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4 de agosto de 2014
A literatura e o ato de esculpir um cavalo

A literatura e o ato de esculpir um cavalo



Como se fizesse um cavalo é o título de uma das obras de Marina Colasanti. Um título excepcional, diga-se de passagem. O nome escolhido pela autora caiu muito bem com o primeiro texto do livro. Partindo de uma resposta de Michelangelo, quando lhe perguntaram como esculpir um cavalo, ela traça um paralelo para discernir sobre o que seria sua vida sem a literatura, ou melhor, sem a leitura.

Conta-nos que sempre que conversa com algum amigo e pergunta de que maneira ele havia começado a se interessar pela leitura, ela descobre que há sempre um primeiro livro, como se fosse um marco, que estabelece o antes e o depois da vida de uma pessoa a partir de uma determinada obra. Na de Marina isso não existiu, sua mãe sempre esteve presente, desde a infância, a demarcar o território da literatura em sua casa. Ela não lembra do primeiro livro que leu, pois ela adentrou o mundo da literatura muito cedo, e ainda nem sabia como esculpir coisa alguma.

Assim, Colasanti vai destrinchando suas leituras e se desfazendo delas para que, ao final, possamos saber o que sobraria de si, o que poderia sobrar de qualquer leitor ao se desfazer dos autores que amam. O que seria de cada indivíduo fascinado pela literatura sem as histórias de seus escritores preferidos? Mudaria alguma coisa? Será que é realmente importante a arte na vida das pessoas?

Despedindo-se de Peter Pan, de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e muitos outros personagens, Marina desvenda o abismo da alma que podemos possuir sem a leitura fantasiosa a qual nos proporciona entender muito do nosso convívio social. Sai das fantasias de criança até as leituras homéricas, mostrando que não deveria ser possível viver apenas de um gênero. É como nos avisasse que não podemos perder tempo dispendendo forças em apenas um tipo de história. Como se fosse nossa responsabilidade nos inquietar:

Estou tentando esculpir um cavalo, e para isso terei que me desfazer de outro. Empurro sobre suas rodas, para fora da minha infância, o Cavalo de Troia. Nunca mais cavalos serão tão importantes por dentro quanto por fora. Terei que aprender em outra parte o poder da astúcia, e o custo da boa fé.

E quanto ao que aprendeu nos livros que criavam mundos ou que transmitiam o que acontecia na realidade, Marina expõe a fragilidade do homem frente ao mundo que nos rodeia. Pelo que observei, nas entrelinhas lê-se que quanto mais rápido começamos a ler, principalmente literatura, fica mais fácil escolher as veredas neste mundo tantas vezes insensíveis.



Ela não quer que esperemos o momento certo para ler, assim como os seus namoradinhos que esperaram e acabaram ficando de lado, não seria prudente afastar as crianças, os jovens da literatura, é necessário que leiamos. E, talvez, do jeito que vamos isso seja cada vez mais urgente:

Depois do primeiro namoradinho, houve um segundo. E lemos juntos. E um terceiro, que já não era apenas namoradinho. E lemos juntos. Houve um no meio, e não lemos juntos porque ele não gostava de ler; dizia que o faria mais tarde, quando fosse velho e tivesse tempo sobrando, e eu achei mais prudente não esperar para verificar.

Ao final do primeiro texto, Marina confessa não poder continuar na empreitada. A dificuldade de esculpir um cavalo a partir de um bloco de mármore para um iniciante é a mesma que ela sente, após anos de leituras, ao querer se desfazer de tudo que apreendeu e tem consigo. Suas leituras não podem ser abandonadas, já fazem parte de si, seu corpo já não é possuidor apenas de carne e ossos, está inserida na memória. As ideias estão presentes por causa da Literatura:

Eu poderia tirar todo o mármore, toda palavra escrita, e ainda assim não chegaria ao que a leitura fez por mim, porque aquilo que eu poderia ter sido sem a leitura nunca existiu. Chegaria, porém, àquilo que já sei: que a leitura me fez assim como sou. Interagindo com meu DNA, com as circunstâncias da vida, com os encontros e os desencontros, mas sempre presente, ajudando-me a elaborar cada gesto, cada ato.

E é a partir de encontros e desencontros que começa a ajustar o pensamento em torno do livro. Que objeto é este que move capitais e que ao mesmo tempo nos fascina pelos seus conteúdos? Por quais razões somos tão estúpidos em deixar de lado livros de autoajuda, em que conseguem, mesmo sendo desprezados, ser tão certeiros como conselheiros de vidas alheias?

Ele nos fala de uma cultura que não respeita seus velhos, que não reconhece neles a sabedoria dada pela experiência, pois relaciona sua experiência a um mundo ultrapassado, que nada mais tem para ensinar. E que, não respeitando os velhos, ignora seus conselhos e perde, com isso, preciosos guias.

