que envelhecia os namorados, um pescador que ao encontrar um garoto, misteriosamente, pesca centenas de peixes. Etc.

O autor, Anderson Henrique, deixa em suas narrativas alguma mensagem ao leitor. Seja essa mensagem de caráter social ou amorosa. Os fatos fantásticos que acontecem entre os personagens as vezes são explicados ao leitor e as vezes não são explicados. Lembrando que a literatura de caráter fantástica acontece quando os fatos surreais acontecem de maneira inexplicada. Portanto, afirmar que esta obra é essencialmente fantástica, seria um equívoco.



O desenrolar de cada conto é o que prende o leitor. Pois sempre estamos nos perguntando sobre o que acontecerá na próxima página. Prender um leitor hoje é algo difícil para alguns autores, mas Anderson Henrique me prendeu por todos os 19 contos de Anelisa sangrava flores. E você, caro leitor, permita-se prender também a esse livro.

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1 de outubro de 2014
Galáxias - poemas para viagem

Galáxias - poemas para viagem


A poética de Galáxias, livro de Haroldo de Campos, antes de tudo propõe a ruptura com o verso tradicional. Quando eu falo em verso tradicional me refiro ao uso linear da escrita e o uso recorrente da métrica e da linguagem sentimental-subjetiva. Sendo assim, um leitor acostumado com a poesia clássica sentirá certa dificuldade para ler o Galáxias, mas vale lembrar que a linguagem do livro não é complexa. Um leitor de qualquer faixa etária pode, e deve, aventurar-se pelas linhas galácticas dessa obra que foi escrita durante os anos 1963 a 1976. Haroldo publicou alguns fragmentos do livro em revistas antes da publicação definitiva da obra em 1984.

O livro é todo fragmentário, sendo que cada página ocupa um poema-galáxia. Acredito que o título da obra remeta ao universo galáctico, e múltiplo, da linguagem. Pois toda a obra tem por base a linguagem. Nos deparamos portanto com um livro experimental. É inconcebivel rotular o livro como sendo apenas um livro que comporta poemas, ou, rotulá-lo como um livro de prosa-poética. A obra, devido a sua potencialidade poética esperimental, foge a todo tipo de rótulos. Caetano Veloso após a leitura do livro o chamou de proesia, devido a sua múltipla categorização de gêneros. Alias, a definição de gênero é impensável em um livro como esse.

O livro deve ser lido sem seguir um roteiro de viagem, isso é percebido ao não-numerar as páginas da obra. Como também não há separação de parágrafos nem títulos nos poemas, e não há sinais de pontuação. Estamos, portanto, diante de um livro de viagem. Inês Oseki-Deprê comenta sobre o livro intercalando a sua fala com a de Haroldo abaixo:


No momento da publicação integral de Galáxias, em 1984, Haroldo de Campos fez a seguinte apresentação: “O formante inicial de Galáxias (início/ fim) é de 1963, o terminal de 1976.” Trata- se de um “texto imaginado no limite extremo da poesia e da prosa, pulsão bioescritural em expansão galáctica entre estes dois formantes cambiáveis e cambiantes”, e tendo por ímã temático a viagem como livro ou o livro como viagem, e por isso mesmo entendido também como um “livro de ensaios, hoje retrospectivamente eu tenderia a vê-lo como uma insinuação épica que se resolveu numa epifânica.”


Eu sempre costumo dizer que é um livro que nunca se lê, sempre relemos, pois nunca chegamos no ponto final da absorção do livro. A cada leitura nova descobrimos algo que não tínhamos percebido antes. Por isso a alcunha de livro-viagem, pois sempre o leitor retorna a sua 'viagem' relendo a obra.

Em uma conferência, na Biblioteca Freudiana Brasileira, Haroldo de Campos comentou sobre o Galaxias fornecendo um roteiro de leitura:


Nesse texto ideal, as redes são múltiplas e se entrelaçam sem que nenhuma possa dominar as outras; este texto é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não tem início; é reversível; e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal; os códigos que mobiliza perfilam-se a perder de vista; eles não são dedutíveis (o sentido nesse texto nunca é submetido a um princípio de decisão e sim por um processo aleatório); os sistemas de significados podem apoderar-se desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito da linguagem


'Uma leitura infinita' é assim que muitos dizem ser o livro de Haroldo. A infinitude de seu livro, como percebemos no depoimento acima, é a linguagem. Antonio Cícero, em Poesia e filosofia, defende o poema como “a escrita centrada na linguagem, a linguagem opaca e obscura, a linguagem como grade que impede a entrada no mundo, a resistência, a incompreensibilidade, o silêncio, o desaparecimento da poesia”. É nesse desaparecimento que surge o Galáxias. Livro-mundo, livro-objeto ou livro-jogo.

