Menos vivi do que fiei palavras: o diário de Nilto Maciel
Nilto Maciel, em suas últimas
produções, estava dedicando-se com maior afinco às memórias e à crítica
literária. Um desses livros de memórias é Menos
vivi do que fiei palavras, publicado pela Editora Penalux em 2012.
Nele o autor expõe ao público o seu diário literário,
escrito de maneira irregular durante os anos de 1986 a 1992. O
leitor que esperar encontrar reflexões pessoais sobre a vida de
Nilto poderá ficar frustrado, pois nesse diário o autor cearense anota as suas
leituras, como também, indicações de leituras e comenta livros de amigos, bem como fornece um “making
off” de alguns de seus livros. No primeiro parágrafo da primeira
anotação, lemos:
De tempos em tempos, reanimo a
ideia de falar de mim mesmo, em cadernos como este. Logo mudo de
opinião. Para quê? Não tem a menor importância meu cotidiano,
seja o social, seja o pessoal. Ora, não sou estadista, chefe
político ou peça de relevância no xadrez do poder. E meus
subterrâneos estão nos livros. Estou desde ontem, no entanto, outra
vez decido a deixar de lado esses escrúpulos. Talvez isto me sirva
de argamassa para um romance biográfico. Quando não, conseguirei me
disciplinar mais, quer como escritor, quer como ser humano.
O autor, em outro trecho, comenta
que nunca leu diário de outros escritores, por isso não sabia como
fazer o seu próprio e como percebemos pelo título do livro e pela
leitura de seu diário, a vida do escritor Nilto Maciel foi voltada quase
exclusivamente à literatura. Muitas são as indicações e as marcações
de leitura indicadas no diário que acabar por deixar isso evidente. O também contista cearense foi mais uma
prova de que os bons escritores leem muito.
As anotações do escritor,
publicadas em 2012, podem servir para pesquisas acadêmicas que se
proponham a investigar sobre as influências que ele teve para escrever suas obras,
como também o diário o qual nos oferece pormenores da vida de um
escritor que não chegou a ter, ainda, o devido reconhecimento nacional. Em
vários trechos do livro, Nilto comenta as suas angústias por não
ter o devido reconhecimento, e comenta com pormenores os
“Nãos” que os editores lhe deram e o quanto isso o desanimava.
Há trechos em que o autor comenta as suas lapidações literárias,
fornecendo questões sobre reestruturação de alguns de seus contos.
Nos primeiros capítulos, percebemos o autor mais voltado a refazer
boa parte de seu primeiro livro Itinerário, de 1974. Sobre a problemática questão das editoras, lemos:
Tanta dedicação à
literatura não tem valido nada, porém. As editoras me devolvem
rotineiramente meus originais. Às vezes, até educadamente. Outras
grosseiramente, sem uma só palavra. Assim, o que resta fazer? Quem
suporta isso? Dá vontade de parar de inventar. Ou esquecer a
existência de typographias. Não sou inferior à maioria dos
escreventes editados por elas. E não é fácil permanecer inédito,
as gavetas cheias de folhas e pastas. Restaria editar por conta
própria. Ora, cadê dinheiro?
Os planos literários aparecem
bastante no diário. O trecho abaixo nos mostra uma reflexão que
Nilto anotou:
Reflexão: não sonho com
glória: tenciono apenas me dedicar à composição que mereça
admiração dos leitores, seja hoje, amanhã, daqui a dez, vinte, cem
anos. Nem almejo me tornar homem de letras profissional, de dramas
populares, se isso significar o sacrifício de passar a vida em busca
da arte duradoura, de valor. Logicamente, prefiro ter por profissão
urdir novelas medíocres a ser funcionário público, advogado ou
outra porcaria.
O autor estava determinado a
construir apenas obra literária voltada para o público, não visava
críticos, apenas ambicionava o carinho dos leitores. Para ele era
mais funcional compor obra literária que exercer uma função
pública. E foi assim a vida do escritor Nilto Maciel, que em 2002 voltou para Fortaleza e desde que se instalou na capital cearense não parou mais de fiar palavras, até o último suspiro enquanto se
preparava para vir a Sobral ministrar palestra sobre o que mais fez
em sua vida: literatura.
0 comentários:
Enviar um comentário