Será que perdemos os nossos guias e estamos dispostos a comprar sempre aqueles livros que são apenas de nosso gosto? Não estamos aptos, mesmo com tantas leituras, a respeitas os mais diversos gêneros e saber ‘ler’ neles seus pontos positivos?

São muitas as perguntas, realmente, e que ,lendo o segundo texto de Colasanti, O livro, entre Barbie e a longa noite, fui ficando satisfeito com as possíveis respostas, não que ela se importe em nos dar, e fascinado com a sua facilidade em destrinchar pensamentos. Ela, rapidamente, chega a um dos pontos mais fundamentais de todo o sistema literário e que eu, por ser editor, me senti mais à vontade, ou não. Ela afirma, como bem sabemos, que

Uma vez estabelecido que todos os livros são um fato cultural, não temos como escapar da segunda constatação: todos eles são mercadoria. Todos estão à venda, e uma vez à venda, englobam-se naquela entidade gigantesca e amedrontadora chamada mercado.

Daí, podemos voltar à questão do olhar enviesado para gêneros de fantasia ou de autoajuda que fazem tanto sucesso nas prateleiras das grandes livrarias. Pois é fato de que livro bom, parece, é aquele que vende bem, ficando às vistas dos possíveis leitores, senão, some, como bem pontua a autora.

E essa procura exacerbada das editoras, mas dos autores também, leva a uma competitividade desleal quanto ao restante das obras, que acabam ficando condenadas às sombras dos ‘grandes’ livros. Corrida essa mantida por dois pólos altamente divergentes: de um lado os grandes grupos comerciais, que acabam englobando inúmeras editoras, que um dia tiveram a sua vez, e do outro as editoras independentes, pequeninas, que correm contra a maré, sabendo que atrás de si há uma enorme catarata querendo levá-las para o fundo do rio.

Assim, fica claro que o sistema literário acaba sendo mantido não por editores de profissão, mais por administradores profissionais, que estão a frente desses grandes conglomerados editorias e que visam uma única coisa: lucro!

Fora isso, Marina aponta um dos grandes problemas atuais do sistema literário brasileiro atual, mas que talvez também se refira ao restante do mundo: a crise da crítica, da qual tanto fala o professor e crítico Alcir Pécora. Afirma ela que

A função da crítica é estabelecer padrões de qualidade necessários para fortalecer a opinião crítica do leitor e permitir-lhe escolher com acerto mesmo entre os muitos livros não resenhados. Na busca de excelência, o crítico se vê obrigado a trabalhar com um nível de exigência superior ao da média. As se trocarmos o crítico especializado pela democrática voz dos leitores, por aquela voz que tanto mais representativa será quanto mais se aproximar do gosto comum, que estabelecerá, e com que critérios, os padrões de qualidade?

A voz a qual se refere Colasanti é a dos blogueiros-críticos que começam a ter vez no cenário atual, mas que parecem ter esquecido de como fazer uma crítica alentada, uma vez que é ela que acabar por direcionar, muitas vezes, os possíveis leitores de uma obra, e “que diz ao livreiro que livros comprar ou mais fartamente exibir”.

E ainda há muito mais na obra de Marina. Fica evidente que ela está atenta a tudo que acontece, de uma ponta a outra, neste sistema, que é, em vários pontos, falho. A autora ainda tem muito a dizer e está preparada para nos fazer pensar sobre vários pontos que ficam, quase sempre, às escuras, para os novos críticos.

Pode parecer um pouco estúpido aos que não conseguem ver nada mais do que o real, mas ler é viver, é saber olhar atentamente para o que nos rodeia e para o que nos predispomos a fazer. Deste modo, a literatura não é apenas libertação, acaba sendo comércio também, porém é cultura e isto não pode ser comercializado da maneira que os grandes administradores desejam. É necessário que saibamos educar através da leitura as nossas crianças, que saibamos exigir obras dos mais variados gêneros e que elas tenham a possibilidade de coexistir em todos os espaços. E como se respondesse, também, à pergunta que fizeram a Michelangelo, Colasanti nos diz que “Há vários meios para isso”.


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5 de julho de 2014
“Mamãezinha disse que escolhesse essa daqui”. A Difícil tarefa de escolher sabiamente livros para as crianças.

“Mamãezinha disse que escolhesse essa daqui”. A Difícil tarefa de escolher sabiamente livros para as crianças.