Ainda sobre a questão do subtítulo isto não é um livro de viagem, o autor Antônio Sérgio Bessa contrapõe essa ideia afirmando ser SIM um livro de viagens:


As Galáxias são ricas em referências específicas aos eventos vividos por Campos em suas muitas viagens. Como as suas páginas não numeradas sugerem, a leitura de Galáxias não se destina a ser sequencial, e as referências a lugares e pessoas espalhadas por toda a série criam uma narrativa circular. A maior parte da ‘informação’ dispersa pelos cantos consiste em referências obscuras a experiências pessoais, e essas alusões e referências podem parecer irrelevantes ao leitor, como a pequena rua Budé na Île St Louis, em Paris, que é mencionada no Canto 13. Outras referências, no entanto, rememoram eventos importantes para o poeta, como “o prédio na via mameli terça-feira às 4 da tarde” no Canto 33, que evoca um encontro com Ezra Pound em Rapallo. O terceiro canto, que começa com um verso de Macbeth, de Shakespeare (“multitudinous seas incarnadine”), trata mais provavelmente de suas impressões ao atravessar o Atlântico pela primeira vez, enquanto outros cantos sugerem sua passagem por cidades europeias – Granada (Canto 2), Córdoba (Canto 5), Stuttgart (Canto 6), o País Basco (Canto 12), e assim por diante. Seu apreço pela viagem, é preciso ressaltar, não deve ser compreendido apenas como uma urgência de wanderlust, mas sim como um desejo de conhecer e aprender com os “grandes homens de seu tempo”, como Pound certa vez encorajou Hugh Kenner a fazer. Codificados nestas narrativas estão encontros com Max Bense, Eugen Gomringer, Karlheinz Stockhausen, Octavio Paz, Hélio Oiticica, Marshall McLuhan e Guimarães Rosa, entre outros.


Cada fragmento do livro nos liga a algum fio condutor da memoria do autor. O livro torna-se portanto expansivo. O mesmo autor, do trecho acima, comenta que o fragmento Circuladô de fulô, tem a sua origem nas viagens que Haroldo fez ao nordeste. E que este canto tem a sua origem em alguma canção nordestina de autor ainda não identificado. O mesmo trecho, Circuladô de fulô, foi musicado por Caetano Veloso. Encerro este debate-galáctico com o fragmento Circuladô de Fulô na íntegra:


circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pira ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoente como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circulado de fulo circulado de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aedomodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias com veremos verbenas acúcares açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desarmargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memente mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão




ARQUIVOS CONSULTADOS

OSEKI-DÉPRÉ, Inês. Leitura finita de um texto infinito: Galáxias de Haroldo de Campos.

CICERO, Antonio. Poesia e filosofia. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

BESSA, Antônio Sérgio. Rupturas de estilos em Galáxias de Haroldo de Campos

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27 de setembro de 2014
Íris, uma despedida

Íris, uma despedida



“Tudo começou de um jeito muito divertido”

É assim que a irmã mais nova de Íris começa a contar a história da doença que acabou por levar sua irmã. “Foi quando Íris acordou com os olhos vesgos” que tudo começou, que foi possível aprender um pouco mais sobre a morte e como ela pode nos proporcionar, talvez, um amadurecimento adiantado, digamos.

Íris, uma despedida, de Gudrun Mebs e Beatriz Martín Vidal, é um livro que foi feito para as crianças, mas eu não quero acreditar nisso. A maneira como Gudrun conta a história envolve o leitor com seu linguajar que facilita a compreensão de uma criança, seja ela lendo sozinha a história ou tendo seus pais para contá-la. A história de Íris, apesar de ser uma história sobre a morte, ocasionada por um câncer instalado na cabeça da irmã mais velha, é uma narrativa que consegue ter um tom de humor que não machuca, mas ajuda a entender os caminhos que uma criança faz, perante a sua inocência, para compreender de que maneira alguma coisa pode levar-nos desse mundo.

A gente tem mesmo de tudo na cabeça. A mamãe sempre brincava comigo: “Você só tem asneira na cabeça!”. Mas eu vivo bem assim. O papai explicou que um tumor é outra coisa, uma coisa muito ruim, e que as pessoas morrem disso.

A irmã de Íris, a qual não ficamos a saber o nome, durante o início da doença da irmã, fica acompanhada da senhora Miller, que faz bolos muito gostosos e que sempre a diverte. Porém, com o avançar da doença e com a presença constante de seus pais no hospital para ajudar a cuidar de Íris, é necessário que a avó surja como uma pessoa que pode dar um aparato sentimental à criança.

