Mentir, jogar, sentir
por Fred Caju*
Não sei
quando comecei a utilizar minhas técnicas de imaginação para benefício próprio.
Porém, fazendo um exercício de busca interior, me deparei com o momento que
comecei a mentir predeterminadamente sem ser para me livrar de alguma possível
traquinagem.
Minha
vítima – ou melhor, minha cúmplice – nas primeiras mentiras dentro dessa nova
modalidade era minha vó materna. Acho pouco provável que ela acreditasse
em tudo que eu dizia, mas havia um secreto código de camaradagem entre a gente.
Viciada em jogo do bicho, vó me estimulava a dizer com o que sonhava. Dizia que
os sonhos traziam os melhores palpites para o jogo.
No
início comecei com a sinceridade dos ingênuos: só dizia o que sonhava ou o
pouco que lembrava, assim como omitia o mais íntimo que havia. Quando ela
acertava no bicho, ganhava algumas pratas. Fui rápido no gatilho: sem sonhos,
sem moedas. Passei a sonhar sempre com os meus bichos favoritos da jogatina.
Independente da possível recompensa, observava minha vó sempre empolgada com a
expectativa. Isso nos fazia bem.
Mais
adiante percebi que não precisava sonhar diretamente com algum animal, ela
mesma fazia associações com determinadas situações. Sonhar dentro de uma
piscina de suco de manga, de alguma maneira, a fazia apostar na vaca. Sempre fiquei
tentando bolar algo que a fizesse jogar no avestruz, mas sem dizer nada
diretamente, apenas insinuando.
Foi
assim que peguei gosto pelas mentiras. Passei a fazer ficções sem sonhar.
Estimulávamos a imaginação um do outro para acertar no bicho. As moedas já não
eram importantes para mim, elas eram apenas uma consequência do esforço que era
feito. À medida que fui crescendo e vieram outros netos, nossa relação foi
mudando.
Hoje,
está mais relacionada à cozinha, às sopas que preparo que, vez por outra, ela
vem filar. Ainda me espanta saber que uma das pessoas que estão diretamente
ligada ao meu processo criativo, não sabe nem ler. E que mais implicitamente
ainda me ensinou que os níqueis não são nem o fim nem o sim da poesia, apenas
um resultante.

Falsa falsidade
ResponderEliminarQuando o poeta mentindo um tanto
Se sente assim tirando vantagem
Vai aí pela vida a mentir enquanto
O mentir não lhe tolde a imagem.
Mentiras sérias com fundamento
Mentia o vate pra sua querida vó
Pois para mentir ele tinha talento
Construía patranhas como ele só.
Hoje, adulto, a verdade confessa
Tornou-se para sempre mentiroso
No decorrer da vida mente à beça
E de suas petas sente-se vaidoso.
Portanto nunca mais sairá dessa
Porque a mentira é jogo vicioso.