Biblioteca Infantil da casa da Mimi Verunschk

Quando comecei as minhas investigações em literatura infantil ( vê http://www.literaturabr.com/2014/07/a-biblioteca-das-minhas-sobrinhas-em-e.html ), um por gostar muito e me divertir bastante, dois pelo número de sobrinhas e filhos de amigas e amigos que estão aparecendo na minha vida, três pelo fato de trabalhar alguns anos com a profissão de contador de histórias e mediador de leitura, questionei-me como escolher livros para esse público, para contar histórias, por exemplo, sempre escolho por afinidade, conto aquilo que amo, mas isso ainda não é tudo, não posso apresentar só o que gosto para as minhas sobrinhas, posso?

Como toda arte, mídia, como todo o mundo, os livros feitos especificamente para as crianças estão recheados de ideologias, de ensinamentos, de conselhos, afinal, os contos de fadas surgiram primeiro com esse intuito, ninguém quer  sua filha “engolida pelo lobo mau”, por isso a história da Chapeuzinho está aí pra alertar nossas meninas e meninos. Escondido nas entrelinhas de alguns desses livros já vi, machismo, conformismo, coisas nada legais que particularmente não gosto, rondando livros, gibis e afins. 

Um dia, entrei na livraria e a primeira coisa que vi foi, “livro de desenhos para meninos” adivinha quais as coisas que tinha dentro? Nem precisa colocar o tarô. Coisas assim quero evitar para meu filho que um dia vai nascer.

Por isso, pedi ajudar para algumas amigas, questionei-as se elas foram crianças leitoras, todas responderam sim em maior ou menos grau de leitura. Questionei se elas estavam atentas ao que seus filhos estavam lendo.  Mais uma resposta positiva.

Avançando nessa minha pesquisa, sobre escolhas tive algumas respostas, como essas:

vamos muito a livrarias juntos. eles folheiam os livros e fico atenta aos interesses deles. como leio muito sobre literatura infantil, também apresento autores, personagens, dialogamos sobre , pergunto se querem conhecer tal ou tal livro. também frequentamos sebos virtuais, um achado para bons livros tanto seminovos como esgotados. um exemplo é do autor que estamos lendo agora, o britânico Roald Dahl. Chegamos a ele por conta das duas adaptações para o cinema de "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Minha filha mais velha já havia lido o livro junto com a professora de sua antiga escola e queria reler. Foi uma releitura para ela, mas para o caçula foi o primeiro contato com o autor. Na orelha do exemplar descobrimos que Dahl tem outros livros infantis e compramos mais dois títulos, "Matilda" (que teve uma ótima adaptação para o cinema por Danny de Vito) e "Charlie e oElevador de Vidro" (continuação de "A Fantástica Fábrica de Chocolate"). Eles decidiram que gostariam de conhecer um personagem novo, então estamos lendo agora "Matilda" e só partiremos para saber o que acontece com o herói Charlie Bucket e o senhor Wonka em seguida (para dar saudades do Charlie e criar suspense, segundo as crianças). Vivemos um processo similar com os livros que contam a aventura da personagem Pippi Meialonga, da sueca Astrid Lindgren, e com as autoras Ruth Rocha e Eva Furnari”

Garotada lenda na casa da Irlane Alves
Sobre a escolha dos livros, geralmente ele escolhe. Visitamos regularmente a biblioteca da escola, às vezes juntos, às vezes separados. Algumas vezes eu levo algum livro que acho ser do interesse dele, mas ele é muito ativo nas próprias escolhas e geralmente faz isso sozinho. No entanto, como eu já conheço os interesses dele, minhas sugestões são bem aceitas.”
- Irlane Alves


Entre escolher e permitir escolher, o acompanhamento dos pais e mães é de suma importância, a leitura é antes de tudo um momento de prazer e diversão, contudo, quando as crianças crescem o nível de leitura delas também podem e devem crescer, nossa participação nesse momento é fundamental, nosso conhecimento de mundo é maior, nossa leitura de mundo também. Vivemos mais, simplesmente. Por isso podemos oferecer uma boa diversidade para eles. É bom lembrar o que o Gilberto Gil disse sobre política cultura, e trazer para nos, “o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”. Os pequenos têm muita atitude, é verdade, porém, não podemos deixá-los a mercê das escolhas da mídia, dos bonequinhos da moda. TV não é educador, então não custa nada assumirmos nosso papel nesse processo educacional literario e estético dos nossos filhos, irmãos, primos e sobrinhos, e sermos ativos e atentos.

No fim das contas, escolhendo bons livros, ler junto vai ser muito mais divertido, um bom livro de literatura infantil é antes de tudo um livro de literatura, assim sendo é universal, sem idade, gêneros e nacionalidade.

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19 de fevereiro de 2014
Mentir, jogar, sentir

Mentir, jogar, sentir


por Fred Caju*


Não sei quando comecei a utilizar minhas técnicas de imaginação para benefício próprio. Porém, fazendo um exercício de busca interior, me deparei com o momento que comecei a mentir predeterminadamente sem ser para me livrar de alguma possível traquinagem.