Hoje a vovó também veio. Ela mora numa cidade chamada Dresden. Agora a vovó tem que cuidar de mim, porque a senhora Miller nem sempre tem tempo. Eu acho que posso me cuidar sozinha, mas o papai diz que prefere assim, e a vovó é mesmo um amor.

Aos poucos, a inocência, óbvio, da criança, que ainda está entendendo como o mundo funciona, a faz acreditar que Íris logo estará de volta em casa, pois não sabe o que é um câncer. Tudo a leva a crer que retirar o câncer de Íris é algo tremendamente fácil e sem dor:

Eles abrem a cabeça da Íris e puxam o tumor pra fora. Isso é moleza! Então ele vai embora.

A gente tem um câncer na câncer na cabeça e fica doente, então operam e tiram todo o câncer e a gente fica bem de saúde de novo. É simples. Ou não é?

Após essas dúvidas, tenta recorrer ao dicionário, que esconde sob o travesseiro, para depois questionar o pai o que seria algumas palavras que explicam a doença, mas que ela não é capaz de compreender. Mas o real fará a sua parte, chocando a criança, que é apenas um ano e dois meses mais nova que a irmã hospitalizada, deixando-a sem palavras, quando vê Íris diferente, sem cabelos, em uma roupa verde e com um furo na cabeça:




A Íris estava tão diferente. Tão estranha. Então ela olhou pra mim e sorriu, e também foi estranho o jeito como ela sorriu assim de cabeça careca. Eu não conseguia falar e só ficava olhando pra ela. Então o papai me colocou no colo e fez um carinho na Íris e disse: “Como se sente hoje, meu anjo?”, e a Íris disse: “Bem”, e eu falei de repente: “Mas e o cabelo?”.

Talvez algum leitor mais esperançoso queira que o final não seja o esperado, tendo em vista que o câncer, uma doença quase sem cura, sem possibilidades de fazer que as pessoas continuem estabilizadas, avança terminalmente. Esse avanço também pode ser percebido com as ilustrações que preenchem o livro com os traços de Beatriz Vidal, que soube de maneira, falta-me o adjetivo, compreender a obra e plasmá-la em desenhos. O avanço do câncer é representado como se flores, galhos e folhas nascessem na cabeça de Íris lindamente e que, com o decorrer do avanço da doença, vão murchando, secando, assim como a vida da menina mais velha.

Como afirmei no início do texto eu não quero acreditar que esse livro foi feito para crianças, pois é impossível não trazer a representação do que a obra intenta para o nosso cotidiano. Fazia certo tempo que algo não me arrebatava com tanta força. Talvez pela candura da irmã mais nova e sua inocência em contraposição à crueldade da doença, que muitos de nós conhecemos, talvez pela morte iminente de uma das personagens, que como um anúncio premeditado nos abala desde o início do livro, como se estivéssemos em um carro a trezentos quilômetros por hora em uma rua sem saída.

A vovó não tinha percebido que eu já estava acordada, e ela só olhava na direção da janela, mas parecia que ela não estava vendo nada. Eu achei esquisito e falei: “Bom dia, vovó!”. Então ela se virou para mim e disse: “A Íris morreu nesta noite”. Ela começou a chorar e saiu do quarto. Eu fiquei deitada e senti muito frio. Eu não tinha entendido bem.

E quando releio esta passagem, ainda sinto arrepios.


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24 de setembro de 2014
O núcleo poético de Madjer de Souza

O núcleo poético de Madjer de Souza


A primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é um dos editores da editora. O título do volume me deixou bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas? Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o jogo-poético que começa logo pelo título.

Em toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:

[estrema]

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca da
alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

Notei, nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora da faca. Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer, assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.

Madjer usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.

A meu ver, O núcleo selvagem do dia, é um achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor. Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e potentes.

(OBS: Entrevista com Madjer:


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17 de setembro de 2014
Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales

Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales



Joe Sales, natural do Mato-grosso, estreou na literatura com a publicação do livro Porta estreita, editado pela Penalux (2014), sua poética é estreitada por temáticas que são cotianas, mas que se alargam a medida que o poeta as aprisiona em seu livro de estreia.

O poema Caminho nos apresenta a poesia saindo de mansinho:

Lá onde estão as borboletas
E a voz não encontra atalho
Lá, mesmo sem confirmação, está
A estrada que pede para o espírito se afastar
Da carne.

