14 de maio de 2013
por Pedro Fernandes de O. Neto*
Bem,
a minha posição nessas comunidades (aliás, a única que estive dando pitaco foi
essa do Saramago, nas outras sou figura morta) é mesmo a de soltar rojão –
provocações, para usar um termo mais leve. E como tudo que a gente escreve pode
ser lido com a pior ou a melhor das intenções, disseram-me que os
"crepúsculos" da vida são também fruto de um trabalho. Ao que
respondi: "É sim fruto de um trabalho; não estou negando isso; só não
considero labor artístico, mas labor capital, entende? É a essência meramente
comercial de tais obras que está em jogo. Não que eu considere uma queima de
tais livros – julgo mesmo como importantes em alguns casos à formação leitora
dos sujeitos, mas quando os crucifico, como agora, estou num terreno meramente
pessoal. Pode-se dizer que sou um sujeito que cospe no prato que um dia comeu;
digo isso porque comecei, para ser o leitor que hoje me considero, lendo esses
romances baratos cujo modelo já está pronto e carece apenas de o escritor fazer
os encaixes necessários para parecer diferente daquilo que ele
escreveu/publicou semana passada."
O
fato é que aí a questão se tornou um verdadeiro rolo. Se antes eu havia chamado
a atenção para a relação arte-capital, agora a questão acaba tomando outros
rumos (de certo modo rumos implícitos na questão primeira), como o de valia da
arte ou democratização dela ou ainda para uma questão bem maior, "o que é
obra literária nessa leva de matéria virtual?". Foi o que dois dos
orkuteiros da comunidade veio dizer: um, que o papel da internet está em
justamente democratizar o acesso à arte, o outro disse que para alguns Crepúsculo é arte, para outros Saramago é chato,
que é tudo questão de gosto e gosto não se discute. “Pantanoso terreno esse em
que tu pisas, rapaz!” Ralhei comigo. Agora, sem me estender tanto no caso, o
que eu quero reiterar com tudo isso, no meio virtual em que estamos situados,
se ainda não, caminhamos para isso e com uma certa urgência de quem não sabe
bem aonde ir, quero reiterar somente um fato: a nossa relação com os livros tem
mudado. Basta que se diga que, desse tempo para cá, as coisas saíram do simples
fato de digitalização clandestina do livro no formato em PDF para ler no
computador e todo um mercado dos digitais criou forma com os e-books e a
parafernália tecnológica – e-readers, i-pads, i-phones, tablets etc. Na nova
plataforma em ascensão os livros caem mais que a metade do impresso e em
pronunciamento recente os valores devem despencar mais ainda porque o governo
estuda cortar impostos a fim de favorecer o barateamento dos tais e-books e da
parafernália necessária ao seu consumo.
Essas
constatações só ampliam o horizonte da discussão. Nem mesmo nos países em que
esse avanço dos digitais já anda em outra escala é ainda possível destrinçar ou
esclarecer um olhar mais específico para tudo isso. Tudo ainda é muito
complexo. O que é fato, entretanto: estamos mudando numa escala que não
conseguimos acompanhar. Toda essa mobilidade a que estamos sujeito e, mais
ainda, os artefatos (de papel) que nos eram antes escudos de proteção e agora
são substituídos por uma película simples (a tela do PC, dos tablets, dos
i-phones, dos e-readers) que nos deixam despidos, desprotegidos, carece, tudo
isso, de uma discussão mais acurada sobre. Talvez o único fato que posso ter
certa segurança para dizer é que toda essa parafernália não será responsável pela
extinção do impresso. Apesar de toda uma máquina capitalista que nos quer
enfiar goela abaixo modos novos de se relacionar com novos artefatos, eu sou
dos que consideram um futuro no qual conviverão os livros de papel e os
digitais, assim como hoje convivem o CD, o vinil e os modos mais sofisticados
de disseminação da música. No caso dos livros, no Brasil mesmo, já se formam as
pequenas editoras – tanto para impressos como para digitais – que buscam filões
esquecidos pelo grande mercado. Dos impressos, por exemplo, os editores já
trabalham com edições de luxo, de curtas tiragens, com capricho nos detalhes –
iguais ao século de nascimento da imprensa; dos digitais, há editores que se
especiliazam nos gêneros mais quistos no meio, como o conto, a crônica, a
poesia. Enfim, ao que se vê tudo se ajeita.
Agora,
é indispensável pensar mais sobre os rumos da própria literatura e sobretudo
dos livros nisso tudo. Se não sou ingênuo de crer num apocalipse do livro
também aposto num não apocalipse da literatura. O que não sabemos é qual rumo
tomarão livros e a literatura com essas novas tecnologias. Que a internet deva
ser um espaço para a democratização da arte, conforme defendeu aquele
orkuteiro, não tenho dúvidas, mas aí há que se discutir outro conceito, o de
democratização. E nesse intervalo sobre democratizar, pensar também nos limites
da propriedade autoral, agora, novamente reinventada.
E
quero chegar à conclusão pondo em causa aquilo que acredito. Acredito que a
difusão do livro é essa questão primeira que se formou quando o orkuteiro jogou
o link para downloads de livros, há de ser feita por outros meios
(principalmente) que não apenas esse da internet. Agora estou me referindo
diretamente sobre os impressos. Não ponho fé e nem posso concordar com essa
difusão ilegal on-line que considero como falsa democratização. Lógico que, se
em toda regra há exceção, aqui também tem a sua: a não ser que o meio digital
seja o único interesse do autor, como os que hoje se lançam nos e-books ou
ainda naqueles que não veem problemas no uso concomitante dos dois meios.
A
meu ver, o processo de democratização do livro (se nos atermos em específico à
questão) não deve ser rebaixado a ideia de banalização, que é o que acontece
quando o livro de papel ganha as malhas das redes ilegalmente para o download.
Democratização ou acesso ao livro é algo, portanto, bem mais complexo que
simplesmente jogar livros na rede e deixá-los para que um leitor os pesque. Há
que se rever certos conceitos que tem a ver com a própria formação do leitor. Ou
o que podemos fazer nós, considerados leitores, pelos livros; temos os nossos,
lemos, mas não temos nunca a cultura de indicar as nossas leituras aos outros,
tampouco a de emprestar o livro. Ainda somos egoístas a ponto de achar que o
livro é propriedade fechada ao seu "dono". Segundo, o que podemos
nós, leitores, fazer para exigir do Estado (e o Estado diretamente dos grandes
conglomerados editoriais) políticas de incentivo à leitura? E sobretudo: esses
usuários da internet, "carentes" de dinheiro para compra de livros,
terão mesmo, na cultura do download, a de leitura desses downloads? (Não sei se
há pesquisas do gênero – se não fica a dica).
Aqui,
como num hipertexto que link puxa link, numa rede infinita de nós, que nunca se
chega a uma conclusão sobre, entramos noutra rede de questões que diz respeito
ao próprio uso da internet: estamos preparados para essa cultura do download ou
nos reduzimos às doses de besteirol na rede? Sobre isso há dados: o Brasil é o
pior país no mundo em termos de uso eficiente da internet. Outra: o download
pode ser uma estratégia do que nós leitores podemos fazer para exigir não ao
Estado, mas diretamente aos conglomerados editoriais outras políticas de
incentivo à leitura? Vale pensar.
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