Minha vítima – ou melhor, minha cúmplice – nas primeiras mentiras dentro dessa nova modalidade era minha vó materna. Acho pouco provável que ela acreditasse em tudo que eu dizia, mas havia um secreto código de camaradagem entre a gente. Viciada em jogo do bicho, vó me estimulava a dizer com o que sonhava. Dizia que os sonhos traziam os melhores palpites para o jogo.

No início comecei com a sinceridade dos ingênuos: só dizia o que sonhava ou o pouco que lembrava, assim como omitia o mais íntimo que havia. Quando ela acertava no bicho, ganhava algumas pratas. Fui rápido no gatilho: sem sonhos, sem moedas. Passei a sonhar sempre com os meus bichos favoritos da jogatina. Independente da possível recompensa, observava minha vó sempre empolgada com a expectativa. Isso nos fazia bem.

Mais adiante percebi que não precisava sonhar diretamente com algum animal, ela mesma fazia associações com determinadas situações. Sonhar dentro de uma piscina de suco de manga, de alguma maneira, a fazia apostar na vaca. Sempre fiquei tentando bolar algo que a fizesse jogar no avestruz, mas sem dizer nada diretamente, apenas insinuando.

Foi assim que peguei gosto pelas mentiras. Passei a fazer ficções sem sonhar. Estimulávamos a imaginação um do outro para acertar no bicho. As moedas já não eram importantes para mim, elas eram apenas uma consequência do esforço que era feito. À medida que fui crescendo e vieram outros netos, nossa relação foi mudando.

Hoje, está mais relacionada à cozinha, às sopas que preparo que, vez por outra, ela vem filar. Ainda me espanta saber que uma das pessoas que estão diretamente ligada ao meu processo criativo, não sabe nem ler. E que mais implicitamente ainda me ensinou que os níqueis não são nem o fim nem o sim da poesia, apenas um resultante.

* Fred Caju é poeta e editor do site Castanha Mecância(caju.fred@gmail.com)


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6 de fevereiro de 2014
Leituras de Pré-morte

Leituras de Pré-morte



Então foi mais ou menos assim: havia as dores. Muitas, diversas. Físicas (como se as da alma já não bastassem), mas estas eram novidade. Não se sabe ao certo quando elas começaram. Sabe-se mais ou menos quando foi o ápice. Meses e meses adiando a fatídica consulta, que levaria ao fatídico exame. Consulta feita. Exames adiados, até que seu cônjuge olha pra você e diz, E aí, aquele exame? Tudo bem, vou fazer em janeiro, você responde. Parando um pouco pra pensar melhor, você percebe que realmente já adiou o suficiente, as dores continuam, deve ter mesmo algo de errado.

E tinha. De muito, muito errado.

É preciso fazer aquelas coisinhas chatas, quimio, cirurgia, mas depois disso, vida normal. Normal por quanto tempo? Um, dois anos. Se o senhor tivesse procurado orientação antes, mas a essa altura... (Havia sido pedido ao médico que fosse sincero, e ele foi).

Então era isso: eu tinha mais um ano, um ano e pouco, levando uma vida normal. Depois disso, ia precisar ser cuidado por alguém, alguém este que poderia querer adiar minha morte até o último segundo, colocando papinha na minha boca, acabando de vez com o juízo que muito provavelmente, a essa altura, eu já não teria mais. Antes disso, claro, eu colocaria uma bala na cabeça. Mas antes da bala de prata que viria a matar o lobisomem, eu tinha um tempo pra viver. E, clichê ou não clichê, iria vivê-lo, só que do meu jeito.

Pensando que a esta altura eu já tinha conhecido o Japão, que era o único lugar que eu realmente tinha vontade de conhecer na vida, podia morrer em paz. Mas havia ainda outras viagens que eu não havia feito: a dos inúmeros livros que eu gostaria de ler antes da visita à última estação. Um ano. No máximo dois, antes da bala entrar por uma têmpora e sair pela outra ou se alojar bem no meio do cérebro, abreviando um não merecido período de sofrimento, constrangimento e humilhação – ainda que eu não tivesse consciência alguma, lá pelo fim.

Nunca fui o tipo de cara que não falta a um churrasco com amigos, adora sair pra beber, festinhas, farrinhas, nada dessas coisas que se trata no diminutivo, mas as quais se costuma pensar como superlativas. Sempre gostei do meu canto, da minha concha, saindo pouco, programas usualmente leves como uma brisa, de uma tranquilidade de mosteiro. Assim, eu já sabia como iria gastar esses seiscentos e poucos dias. Restava-me saber então: O que ler?