A partir da fuga de si mesmo, é que os poemas são construídos. A matéria-prima da poética do livro de estreia de Joe Sales é sempre a desprisão do ser. A fuga feita pelo eu-lírico é sempre pela porta estreita da poesia. São poemas concebidos a partir de uma sensibilidade que poucos possuem, logo, para assimilar os poemas de Porta estreita é preciso estar receptível à sensibilidade poética. A maioria dos poemas são curtos, demonstrando assim a fuga estreita, escapando aos poucos do poeta.

O poema Da passagem das horas é um exemplo dessa poética que busca a fuga:

O tempo a pele fere
O tempo a pele tece
E quando não silêncios
Ganham vozes dadas a tocaias
Tocaias são feitas de liberdade.

A liberdade de Joe Sales, em todo o livro, se apresenta por não se prender a regra alguma sobre versificação ou se aprisionar a algum movimento literário. O poeta compreende que é necessário deixar se esvaziar de todo e qualquer movimento aprisionável, o que é bastante visível até mesmo nas temáticas tocadas no livro. Joe escreve sobre o que é desaprisionável, ou, sobre o que é preciso estar livre. A liberdade ao amor também é tocada em poemas como Da não explicação do amor:

Além da necessidade
Ele vinha porque de alguma maneira
Sentia-se à vontade
Talvez a forma como eu acolhesse os seus sonhos
Ou do jeito que amava sem pedir reciprocidade
Ele voltava e fazia canção no meu peito...

No poema Lirismo o eu-lirico confessa a necessidade de deixar fugir pela porta estreita o que ele estava sentido:

Nem mesmo a noite sangrando consegue me curar:
nem mesmo.
Aquém do meu avesso - possível - eu empobreço
o compasso do sentimento que diz: há pássaros
que nascem sem dom de voar...
Estivera calado no passado. Lá onde as flores
começam vozes.
Vozes que iam me justificar no futuro de minha
solidão.
Tudo é deprimente, até mesmo o sangue da noite.

Tenho que comentar o Poema que narra o meu possível fim, que na minha opinião de leitor é um dos melhores poemas do livro:

Um dia qualquer para morrer
sem expectativa
sem audiências
dia em que o amor vai bater à minha porta
eu estarei estatelado no chão
frio
duro
dia bonito em que pássaros cantarão
os poucos amigos que fiz
os poucos que ao lado do meu corpo
lembrar-se-ão de meu infortúnio:
o mundo que eu quisera inventar.


O leitor ao longo de todo o Porta estreita poderá se encontrar em cada página, pois Joe Sales aprisionou em si o sentimento de cada um e deixou que ele saísse, estreitamente, pelos versos de seu livro de estreia.


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8 de setembro de 2014
Sem importância coletiva (I)

Sem importância coletiva (I)



Talvez não ter importância seja o melhor a se fazer ou o melhor a se ser. Talvez a coletividade vise isso, a falta de importância de nós mesmos. Deveríamos começar a nos acostumar a viver na Zona em que vivem os personagens de Daniela Lima, autora de Sem importância coletiva, editado pela e-galaxia. Deveríamos ser apenas um “biorôbo”, sem nos emocionar ou sem nos lembrar como é sentir o nosso próprio corpo.

Fazer perguntas sobre a Zona é não mais sentir, é começar a fazer parte de um modelo quisto pelo Governo, pois só é possível ser herói n’A cidade modelo, pois “A cidade modelo é reflexo de tudo aquilo que o governo queria que representasse o sistema”. Além dela não há nada, “Não há vida”.

Acabando de ler o ‘desconforto literato’, nome que invento agora para poder falar sobre o livro de Daniela Lima, fiquei a pensar, sem sentir o corpo, momentaneamente desligado, tentando fazer relações a outras diversas narrativas e outros diversos pensamentos que tenho comigo acabei me perdendo. E, apesar que digam que é bom se perder, não gosto de estar perdido, não gosto de não sentir por qual caminho devo enveredar.

Esse desconforto há certo tempo não me incomodava. Sem importância coletiva mexe com temas que me são caros e que acredito terem mudado minha maneira de entender o mundo, a partir de leituras de livros como 1984. Não sei o livro foi baseado em distopias, como a de Orwell ou Zamiátin, mas a verdade é que sofro ao ler livros assim.

Ainda assim, em meio a narrativa de como vive a cidade modelo, de como está instaurada a Zona e os homens, serão mesmo homens?, na cidade modelo, a escritora, ao mesmo tempo, está inserida nele como alguém que também não possui alguma importância coletiva. Assim como a repórter chegará o momento em que ela não sentirá nada e se transformará em um monstro “capaz de dar corpo ao que antes era vazio”. Porém, o vazio de antes talvez seja o preenchimento que vivemos agora, e eu não sei.