Fiz um cálculo rápido: se em um ano eu geralmente conseguia ler uns 40 livros em média, apesar das inúmeras horas de trabalho, dos afazeres-extra diários, agora que eu iria me concentrar em viver apenas, conseguiria ler pelo menos uns sessenta, fácil.

O caminho a seguir é que era meio difícil. Quando você não sabe quando vai morrer, mas também não há nenhuma perspectiva pra isso, considera-se que há tempo, de modo que a vida de leitor vai se pautando pelas vontades, pelo desejo – e se Freud dizia que a coisa que mais ardentemente fazemos na vida é desejar, que o que mais queremos é ter prazer – pelo menos dentro do tangível –, acabamos por respeitar essa “máxima Freudiana”, por assim dizer. 

Como sabemos, não era esse o meu caso. Aquela musiquinha da contagem regressiva já estava na minha cabeça há dias, e só um tolo não saberia que quando ela terminasse de tocar seria também o meu fim. Tempus fugit!, avisa-nos o sábio poeta romano Virgílio, lembrando a todos (sim, pra alguns se faz necessário dar esse toque) que o tempo voa. E essa, que é a verdade de tudo e de todos, parecia ser a minha mais do que a de qualquer outro ser ou coisa que visse o nascer do sol todos os dias. Muito em breve, o chão que eu pisava não mais veria os meus rastros.

Porém, enquanto isso, nada de cinza e sombras. O negócio era festejar, era me sentir no meio de um frevo em Olinda! Era hora de fazer as escolhas. Primeiro, saí perguntando a amigos queridos o que eles leriam se tivessem com os dias contados. Alguns olharam pra mim com a sobrancelha arqueada, e literalmente diziam, Que tipo de pergunta é essa? Ora, eu quero saber precisamente o que perguntei, é difícil assim responder? Eu mesmo estava vendo que era, claro que era. (Quase) ninguém pensa nisso. E quando pensam, logo lembram que têm outras coisas “mais importantes” nas quais pensar, como o que deixariam no testamento, para quem doariam seus cães, gatos ou calopsitas, se as contas estavam todas em dia, se o plano de saúde cobria os gastos. Esse pessoal que pensa saber todas a lições de como se deve viver. Outros me diziam que não era pra eu ficar pensando nisso, que pensar no fim “dava azar”, “atraía energias negativas” e que “aí é que eu iria mais cedo pro buraco”. Animadores, esses meus amigos. Mas eu não perdia a esportiva: Nem pra buraco eu vou, vou virar carvão, pó, cinzas, precisa nem pagar jazigo, e vocês jogam onde quiserem!”. Outros, ainda, com os olhos cheios d’água, se recusavam a responder. E tinham aqueles que tentavam dar dicas de livros, como se eu tivesse perguntado que livros de autoajuda eu queria ler enquanto esperava O Grande Dia, também conhecido como O Dia do Desembarque. Esqueçam, meu povo, não é nada disso!

Finalmente, alguns levaram minha pergunta a sério: a obra completa de fulano ou de sicrano (mas e os tantos outros bons autores?), os clássicos (a maioria era enorme, teria eu tempo?), os infantojuvenis que eu ainda não havia lido (pra relembrar minha infância, talvez, e esquecer que o relógio, que me fizera chegar até aqui, era também meu inimigo?), a bíblia (fábula por fábula, prefiro os irmãos Grimm, Esopo, La Fontaine, ou um bom papo com os amigos).

No fim das contas, tudo se volta para o que Freud disse antes, ao dizer que o ser humano é, em sua plenitude, o mais profundo desejo. E como exterminá-lo? Com algo que, temporariamente, possa saciá-lo. Beber na fonte do prazer é abrir a boca diante de uma fonte inesgotável. Quem diabos cansa do prazer? O prazer pede sempre mais prazer. Ter os anseios saciados jamais decretará a corrente e o cadeado na porta do Túnel dos Desejos. Au contraire. O que nos mantém vivos não é outra coisa senão a capacidade de desejarmos sempre, o que não significa que esses desejos sejam cada vez mais megalomaníacos. Posso continuar desejando as mesmas coisas (de maneira diferente, ou não). Mas o desejo não se finda em si mesmo. Que graça a vida teria se parássemos de desejar? A depressão não seria, dentre outras coisas, a morte do desejo? Querer, ter vontades, é tanto o que nos leva à selvageria como ao gozo. O oposto disso seria a morte, que cairia como uma bênção.

Sabendo do tempo que se esgotava, portanto, e querendo manter-me vivo, eu obedeceria aos meus instintos, e só. Pegaria um livro bom de um autor que eu admiro (nenhum problema em deleitar-me com o que me é familiar), ou um que eu quisesse descobrir (nunca é tarde, certo?), ou ainda um dos tempos em que viver ou morrer não era uma questão, e reencontrá-lo. Eu, afinal, não estava com pressa de encontrar todos os autores-defuntos que amo e amei noutra vida, se é que ela existe.