Esse texto deveria ser para tentar esclarecer essa obra, mas acredito que ainda estou tentando me descontaminar da leitura deste livro. Espero que a contaminação da escritora sem importância coletiva não tenha ainda viralizado e chegado aos leitores ou críticos de sua obra. O que sei apenas é que ler o livro de Daniela Lima é estar perdido, e sentir, ainda, a necessidade de o reler e talvez o reler e o reler, como se fôssemos o visitante que vai até a Zona e que, talvez, não possa mais ir embora. Talvez fiquemos presos à leitura de Sem importância coletiva e assim fiquemos, por alguns anos, até que sejamos enterrados vivos. Afinal, viver é simples, como a leitura de um livro.





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3 de setembro de 2014
Os haicais de Jack Kerouac

Os haicais de Jack Kerouac


Jack Kerouac certamente é mais conhecido pelas suas narrativas, em especial pelo livro On the Road – Na estrada. Os poemas do autor americano, para alguns, soam como leituras curiosas, pois o traço da escrita poética é pouco comentada pela crítica. Reunir um volume com todos os haicais escritos pelo autor mais lido da geração beat, além de preciosos, são curiosos. Ao lermos o Livro de haicais nos deparamos com o dia a dia do poeta beat, como também nos deparamos com questionamentos filosóficos e apreciações da natureza rabiscados pelo autor.

Na introdução do livro, a organizadora Regina Weinreich comenta que o próprio autor chamava seus haicais de poemas pop: “Assim como em sua obra em prosa, a poesia de Kerouac revela um padrão similar de desenvolvimento: do convencional ao experimental. Nunca um formalista, ele escreveu muitos haicais experimentais. Alguns, meramente deixava acontecerem, para retornar a eles, refinando-os enquanto seguia em frente. Como demonstram os poemas contidos em Some of the Dharma e em seus cadernos de notas, Kerouac considerava haicai uma designação vaga, um trampolim do qual podia saltar, algo que ele podia usar livremente para seus próprios fins artísticos.” Portanto, o autor não seguia de maneira rígida os conceitos clássicos do haicai, em que o poema é metrificado em versos que seguem a sequência 5-7-5 nem segue a risca a temática de descrever paisagens.

Os haicais de Kerouac, foram reunidos em alguns manuscritos de livros e em blocos de anotação. A coleção Livro de haicais editado pela L&PM contem mais de 500 poemas, o volume foi traduzido por Cláudio Willer, mas vale ressaltar que a edição é bilíngue, pode-se ler o poema no original em inglês.

Para os fãs do autor a leitura deste livro é necessária por mostrar um lado não muito conhecido de Kerouac, que é a produção poética. Mas também essa produção é leitura obrigatória para os leitores de haicais, pois o autor ao longo do livro demonstra ser um hábil haicaísta.

Dentre as extensas temáticas exploradas pelo autor no Livro de haicais, a solidão é a mais constante. Separei abaixo alguns poemas inspirados nessa temática:


***

uma flor
na ribanceira
acenando para o desfiladeiro

***

segurando meu gato
que ronrona sob a lua,
eu suspirei
***

tarde de verão -
mastigando impacientemente
a folha de jasmim

***

O filho que quer solidão
Envelopou-se
Em seu quarto


Sabemos que o haicai clássico é marcado pela fotografia poética da paisagem, ou seja, o poeta ao deleitar-se com a natureza a descreve em golpes rápidos. Essa descrição poética da natureza é marcada pela simplicidade e pela rápida descrição. Separei abaixo 10 haicais em que Kerouac nos presenteia com as suas observações:

1
A cena nacional
- sol de fim de tarde
Naquelas árvores

2
Protegida pelas nuvens
a lua
Navega e dorme

3
Todos os insetos pararam
em homenagem
À lua

4
o pássaro pousou no galho
- dançou três vezes -
E sumiu

5
a névoa à frente
das montanhas da manhã
- fim de outono

6
Delicadamente dependurada
a Folha de Outono
Quase cai do galho

7
Ao sol do deserto
no Arizona,
Um vagão amarelo de trem

8
Pássaro subitamente quieto
em seu galho – sua
Esposa o encara

9
Uma tartaruga navegando rio abaixo
solitária sobre o tronco,
Cabeça erguida

10.
o pequeno pardal
na beira da calha
Olha ao redor



Reforço que este livro merece ser lido na íntegra. Portanto paro por aqui a minha pequena antologia com os haicais de Jack Kerouac.


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