Meu último desejo seria, hoje e sempre, pedir por mais livros.
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25 de janeiro de 2014
“Por que não compramos livros de poetas brasileiros?”

“Por que não compramos livros de poetas brasileiros?”




Foi com essa pergunta, meio fajuta e sincera – que um amigo, dentro de uma livraria, me fez – que fiquei pensando com determinada (in)certeza. Não o respondi ainda e talvez essa crônica seja uma tentativa para tal. Uma tentativa, veja bem.

No mesmo instante em que se calou, eu pensei que isso não era verdade. Compramos poesia de brasileiros, tanto que no último ano tivemos um Leminski batendo recordes e tirando do topo da lista dos mais vendidos títulos que há quase 50 semanas estavam imbatíveis.

Porém, antes que a resposta fosse dada, entregue assim de bandeja, achando que iria me sair muito bem em respondê-lo, pensei direito e entendi que não era a esses poetas brasileiros que meu amigo se referia. Perguntava ele porque não compramos livros de poetas brasileiros, mas estava a colocar na estante o livro de uma moça que apareceu faz pouco tempo e que já foi finalista de um desses prêmios literários. Aos poucos, pude entender que a pergunta era mais complexa do que aparentava e me questiono, até agora, se realmente compramos ou não compramos livros de poetas brasileiros.

Os poetas brasileiros são lidos e comprados, mas o que meu amigo, acredito, estava a se perguntar era quanto aos novos poetas, aos que estão estreando, se não merecem a mesma atenção que os nossos grandes nomes.

Os novos autores se expõem cada vez mais nas redes sociais, muitas vezes buscando algum leitor que o possa apreciar. Tentam, a todo custo, entrar no cenário literário nacional participando de festas literárias e inventando novas “esquisitices literárias”. Ainda há as editoras independentes que apostam nesses desconhecidos e que pretendem dar folhas brancas à imaginação dos que querem um espaço nas prateleiras não só das livrarias, mas principalmente dos leitores.

Na realidade, compramos livros de poeta brasileiros, sejam eles conhecidos ou não, porém, a fatia do bolo a que cabe aos novos autores é mínima, ainda, e isso ainda vai perdurar por algum tempo, pois, apesar do brasileiro estar lendo mais (acredito nisso), a poesia ainda é algo que não satisfaz. É algo bonito, que não se entende e que, portanto, talvez, não valha a pena ser comprada e lida. Isso é o que pensa, pensou eu, a maioria dos leitores brasileiros. Mas posso estar errado, tomara que eu esteja.

Porque a poesia não é um, digamos, produto rentável, ao contrário das biografias ou romances e dos livros de autoajuda, mas sim, ela consegue ser vendida, ainda conseguimos tirar parcos exemplares das estantes, seja em sebos ou não. Quanto à pergunta do meu amigo, talvez ele queria apenas me fazer perceber que até nós, que lemos bastante poesia, costumeiramente, seja brasileira ou não, temos que nos dar mais chances de conhecer coisas novas, textos novos. Afinal, nem só de pão vive o homem.



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5 de janeiro de 2014
Uma crônica vespertina

Uma crônica vespertina


Disseram-me uma vez que se eu lesse demais eu acabaria por ficar louco. Não sei se foi minha mãe ou algum amigo-transeunte quem disse. Eu nunca liguei muito pra isso, mas mesmo assim eu acreditava que poderia ser verdade. Afinal, vários escritores e pensadores enlouqueceram. Se a leitura não foi a culpada, o pensar deve ter sido, quase com certeza afirmo isso.

Ainda hoje, depois de alguns poucos anos lendo, me pergunto por que gosto de ler e por que me enveredo neste mundo da escrita ou em tentar dissipar “conteúdo literário” de várias pessoas, que conheço ou não, pelo mundo, principalmente pela internet. E a resposta pra isso é que não sei. Talvez seja a simples falta do que fazer, como afirma a maioria das pessoas, talvez eu queira aparecer, ser conhecido, talvez eu queira fazer contatos com pessoas que são portadores de algum sucesso ou simplesmente faço isso porque me dá prazer. Vai saber.

O que importa pra mim é perceber que o tempo que gasto lendo ou escrevendo é algo que me faz bem, e talvez seja isso que incomode as pessoas. Este espaço que criei na internet, com um nome quase-feio “LiteraturaBr” surgiu há alguns anos e foi ficando, fincando-se como uma estaca ao longe demarcando o meu terreno. Depois, muito depois uma frase, no meio da noite, no meio do nada, surgiu “aqui o quixote tem vez”, e várias pessoas, amigas, pessoas perto de mim, que eu gosto e gostava, disseram que era uma frase ruim, mas eu mais uma vez teimei e coloquei como subtítulo do meu blog literário.

Hoje, pouco mais de 1 ano e meio no ar, algumas pessoas me conhecem pela “casa” que ergui, de início, sem ninguém, e aos poucos com ajuda de alguns pedreiros-literatos que perdem o seu tempo, o pouco tempo livre que possuem aqui, enviando-me textos para que possamos dissipar para quem gosta de ler e para quem tem tempo para ler. Os que não possuem tempo, uma hora ou outra, na frente da tela do computador irão se deparar com alguma frase de efeito, compartilhada por algum conhecido, e talvez isso o faça ler um parágrafo do texto publicado por nós, talvez ele leia o texto inteiro, talvez, e melhor ainda, ele consiga ler o livro que apontamos como algo que pode trazer algum benefício (quem é que sabe?) na vida dele.

É isso que buscamos, que com as contribuições que são aqui repassadas possam ter algum acolhimento, por quem quer que seja, enquanto houver um leitor vivo talvez, talvez, teremos salvação.


Nathan Matos
Criador do LiteraturaBr


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14 de maio de 2013
Pensar o livro e o mundo digital

Pensar o livro e o mundo digital


 por Pedro Fernandes de O. Neto*

Não é de hoje que venho travando uma discussão acerca de uma questão que considero um tanto quanto delicada para o estágio atual do livro a que chamo por "massificação" da obra literária. Uso o termo entre aspas porque embora este não seja o adequado para ocasião me soa como um paliativo. Tudo começou ainda numa comunidade no Orkut dedicada ao José Saramago por volta de 2009 quando um usuário entrou para postar um link para baixar livros do escritor português on-line e eu me manifestei contrário à ideia: "Baixar um livro que não encontramos de modo algum por aqui pode ser, mas as obras do Saramago, todas, acho um desrespeito para com o escritor... Se ainda fosse um "crepúsculo", um "lua nova", "lua cheia", "lua minguante", "lua quarto-crescente", tudo bem, é comercial, não vale nada mesmo..." – ironizei. No mesmo instante me responderam discordar de minha posição.

Bem, a minha posição nessas comunidades (aliás, a única que estive dando pitaco foi essa do Saramago, nas outras sou figura morta) é mesmo a de soltar rojão – provocações, para usar um termo mais leve. E como tudo que a gente escreve pode ser lido com a pior ou a melhor das intenções, disseram-me que os "crepúsculos" da vida são também fruto de um trabalho. Ao que respondi: "É sim fruto de um trabalho; não estou negando isso; só não considero labor artístico, mas labor capital, entende? É a essência meramente comercial de tais obras que está em jogo. Não que eu considere uma queima de tais livros – julgo mesmo como importantes em alguns casos à formação leitora dos sujeitos, mas quando os crucifico, como agora, estou num terreno meramente pessoal. Pode-se dizer que sou um sujeito que cospe no prato que um dia comeu; digo isso porque comecei, para ser o leitor que hoje me considero, lendo esses romances baratos cujo modelo já está pronto e carece apenas de o escritor fazer os encaixes necessários para parecer diferente daquilo que ele escreveu/publicou semana passada."

O fato é que aí a questão se tornou um verdadeiro rolo. Se antes eu havia chamado a atenção para a relação arte-capital, agora a questão acaba tomando outros rumos (de certo modo rumos implícitos na questão primeira), como o de valia da arte ou democratização dela ou ainda para uma questão bem maior, "o que é obra literária nessa leva de matéria virtual?". Foi o que dois dos orkuteiros da comunidade veio dizer: um, que o papel da internet está em justamente democratizar o acesso à arte, o outro disse que para alguns Crepúsculo é arte, para outros Saramago é chato, que é tudo questão de gosto e gosto não se discute. “Pantanoso terreno esse em que tu pisas, rapaz!” Ralhei comigo. Agora, sem me estender tanto no caso, o que eu quero reiterar com tudo isso, no meio virtual em que estamos situados, se ainda não, caminhamos para isso e com uma certa urgência de quem não sabe bem aonde ir, quero reiterar somente um fato: a nossa relação com os livros tem mudado. Basta que se diga que, desse tempo para cá, as coisas saíram do simples fato de digitalização clandestina do livro no formato em PDF para ler no computador e todo um mercado dos digitais criou forma com os e-books e a parafernália tecnológica – e-readers, i-pads, i-phones, tablets etc. Na nova plataforma em ascensão os livros caem mais que a metade do impresso e em pronunciamento recente os valores devem despencar mais ainda porque o governo estuda cortar impostos a fim de favorecer o barateamento dos tais e-books e da parafernália necessária ao seu consumo.

Essas constatações só ampliam o horizonte da discussão. Nem mesmo nos países em que esse avanço dos digitais já anda em outra escala é ainda possível destrinçar ou esclarecer um olhar mais específico para tudo isso. Tudo ainda é muito complexo. O que é fato, entretanto: estamos mudando numa escala que não conseguimos acompanhar. Toda essa mobilidade a que estamos sujeito e, mais ainda, os artefatos (de papel) que nos eram antes escudos de proteção e agora são substituídos por uma película simples (a tela do PC, dos tablets, dos i-phones, dos e-readers) que nos deixam despidos, desprotegidos, carece, tudo isso, de uma discussão mais acurada sobre. Talvez o único fato que posso ter certa segurança para dizer é que toda essa parafernália não será responsável pela extinção do impresso. Apesar de toda uma máquina capitalista que nos quer enfiar goela abaixo modos novos de se relacionar com novos artefatos, eu sou dos que consideram um futuro no qual conviverão os livros de papel e os digitais, assim como hoje convivem o CD, o vinil e os modos mais sofisticados de disseminação da música. No caso dos livros, no Brasil mesmo, já se formam as pequenas editoras – tanto para impressos como para digitais – que buscam filões esquecidos pelo grande mercado. Dos impressos, por exemplo, os editores já trabalham com edições de luxo, de curtas tiragens, com capricho nos detalhes – iguais ao século de nascimento da imprensa; dos digitais, há editores que se especiliazam nos gêneros mais quistos no meio, como o conto, a crônica, a poesia. Enfim, ao que se vê tudo se ajeita.

Agora, é indispensável pensar mais sobre os rumos da própria literatura e sobretudo dos livros nisso tudo. Se não sou ingênuo de crer num apocalipse do livro também aposto num não apocalipse da literatura. O que não sabemos é qual rumo tomarão livros e a literatura com essas novas tecnologias. Que a internet deva ser um espaço para a democratização da arte, conforme defendeu aquele orkuteiro, não tenho dúvidas, mas aí há que se discutir outro conceito, o de democratização. E nesse intervalo sobre democratizar, pensar também nos limites da propriedade autoral, agora, novamente reinventada.

E quero chegar à conclusão pondo em causa aquilo que acredito. Acredito que a difusão do livro é essa questão primeira que se formou quando o orkuteiro jogou o link para downloads de livros, há de ser feita por outros meios (principalmente) que não apenas esse da internet. Agora estou me referindo diretamente sobre os impressos. Não ponho fé e nem posso concordar com essa difusão ilegal on-line que considero como falsa democratização. Lógico que, se em toda regra há exceção, aqui também tem a sua: a não ser que o meio digital seja o único interesse do autor, como os que hoje se lançam nos e-books ou ainda naqueles que não veem problemas no uso concomitante dos dois meios.

A meu ver, o processo de democratização do livro (se nos atermos em específico à questão) não deve ser rebaixado a ideia de banalização, que é o que acontece quando o livro de papel ganha as malhas das redes ilegalmente para o download. Democratização ou acesso ao livro é algo, portanto, bem mais complexo que simplesmente jogar livros na rede e deixá-los para que um leitor os pesque. Há que se rever certos conceitos que tem a ver com a própria formação do leitor. Ou o que podemos fazer nós, considerados leitores, pelos livros; temos os nossos, lemos, mas não temos nunca a cultura de indicar as nossas leituras aos outros, tampouco a de emprestar o livro. Ainda somos egoístas a ponto de achar que o livro é propriedade fechada ao seu "dono". Segundo, o que podemos nós, leitores, fazer para exigir do Estado (e o Estado diretamente dos grandes conglomerados editoriais) políticas de incentivo à leitura? E sobretudo: esses usuários da internet, "carentes" de dinheiro para compra de livros, terão mesmo, na cultura do download, a de leitura desses downloads? (Não sei se há pesquisas do gênero – se não fica a dica).

Aqui, como num hipertexto que link puxa link, numa rede infinita de nós, que nunca se chega a uma conclusão sobre, entramos noutra rede de questões que diz respeito ao próprio uso da internet: estamos preparados para essa cultura do download ou nos reduzimos às doses de besteirol na rede? Sobre isso há dados: o Brasil é o pior país no mundo em termos de uso eficiente da internet. Outra: o download pode ser uma estratégia do que nós leitores podemos fazer para exigir não ao Estado, mas diretamente aos conglomerados editoriais outras políticas de incentivo à leitura? Vale pensar.

*Aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (2012, Appris, 280p.). Editor do Blog Literário Letras in.verso e re.verso



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